Quando um aluno nos pergunta o que é isto da crise, tentamos responder em linguagem que toda a gente entenda...
Aqui há dias, um dos meus alunos perguntou se eu lhe sabia explicar o que era
isto da crise e do défice, e eu tentei responder através do exemplo das mesadas:
se os teus pais te derem 50 euros por mês e tu gastares 60, isso é défice. O
problema é que, como te faltam 10 euros, ficaste a devê-los para pagar no mês
que vem, só que vais ter de pagar juros, e em vez dos 10 já vais ter de pagar 12.
Isto quer dizer que, no mês seguinte, dos 50 euros que recebeste só podes contar
com 38, certo? Agora imagina que nesse mês gastas os 38 e ainda precisas de
mais 20. Vais ficar a devê-los, e vais tornar a pagar juros. Se isso acontecer
umas quantas vezes, vais chegar a um ponto em que os 50 euros que os teus pais
te dão já vão estar gastos antes de os receberes, e vais fazer dívidas em cima de
dívidas. Resultado: estás em crise…
Estas coisas explicadas assim parecem tão óbvias que custa a crer como é que os
nossos políticos (supostamente as mentes mais brilhantes do país) não
conseguem gerir a nossa economia. Fala-se na “gordura” do Estado, que é muito
difícil de perder (se for igual à minha, é uma tarefa dos diabos!), mas não se fala
na forma como o estado engordou, ou seja, na forma como se acumularam
gastos e dívidas. A este respeito, recomendo vivamente a leitura da edição de
aniversário da revista Sábado, onde se explica tudo, desde os milhares de
contratações de António Guterres para a Função Pública até à construção de
estádios megalómanos para o Euro 2004, passando por esse cancro social
chamado Rendimento Mínimo Garantido, que até os nossos jovens já
perceberam não ser fiscalizado com um mínimo de eficácia.
A gestão política do país nos últimos 15 anos foi tão danosa como a da
CulturAngra em 2009, e por isso chegámos a este ponto vergonhoso, em que os
países mais ricos da Europa (leia-se: Alemanha) nos têm presos pela parte que
mais dói, e são eles que vão decidir se, quando e como nos emprestam mais uns
cobres para tapar o buraco do défice, como sucede com os nossos amigos
Gregos.
Outra forma de explicar a crise será a do padre da minha freguesia, que
no Domingo explicou brilhantemente a crise durante o sermão: eles não nos
querem emprestar dinheiro para pagarmos os juros da nossa dívida. É ridículo
ou não é? Precisar de pedir dinheiro emprestado (que vai ter juros em cima) para
pagar os juros das dívidas anteriores…
Voltando ao meu aluno, eu também lhe expliquei que a questão da crise e da sua
resolução tinha uma parte psicológica, pois quando as pessoas estão confiantes e
decidem fazer alguma coisa por si é mais fácil investir. Tentei explicar a força
do pensamento positivo, dizendo-lhe que é um pouco como ir fazer um teste a
pensar que se vai ter negativa: quando isso acontece, é meio caminho andado
para que ela apareça; é um pouco como entrar para um jogo de futebol a jogar
para não perder, pois normalmente acabamos por sair derrotados.
E chego à
razão do meu título: o futebol. O pior que podia acontecer para os níveis de
confiança do país era o Benfica perder o campeonato na última jornada: foi a
melhor equipa em termos de qualidade de jogo ao longo do campeonato, mas
teve atrás de si uma equipa de operários que, com pezinhos de lã, chega à última
jornada em condições de provocar uma desilusão indescritível aos tais seis
milhões de benfiquistas. Já pensaram bem nas consequências sociais que isto
pode trazer ao país?
É bem verdade que, se o Benfica for campeão, o défice e a crise ficam na
mesma, mas a Economia não é uma ciência exacta, e sabe-se lá se isso não vai
ajudar a que o estado de espírito de grande parte da Nação se altere? No estado
em que as coisas estão, toda a ajuda é pouca… e o problema de Portugal é que,
ao contrário do Benfica, não depende só de si para sair do buraco! Dá que
pensar, não dá?
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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