domingo, 8 de outubro de 2006

2 - Saudades do futuro

O dia 11 de Junho de 2002 está marcado na minha vida a letras de fogo. Pouco passava das 18 horas quando uma mensagem no meu telemóvel me dizia que já tiniham saído as colocações do concurso de professores desse ano. Fui ver, convencido de que tinha ficado à porta e seria dos primeiros a ser contratado, o que significava continuar em casa, mas...


Nunca como agora entendi o significado da expressão que empresta o nome a este escrito. A vida é recheada de pequenas ironias, e não perde a oportunidade de nos pregar uma partida, só que às vezes a coisa vai longe. Longe até demais...
Nunca fui uma daquelas crianças que sabe na ponta da língua a resposta para a pergunta estúpida que é o sacramental “o que queres ser quando fores grande”, tanto assim que uma das respostas que me lembro de dar nestas ocasiões era um tão apropriado como politicamente incorrecto “não tens nada a ver com isso”. Admirava os meus amigos, que diziam querer ser mecânicos, professores, advogados, veterinários, enfermeiros, e por aí fora, mas não sabia o que queria.
Hoje, quase vinte anos passados desde essa época, constato que nenhum dos meus amigos seguiu o rumo que dizia querer seguir, não tendo sequer a maior parte deles terminado o Liceu, mas, no entanto, conseguiram uma coisa que por agora ainda me está vedada: estabilidade. Profissional, pessoal ou emocional, não interessa qual, pois seja qual for será sempre uma verdade.
Quando chegou a altura de ir para a universidade, ainda não sabia o que queria ser. Tinha boas notas a tudo menos Matemática (aliás, deixei de ter Matemática no 9º ano, mas já nessa altura estava “estragado”, graças à professora do 5º e 6º anos e a outras da mesma “raça”, sem jeito nenhum para resolver a difícil equação que é ensinar a fazer equações), o que dificultou ainda mais a escolha. Posto perante os cursos disponíveis, pensei cá comigo que gostava era de Português e de Inglês, e lá fui eu de abalada para São Miguel. Sempre ficava mais perto e gastava-se menos dinheiro do que no continente... A meio do curso, compreendi que eram três as coisas que me faziam saltar o coração: Rádio, uma loira de olhos azuis e... dar aulas. Não necessariamente por esta ordem.
Assim, chegamos ao dia de hoje e às tais “saudades do futuro”. Acabo de saber que, fruto do tão polémico diploma das colocações de professores, consegui trabalho definitivo como professor de Português, depois de dois anos frustrantes a leccionar Educação Visual. É verdade. Vou finalmente trabalhar naquilo para que tanto estudei e, para isso, vou ter que mudar-me para as Flores... Mas será que quero ir para as Flores? Honestamente – e sem querer parecer ingrato ou desrespeitoso para todos os colegas que vão ficar desempregados nem para os florentinos – a resposta é um rotundo não.
Assim mesmo. Sem rodeios ou subterfúgios. Não quero ir mas vou ter que ir, pois esta pode ser a minha última oportunidade de garantir o futuro em termos de ensino, e há que agarrá-la com unhas e dentes, mesmo que, depois da aventura micaelense, não me apetecesse mesmo nada voltar a emigrar. Mas será que não existem outras opções? Felizmente, sim. Podia reforçar a minha posição em termos de trabalho na comunicação social, podia continuar a dar aulas na Universidade pago por um qualquer fundo comunitário, já que quem manda no dinheiro não acha importante contratar um docente a tempo inteiro para trabalhar as componentes de língua portuguesa nos cursos ministrados na Terra-Chã, podia voltar à rádio e exigir salário maior do que aquele que certos abortos radiofónicos auferem sem se entender como nem por quê, podia fazer muita coisa, mas nenhuma delas me daria verdadeiras garantias de futuro... ou será que daria? Com tudo isto em mente, já se vê que a decisão não é mesmo nada fácil.
Não sou casado nem estou em vias de o ser, o que poderia facilitar as coisas, mas a família não achou graça nenhuma à situação, os amigos já disseram que me apoiavam fosse qual fosse a decisão, mas também já houve quem dissesse, olhos nos olhos, “se eu estivesse no teu lugar não ia”. Raios partam esta vida!
No seu artigo da semana passada, Mário Cabral citava alguém que dizia para termos medo daquilo que desejamos, pois mais cedo ou mais tarde pode tornar-se realidade, e é bem verdade. Por vezes tinha dificuldade de o entender nas aulas, mas agora li-o tão claro como água.
O que eu desejei ontem tornou-se hoje numa realidade perversa, por isso digo que tenho saudades do futuro. Queria saber o que me vai acontecer, queria saber qual a melhor opção a tomar, queria saber se vale realmente a pena ir para as Flores, queria saber se...
Por tudo isto, caros colegas professores deslocados da vossa terra, acreditem quando vos digo que já vos começo a entender, pois só calçando os sapatos de defunto conseguimos sentir verdadeiramente as dores da morte. Por tudo isto, caros colegas que tentam ser professores, acreditem quando vos digo que o melhor é começarem a pensar noutras alternativas. Por tudo isto, estudantes que querem ser professores, vos digo que cada vez vale menos a pena, a menos que, como eu, gostem verdadeiramente de ensinar. A vós, peço-vos que não engrossem o rol daqueles que pedincham por um lugar de secretaria porque não gostam de “sofrer canalha”. A vós, peço-vos que não sejam como a infame senhora que se diz professora e que todos os anos provoca dois ou três esgotamentos aos alunos, gerando autênticos climas de terror dentro da sala.
A todos vós, peço-vos: tenham Saudades do Futuro, para tentar melhorar o presente.

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