sexta-feira, 6 de maio de 2016

69 - O gostinho do Artur

Morreu Artur Agostinho. Está tudo dito.

Há pessoas assim, que são capazes de criar uma empatia quase automática com quem está à sua volta. Pessoas fascinantes, que transmitem energia, boa disposição e vida, pessoas que dá gosto ouvir e deixar que a sua voz nos envolva numa névoa suave de palavras bem definidas que nos entretêm, nos fazem divagar, nos fazem sonhar, nos fazem pensar. Nos tempos que correm, pessoas assim são tão raras quanto necessárias. Precisamos delas para nos acalmar, para nos fazer ver que nem tudo é assim tão negro e que há outra forma de encarar as coisas. Precisamos delas, no fundo, para nos alimentar o espírito, para nos dizer que sim, que o amor é possível, que quando menos se espera lá está ele à nossa espera e vai durar a vida inteira.
Perante pessoas assim, tudo o mais é nada, não há PEC, PAC, FMI, RSI que nos afecte, não passam de trios de letras sem sentido, bichos papões dos adultos que também servem para assustar as crianças. E nós precisamos de gente assim, precisamos de pontos de referência na nossa vida enquanto comunidade, enquanto país, gente que, sem ser política, vale mais que a política e nunca necessitou de votos para estar no topo das nossas preferências. E Portugal está, mais do que nunca, necessitado de referências.
Não conheci Artur Agostinho, e só fiquei a saber pormenores da sua vida depois da sua morte, mas gostava dele. Era uma das figuras gradas do nosso imaginário colectivo, o nosso avozinho contador de histórias que nos encarava com um sorriso no olhar que a televisão transmitia. Era, porque agora já não é. Passou para a fase seguinte da sua existência, a daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”, como cantou Camões um dia. Morreu um pouco do nosso país moderno com o avô Artur, e ficámos mais pobres e mais desorientados em busca de um farol que nos guie nesta escuridão.
Sem políticos mas com muitos casos de polícia, necessitamos de quem seja colírio para os olhos, calmante para os ouvidos, bálsamo para a alma. Perdemos Amália, Solnado, Rey Monteiro, perdemos o Feio que afinal era bonito e se foi muito antes de ser hora, e ficámos com quê? Resta-nos um Carvalho que resiste nos palcos plantado, uma Eunice que teve a má sorte de ter nascido entre nós, e resta uma Pantera Negra, símbolo maior de um Portugal que foi grande mas encolheu tanto que nele já não cabem todos os portugueses. Cada vez mais vazios de referências, olhamos em volta e pensamos nas crises que andam por aí. Pensamos no estado em que nos dizem estar o Estado e ficamos sem saber o que se passa.
Então eu trabalho todos os dias, pago as minhas contas, honro os compromissos com quem me emprestou dinheiro, não tenho culpa de nada disto que se está a passar, mas sou eu que vou ajudar a pagar as asneiras dos outros? Não percebo, não percebo as pessoas que votaram em quem nos convenceu a dar um passo em frente à beira do abismo, não percebo aqueles que nem sequer votaram mas são os primeiros a vir para a rua gritar, não percebo. O que me resta? Um filósofo grego recauchutado que há já muito devia ter sido chutado para canto, um Coelho que dá passos certos e outros incertos, um Paulo que procura entrar nas portas certas, um Cristiano pouco cristão que só funciona consoante os dias e as vontades, um grupo de homens que dão luta à boa música…
Tenho um gostinho amargo na boca, mas não é o do Artur. Esse era doce, dava gosto, inspirava. Este que tenho agora é o de um remédio que não sei se funciona para a doença que tenho, porque não tenho sequer a certeza da doença. Mas vou experimentá-lo, e vou acreditar que funciona. Há que acreditar e enfrentar a vida com um sorriso. Como o do Agostinho. E há vida nova para nascer, há que recebê-la de braços abertos e sorriso no rosto.
Deixa o mundo girar para o lado que quer, não o podes parar nem tens nada a perder, tu estás de passagem… 

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