sexta-feira, 6 de maio de 2016

72 - Erro infecto

O "Erro infesto" era uma rubrica do Diário Insular em que três pseudo-intelectuais debitavam banalidades destinadas à sua pseudo-elite. Tudo bem. Agora mexer com a minha freguesia é que não!

Isto de se escrever nos jornais tem muito que se lhe diga. Por vezes, na ânsia de nos querermos fazer notados acabamos por dizer coisas passíveis de ser mal interpretadas, e isso quando envolve apenas uma pessoa até se pode resolver com uma chamada telefónica, um café e dois dedos de conversa, mas quando uma frase deita abaixo uma freguesia inteira é altura de elevar a conversa a outro nível.
Vem isto a propósito de um comentário infeliz a propósito de uma suposta guerra de escritores, publicado no DI do passado domingo, envolvendo Joel Neto e José Rodrigues dos Santos, que o articulista despacha reduzindo a questão a “inveja típica da Terra-Chã”. Importa-se de repetir? Com dados objetivos, com situações exemplificativas, com estatísticas, com provas seja do que for? Que queiram mexer com o meu conterrâneo (sim, meu, pois aquele “nosso conterrâneo” do artigo em causa deu-me vontade de rir), isso é lá com ele e com quem escreveu, agora que queiram mexer com a minha freguesia, na qual nasci, cresci, resido, residirei e para a qual trabalho e dou o meu contributo nos órgãos autárquicos, alto e para o baile!
Da Terra-Chã, disse o Padre Jerónimo Emiliano de Andrade ser “a mais bela, rica e amena de todas as freguesias da Ilha Terceira”, consequência não só da generosidade da natureza mas também do desenvolvimento que a freguesia conheceu no século XIX, fruto da imensa produção e exportação de laranjas, que deixou riquezas patrimoniais corporizadas nas diversas quintas ainda hoje existentes e classificadas como imóveis de interesse público. Freguesia desde 1825 por alvará de D. João VI, a Terra-Chã de laranjas e castanhas foi também palco de lutas liberais, freguesia de touros e ganaderos, com os irmãos Corvelo a serem os primeiros grandes nomes da criação de gado bravo na ilha.
Freguesia de cantadores e tocadores, viu nascer o Ferreirinha das Bicas e acolheu José da Lata, que foi alegre e cantou pelos terreiros à corda do touro, acompanhado por esse nome incontornável da festa brava que foi José Pires. Terra de Teotónio Machado Pires, João Moniz Corte-Real, Maria Teotónia de Ornelas, Roberto de Mesquita Pimentel, Victor Alves, Luciano Barcelos, Rafael Cota e, por que não, de Joel Neto.
Inveja típica da Terra-Chã? Haverá outra freguesia com tanta história? Haverá outra freguesia que tenha acolhido um hospital militar que ficou nos anais da medicina portuguesa? Haverá outra freguesia que tenha sido lar de uma universidade? Não me parece. Parece-me, isso sim, que outros teriam razões para invejar a Terra-Chã. É verdade que os tempos gloriosos acompanharam o declínio do país, é verdade que existem chagas sociais, que as castanhas tiveram bicho italiano (cada vez têm menos e são as mais saborosas da ilha!) e que as laranjeiras já são poucas, mas é uma freguesia com vida e que convida todos a visitá-la e recebe de braços abertos quem para lá quer ir morar e respeitar a vizinhança.
Por tudo isto, e pelo mais que ficou por dizer para não maçar os leitores, meu caro Paulo, exige-se respeito, e não te ficaria mal um pedido de desculpas. És um terceirense por adoção e muito provavelmente serás um dia lembrado como um dos nossos, mas terás de fazer por isso. Por este caminho é que não!

Sem comentários: