sexta-feira, 6 de maio de 2016

65 - O pior que podia acontecer

Quando um aluno nos pergunta o que é isto da crise, tentamos responder em linguagem que toda a gente entenda...

Aqui há dias, um dos meus alunos perguntou se eu lhe sabia explicar o que era isto da crise e do défice, e eu tentei responder através do exemplo das mesadas: se os teus pais te derem 50 euros por mês e tu gastares 60, isso é défice. O problema é que, como te faltam 10 euros, ficaste a devê-los para pagar no mês que vem, só que vais ter de pagar juros, e em vez dos 10 já vais ter de pagar 12. Isto quer dizer que, no mês seguinte, dos 50 euros que recebeste só podes contar com 38, certo? Agora imagina que nesse mês gastas os 38 e ainda precisas de mais 20. Vais ficar a devê-los, e vais tornar a pagar juros. Se isso acontecer umas quantas vezes, vais chegar a um ponto em que os 50 euros que os teus pais te dão já vão estar gastos antes de os receberes, e vais fazer dívidas em cima de dívidas. Resultado: estás em crise…
Estas coisas explicadas assim parecem tão óbvias que custa a crer como é que os nossos políticos (supostamente as mentes mais brilhantes do país) não conseguem gerir a nossa economia. Fala-se na “gordura” do Estado, que é muito difícil de perder (se for igual à minha, é uma tarefa dos diabos!), mas não se fala na forma como o estado engordou, ou seja, na forma como se acumularam gastos e dívidas. A este respeito, recomendo vivamente a leitura da edição de aniversário da revista Sábado, onde se explica tudo, desde os milhares de contratações de António Guterres para a Função Pública até à construção de estádios megalómanos para o Euro 2004, passando por esse cancro social chamado Rendimento Mínimo Garantido, que até os nossos jovens já perceberam não ser fiscalizado com um mínimo de eficácia. A gestão política do país nos últimos 15 anos foi tão danosa como a da CulturAngra em 2009, e por isso chegámos a este ponto vergonhoso, em que os países mais ricos da Europa (leia-se: Alemanha) nos têm presos pela parte que mais dói, e são eles que vão decidir se, quando e como nos emprestam mais uns cobres para tapar o buraco do défice, como sucede com os nossos amigos Gregos.
Outra forma de explicar a crise será a do padre da minha freguesia, que no Domingo explicou brilhantemente a crise durante o sermão: eles não nos querem emprestar dinheiro para pagarmos os juros da nossa dívida. É ridículo ou não é? Precisar de pedir dinheiro emprestado (que vai ter juros em cima) para pagar os juros das dívidas anteriores…
Voltando ao meu aluno, eu também lhe expliquei que a questão da crise e da sua resolução tinha uma parte psicológica, pois quando as pessoas estão confiantes e decidem fazer alguma coisa por si é mais fácil investir. Tentei explicar a força do pensamento positivo, dizendo-lhe que é um pouco como ir fazer um teste a pensar que se vai ter negativa: quando isso acontece, é meio caminho andado para que ela apareça; é um pouco como entrar para um jogo de futebol a jogar para não perder, pois normalmente acabamos por sair derrotados.
E chego à razão do meu título: o futebol. O pior que podia acontecer para os níveis de confiança do país era o Benfica perder o campeonato na última jornada: foi a melhor equipa em termos de qualidade de jogo ao longo do campeonato, mas teve atrás de si uma equipa de operários que, com pezinhos de lã, chega à última jornada em condições de provocar uma desilusão indescritível aos tais seis milhões de benfiquistas. Já pensaram bem nas consequências sociais que isto pode trazer ao país? É bem verdade que, se o Benfica for campeão, o défice e a crise ficam na mesma, mas a Economia não é uma ciência exacta, e sabe-se lá se isso não vai ajudar a que o estado de espírito de grande parte da Nação se altere? No estado em que as coisas estão, toda a ajuda é pouca… e o problema de Portugal é que, ao contrário do Benfica, não depende só de si para sair do buraco! Dá que pensar, não dá?

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