Morreu Artur Agostinho. Está tudo dito.
Há pessoas assim, que são capazes de criar uma empatia quase automática com
quem está à sua volta. Pessoas fascinantes, que transmitem energia, boa
disposição e vida, pessoas que dá gosto ouvir e deixar que a sua voz nos envolva
numa névoa suave de palavras bem definidas que nos entretêm, nos fazem
divagar, nos fazem sonhar, nos fazem pensar.
Nos tempos que correm, pessoas assim são tão raras quanto necessárias.
Precisamos delas para nos acalmar, para nos fazer ver que nem tudo é assim tão
negro e que há outra forma de encarar as coisas. Precisamos delas, no fundo,
para nos alimentar o espírito, para nos dizer que sim, que o amor é possível, que
quando menos se espera lá está ele à nossa espera e vai durar a vida inteira.
Perante pessoas assim, tudo o mais é nada, não há PEC, PAC, FMI, RSI que nos
afecte, não passam de trios de letras sem sentido, bichos papões dos adultos que
também servem para assustar as crianças. E nós precisamos de gente assim,
precisamos de pontos de referência na nossa vida enquanto comunidade,
enquanto país, gente que, sem ser política, vale mais que a política e nunca
necessitou de votos para estar no topo das nossas preferências. E Portugal está,
mais do que nunca, necessitado de referências.
Não conheci Artur Agostinho, e só fiquei a saber pormenores da sua vida depois
da sua morte, mas gostava dele. Era uma das figuras gradas do nosso imaginário
colectivo, o nosso avozinho contador de histórias que nos encarava com um
sorriso no olhar que a televisão transmitia. Era, porque agora já não é. Passou
para a fase seguinte da sua existência, a daqueles “que por obras valerosas se
vão da lei da morte libertando”, como cantou Camões um dia. Morreu um pouco
do nosso país moderno com o avô Artur, e ficámos mais pobres e mais
desorientados em busca de um farol que nos guie nesta escuridão.
Sem políticos mas com muitos casos de polícia, necessitamos de quem seja
colírio para os olhos, calmante para os ouvidos, bálsamo para a alma. Perdemos
Amália, Solnado, Rey Monteiro, perdemos o Feio que afinal era bonito e se foi
muito antes de ser hora, e ficámos com quê? Resta-nos um Carvalho que resiste
nos palcos plantado, uma Eunice que teve a má sorte de ter nascido entre nós, e
resta uma Pantera Negra, símbolo maior de um Portugal que foi grande mas
encolheu tanto que nele já não cabem todos os portugueses.
Cada vez mais vazios de referências, olhamos em volta e pensamos nas crises
que andam por aí. Pensamos no estado em que nos dizem estar o Estado e
ficamos sem saber o que se passa.
Então eu trabalho todos os dias, pago as
minhas contas, honro os compromissos com quem me emprestou dinheiro, não
tenho culpa de nada disto que se está a passar, mas sou eu que vou ajudar a
pagar as asneiras dos outros? Não percebo, não percebo as pessoas que votaram
em quem nos convenceu a dar um passo em frente à beira do abismo, não
percebo aqueles que nem sequer votaram mas são os primeiros a vir para a rua
gritar, não percebo.
O que me resta? Um filósofo grego recauchutado que há já muito devia ter sido
chutado para canto, um Coelho que dá passos certos e outros incertos, um Paulo
que procura entrar nas portas certas, um Cristiano pouco cristão que só funciona
consoante os dias e as vontades, um grupo de homens que dão luta à boa
música…
Tenho um gostinho amargo na boca, mas não é o do Artur. Esse era doce, dava
gosto, inspirava. Este que tenho agora é o de um remédio que não sei se
funciona para a doença que tenho, porque não tenho sequer a certeza da doença.
Mas vou experimentá-lo, e vou acreditar que funciona. Há que acreditar e
enfrentar a vida com um sorriso. Como o do Agostinho. E há vida nova para
nascer, há que recebê-la de braços abertos e sorriso no rosto.
Deixa o mundo girar para o lado que quer, não o podes parar nem tens nada a
perder, tu estás de passagem…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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