O "Erro infesto" era uma rubrica do Diário Insular em que três pseudo-intelectuais debitavam banalidades destinadas à sua pseudo-elite. Tudo bem. Agora mexer com a minha freguesia é que não!
Isto de se escrever nos jornais tem muito que se lhe diga. Por vezes, na ânsia de
nos querermos fazer notados acabamos por dizer coisas passíveis de ser mal
interpretadas, e isso quando envolve apenas uma pessoa até se pode resolver
com uma chamada telefónica, um café e dois dedos de conversa, mas quando
uma frase deita abaixo uma freguesia inteira é altura de elevar a conversa a outro
nível.
Vem isto a propósito de um comentário infeliz a propósito de uma suposta
guerra de escritores, publicado no DI do passado domingo, envolvendo Joel
Neto e José Rodrigues dos Santos, que o articulista despacha reduzindo a
questão a “inveja típica da Terra-Chã”. Importa-se de repetir? Com dados
objetivos, com situações exemplificativas, com estatísticas, com provas seja do
que for?
Que queiram mexer com o meu conterrâneo (sim, meu, pois aquele “nosso
conterrâneo” do artigo em causa deu-me vontade de rir), isso é lá com ele e com
quem escreveu, agora que queiram mexer com a minha freguesia, na qual nasci,
cresci, resido, residirei e para a qual trabalho e dou o meu contributo nos órgãos
autárquicos, alto e para o baile!
Da Terra-Chã, disse o Padre Jerónimo Emiliano de Andrade ser “a mais bela,
rica e amena de todas as freguesias da Ilha Terceira”, consequência não só da
generosidade da natureza mas também do desenvolvimento que a freguesia
conheceu no século XIX, fruto da imensa produção e exportação de laranjas, que
deixou riquezas patrimoniais corporizadas nas diversas quintas ainda hoje
existentes e classificadas como imóveis de interesse público.
Freguesia desde 1825 por alvará de D. João VI, a Terra-Chã de laranjas e
castanhas foi também palco de lutas liberais, freguesia de touros e ganaderos,
com os irmãos Corvelo a serem os primeiros grandes nomes da criação de gado
bravo na ilha.
Freguesia de cantadores e tocadores, viu nascer o Ferreirinha das
Bicas e acolheu José da Lata, que foi alegre e cantou pelos terreiros à corda do
touro, acompanhado por esse nome incontornável da festa brava que foi José
Pires. Terra de Teotónio Machado Pires, João Moniz Corte-Real, Maria
Teotónia de Ornelas, Roberto de Mesquita Pimentel, Victor Alves, Luciano
Barcelos, Rafael Cota e, por que não, de Joel Neto.
Inveja típica da Terra-Chã? Haverá outra freguesia com tanta história? Haverá
outra freguesia que tenha acolhido um hospital militar que ficou nos anais da
medicina portuguesa? Haverá outra freguesia que tenha sido lar de uma
universidade? Não me parece.
Parece-me, isso sim, que outros teriam razões para invejar a Terra-Chã. É
verdade que os tempos gloriosos acompanharam o declínio do país, é verdade
que existem chagas sociais, que as castanhas tiveram bicho italiano (cada vez
têm menos e são as mais saborosas da ilha!) e que as laranjeiras já são poucas,
mas é uma freguesia com vida e que convida todos a visitá-la e recebe de braços
abertos quem para lá quer ir morar e respeitar a vizinhança.
Por tudo isto, e pelo mais que ficou por dizer para não maçar os leitores, meu
caro Paulo, exige-se respeito, e não te ficaria mal um pedido de desculpas. És
um terceirense por adoção e muito provavelmente serás um dia lembrado como
um dos nossos, mas terás de fazer por isso. Por este caminho é que não!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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