domingo, 8 de outubro de 2006

3 - Viver de longe as Sanjoaninas

É preciso ser terceirense ou viver na Terceira há já alguns anos para entender verdadeiramente o que são as Sanjoaninas. Esta Crónica traz uma recordação dos tempos universitários e daquilo que sentia quando estava longe nos dias da festa. Os colegas micaelenses não entendiam o que teriam as Sanjoaninas que o Santo Cristo não tivesse também, e por muito que se explicasse ficavam à mesma sem entender, pois isso só é possível na primeira pessoa. Ainda não conheci um que não se rendesse a esta festa depois de a viver...

Começam hoje as maiores festas do arquipélago. Notem bem que não utilizo as palavras “religiosas” ou “profanas”, como tem sido tão politicamente correcto escrever-se, e isto porque não há que ter medos nem problemas de consciência quando se assume, com o orgulho de quem gosta da sua terra de festa, que quando toca a reunir junto de uma tasca ou a alinhar na berma da estrada para ver passar as marchas não há como ser terceirense ou estar na Terceira. Sim, pois nestas alturas não há nacionalidade que resista ao cheiro de um prato de favas escoadas com um copo de vinho de cheiro... mesmo que não se aprecie a comida! Apesar de não ser a personagem mais festeira que se possa imaginar, sinto a festa de uma forma muito própria, e passei a dar-lhe muito mais valor desde que me vi forçado a passar metade das Sanjoaninas de 1995 a estudar para um exame do qual não me consegui safar.
Faz hoje exactamente sete anos, estava já conformado com a ideia de não ver a abertura das festas nem as marchas, e, como sempre fazia em alturas de aperto, recolhi à caverna para estudar um pouco, antes de se abater sobre os meus olhos o insuportável peso do sono – coisa que não demorava mais de uma hora a acontecer – e levar-me a enterrar a cabeça na almofada. Se bem pensei, melhor o fiz, só que os olhos começaram a pesar ao fim de meia hora e os calhamaços que tinha em frente pediam um pouco mais de atenção. Solução? Como na RTP Açores não se passava nada que prestasse (não é preciso concordar, que eu já sei o que você vai dizer...), liguei o rádio. Não sei por quê, mas nessa noite sintonizei a Horizonte e, surpresa das surpresas, estava no ar a transmissão em directo da abertura das festas. Ainda mal refeito, pensei cá comigo que se calhar eles faziam aquilo todos os anos e eu é que nunca ouvia... Sem pensar, juntei o meu espírito ao de quem estava fechado no estúdio a trabalhar para levar até aos ouvintes os sons da festa, e pensei que a eles tanto fazia estar a três ou a trezentos quilómetros, pois a festa ficava sempre na outra ponta do canudo...
Parei de estudar. Estavam a entrevistar alguém da organização, e depois chamaram por um repórter que supostamente estaria pronto a intervir, mas o silêncio não deixou grande margem de manobra. Logo veio a lengalenga dos problemas técnicos que de momento impediam a emissão, tocou-se pela milésima-quinta vez a marcha das festas e voltou-se a chamar pelo tal fulano (não digo nomes porque os intervenientes podiam não achar graça ao fim da estória...), que, mais uma vez, não respondeu. “Este é que é esperto”, pensei eu, “Foi para uma tasca, está a empinar um fino e depois há-de se dizer qualquer coisa para aquele chato se calar”. Ainda me estava a rir do meu próprio pensamento quando, de entre a névoa de silêncio que se tinha instalado no meu rádio, saiu uma série de estalidos electrónicos e se ouviu uma voz mal definida: “Alô estúdios”. O locutor rejubilou! “Alô Fulano! Bem vindo à emissão. Agora sim, estamos em condições de levar aos nossos ouvintes mais alguns sons da festa; onde te encontras neste momento?” No intervalo de meio segundo que se seguiu, imaginei o repórter de microfone em punho para entrevistar a rainha das festas e saber se ela estava nervosa, se não estava preocupada com o facto de o vestido não ter alças, ou outras parvoíces do género. Então, veio a resposta, rápida, curta e grossa, rompendo com todos os mandamentos de uma reportagem radiofónica: “Estou na tasca”. Assim mesmo!
Era demais! Uma pessoa a tentar concentrar-se no estudo e aquele #$%&”#$%* na tasca a gozar com a minha cara! Foi uma das poucas vezes em que os meus cadernos levaram um varejo de desespero... Em cinco minutos, já me tinha posto na tasca dos estudantes, onde encontrei outros (muitos) companheiros de infortúnio, com ar macambúzio. “Olha o Jorge! Não devias estar a estudar?” Consegui esboçar um sorriso, respondendo que não conseguia. Eles também não. Foi então que tive a mais brilhante tirada do ano: “Pessoal, vamos para as Sanjoaninas!” “Estás doido, ou quê?” “Não estou nada! Mexilhão, conta as marradeiras desta mesa, divide por dois e passa para cá o resultado em cerveja fresca!”
Sabem que mais? Foi a melhor noite de abertura das Sanjoaninas de que tenho memória... Mais logo, no calor da festa, lembre-se de quem gostava de cá estar mas não pode, e beba qualquer coisa pela saúde deles... Nem que seja preciso cometer o sacrilégio de transformar sangria em água!
Boas Sanjoaninas!

P.S. – Apesar de tudo, passei no tal exame.

2 - Saudades do futuro

O dia 11 de Junho de 2002 está marcado na minha vida a letras de fogo. Pouco passava das 18 horas quando uma mensagem no meu telemóvel me dizia que já tiniham saído as colocações do concurso de professores desse ano. Fui ver, convencido de que tinha ficado à porta e seria dos primeiros a ser contratado, o que significava continuar em casa, mas...


Nunca como agora entendi o significado da expressão que empresta o nome a este escrito. A vida é recheada de pequenas ironias, e não perde a oportunidade de nos pregar uma partida, só que às vezes a coisa vai longe. Longe até demais...
Nunca fui uma daquelas crianças que sabe na ponta da língua a resposta para a pergunta estúpida que é o sacramental “o que queres ser quando fores grande”, tanto assim que uma das respostas que me lembro de dar nestas ocasiões era um tão apropriado como politicamente incorrecto “não tens nada a ver com isso”. Admirava os meus amigos, que diziam querer ser mecânicos, professores, advogados, veterinários, enfermeiros, e por aí fora, mas não sabia o que queria.
Hoje, quase vinte anos passados desde essa época, constato que nenhum dos meus amigos seguiu o rumo que dizia querer seguir, não tendo sequer a maior parte deles terminado o Liceu, mas, no entanto, conseguiram uma coisa que por agora ainda me está vedada: estabilidade. Profissional, pessoal ou emocional, não interessa qual, pois seja qual for será sempre uma verdade.
Quando chegou a altura de ir para a universidade, ainda não sabia o que queria ser. Tinha boas notas a tudo menos Matemática (aliás, deixei de ter Matemática no 9º ano, mas já nessa altura estava “estragado”, graças à professora do 5º e 6º anos e a outras da mesma “raça”, sem jeito nenhum para resolver a difícil equação que é ensinar a fazer equações), o que dificultou ainda mais a escolha. Posto perante os cursos disponíveis, pensei cá comigo que gostava era de Português e de Inglês, e lá fui eu de abalada para São Miguel. Sempre ficava mais perto e gastava-se menos dinheiro do que no continente... A meio do curso, compreendi que eram três as coisas que me faziam saltar o coração: Rádio, uma loira de olhos azuis e... dar aulas. Não necessariamente por esta ordem.
Assim, chegamos ao dia de hoje e às tais “saudades do futuro”. Acabo de saber que, fruto do tão polémico diploma das colocações de professores, consegui trabalho definitivo como professor de Português, depois de dois anos frustrantes a leccionar Educação Visual. É verdade. Vou finalmente trabalhar naquilo para que tanto estudei e, para isso, vou ter que mudar-me para as Flores... Mas será que quero ir para as Flores? Honestamente – e sem querer parecer ingrato ou desrespeitoso para todos os colegas que vão ficar desempregados nem para os florentinos – a resposta é um rotundo não.
Assim mesmo. Sem rodeios ou subterfúgios. Não quero ir mas vou ter que ir, pois esta pode ser a minha última oportunidade de garantir o futuro em termos de ensino, e há que agarrá-la com unhas e dentes, mesmo que, depois da aventura micaelense, não me apetecesse mesmo nada voltar a emigrar. Mas será que não existem outras opções? Felizmente, sim. Podia reforçar a minha posição em termos de trabalho na comunicação social, podia continuar a dar aulas na Universidade pago por um qualquer fundo comunitário, já que quem manda no dinheiro não acha importante contratar um docente a tempo inteiro para trabalhar as componentes de língua portuguesa nos cursos ministrados na Terra-Chã, podia voltar à rádio e exigir salário maior do que aquele que certos abortos radiofónicos auferem sem se entender como nem por quê, podia fazer muita coisa, mas nenhuma delas me daria verdadeiras garantias de futuro... ou será que daria? Com tudo isto em mente, já se vê que a decisão não é mesmo nada fácil.
Não sou casado nem estou em vias de o ser, o que poderia facilitar as coisas, mas a família não achou graça nenhuma à situação, os amigos já disseram que me apoiavam fosse qual fosse a decisão, mas também já houve quem dissesse, olhos nos olhos, “se eu estivesse no teu lugar não ia”. Raios partam esta vida!
No seu artigo da semana passada, Mário Cabral citava alguém que dizia para termos medo daquilo que desejamos, pois mais cedo ou mais tarde pode tornar-se realidade, e é bem verdade. Por vezes tinha dificuldade de o entender nas aulas, mas agora li-o tão claro como água.
O que eu desejei ontem tornou-se hoje numa realidade perversa, por isso digo que tenho saudades do futuro. Queria saber o que me vai acontecer, queria saber qual a melhor opção a tomar, queria saber se vale realmente a pena ir para as Flores, queria saber se...
Por tudo isto, caros colegas professores deslocados da vossa terra, acreditem quando vos digo que já vos começo a entender, pois só calçando os sapatos de defunto conseguimos sentir verdadeiramente as dores da morte. Por tudo isto, caros colegas que tentam ser professores, acreditem quando vos digo que o melhor é começarem a pensar noutras alternativas. Por tudo isto, estudantes que querem ser professores, vos digo que cada vez vale menos a pena, a menos que, como eu, gostem verdadeiramente de ensinar. A vós, peço-vos que não engrossem o rol daqueles que pedincham por um lugar de secretaria porque não gostam de “sofrer canalha”. A vós, peço-vos que não sejam como a infame senhora que se diz professora e que todos os anos provoca dois ou três esgotamentos aos alunos, gerando autênticos climas de terror dentro da sala.
A todos vós, peço-vos: tenham Saudades do Futuro, para tentar melhorar o presente.

1 - Adeus ao escudo

Crónica publicada no primeiro dia útil em que Portugal passou a usar euros em vez de escudos. Foi a primeira de todas.

Realiza-se hoje o funeral do Escudo, entidade muito apreciada por todos os portugueses. Ao longo de mais de nove décadas, o Escudo soube granjear a simpatia de todos quantos nasceram no jardim à beira-mar plantado, sobrevivendo a todas as crises que se lhe atravessaram no caminho, desde as guerras mundiais à ditadura, com vários sobressaltos no caminho da democracia que hoje temos e à qual talvez não demos o devido valor. Mas que valor demos nós ao Escudo nos seus noventa e um anos de vida?
Se a Saudade é tida por muitos como a expressão máxima do Ser Português, não é menos portuguesa a célebre atitude de “só dar valor ao que se tem quando se deixa de ter”. Longe de querer aqui entrar num discurso de lamúrias face à morte do meu querido escudo, quero antes deixar perante o amigo leitor o testemunho sentido da minha relação de vinte e cinco anos com a moeda da República Portuguesa.
Quando nasci, já o Escudo tinha entrado na terceira idade, e quando finalmente comecei a ter idade para o tratar com as minhas mãos já era ele um septuagenário de respeito, que sempre tratei com a máxima reverência, pois não era coisa propriamente abundante em casa. Era com uma moeda de cinco escudos (daquelas prateadas, lembra-se?) que atingia alguns dos momentos altos de então, materializados na velhinha máquina de matraquilhos da Sociedade da Terra Chã, na altura ainda salão de cinema. Dia de sessão era dia de trinta escudos surripiados à contabilidade do café, mais os vinte que arranjava com as manhas da juventude. Uma nota verde de vinte escudos para o bilhete e o resto em moedas de cinco para um saco de batatas fritas e para jogar nos matrecos. Era um bom jogador à frente, mas nunca fui grande especialista na baliza. Era o tempo de ser Bento ou Damas a guardar as redes e Manuel Fernandes ou Nené na frente. Havia também Jordão, Carlos Manuel, Gomes e muitos outros que povoavam o nosso imaginário de então. Foram batalhas épicas no intervalo de filmes tão inesquecíveis como O Gato que Veio do Espaço ou o impagável Banana Joe, com um Bud Spencer tão porco e divertido como sempre.
Vieram depois os anos do Anexo, com os matraquilhos da Fanfarra a constituírem uma atracção irresistível enquanto não chegava a hora de apanhar a urbana. Cinco escudos já não davam, eram precisos dez, e o número de jogos teve de diminuir. Mesmo assim, lá aconteceram alturas em que o almoço foi mais fraco porque me distraí nas contas e porque a desforra não podia esperar. Por esta altura, era já o bilhar que começava a chamar a atenção, mas nunca achei graça aos relógios, que cobravam e cobravam sem que as bolas desaparecessem de cima da mesa. Felizmente, apareceu o Octaviano com a sua mesa de cem escudos o jogo, nem que levasse duas horas. Ao lado, os matraquilhos queriam já uma moeda de vinte, e a piada já não era a mesma. Para ir ao cinema à Recreio, dedicava-me a ganhar bilhetes nos concursos da Rádio Horizonte e do Rádio Clube. Foram dezenas! Domingo em que não tivesse bilhete era Domingo estragado. Até no dia em que me crismei fui ao cinema à tarde. Afinal, era pecado desperdiçar o bilhete, não é verdade?
Beber uma coca-cola na Jump já custava os olhos da cara, quando comparada com os cinco escudos dos matraquilhos, mas uma vez por outra lá se ia ter na Renault 4 do Abelha, que nunca levava menos de cinco pessoas. A mais, todos os que viessem eram bem-vindos... Já com idade para ter algum juízo, a aventura universitária levou-me para Oriente, onde aprendi definitivamente a contar os escudos e a manter as contas equilibradas. Nunca fui gastador, mas agora não tinha quem me controlasse e não os queria deixar ficar mal. Consegui.
Esquecer o Escudo? Como é que se esquece a moeda com que nos pagaram o primeiro ordenado? Eram vinte e cinco contos por um part time na Rádio Atlântida, mas era cá um orgulho saber que era já eu quem pagava o aluguer do quarto... por isso, chamem-me o que quiserem, mas vou ter saudades do Escudo. Desde que chegou o Euro, praticamente só pago com cartão, e admito que tenho ainda dificuldades em distinguir à primeira as novas moedas, mas com o tempo isso passa.
Agora não me venham é dizer que não têm saudades do Escudo...

Crónicas de um Eterno Estudante

Ser professor é ser um Eterno Estudante.
Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo, Cidade Património Mundial desperdiçada no meio do Oceano Atlântico.
Sou, pois, professor. Não por vocação de infância, mas por descoberta tardia, o que só veio dar mais sabor a esta vida. Tenho uma visão muito própria do ensino, e muitas destas Crónicas reflectem-na.
Há aqui textos para todos os gostos, desde os simples devaneios de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso. Numa grande parte, sente-se a vivência de quem está isolado, por força dos meus três anos passados na Ilha das Flores, quase à vista da Estátua da Liberdade.
Em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido.

Espero que goste. Pode também visitar http://eternoestudante.no.sapo.pt/ para ficar a saber mais sobre mim.