Um lamento, puro e duro.
O défice deste país não é económico, é intelectual. Eu não tenho consciência das coisas há muitos anos, pois não tenho idade para isso. Antes, desde que não me chateassem, estava sempre tudo bem, mas agora que já passei dos trinta consigo pensar, consigo olhar para o que me rodeia e consigo fazer comparações.
No meu tempo de escola, eu sabia que passava de ano com duas negativas (que nunca tive, felizmente) e que se tivesse três ficava atrás. Era eu e toda a gente, as regras eram claras e ninguém tinha as dúvidas que tem hoje, em que os alunos passam até ao 9º ano sempre a abrir, pois a lei diz que os professores devem passá-los sempre que considerem: a) Nos anos terminais de ciclo, que o aluno desenvolveu as competências necessárias para prosseguir com sucesso os seus estudos no ciclo ou nível de escolaridade subsequente; b) Nos anos não terminais de ciclo, que o progresso no desenvolvimento das competências demonstrado pelo aluno permite perspectivar que as competências essenciais definidas para o final do ciclo serão atingidas. É bonito de ler, mas isto das competências gera discussões sem fim, e o resultado prático é que tanto passa quem teve duas como quem teve cinco negativas, caso os professores achem que o aluno ainda pode “chegar lá” nos anos que restam para o final de ciclo, como se lê na alínea B.
Com estas decisões, mesmo que escudadas na lei, os professores perdem credibilidade e respeito junto de pais e alunos, que não conseguem entender por que razão o João, que é vizinho do José, passou com negativa a Educação Física, Educação Visual, Ciências, História e Matemática, enquanto o José perdeu porque teve negativa a Matemática, Ciências e Português. Os nomes são fictícios, e os casos são extremos, mas isto acontece, é um facto. Faltam regras claras para uns e para outros, até porque a própria definição de “competência” é mais nebulosa que o nevoeiro na via rápida, e da sua avaliação é bom nem falar.
Reter um aluno hoje em dia é o cabo dos trabalhos, e chumbá-lo é ser anti-pedagógico, pois a crianças têm de ser protegidas das crueldades e desigualdades da vida, dizem os pedagogos. Da treta, adjectivo eu.
Cair de uma árvore, esfolar um joelho, entalar um dedo na corrente do baloiço, dar uma cabeçada no poste, chumbar um ano, são apenas amostras do que nos pode acontecer quando formos grandes, e ensinam-nos a superar dificuldades e a criar carácter. De que me serve usar eufemismos se a realidade é sempre dura? Não estudei, chumbei, devia ser tão simples como isto.
Estudar, esse verbo tão maltratado… Um professor é um estudante profissional ou, se quisermos, um Eterno Estudante que nunca pára de aprender no seu trabalho. Para se ser professor, na melhor das hipóteses, é preciso estudar 17 anos. Eu sei, eu fiz isso, e quando acabei o curso ainda demorei mais cinco anos para estabilizar, por isso me custa muito ver como quem manda no ensino em Portugal trata os professores, essa força de trabalho altamente qualificada mas completamente desunida. Querer obrigar agora os professores a fazer uma prova de acesso à carreira é passar um atestado de incompetência às universidades, e é injustiçar milhares de profissionais por todo o país, que vêem as regras mudar a meio do jogo. Mais ainda: se a ideia passar por fazer um exame de conhecimentos científicos, então é reveladora de uma ignorância tal que eu não acredito que tenha saído da cabeça de um professor. Posso estar errado, mas acho que ninguém domina de fio a pavio toda a matéria que vai ensinar, nem isso interessa! De que me serve saber tudo sobre os heterónimos de Fernando Pessoa se estou a dar 7º e 8º ano? O meu trabalho exige que saiba um pouco de tudo, mas esses conteúdos apenas os aprofundo a cem por cento quando os vou utilizar, é para isso que invisto tanto tempo na preparação das aulas.
Um professor, mais do que uma máquina de transmissão de conhecimentos, é uma entidade pedagógica, e isso é coisa que dificilmente se avalia. É possível ser-se bom professor sem se ser um “crânio”, da mesma forma que é possível ser-se político profissional só com a quarta classe, e nós temos bons políticos com a quarta classe, da mesma forma que temos incompetentes chapados com licenciaturas e doutoramentos.
O facto é que Portugal tem professores a mais, que o governo não quer, e há um fosso enorme entre os que já estão com a vida feita e os que lutam pelo seu trabalho, por isso o governo tem feito o que quer da classe. É por isso que nas escolas há professores que estão lá a cumprir horário só para que se possa dizer que “os professores estão na escola”. É por isso que a desmotivação se instala quando se vê que o trabalho é sempre a aumentar mas os vencimentos estão congelados há quatro ou cinco anos, já nem sei bem. É por isso que nos últimos dois anos vi gente abandonar a carreira, depois de terem sido triturados pelo sistema sem dó nem piedade. E muitos mais vão sair.
A última proposta é só mais uma para acabar com a dignidade que ainda resta nas escolas: o PS propôs na Assembleia da República que os alunos deixem de chumbar por faltas. Faltam como e quando quiserem, e depois a escola há-de fazer uma prova de recuperação para os meninos. Em vez de estudar o ano todo, estudam só uma semana, e depois pode ser que passem…
Quem nos acode?
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
54 - Os Catrapilhas
Sabe o que é um catrapilha? E uma paleia? E uma opção política estratégica? Tem tudo a ver...
Há palavras assim, que nos saem pela boca sem pensarmos bem de onde vêm. É assim, e pronto. Desde miúdo que, quando vejo uma “paleia” (este nome não sei mesmo de onde veio… coisas de canalha, talvez), sei que os mais velhos lhe chamam “catrapilha”, e isso basta. Para quem ainda não percebeu, estou a falar daquelas máquinas grandes e amareladas que servem para carregar os camiões com terra, os “catrapilhas”.
O mundo da nossa língua tem coisas interessantes quando toca a marcas e designações comerciais, e esta é uma delas. Num tempo em que as máquinas deste tipo que para cá vinham eram todas da Caterpillar (é assim que se escreve…), cortesia dos americanos, não é de estranhar que este nome tão estranho tenha entrado no nosso vocabulário como sendo um sinónimo de “máquina-que-serve-para-carregar-terra-nos-camiões”, e de outras do mesmo género. Mais ainda, o tempo ensinou-me que a Caterpillar goza de uma invejável reputação de qualidade e fiabilidade nos seus produtos, e quando algo avaria também é conhecida por dar uma resposta pronta e eficaz.
Vem isto tudo a propósito da notícia, saída há já alguns dias, de que o representante desta marca tinha escolhido a Terceira como ponto nevrálgico da sua acção no arquipélago, montando por cá um escritório e mantendo um stock de peças capaz de responder às necessidades dos Grupos Central e Ocidental, se bem me recordo. Li, gostei do que li, e aguardei.
Aguardei que alguém com responsabilidades na vida política terceirense dissesse alguma coisa, mas nada. Aguardei que nos jornais surgissem reacções, mas nada. Aguardei que alguém do Governo Regional se pronunciasse a este respeito, mas também nada. Devo ter sido o único que achou graça à notícia, por isso estou a escrever isto.
Aos anos que andamos para aqui a bradar que a coisa mais lógica é que seja a Terceira a placa giratória de mercadorias para os Açores e para os grupos Central e Ocidental em especial (veja-se o caso dos combustíveis!), mas da parte de quem manda continuamos a não ter resposta e a ver tudo centralizado numa ponta do arquipélago, com todos os custos acrescidos que isso acarreta para as “ilhas de baixo”. Agora, de mansinho, chega uma empresa, que por acaso até é das maiores do mundo no seu ramo, e diz que vai fazer para o seu negócio, que é privado e assenta no lucro, aquilo que há muito devia ter sido feito para proteger aquilo que é público e não dá lucro: o dinheiro de todos nós. A qualidade das grandes empresas vê-se nestes “pequenos” pormenores, que há tanto tempo são defendidos em termos políticos por estas partes mas que a cegueira do poder não deixa sair das trevas da gaveta numa qualquer secretaria.
Há que tempos a Terceira já podia ter assumido esse papel de distribuidora, com vantagens de economia e rapidez para todos os açorianos! Ao invés, temos zonas industriais com potencial mas sem o investimento devido. A da Praia já podia ter o tal parque de combustíveis e uma gare de passageiros em condições, mas ainda nada está feito. A de Angra está para ali, com acessos em terra, sem o mínimo de condições para os empresários e respectivos clientes. Na ponta oriental, fez-se uma coisa parecida, com uma pequena diferença: ninguém pôs lá os pés sem que estivesse tudo pronto em termos de saneamento, electricidade e arruamentos…
E já agora, que estou com a faca afiada: alguém leu a Visão desta semana? A Terceira será que ainda existe no mapa, ou passou a ser mais um calhau ao lado dos Ilhéus das Cabras? Onde estão as Câmaras Municipais a dizer “não pode ser”? Onde está essa coisa insossa chamada Conselho de Ilha? Nós, os que cá habitamos e nos sentimos ofendidos por tantos esquecimentos “convenientes”, não temos outra voz sem ser estes artigos que aparecem às vezes nos jornais?
Às vezes apetecia-me mesmo era pegar num “catrapilha” e encher uma bolsa do aterro com lixo não-reciclável…
Há palavras assim, que nos saem pela boca sem pensarmos bem de onde vêm. É assim, e pronto. Desde miúdo que, quando vejo uma “paleia” (este nome não sei mesmo de onde veio… coisas de canalha, talvez), sei que os mais velhos lhe chamam “catrapilha”, e isso basta. Para quem ainda não percebeu, estou a falar daquelas máquinas grandes e amareladas que servem para carregar os camiões com terra, os “catrapilhas”.
O mundo da nossa língua tem coisas interessantes quando toca a marcas e designações comerciais, e esta é uma delas. Num tempo em que as máquinas deste tipo que para cá vinham eram todas da Caterpillar (é assim que se escreve…), cortesia dos americanos, não é de estranhar que este nome tão estranho tenha entrado no nosso vocabulário como sendo um sinónimo de “máquina-que-serve-para-carregar-terra-nos-camiões”, e de outras do mesmo género. Mais ainda, o tempo ensinou-me que a Caterpillar goza de uma invejável reputação de qualidade e fiabilidade nos seus produtos, e quando algo avaria também é conhecida por dar uma resposta pronta e eficaz.
Vem isto tudo a propósito da notícia, saída há já alguns dias, de que o representante desta marca tinha escolhido a Terceira como ponto nevrálgico da sua acção no arquipélago, montando por cá um escritório e mantendo um stock de peças capaz de responder às necessidades dos Grupos Central e Ocidental, se bem me recordo. Li, gostei do que li, e aguardei.
Aguardei que alguém com responsabilidades na vida política terceirense dissesse alguma coisa, mas nada. Aguardei que nos jornais surgissem reacções, mas nada. Aguardei que alguém do Governo Regional se pronunciasse a este respeito, mas também nada. Devo ter sido o único que achou graça à notícia, por isso estou a escrever isto.
Aos anos que andamos para aqui a bradar que a coisa mais lógica é que seja a Terceira a placa giratória de mercadorias para os Açores e para os grupos Central e Ocidental em especial (veja-se o caso dos combustíveis!), mas da parte de quem manda continuamos a não ter resposta e a ver tudo centralizado numa ponta do arquipélago, com todos os custos acrescidos que isso acarreta para as “ilhas de baixo”. Agora, de mansinho, chega uma empresa, que por acaso até é das maiores do mundo no seu ramo, e diz que vai fazer para o seu negócio, que é privado e assenta no lucro, aquilo que há muito devia ter sido feito para proteger aquilo que é público e não dá lucro: o dinheiro de todos nós. A qualidade das grandes empresas vê-se nestes “pequenos” pormenores, que há tanto tempo são defendidos em termos políticos por estas partes mas que a cegueira do poder não deixa sair das trevas da gaveta numa qualquer secretaria.
Há que tempos a Terceira já podia ter assumido esse papel de distribuidora, com vantagens de economia e rapidez para todos os açorianos! Ao invés, temos zonas industriais com potencial mas sem o investimento devido. A da Praia já podia ter o tal parque de combustíveis e uma gare de passageiros em condições, mas ainda nada está feito. A de Angra está para ali, com acessos em terra, sem o mínimo de condições para os empresários e respectivos clientes. Na ponta oriental, fez-se uma coisa parecida, com uma pequena diferença: ninguém pôs lá os pés sem que estivesse tudo pronto em termos de saneamento, electricidade e arruamentos…
E já agora, que estou com a faca afiada: alguém leu a Visão desta semana? A Terceira será que ainda existe no mapa, ou passou a ser mais um calhau ao lado dos Ilhéus das Cabras? Onde estão as Câmaras Municipais a dizer “não pode ser”? Onde está essa coisa insossa chamada Conselho de Ilha? Nós, os que cá habitamos e nos sentimos ofendidos por tantos esquecimentos “convenientes”, não temos outra voz sem ser estes artigos que aparecem às vezes nos jornais?
Às vezes apetecia-me mesmo era pegar num “catrapilha” e encher uma bolsa do aterro com lixo não-reciclável…
53 - Ir para fora... mesmo!
Saí de Portugal pela primeira vez, e adorei. A minha namorada pôs-me a viajar, e cada vez fiquei a gostar mais dela...
Viajar abre horizontes, está escrito nos livros, mas essa sempre foi uma teoria que nunca pus em prática, e nunca me senti mais fechado por causa disso, mas este Verão decidi mandar às urtigas o “vá para fora cá dentro” e mudei-me de armas e bagagens para Barcelona durante uns dias. Férias, verdadeiras férias, longe de tudo o que fosse vagamente parecido com uma cara conhecida, para refrescar corpo e alma, rumo a um novo ano de trabalho.
De regresso a Portugal, é tempo de balanço. Para começar, Barcelona é uma cidade surpreendente, ainda mais para quem nunca tinha posto os pés no estrangeiro, por isso que me perdoem os mais viajados se o que vão ler lhes parecer demasiado ingénuo. Há gente de todo o lado e por todo o lado, numa espécie de caos semi-organizado que alcança o expoente máximo na fantástica Rambla, uma imensa rua onde se pode encontrar de tudo à venda mas também apreciar a arte de estátuas vivas, de pintores que talvez um dia sejam famosos, ver um espectáculo de breakdance, passear de carroça ou de bicicleta enquanto se corre o risco de nos cruzarmos com uma qualquer estrela do desporto ou do espectáculo.
Uns quilómetros mais acima, a Avenida Diagonal, com 13km de comprimento (sim, leu bem, é uma avenida com TREZE quilómetros…), faz La Rambla parecer pequena, mas justifica o tamanho com a imensidão de lojas das marcas mais exclusivas do mundo e com a concentração de multinacionais e bancos. E com um pormenor: está cheia de árvores em toda a sua extensão, para suavizar os efeitos do trânsito intenso, com quatro faixas de rodagem para cada lado… é maior que a nossa via rápida, só para se ter uma ideia. Na montra de uma ourivesaria, a título de exemplo, estavam expostos relógios de 20 mil euros, e para se entrar era preciso tocar à campainha, para termos o prazer de ver um funcionário impecavelmente vestido e barbeado a abrir-nos a porta com um enorme sorriso, mesmo que estivéssemos de t-shirt e chinelos…
O principal, no entanto, foi mesmo ver a organização com que o turismo funciona. No aeroporto, perguntámos qual a melhor forma de chegar ao hotel, e em dois segundos estava um mapa aberto no balcão, com a indicação do autocarro e do metro a tomar. Quinze minutos e cinco euros depois, já estava a desfazer a mala, não sem antes ter visto a construção mais assombrosa da minha vida: começada a construir ainda no século XIX e ainda em obras, a Catedral da Sagrada Família desafia a imaginação do mundo, que a olha deslumbrado e esmagado pela imponência das suas torres com cem metros de altura. Para lá entrar, são oito euros, mais dois para andar no elevador que nos coloca lá em cima, depois de hora e meia na fila…
Tudo se paga em Barcelona, e só no Castelo de Montjuic nos deixam passar a muralha de borla, pois lá dentro há um museu militar com direito a bilheteira. Truque: antes de começar as visitas, comprar um bilhete para andar no autocarro turístico. O dinheiro que custa foi recuperado com os mais de cem descontos que oferecia nos sítios mais variados, desde o McDonalds ao Museu Picasso. Um exemplo de organização e entendimento entre as diversas entidades envolvidas. Em Barcelona, tal como em Angra, há muito Património Mundial, mas é rentabilizado, e ao entrar no referido castelo confesso que fiquei a perceber bem as vantagens de retirar a tropa do nosso quartel, transformando-o num pólo de atracção e – porque não – lucro turístico. As próprias igrejas têm todas lampadários electrónicos, em que se coloca uma moeda e acende uma luz a fazer de vela…
Falar de Barcelona e não falar de Antoni Gaudí é impossível, pois o seu trabalho está por todo o lado. Para quem não sabe, trata-se do arquitecto responsável pela catedral que já referi e por mais uma série de construções simplesmente impossíveis de descrever. São estranhas à vista, e fazem-nos ver que a fronteira entre ser génio ou ser louco é mesmo muito estreita, mas as pessoas fazem bicha para entrar, e pagam bem por isso. A casa Millá, só por si, vale a visita, mas se puder ir também à Casa Battló, ao Parque Guell e dar uma volta no tal autocarro, já valeu a visita.
É claro que comparar Angra com Barcelona vai quase dar ao mesmo que tentar enfiar a igreja na sacristia, mas salvaguardando as devidas distâncias dá para tirar umas ideias. Na capital da Catalunha convive o turismo de massas com o de “gente rica”, cruzando-se ambos na rua, e comem todos na mesma esplanada, numa mistura que permite, por exemplo, ver duas loiras com ar sueco a comer uma paella na mesa ao lado de dois paquistaneses de turbante, deliciados com tapas à espanhola e cerveja alemã. Uma cidade do mundo…
E para cá, que ideias se podem trazer? Muitas, a começar pela organização da oferta, que está a dar entre nós os primeiros passos. Quando essa parte estiver feita, o resto das ideias vem por si…
PS – Só para começar a organização: e que tal alguém tentar explicar-me porque razão a TAP me pediu 400 euros por um bilhete de ida e volta no voo directo para o Porto, tendo eu conseguido o mesmo bilhete dias depois por 250 euros? Não dá para acreditar, mas é verdade.
Viajar abre horizontes, está escrito nos livros, mas essa sempre foi uma teoria que nunca pus em prática, e nunca me senti mais fechado por causa disso, mas este Verão decidi mandar às urtigas o “vá para fora cá dentro” e mudei-me de armas e bagagens para Barcelona durante uns dias. Férias, verdadeiras férias, longe de tudo o que fosse vagamente parecido com uma cara conhecida, para refrescar corpo e alma, rumo a um novo ano de trabalho.
De regresso a Portugal, é tempo de balanço. Para começar, Barcelona é uma cidade surpreendente, ainda mais para quem nunca tinha posto os pés no estrangeiro, por isso que me perdoem os mais viajados se o que vão ler lhes parecer demasiado ingénuo. Há gente de todo o lado e por todo o lado, numa espécie de caos semi-organizado que alcança o expoente máximo na fantástica Rambla, uma imensa rua onde se pode encontrar de tudo à venda mas também apreciar a arte de estátuas vivas, de pintores que talvez um dia sejam famosos, ver um espectáculo de breakdance, passear de carroça ou de bicicleta enquanto se corre o risco de nos cruzarmos com uma qualquer estrela do desporto ou do espectáculo.
Uns quilómetros mais acima, a Avenida Diagonal, com 13km de comprimento (sim, leu bem, é uma avenida com TREZE quilómetros…), faz La Rambla parecer pequena, mas justifica o tamanho com a imensidão de lojas das marcas mais exclusivas do mundo e com a concentração de multinacionais e bancos. E com um pormenor: está cheia de árvores em toda a sua extensão, para suavizar os efeitos do trânsito intenso, com quatro faixas de rodagem para cada lado… é maior que a nossa via rápida, só para se ter uma ideia. Na montra de uma ourivesaria, a título de exemplo, estavam expostos relógios de 20 mil euros, e para se entrar era preciso tocar à campainha, para termos o prazer de ver um funcionário impecavelmente vestido e barbeado a abrir-nos a porta com um enorme sorriso, mesmo que estivéssemos de t-shirt e chinelos…
O principal, no entanto, foi mesmo ver a organização com que o turismo funciona. No aeroporto, perguntámos qual a melhor forma de chegar ao hotel, e em dois segundos estava um mapa aberto no balcão, com a indicação do autocarro e do metro a tomar. Quinze minutos e cinco euros depois, já estava a desfazer a mala, não sem antes ter visto a construção mais assombrosa da minha vida: começada a construir ainda no século XIX e ainda em obras, a Catedral da Sagrada Família desafia a imaginação do mundo, que a olha deslumbrado e esmagado pela imponência das suas torres com cem metros de altura. Para lá entrar, são oito euros, mais dois para andar no elevador que nos coloca lá em cima, depois de hora e meia na fila…
Tudo se paga em Barcelona, e só no Castelo de Montjuic nos deixam passar a muralha de borla, pois lá dentro há um museu militar com direito a bilheteira. Truque: antes de começar as visitas, comprar um bilhete para andar no autocarro turístico. O dinheiro que custa foi recuperado com os mais de cem descontos que oferecia nos sítios mais variados, desde o McDonalds ao Museu Picasso. Um exemplo de organização e entendimento entre as diversas entidades envolvidas. Em Barcelona, tal como em Angra, há muito Património Mundial, mas é rentabilizado, e ao entrar no referido castelo confesso que fiquei a perceber bem as vantagens de retirar a tropa do nosso quartel, transformando-o num pólo de atracção e – porque não – lucro turístico. As próprias igrejas têm todas lampadários electrónicos, em que se coloca uma moeda e acende uma luz a fazer de vela…
Falar de Barcelona e não falar de Antoni Gaudí é impossível, pois o seu trabalho está por todo o lado. Para quem não sabe, trata-se do arquitecto responsável pela catedral que já referi e por mais uma série de construções simplesmente impossíveis de descrever. São estranhas à vista, e fazem-nos ver que a fronteira entre ser génio ou ser louco é mesmo muito estreita, mas as pessoas fazem bicha para entrar, e pagam bem por isso. A casa Millá, só por si, vale a visita, mas se puder ir também à Casa Battló, ao Parque Guell e dar uma volta no tal autocarro, já valeu a visita.
É claro que comparar Angra com Barcelona vai quase dar ao mesmo que tentar enfiar a igreja na sacristia, mas salvaguardando as devidas distâncias dá para tirar umas ideias. Na capital da Catalunha convive o turismo de massas com o de “gente rica”, cruzando-se ambos na rua, e comem todos na mesma esplanada, numa mistura que permite, por exemplo, ver duas loiras com ar sueco a comer uma paella na mesa ao lado de dois paquistaneses de turbante, deliciados com tapas à espanhola e cerveja alemã. Uma cidade do mundo…
E para cá, que ideias se podem trazer? Muitas, a começar pela organização da oferta, que está a dar entre nós os primeiros passos. Quando essa parte estiver feita, o resto das ideias vem por si…
PS – Só para começar a organização: e que tal alguém tentar explicar-me porque razão a TAP me pediu 400 euros por um bilhete de ida e volta no voo directo para o Porto, tendo eu conseguido o mesmo bilhete dias depois por 250 euros? Não dá para acreditar, mas é verdade.
52 - A filha do Rendimento
Houve quem chorasse a ler isto. A realidade nua e crua, que mexeu comigo e com outros colegas professores.
Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro. Linda na sua beleza triste, como a conheci há seis anos quando me entrou, atrasada e decotada, na sala de aula. Tinha então 13, 14 anos, por aí. Era o tipo de rapariga que põe os rapazes nervosos e os professores de sobreaviso, pois tinha o atrevimento de quem cresceu entre mulheres feitas e experientes. A roupa limpa mas gasta e fora de moda denunciava as origens sociais, de um bairro qualquer ao qual quiseram um dia deixar de chamar “social”. Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro, com um bebé ao colo.
Não parei, mas abrandei. Ela não me viu, mas eu vi-lhe nos olhos a mesma beleza triste de que me recordava quando me vinha mostrar os desenhos que fazia nas minhas pobres aulas de Educação Visual. Está bonito, dizia eu na minha piedade mentirosa de quem queria elevar a auto-estima de quem não sabia o que isso era, e ela voltava feliz para o seu lugar, para retocar qualquer coisa e fazer ainda melhor enquanto mordia a língua e olhava de vez em quando pela janela fora.
Não demorei a perceber quem era, nem a entender que era um mais do que certo caso perdido de abandono escolar. Elas são todas iguais naquelas idades, querem ser maiores do que realmente são, e quando têm um palminho de cara capaz de atrair os rapazes mais velhos tudo piora, até porque a pobreza e a riqueza têm o condão de se reproduzir sem se misturarem uma com a outra. É o fado da sociedade, e é na escola que ele começa a ser escrito… O que se previa em Outubro aconteceu em Fevereiro ou Março, já não sei bem, mas o certo é que já não chegou ao fim do ano, apesar de por mais uma vez se ter falado que tinha de continuar na escola, se não já não recebiam o rendimento mínimo em casa. De nada valeu, e soube-se depois que a paga em casa tinha sido dada em nódoas negras.
Até sexta-feira, nunca mais a tinha visto, e chocou-me aquele bebé ao colo de quem ainda não devia sequer pensado em ser mãe. A imagem não me saiu da cabeça, e não demorei mais de três horas para saber que era ainda pior do que eu pensava, tinha engravidado de um namorado que a convencera com o argumento de que assim era mais fácil arranjarem um dinheirinho extra do governo, pois o emprego estava difícil para quem não tinha sequer o 9º ano. Não confirmei a história com uma segunda opinião, mas também não tinha razões para o fazer.
Disseram-me que era uma menina, e que tinha os olhos da mãe. Talvez daqui a uma dúzia de anos eu volte a ver entrar numa sala de aulas aqueles olhos de beleza triste que nunca esqueci. Na ficha de aluno escreverá o nome da mãe e do pai, mas eu saberei sempre que é uma filha do Rendimento. E vou sorrir-lhe e fazer o melhor que puder para evitar que a história se repita. Deus me ajude. E à mãe, coitada, que bem precisa…
Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro. Linda na sua beleza triste, como a conheci há seis anos quando me entrou, atrasada e decotada, na sala de aula. Tinha então 13, 14 anos, por aí. Era o tipo de rapariga que põe os rapazes nervosos e os professores de sobreaviso, pois tinha o atrevimento de quem cresceu entre mulheres feitas e experientes. A roupa limpa mas gasta e fora de moda denunciava as origens sociais, de um bairro qualquer ao qual quiseram um dia deixar de chamar “social”. Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro, com um bebé ao colo.
Não parei, mas abrandei. Ela não me viu, mas eu vi-lhe nos olhos a mesma beleza triste de que me recordava quando me vinha mostrar os desenhos que fazia nas minhas pobres aulas de Educação Visual. Está bonito, dizia eu na minha piedade mentirosa de quem queria elevar a auto-estima de quem não sabia o que isso era, e ela voltava feliz para o seu lugar, para retocar qualquer coisa e fazer ainda melhor enquanto mordia a língua e olhava de vez em quando pela janela fora.
Não demorei a perceber quem era, nem a entender que era um mais do que certo caso perdido de abandono escolar. Elas são todas iguais naquelas idades, querem ser maiores do que realmente são, e quando têm um palminho de cara capaz de atrair os rapazes mais velhos tudo piora, até porque a pobreza e a riqueza têm o condão de se reproduzir sem se misturarem uma com a outra. É o fado da sociedade, e é na escola que ele começa a ser escrito… O que se previa em Outubro aconteceu em Fevereiro ou Março, já não sei bem, mas o certo é que já não chegou ao fim do ano, apesar de por mais uma vez se ter falado que tinha de continuar na escola, se não já não recebiam o rendimento mínimo em casa. De nada valeu, e soube-se depois que a paga em casa tinha sido dada em nódoas negras.
Até sexta-feira, nunca mais a tinha visto, e chocou-me aquele bebé ao colo de quem ainda não devia sequer pensado em ser mãe. A imagem não me saiu da cabeça, e não demorei mais de três horas para saber que era ainda pior do que eu pensava, tinha engravidado de um namorado que a convencera com o argumento de que assim era mais fácil arranjarem um dinheirinho extra do governo, pois o emprego estava difícil para quem não tinha sequer o 9º ano. Não confirmei a história com uma segunda opinião, mas também não tinha razões para o fazer.
Disseram-me que era uma menina, e que tinha os olhos da mãe. Talvez daqui a uma dúzia de anos eu volte a ver entrar numa sala de aulas aqueles olhos de beleza triste que nunca esqueci. Na ficha de aluno escreverá o nome da mãe e do pai, mas eu saberei sempre que é uma filha do Rendimento. E vou sorrir-lhe e fazer o melhor que puder para evitar que a história se repita. Deus me ajude. E à mãe, coitada, que bem precisa…
51 - Será que os toiros falam micaelense?

Numa bela madrugada, em pleno aeroporto micaelense, dei de caras com uma t-shirt que me deixou os cabelos em pé...
Não me canso de ir a São Miguel, é a minha segunda ilha e foi lá que passei um sexto da minha vida, o que só por si já seria significativo, mas o facto é que gosto mesmo daquele sítio. O problema é que à medida que vamos ficando mais velhos vamos também ficando mais despertos para certas coisas, certas realidades que por vezes ultrapassam a mais imaginativa das ficções.
Não me vou pôr agora aqui a chorar sobre o poder e o dinheiro que lá existe e cá não, pois está mais que visto que isso é perder tempo. A maior parte dos habitantes dos Açores é micaelense, o que quer dizer que é lá que se ganham ou perdem eleições, por isso está tudo dito. E não tenhamos dúvidas: atrás de uma coisa vem outra, e é por haver tanta gente que há tanto dinheiro à solta em Ponta Delgada e arredores, pois fora desse grande centro tudo o resto é à dimensão do resto do arquipélago.
Temos assistido nos últimos tempos a uma enorme discussão sobre os fluxos turísticos rumo à Terceira e sobre aquilo que há para atrair visitantes e – principalmente – mantê-los durante uns dias na Ilha Lilás. Existe de facto muito que fazer por cá, mas é necessário organizar as coisas de maneira a que a oferta seja clara e objectiva, propondo aos turistas um leque de actividades capaz de os fazer sentir apoiados e de os levar a compreender o que estão a fazer e o contexto em que estão envolvidos.
Nos últimos tempos, por razões que são só minhas, tenho mostrado a ilha e o que ela tem de melhor a alguém que não a conhece. A reacção é sempre de surpresa e agrado, à mistura com grande curiosidade sobre os quês e os porquês das coisas, e já ouvi mais do que uma vez essa pessoa dizer que “no continente ninguém faz ideia do que isto é”. Pelo meio, tive a sorte de encontrar numa tourada (onde mais?) um casal holandês que caiu lá de pára-quedas e estava muito admirado por ser tão bem recebido numa casa de gente que não os conhecia de lado nenhum. O voluntário à força para lhes explicar as coisas fui eu, pois mais ninguém falava inglês, e uma das coisas que me fez soar as campainhas de alarme foi o facto de me dizerem que tinham decidido aproveitar a passagem pela Terceira a caminho de São Miguel, because in Holland the only information we have is about the other island, the capital of the Azores. Ou seja, a informação que tinham era toda sobre a “capital”… Enfim, da tourada eles gostaram, agradeceram muito a atenção e as cervejas, e lá seguiram o seu caminho. Para trás fiquei eu e a minha “turista”, que fazia também a sua estreia nas touradas, e até já levou um DVD de marradas para mostrar à família, que parece ter gostado (ai não!).
Com tudo isto, veio-me à memória uma conversa tida em São Miguel há coisa de um mês, com um amigo agente de viagens, que me disse que a nossa sorte era não haver lá touradas, porque se não então é que não tínhamos hipóteses. Ainda me ri e disse-lhe que isso era o que eles queriam, e a conversa ficou mesmo assim, mas no dia seguinte, às sete da manhã, estava no aeroporto, sem pinga de sangue, a tirar a fotografia que acompanha este artigo, uma t-shirt na montra da loja de produtos regionais. Como uma imagem vale mais do que ml palavras, só vos digo que olhem para ela com atenção, e talvez aí percebam o porquê de eu ter entrado no avião a dar graças ao Espírito Santo por não haver touradas em São Miguel. É preciso ter lata!
Não me vou pôr agora aqui a chorar sobre o poder e o dinheiro que lá existe e cá não, pois está mais que visto que isso é perder tempo. A maior parte dos habitantes dos Açores é micaelense, o que quer dizer que é lá que se ganham ou perdem eleições, por isso está tudo dito. E não tenhamos dúvidas: atrás de uma coisa vem outra, e é por haver tanta gente que há tanto dinheiro à solta em Ponta Delgada e arredores, pois fora desse grande centro tudo o resto é à dimensão do resto do arquipélago.
Temos assistido nos últimos tempos a uma enorme discussão sobre os fluxos turísticos rumo à Terceira e sobre aquilo que há para atrair visitantes e – principalmente – mantê-los durante uns dias na Ilha Lilás. Existe de facto muito que fazer por cá, mas é necessário organizar as coisas de maneira a que a oferta seja clara e objectiva, propondo aos turistas um leque de actividades capaz de os fazer sentir apoiados e de os levar a compreender o que estão a fazer e o contexto em que estão envolvidos.
Nos últimos tempos, por razões que são só minhas, tenho mostrado a ilha e o que ela tem de melhor a alguém que não a conhece. A reacção é sempre de surpresa e agrado, à mistura com grande curiosidade sobre os quês e os porquês das coisas, e já ouvi mais do que uma vez essa pessoa dizer que “no continente ninguém faz ideia do que isto é”. Pelo meio, tive a sorte de encontrar numa tourada (onde mais?) um casal holandês que caiu lá de pára-quedas e estava muito admirado por ser tão bem recebido numa casa de gente que não os conhecia de lado nenhum. O voluntário à força para lhes explicar as coisas fui eu, pois mais ninguém falava inglês, e uma das coisas que me fez soar as campainhas de alarme foi o facto de me dizerem que tinham decidido aproveitar a passagem pela Terceira a caminho de São Miguel, because in Holland the only information we have is about the other island, the capital of the Azores. Ou seja, a informação que tinham era toda sobre a “capital”… Enfim, da tourada eles gostaram, agradeceram muito a atenção e as cervejas, e lá seguiram o seu caminho. Para trás fiquei eu e a minha “turista”, que fazia também a sua estreia nas touradas, e até já levou um DVD de marradas para mostrar à família, que parece ter gostado (ai não!).
Com tudo isto, veio-me à memória uma conversa tida em São Miguel há coisa de um mês, com um amigo agente de viagens, que me disse que a nossa sorte era não haver lá touradas, porque se não então é que não tínhamos hipóteses. Ainda me ri e disse-lhe que isso era o que eles queriam, e a conversa ficou mesmo assim, mas no dia seguinte, às sete da manhã, estava no aeroporto, sem pinga de sangue, a tirar a fotografia que acompanha este artigo, uma t-shirt na montra da loja de produtos regionais. Como uma imagem vale mais do que ml palavras, só vos digo que olhem para ela com atenção, e talvez aí percebam o porquê de eu ter entrado no avião a dar graças ao Espírito Santo por não haver touradas em São Miguel. É preciso ter lata!
50 - Incompetência ou falta de respeito?
Esta foi a primeira crónica a ser publicada no Diário Insular. Saí de A União porque o director achou que eu não valia o dinheiro que pedia para trabalhar (as crónicas faço de graça), e mudei-me para onde senti que as minhas capacidades eram valorizadas. Quase dois anos depois, sei que tomei a opção certa.
Sou um passageiro relativamente frequente da SATA. As minhas duas centenas de viagens ao longo dos últimos 13 anos falam por mim quanto à experiência como passageiro, e ao longo de todo este tempo já fui por várias vezes vítima do monopólio das ligações inter-ilhas, que acaba por eliminar a necessidade de se tratar os passageiros como pessoas. Já fui tratado como gado, já fui pura e simplesmente ignorado, a minha bagagem já foi ao Porto em vez de ir para as Flores, e por aí fora, mas uma falta de respeito por um passageiro como presenciei no passado domingo é coisa que nunca tinha visto.
Para não complicar, a história é esta: ao vermos a enorme fila para cumprir o ritual do raio-x no aeroporto de Ponta Delgada, eu e o meu companheiro de viagem fomo-nos deixando ficar à porta para aproveitar os últimos momentos com os amigos, e quando finalmente vimos que a hora se aproximava entrámos e pusemo-nos na fila. O passageiro imediatamente à minha frente, meu amigo pessoal, estava ali há uns bons 15 minutos, tinha sido o último a chegar, e ainda estivemos cerca de 5 minutos na conversa até chegar a nossa vez. Ele teve de tirar o computador para fora, eu passei sem problemas, e o meu colega foi parado na “revista”.
Enquanto ele abria a mochila, fui em frente e embarquei com o tal amigo, nem reparando que estávamos sozinhos, pois a revista demorou mais do que o previsto. Já no avião, estranhei a demora de dois ou três minutos, tempo durante o qual fui conversando com a assistente de bordo, também minha conhecida. Neste entretanto, fizeram a contagem e deram pela falta de uma cabeça. Antes que me manifestasse, a outra senhora disparou pelo corredor fora para confirmar o nome, altura em que informei a assistente de bordo com quem conversava de que o passageiro em falta viajava comigo e estava retido no raio-x. Nem trinta segundos depois, a outra senhora voltou e ordenou que a porta fosse fechada, “pois falta um sem bagagem”.
Protestei de imediato, mas obtive como resposta uma coisa do tipo “já estamos doze minutos atrasados”. Continuei a protestar e disparei logo que já tinha esperado muitas vezes horas pelos aviões atrasados e estava ali à mesma, ao que obtive como resposta um seco “os passageiros têm que estar na sala de embarque trinta minutos antes”. “Vá vender essa a quem não saiba o que é andar na SATA!” – foi a minha resposta, perante o espanto dos passageiros à volta face ao insólito da situação. De nada valeu. A porta fechou-se, os motores arrancaram, e eu calei-me por respeito aos outros passageiros, pois percebi que estava a falar com duas paredes e não tinha comigo um martelo.
Entretanto, no raio-x, a mesma mochila que na Terceira foi considerada inofensiva passou a ser vista como potencial ameaça terrorista por causa de um perfume e de uma pasta de dentes, que obrigaram a uma rápida viagem ao quiosque para comprar um saco de 60 cêntimos (ninguém controla esta exploração vergonhosa?), que foi colocado depois mesmo ao lado da bolsa onde estavam anteriormente os referidos produtos. Se fosse para mandar abaixo o avião, o resultado prático era o mesmo, não sei se estão a ver bem a diferença entre uma bolsa com fecho de braguilha e um saco de plástico… Sem perder tempo, o meu colega dirigiu-se à porta de embarque ainda a tempo de ver a escada a ser retirada do avião, e ficou em terra mais quatro horas. Por sorte, havia lugar no voo da noite, mas e se não houvesse?
Se ainda sou capaz de entender as preocupações com a segurança, e sou capaz de aceitar que mais valia ter entrado cinco minutos mais cedo (o resultado era o mesmo, pois a fila estava a passo de caracol devido ao embarque simultâneo para Lisboa), já não aceito a arrogância e a prepotência de quem estava a bordo. A triste e óbvia conclusão é que o meu colega foi desprezado por não ter bagagem, pois se tivesse seriam obrigados a retirá-la do porão, o que teria dado tempo e mais do que tempo para que ele chegasse. E quanto ao atraso de doze minutos, quem nunca esperou pelo menos meia-hora por um avião que se atrasou porque alguém estava na casa de banho levante a mão, por favor…
O Dr. Cansado bem pode escrever na revista de bordo que está muito empenhado na satisfação dos passageiros, que eu fico cansado só de o ler. Os seus próprios funcionários (alguns, pois também conheço muitos que considero profissionais na verdadeira acepção da palavra) é que não devem ler da mesma cartilha. Incompetência ou desrespeito, cada um tire as suas conclusões.
Quanto a mim, aprendi mais uma coisa nesta viagem: mais vale enviar um fardo de palha na bagagem do que ir de mãos vazias… é que nunca se sabe quando pode vir a dar jeito!
Nota: Como o leitor pode ver, o Eterno Estudante está de volta, depois de uns meses de descanso. A casa é outra, mas o espírito mantém-se. Até já.
Sou um passageiro relativamente frequente da SATA. As minhas duas centenas de viagens ao longo dos últimos 13 anos falam por mim quanto à experiência como passageiro, e ao longo de todo este tempo já fui por várias vezes vítima do monopólio das ligações inter-ilhas, que acaba por eliminar a necessidade de se tratar os passageiros como pessoas. Já fui tratado como gado, já fui pura e simplesmente ignorado, a minha bagagem já foi ao Porto em vez de ir para as Flores, e por aí fora, mas uma falta de respeito por um passageiro como presenciei no passado domingo é coisa que nunca tinha visto.
Para não complicar, a história é esta: ao vermos a enorme fila para cumprir o ritual do raio-x no aeroporto de Ponta Delgada, eu e o meu companheiro de viagem fomo-nos deixando ficar à porta para aproveitar os últimos momentos com os amigos, e quando finalmente vimos que a hora se aproximava entrámos e pusemo-nos na fila. O passageiro imediatamente à minha frente, meu amigo pessoal, estava ali há uns bons 15 minutos, tinha sido o último a chegar, e ainda estivemos cerca de 5 minutos na conversa até chegar a nossa vez. Ele teve de tirar o computador para fora, eu passei sem problemas, e o meu colega foi parado na “revista”.
Enquanto ele abria a mochila, fui em frente e embarquei com o tal amigo, nem reparando que estávamos sozinhos, pois a revista demorou mais do que o previsto. Já no avião, estranhei a demora de dois ou três minutos, tempo durante o qual fui conversando com a assistente de bordo, também minha conhecida. Neste entretanto, fizeram a contagem e deram pela falta de uma cabeça. Antes que me manifestasse, a outra senhora disparou pelo corredor fora para confirmar o nome, altura em que informei a assistente de bordo com quem conversava de que o passageiro em falta viajava comigo e estava retido no raio-x. Nem trinta segundos depois, a outra senhora voltou e ordenou que a porta fosse fechada, “pois falta um sem bagagem”.
Protestei de imediato, mas obtive como resposta uma coisa do tipo “já estamos doze minutos atrasados”. Continuei a protestar e disparei logo que já tinha esperado muitas vezes horas pelos aviões atrasados e estava ali à mesma, ao que obtive como resposta um seco “os passageiros têm que estar na sala de embarque trinta minutos antes”. “Vá vender essa a quem não saiba o que é andar na SATA!” – foi a minha resposta, perante o espanto dos passageiros à volta face ao insólito da situação. De nada valeu. A porta fechou-se, os motores arrancaram, e eu calei-me por respeito aos outros passageiros, pois percebi que estava a falar com duas paredes e não tinha comigo um martelo.
Entretanto, no raio-x, a mesma mochila que na Terceira foi considerada inofensiva passou a ser vista como potencial ameaça terrorista por causa de um perfume e de uma pasta de dentes, que obrigaram a uma rápida viagem ao quiosque para comprar um saco de 60 cêntimos (ninguém controla esta exploração vergonhosa?), que foi colocado depois mesmo ao lado da bolsa onde estavam anteriormente os referidos produtos. Se fosse para mandar abaixo o avião, o resultado prático era o mesmo, não sei se estão a ver bem a diferença entre uma bolsa com fecho de braguilha e um saco de plástico… Sem perder tempo, o meu colega dirigiu-se à porta de embarque ainda a tempo de ver a escada a ser retirada do avião, e ficou em terra mais quatro horas. Por sorte, havia lugar no voo da noite, mas e se não houvesse?
Se ainda sou capaz de entender as preocupações com a segurança, e sou capaz de aceitar que mais valia ter entrado cinco minutos mais cedo (o resultado era o mesmo, pois a fila estava a passo de caracol devido ao embarque simultâneo para Lisboa), já não aceito a arrogância e a prepotência de quem estava a bordo. A triste e óbvia conclusão é que o meu colega foi desprezado por não ter bagagem, pois se tivesse seriam obrigados a retirá-la do porão, o que teria dado tempo e mais do que tempo para que ele chegasse. E quanto ao atraso de doze minutos, quem nunca esperou pelo menos meia-hora por um avião que se atrasou porque alguém estava na casa de banho levante a mão, por favor…
O Dr. Cansado bem pode escrever na revista de bordo que está muito empenhado na satisfação dos passageiros, que eu fico cansado só de o ler. Os seus próprios funcionários (alguns, pois também conheço muitos que considero profissionais na verdadeira acepção da palavra) é que não devem ler da mesma cartilha. Incompetência ou desrespeito, cada um tire as suas conclusões.
Quanto a mim, aprendi mais uma coisa nesta viagem: mais vale enviar um fardo de palha na bagagem do que ir de mãos vazias… é que nunca se sabe quando pode vir a dar jeito!
Nota: Como o leitor pode ver, o Eterno Estudante está de volta, depois de uns meses de descanso. A casa é outra, mas o espírito mantém-se. Até já.
49 - Quatro dias de molho
Ficar em casa com gripe é das coisas piores que já me aconteceram. O tempo arrasta-se, e o espírito divaga...
Já não sei mais para onde olhar. A televisão parece feia e já nem as dezenas de canais do cabo me parecem satisfazer. Ler seria uma solução, mas agora não me apetece. Estou fora de combate há quatro dias, e estou irritado comigo mesmo. O pior é que nem sei bem porquê. Não tive a culpa de ter ficado doente, e sei bem que o facto de ter passado as últimas duas semanas em salas de aula que eram autênticos viveiros de gripe deve ter ajudado à festa, mas que diabo! Desde 1999 que não ficava de cama um dia que fosse, quanto mais quatro!
Quinta-feira à noite a coisa já não estava lá muito bem, mas lá me aguentei na sexta, apesar de não conseguir falar nem muito alto nem durante muito tempo. Numa aula de sétimo ano, são dois problemas de uma só vez. O plano era fechar-me de vez à noite para ver se o fim-de-semana não ficava estragado, mas não resultou: um telefonema tirou-me de casa, pois uma delegação florentina estava à minha espera na Praia, e por aquele pessoal eu vou longe. Rever antigos colegas e alunos que são actuais e eternos amigos é coisa que faço mesmo à custa de outras coisas, e assim foi.
Resultado: sábado fora de combate, domingo completamente KO, segunda-feira com perspectivas de recuperação para ir trabalhar na terça, e na terça a desilusão de cair na realidade e perceber que se saísse de casa com aquele tempo estaria a jogar à roleta russa com as gripes mal curadas, e na quarta era imprescindível estar em condições para sair de casa. Pela primeira vez em seis anos de trabalho, faltei dois dias por doença, e quem me conhece sabe que isso me custa muito. Valha a verdade que tive a possibilidade de fazer uma coisa que me dá muito prazer: dormir. Posso não fazer muitas coisas bem nesta vida (gosto de pensar o contrário, atenção!), mas dormir não é uma delas.
Lá fora, a chuva cai sem parar. Domingo choveu, segunda choveu, hoje chove… e eu em casa a ver chover. É enervante e reconfortante ao mesmo tempo, mas saber que tinha as coisas prontas para trabalhar estes dois dias e acabei por perder aquilo que tinha preparado é algo que não tem classificação. Também não tenho telefone, é verdade, e o adsl funciona durante tanto tempo quanto o sol aparece, cortesia da nossa companhia dos telefones. A água de domingo mexeu com os fios, e só na quarta vem cá um técnico ver o que se passa. No escritório, o monitor do computador funcionou no primeiro dia e nunca mais se quis ligar. Ainda estou à espera da assistência me ligar.
E pronto, como não tinha mais que fazer sentei-me ao computador e saiu mais uma coisa parecida com uma crónica. Não está grande coisa, é verdade, mas é que ainda estou meio rouco, por isso não se percebe muito bem…
Já não sei mais para onde olhar. A televisão parece feia e já nem as dezenas de canais do cabo me parecem satisfazer. Ler seria uma solução, mas agora não me apetece. Estou fora de combate há quatro dias, e estou irritado comigo mesmo. O pior é que nem sei bem porquê. Não tive a culpa de ter ficado doente, e sei bem que o facto de ter passado as últimas duas semanas em salas de aula que eram autênticos viveiros de gripe deve ter ajudado à festa, mas que diabo! Desde 1999 que não ficava de cama um dia que fosse, quanto mais quatro!
Quinta-feira à noite a coisa já não estava lá muito bem, mas lá me aguentei na sexta, apesar de não conseguir falar nem muito alto nem durante muito tempo. Numa aula de sétimo ano, são dois problemas de uma só vez. O plano era fechar-me de vez à noite para ver se o fim-de-semana não ficava estragado, mas não resultou: um telefonema tirou-me de casa, pois uma delegação florentina estava à minha espera na Praia, e por aquele pessoal eu vou longe. Rever antigos colegas e alunos que são actuais e eternos amigos é coisa que faço mesmo à custa de outras coisas, e assim foi.
Resultado: sábado fora de combate, domingo completamente KO, segunda-feira com perspectivas de recuperação para ir trabalhar na terça, e na terça a desilusão de cair na realidade e perceber que se saísse de casa com aquele tempo estaria a jogar à roleta russa com as gripes mal curadas, e na quarta era imprescindível estar em condições para sair de casa. Pela primeira vez em seis anos de trabalho, faltei dois dias por doença, e quem me conhece sabe que isso me custa muito. Valha a verdade que tive a possibilidade de fazer uma coisa que me dá muito prazer: dormir. Posso não fazer muitas coisas bem nesta vida (gosto de pensar o contrário, atenção!), mas dormir não é uma delas.
Lá fora, a chuva cai sem parar. Domingo choveu, segunda choveu, hoje chove… e eu em casa a ver chover. É enervante e reconfortante ao mesmo tempo, mas saber que tinha as coisas prontas para trabalhar estes dois dias e acabei por perder aquilo que tinha preparado é algo que não tem classificação. Também não tenho telefone, é verdade, e o adsl funciona durante tanto tempo quanto o sol aparece, cortesia da nossa companhia dos telefones. A água de domingo mexeu com os fios, e só na quarta vem cá um técnico ver o que se passa. No escritório, o monitor do computador funcionou no primeiro dia e nunca mais se quis ligar. Ainda estou à espera da assistência me ligar.
E pronto, como não tinha mais que fazer sentei-me ao computador e saiu mais uma coisa parecida com uma crónica. Não está grande coisa, é verdade, mas é que ainda estou meio rouco, por isso não se percebe muito bem…
48 - O Gato Mia
Um restaurante com um nome estranho, mas um serviço impecável e uma comida de chorar por mais. Fica em São Miguel, e já lá voltei para confirmar. Estava ainda melhor!
Cada vez que saio da Terceira regresso com uma ou outra visão diferente de algumas coisas que por cá se passam, seja em que aspecto for. Há quase um mês fui a São Miguel, e voltei meio pasmado com um “pequeno” pormenor, que me deu muito que pensar: a vida nocturna. É impressionante o salto que Ponta Delgada deu a este nível, arrastando atrás de si pelo menos os concelhos limítrofes e proporcionando aos seus habitantes espaços em quantidade e qualidade para que o cliente possa optar, diversificando a oferta e estimulando a procura.
Há onze anos, quando fui apresentado à “capital”, só os fantasmas circulavam à noite pelas ruas de Ponta Delgada. Era o Cantinho dos Anjos para a malta nova, o Calema para os mais velhos, o Xantarix e o John’s Pub para quem tinha dinheiro, e duas discotecas para quem quisesse. E havia, claro, o bar da universidade, com o seu ambiente muito próprio. Hoje, abstenho-me de enumerar a imensidão de portas abertas à espera de quem quiser entrar, algumas delas com um porteiro a fazer de peneira. Respira-se vida, confiança e – até! – segurança em Ponta Delgada. Fico feliz por isso. E na Terceira?
Há vida, certamente, mas a confiança e a segurança estão nitidamente em declínio. De segurança nem falo, pois não vale a pena repetir o que outros já disseram, mas a nossa confiança está mesmo pelas ruas da amargura. À noite, quem quer sair em Angra não tem muito por onde se virar, e é certo e sabido que vai encontrar multidões nos sítios para onde for. Não cabe mais uma sardinha, mas lá se arranja forma de esticar a lata… Na Praia as coisas estão um pouco melhores, mas nem por isso a lata estica menos, até porque são muitos os angrenses que para lá emigram a partir da meia-noite.
Deixemos por agora de parte o verbo “Haver”. Quem ouviu a reportagem da Antena 1 sobre o “estado de alma” da Terceira não pode ter deixado de ficar à beira de uma depressão. A economia até pode não dar todos os sinais de estar deprimida, mas para lá caminha. Os números em relação ao turismo são avassaladores (estamos a levar uma tareia monstra, para quem não sabe), andamos com as tetas das vacas na mão à procura de mais quota leiteira, temos uma universidade que parou no tempo e que para muitos nunca chegou bem a ser uma universidade, os nossos patrões não estimulam os empregados, os empregados não têm vontade de trabalhar, e por aí fora. O poder, disse Cunha de Oliveira, nunca devia ter ficado em São Miguel, pois lá não têm a noção de arquipélago. É verdade que sim, mas quem “deixou” que isso acontecesse não fui eu, foi ele e os outros do seu tempo que não souberam ou não quiseram impor-se. O nosso pensador diz que é preciso uma nova autonomia. Talvez sim.
Mas o que tem isto a ver com a noite? Tudo. A aposta na noite é um reflexo da confiança que se tem no dia, e a pobreza que por cá se verifica tem raízes, como se disse no referido programa, na pobreza e no marasmo político em que a Terceira caiu. Faltam líderes, disse-se, e bem. Faltam líderes de pensamento mas, sobretudo, de acção. Falta agir em defesa dos interesses da Terceira e dos terceirenses, falta valorizar aquilo que é nosso, dar-lhe um verdadeiro impulso, dar um puxão de orelhas à Sata (quando se escreve Sata o computador corrige automaticamente para Satã! Há coincidências felizes…) que desequilibra o arquipélago, falta provar e dizer alto e bom som que Angra é, em todos os sentidos, a capital da boa vida, não é só nas t-shirts.
Na tal viagem a São Miguel, fui jantar à Ribeira Grande com os meus sócios e amigos. Era, para todos, a estreia no restaurante “O Gato Mia”. Um nome estranho, que nos tinham dito esconder uma cozinha de mão cheia. Não nos enganaram. Das entradas à sobremesa, passando pelo atendimento, saí de lá cliente, mas foi o aperitivo que me deixou de boca aberta. Mal nos sentámos, à nossa frente nasceram copos de pé alto, para os quais jorrou de imediato o “aperitivo da casa”. “É muito bom, senhor, prove que vai gostar. É vinho verdelho da Ilha Terceira”. Verdelho dos Biscoitos dado a provar num restaurante em São Miguel! Percebem onde quero chegar?
Por cá nem somos capazes de ter uma garrafinha aberta para os turistas, quanto mais para os locais. Podemos queixar-nos o quanto quisermos que eles comem tudo e não deixam nada, mas parece-me bem que para começar temos de ser nós a proteger melhor o nosso prato. O Gato Mia, mas é em São Miguel…
Cada vez que saio da Terceira regresso com uma ou outra visão diferente de algumas coisas que por cá se passam, seja em que aspecto for. Há quase um mês fui a São Miguel, e voltei meio pasmado com um “pequeno” pormenor, que me deu muito que pensar: a vida nocturna. É impressionante o salto que Ponta Delgada deu a este nível, arrastando atrás de si pelo menos os concelhos limítrofes e proporcionando aos seus habitantes espaços em quantidade e qualidade para que o cliente possa optar, diversificando a oferta e estimulando a procura.
Há onze anos, quando fui apresentado à “capital”, só os fantasmas circulavam à noite pelas ruas de Ponta Delgada. Era o Cantinho dos Anjos para a malta nova, o Calema para os mais velhos, o Xantarix e o John’s Pub para quem tinha dinheiro, e duas discotecas para quem quisesse. E havia, claro, o bar da universidade, com o seu ambiente muito próprio. Hoje, abstenho-me de enumerar a imensidão de portas abertas à espera de quem quiser entrar, algumas delas com um porteiro a fazer de peneira. Respira-se vida, confiança e – até! – segurança em Ponta Delgada. Fico feliz por isso. E na Terceira?
Há vida, certamente, mas a confiança e a segurança estão nitidamente em declínio. De segurança nem falo, pois não vale a pena repetir o que outros já disseram, mas a nossa confiança está mesmo pelas ruas da amargura. À noite, quem quer sair em Angra não tem muito por onde se virar, e é certo e sabido que vai encontrar multidões nos sítios para onde for. Não cabe mais uma sardinha, mas lá se arranja forma de esticar a lata… Na Praia as coisas estão um pouco melhores, mas nem por isso a lata estica menos, até porque são muitos os angrenses que para lá emigram a partir da meia-noite.
Deixemos por agora de parte o verbo “Haver”. Quem ouviu a reportagem da Antena 1 sobre o “estado de alma” da Terceira não pode ter deixado de ficar à beira de uma depressão. A economia até pode não dar todos os sinais de estar deprimida, mas para lá caminha. Os números em relação ao turismo são avassaladores (estamos a levar uma tareia monstra, para quem não sabe), andamos com as tetas das vacas na mão à procura de mais quota leiteira, temos uma universidade que parou no tempo e que para muitos nunca chegou bem a ser uma universidade, os nossos patrões não estimulam os empregados, os empregados não têm vontade de trabalhar, e por aí fora. O poder, disse Cunha de Oliveira, nunca devia ter ficado em São Miguel, pois lá não têm a noção de arquipélago. É verdade que sim, mas quem “deixou” que isso acontecesse não fui eu, foi ele e os outros do seu tempo que não souberam ou não quiseram impor-se. O nosso pensador diz que é preciso uma nova autonomia. Talvez sim.
Mas o que tem isto a ver com a noite? Tudo. A aposta na noite é um reflexo da confiança que se tem no dia, e a pobreza que por cá se verifica tem raízes, como se disse no referido programa, na pobreza e no marasmo político em que a Terceira caiu. Faltam líderes, disse-se, e bem. Faltam líderes de pensamento mas, sobretudo, de acção. Falta agir em defesa dos interesses da Terceira e dos terceirenses, falta valorizar aquilo que é nosso, dar-lhe um verdadeiro impulso, dar um puxão de orelhas à Sata (quando se escreve Sata o computador corrige automaticamente para Satã! Há coincidências felizes…) que desequilibra o arquipélago, falta provar e dizer alto e bom som que Angra é, em todos os sentidos, a capital da boa vida, não é só nas t-shirts.
Na tal viagem a São Miguel, fui jantar à Ribeira Grande com os meus sócios e amigos. Era, para todos, a estreia no restaurante “O Gato Mia”. Um nome estranho, que nos tinham dito esconder uma cozinha de mão cheia. Não nos enganaram. Das entradas à sobremesa, passando pelo atendimento, saí de lá cliente, mas foi o aperitivo que me deixou de boca aberta. Mal nos sentámos, à nossa frente nasceram copos de pé alto, para os quais jorrou de imediato o “aperitivo da casa”. “É muito bom, senhor, prove que vai gostar. É vinho verdelho da Ilha Terceira”. Verdelho dos Biscoitos dado a provar num restaurante em São Miguel! Percebem onde quero chegar?
Por cá nem somos capazes de ter uma garrafinha aberta para os turistas, quanto mais para os locais. Podemos queixar-nos o quanto quisermos que eles comem tudo e não deixam nada, mas parece-me bem que para começar temos de ser nós a proteger melhor o nosso prato. O Gato Mia, mas é em São Miguel…
47 - Sonhos de infância
Ao Carlos Martins e ao Nuno Rosado, heróis açorianos no Lisboa-Dakar 2006.
Quando somos mais pequenos o céu é o limite da imaginação, e mesmo assim às vezes ainda conseguimos ir mais além, na simplicidade da nossa juventude. Não sei se Carlos Martins e Nuno Rosado tinham o Dakar como sonho de infância (provavelmente não…), mas o que esta dupla açoriana conseguiu é simplesmente notável e é um momento histórico para o automobilismo do nosso país. Fazer em casa um carro para enfrentar a mais dura das provas de todo-o-terreno e chegar ao fim logo à primeira tentativa sem problemas de maior é um enorme motivo de orgulho para todos nós e para a equipa, que levou nos carros um bocadinho de cada amigo, de cada açoriano que gosta destas “maluquices”. Todos nós, à nossa maneira, demos um empurrãozinho para superar as dunas da Mauritânia.
Agora, olhando para trás, é altura de recordar histórias antigas, que nos fazem pensar se realmente as coisas acontecem por acaso ou se alguém estará ocupado a tecer uma teia de relações e cruzamentos na nossa vida. Em 1998, foi a pretexto de uma prova organizada por Carlos Martins que escrevi a minha primeira reportagem de uma prova de automóveis, um todo-o-terreno com direito a dormida no Hotel Bahia Palace, no mesmo quarto de um jornalista do continente com uma preocupação extrema com o seu cabelo e com o ressonar do parceiro. Quase oito anos e muitos quilómetros de reportagens depois, tenho o prazer de lhe dar os parabéns pelo feito que acaba de alcançar, numa aventura que acompanhei com todo o interesse desde que foi tornada pública.
Quanto ao Nuno Rosado, a coisa vai mais atrás ainda. Conhecemo-nos superficialmente há uns quinze anos, mas pode dizer-se que nos iniciámos nestas coisas das competições mais ou menos ao mesmo tempo. A fotografia que acompanha este texto até pode não ser muito nítida, mas nela estão o Nuno Rosado (a sexta cabeça a contar da direita) e eu (o quarto a contar da esquerda), nos gloriosos tempos dos ralis de bicicleta que organizávamos com frequência na Terra-Chã e arredores. Na mesma foto estão outros dois homens das competições actuais: à minha esquerda Nuno Rocha (que em 2006 regressa aos ralis), e à esquerda do Rosado o Paulo Jesus (navegador de ralis e TT). E ainda lá estão mais quatro que já estiveram envolvidos nos ralis ou no TT. Está também um Amigo que já nos deixou, por infelicidade do destino, e que era também um apreciador do desporto automóvel. Ver o Nuno Rosado em cima do Land Rover a comemorar a chegada a Dakar tem, por isso, um significado especial para toda uma geração que cresceu junta e que mantém a paixão pelas coisas dos automóveis.
Com eles em cima do jipe estavam umas dezenas largas de amigos e conhecidos, que a esta hora estão orgulhosos do Nuno, do Carlos, do Leandro e do Vítor, a comitiva açoriana que deu corpo ao sonho. Os sonhos realizam-se. É preciso é dar-lhes asas.
Quando somos mais pequenos o céu é o limite da imaginação, e mesmo assim às vezes ainda conseguimos ir mais além, na simplicidade da nossa juventude. Não sei se Carlos Martins e Nuno Rosado tinham o Dakar como sonho de infância (provavelmente não…), mas o que esta dupla açoriana conseguiu é simplesmente notável e é um momento histórico para o automobilismo do nosso país. Fazer em casa um carro para enfrentar a mais dura das provas de todo-o-terreno e chegar ao fim logo à primeira tentativa sem problemas de maior é um enorme motivo de orgulho para todos nós e para a equipa, que levou nos carros um bocadinho de cada amigo, de cada açoriano que gosta destas “maluquices”. Todos nós, à nossa maneira, demos um empurrãozinho para superar as dunas da Mauritânia.
Agora, olhando para trás, é altura de recordar histórias antigas, que nos fazem pensar se realmente as coisas acontecem por acaso ou se alguém estará ocupado a tecer uma teia de relações e cruzamentos na nossa vida. Em 1998, foi a pretexto de uma prova organizada por Carlos Martins que escrevi a minha primeira reportagem de uma prova de automóveis, um todo-o-terreno com direito a dormida no Hotel Bahia Palace, no mesmo quarto de um jornalista do continente com uma preocupação extrema com o seu cabelo e com o ressonar do parceiro. Quase oito anos e muitos quilómetros de reportagens depois, tenho o prazer de lhe dar os parabéns pelo feito que acaba de alcançar, numa aventura que acompanhei com todo o interesse desde que foi tornada pública.
Quanto ao Nuno Rosado, a coisa vai mais atrás ainda. Conhecemo-nos superficialmente há uns quinze anos, mas pode dizer-se que nos iniciámos nestas coisas das competições mais ou menos ao mesmo tempo. A fotografia que acompanha este texto até pode não ser muito nítida, mas nela estão o Nuno Rosado (a sexta cabeça a contar da direita) e eu (o quarto a contar da esquerda), nos gloriosos tempos dos ralis de bicicleta que organizávamos com frequência na Terra-Chã e arredores. Na mesma foto estão outros dois homens das competições actuais: à minha esquerda Nuno Rocha (que em 2006 regressa aos ralis), e à esquerda do Rosado o Paulo Jesus (navegador de ralis e TT). E ainda lá estão mais quatro que já estiveram envolvidos nos ralis ou no TT. Está também um Amigo que já nos deixou, por infelicidade do destino, e que era também um apreciador do desporto automóvel. Ver o Nuno Rosado em cima do Land Rover a comemorar a chegada a Dakar tem, por isso, um significado especial para toda uma geração que cresceu junta e que mantém a paixão pelas coisas dos automóveis.
Com eles em cima do jipe estavam umas dezenas largas de amigos e conhecidos, que a esta hora estão orgulhosos do Nuno, do Carlos, do Leandro e do Vítor, a comitiva açoriana que deu corpo ao sonho. Os sonhos realizam-se. É preciso é dar-lhes asas.
46 - O país do maldizer
Eleições? Já estava farto de ouvir falar nelas!
Já estava farto de eleições. Outros méritos não tivesse, a vitória de Cavaco Silva à primeira volta serviu para nos livrar de mais um mês de campanha eleitoral, e finalmente podemos todos voltar ao trabalho descansados, sem ter que discutir quem tem de dar cavaco a quem, quem fica alegre ou triste, que tem ou não de calçar as pantufas, fazer chichi e ir para a cama, e por aí fora.
Confesso que me fez confusão toda esta história de pré-campanha e campanha, pois no fundo vai dar tudo ao mesmo, mas mais confusão me fez o facto de que quem ganhou nem ter precisado de fazer grande coisa, pois os adversários fizeram tudo por ele. O povo português é estranho, e tem uma certa tendência para ter pena dos aparentemente mais fracos, daí a expressão “não batas mais no ceguinho”. Cavaco fez nestas eleições o papel do “ceguinho”, mas só de um olho, e enquanto todos lhe davam pancada ele encostou-se à cadeira e esperou pelo veredicto final. Fez bem.
Não ouvi um candidato que fosse, à excepção de Garcia Pereira, a dizer coisas que interessassem ao país, estavam todos mais preocupados em dizer mal do Cavaco, e ele não lhes deu cavaco. O homem do MRPP, como estava farto de saber que não ganhava coisa nenhuma, aproveitou para dizer duas ou três verdades, e até sai do acto eleitoral como o vencedor moral, pois se a esquerda queria derrotar Cavaco a última coisa de que precisava era de dividir votos por cinco candidatos, e foi ele quem disse primeiro “esquerdistas, uni-vos”, mas ninguém o quis ouvir. Ficaram todos a olhar para o umbigo, até mesmo aqueles que já estão fartos de o conhecer.
Fiquei até chocado, na sexta-feira, ao ouvir uma data de gente num comício a dizer que era mais importante o Cavaco perder do que o seu candidato ganhar. Como é que alguém espera ter credibilidade quando diz barbaridades destas? A imagem que tenho do antigo Primeiro-Ministro é a de uma pessoa séria e competente, que não tem medo de fazer pegas de caras, e é disso que o país precisa. Sócrates não tem que se preocupar, pois terá nele um aliado nas reformas que é preciso fazer, mas tem de abrir o olho e esquecer aquilo que não é essencial. Quando saiu o anterior Ministro das Finanças o pior que se disse dele foi que estava a seguir a mesma política de Manuela Ferreira Leite, e só isso já dá para desconfiar. Duas pessoas de áreas políticas diferentes têm a mesma noção do que é preciso fazer e estão ambas erradas? Se não fosse mesmo preciso congelar salários durante dois anos ninguém o teria feito.
Cavaco até pode vir a ser um péssimo Presidente da República, mas não acredito muito nisso. Parece-me sim que a estabilidade política e governativa até ao final do mandato legislativo está assegurada, e o Governo só tem que fazer uma coisa: trabalhar. E dar o exemplo, já agora…
E por amor de Deus, parem lá de falar mal uns dos outros! Alegre regressa à poesia, Soares volta para a reforma, Jerónimo rebobina a cassete, Louçã vai treinar os discursos, Garcia Pereira vai para o escritório, e nós vamos dar descanso aos ouvidos, finalmente!
Já estava farto de eleições. Outros méritos não tivesse, a vitória de Cavaco Silva à primeira volta serviu para nos livrar de mais um mês de campanha eleitoral, e finalmente podemos todos voltar ao trabalho descansados, sem ter que discutir quem tem de dar cavaco a quem, quem fica alegre ou triste, que tem ou não de calçar as pantufas, fazer chichi e ir para a cama, e por aí fora.
Confesso que me fez confusão toda esta história de pré-campanha e campanha, pois no fundo vai dar tudo ao mesmo, mas mais confusão me fez o facto de que quem ganhou nem ter precisado de fazer grande coisa, pois os adversários fizeram tudo por ele. O povo português é estranho, e tem uma certa tendência para ter pena dos aparentemente mais fracos, daí a expressão “não batas mais no ceguinho”. Cavaco fez nestas eleições o papel do “ceguinho”, mas só de um olho, e enquanto todos lhe davam pancada ele encostou-se à cadeira e esperou pelo veredicto final. Fez bem.
Não ouvi um candidato que fosse, à excepção de Garcia Pereira, a dizer coisas que interessassem ao país, estavam todos mais preocupados em dizer mal do Cavaco, e ele não lhes deu cavaco. O homem do MRPP, como estava farto de saber que não ganhava coisa nenhuma, aproveitou para dizer duas ou três verdades, e até sai do acto eleitoral como o vencedor moral, pois se a esquerda queria derrotar Cavaco a última coisa de que precisava era de dividir votos por cinco candidatos, e foi ele quem disse primeiro “esquerdistas, uni-vos”, mas ninguém o quis ouvir. Ficaram todos a olhar para o umbigo, até mesmo aqueles que já estão fartos de o conhecer.
Fiquei até chocado, na sexta-feira, ao ouvir uma data de gente num comício a dizer que era mais importante o Cavaco perder do que o seu candidato ganhar. Como é que alguém espera ter credibilidade quando diz barbaridades destas? A imagem que tenho do antigo Primeiro-Ministro é a de uma pessoa séria e competente, que não tem medo de fazer pegas de caras, e é disso que o país precisa. Sócrates não tem que se preocupar, pois terá nele um aliado nas reformas que é preciso fazer, mas tem de abrir o olho e esquecer aquilo que não é essencial. Quando saiu o anterior Ministro das Finanças o pior que se disse dele foi que estava a seguir a mesma política de Manuela Ferreira Leite, e só isso já dá para desconfiar. Duas pessoas de áreas políticas diferentes têm a mesma noção do que é preciso fazer e estão ambas erradas? Se não fosse mesmo preciso congelar salários durante dois anos ninguém o teria feito.
Cavaco até pode vir a ser um péssimo Presidente da República, mas não acredito muito nisso. Parece-me sim que a estabilidade política e governativa até ao final do mandato legislativo está assegurada, e o Governo só tem que fazer uma coisa: trabalhar. E dar o exemplo, já agora…
E por amor de Deus, parem lá de falar mal uns dos outros! Alegre regressa à poesia, Soares volta para a reforma, Jerónimo rebobina a cassete, Louçã vai treinar os discursos, Garcia Pereira vai para o escritório, e nós vamos dar descanso aos ouvidos, finalmente!
45 - A magia do Natal
Adoro esta. E há aqui uma passagem que coloco entre as coisas melhores que já me saíram das pontas dos dedos...
Ele não sabe que está neste mundo. À sua volta estão perto de cem pessoas que não o conhecem mas que o olham e sorriem, comentando a forma como está vestido, como tem as bochechas gordas, como é tão lindo, o anjinho! Ele olha, e de vez em quando sorri por entre os dentes que hão-de vir. Sente-se seguro, está ao colo da mãe, sabe que aquele cheiro é igual ao seu e é nele que confia de olhos fechados. Não distingue bem as caras que o rodeiam, nem percebe o que está a fazer e a dizer aquele homem que de vez em quando abre os braços e a quem toda a gente responde numa ladainha mais ou menos possível de entender.
A mãe olha-o, como todas as mães olham os filhos (será?), e pensa no que lhe há-de fazer quando sair da missa, à qual só foi porque o baptizado tinha de se realizar. O dia não podia ser melhor. Afinal, que dia melhor para baptizar alguém do que o dia em que nasceu Aquele que começou tudo? Já teve outros filhos, mas este é de um pai novo, e talvez por isso a sorte mude. Dos outros já nem sabe bem quantos são nem onde estão. O juízo não lhe dá para mais. Se a cabeça trabalhasse tão bem como as partes reprodutoras, era um génio!
Ele sorri de novo e esfrega o nariz no pescoço da madrinha. O padre lá continua a rezar. A tia Maria olha para baixo, e enquanto debita o credo vai pensando se as dores que sente são só dos pés ou se serão os sapatos que estão apertados. Já os tem há quase vinte anos, e acha que os pés estão a inchar. O ti Chico já dorme, não se aguenta acordado mais de dez minutos seguidos, e o sermão também não ajudou. Ele, o anjinho, abre a boca. Ficam todos sem saber se ele tem sono ou fome, coitadinho. E lá vai o corpinho indefeso para outro colo. O homem de branco sai de trás daquela mesa esquisita e avança pelo corredor abaixo. Ele sente-se transportado e passa por uns cem pares de olhos sem dar por isso.
Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. Um dedo frio na testa faz uma cruz. Um arrepio percorre-lhe a espinha, mas não chora. Abana a cabeça, mas não chora. Tão pequeno e já percebeu que não vale a pena chorar quando a vida prega partidas. À sua volta todos sorriem, e o clarão da máquina fotográfica regista para a posteridade um momento que ele provavelmente nunca verá, pois as fotografias vão-se perder no fundo de uma gaveta qualquer e hão-de ir para o lixo sem se dar por isso na próxima vez que se fizer uma limpeza em casa. Mas a ele nada disso importa. Um dia, mais tarde, alguém lhe há-de dizer que foi baptizado, e ele há-de ficar espantado porque não sabe bem o que isso é. Só foi à missa no dia da primeira comunhão e nunca mais apareceu na catequese.
O que nasceu naquele dia disse que bem aventurados seriam os pobres de espírito, mas o dele é rico. Ainda não teve tempo de o estragar, só tem um mês e pouco de vida no mundo que ele ainda não sabe que é cruel e o há-de trair vezes sem conta. O espírito está lá todo, e inteligência não lhe falta, mas não sabe que é como uma flor que tem de ser regada para não murchar. Embrutecido pelo tempo e pela ignorância de quem o deseducou, transformou-se num ser que poderia ter sido humano mas não o foi. A vivência foi mais de animal que de outra coisa, e a memória não lhe alcança o dia em que, vestido de branco, foi o centro das atenções de toda a gente. Naquele dia recebeu mais beijos do que no resto da sua vida, feita de apenas um amor verdadeiro, mas mesmo esse acabou mal, afogado em garrafas vazias.
Tal como no início, ele não sabe que está neste mundo. As recordações desfazem-se ao ritmo das pulsações, também elas mais fracas. Um homem vestido de branco tenta desesperadamente fazer com que não feche de vez os olhos. Uma recordação regressa, é o homem de branco que lhe faz um sinal na testa com água fria. Mas este carrega-lhe no peito com força, e em vez de água é um choque o que sente de vez em quando. Resulta. Abre os olhos e vê um mar de tubos, fios, seringas e gente de branco.
Onde estou? Está no hospital, escapou por um triz. Não pode beber nem fumar mais, tem uma filha que o aguarda na sala de espera, desfeita em lágrimas. Ele nunca lhe ligou muito, mas sente agora uma necessidade estranha de a abraçar, beijar e dizer que vai mudar. Ela entra, corre, abraça-o e chora sem parar. Ele sorri, e volta-lhe à memória o homem de branco que viu no tecto dos cuidados intensivos. Minha filha, eu sei que já venho tarde, mas acredita que ainda venho a tempo.
É dia de Natal. E um ano novo está para começar. A vida será o que ele quiser, e desta vez ele quer. À porta do quarto, um homem de branco sorri. Já viu muitas cenas assim, mas sente que esta é diferente. Afasta-se sem fazer barulho. Pai e filha continuam abraçados. Agora sim, ele sabe que está neste mundo, e nunca mais se vai esquecer. É a magia do Natal.
Ele não sabe que está neste mundo. À sua volta estão perto de cem pessoas que não o conhecem mas que o olham e sorriem, comentando a forma como está vestido, como tem as bochechas gordas, como é tão lindo, o anjinho! Ele olha, e de vez em quando sorri por entre os dentes que hão-de vir. Sente-se seguro, está ao colo da mãe, sabe que aquele cheiro é igual ao seu e é nele que confia de olhos fechados. Não distingue bem as caras que o rodeiam, nem percebe o que está a fazer e a dizer aquele homem que de vez em quando abre os braços e a quem toda a gente responde numa ladainha mais ou menos possível de entender.
A mãe olha-o, como todas as mães olham os filhos (será?), e pensa no que lhe há-de fazer quando sair da missa, à qual só foi porque o baptizado tinha de se realizar. O dia não podia ser melhor. Afinal, que dia melhor para baptizar alguém do que o dia em que nasceu Aquele que começou tudo? Já teve outros filhos, mas este é de um pai novo, e talvez por isso a sorte mude. Dos outros já nem sabe bem quantos são nem onde estão. O juízo não lhe dá para mais. Se a cabeça trabalhasse tão bem como as partes reprodutoras, era um génio!
Ele sorri de novo e esfrega o nariz no pescoço da madrinha. O padre lá continua a rezar. A tia Maria olha para baixo, e enquanto debita o credo vai pensando se as dores que sente são só dos pés ou se serão os sapatos que estão apertados. Já os tem há quase vinte anos, e acha que os pés estão a inchar. O ti Chico já dorme, não se aguenta acordado mais de dez minutos seguidos, e o sermão também não ajudou. Ele, o anjinho, abre a boca. Ficam todos sem saber se ele tem sono ou fome, coitadinho. E lá vai o corpinho indefeso para outro colo. O homem de branco sai de trás daquela mesa esquisita e avança pelo corredor abaixo. Ele sente-se transportado e passa por uns cem pares de olhos sem dar por isso.
Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. Um dedo frio na testa faz uma cruz. Um arrepio percorre-lhe a espinha, mas não chora. Abana a cabeça, mas não chora. Tão pequeno e já percebeu que não vale a pena chorar quando a vida prega partidas. À sua volta todos sorriem, e o clarão da máquina fotográfica regista para a posteridade um momento que ele provavelmente nunca verá, pois as fotografias vão-se perder no fundo de uma gaveta qualquer e hão-de ir para o lixo sem se dar por isso na próxima vez que se fizer uma limpeza em casa. Mas a ele nada disso importa. Um dia, mais tarde, alguém lhe há-de dizer que foi baptizado, e ele há-de ficar espantado porque não sabe bem o que isso é. Só foi à missa no dia da primeira comunhão e nunca mais apareceu na catequese.
O que nasceu naquele dia disse que bem aventurados seriam os pobres de espírito, mas o dele é rico. Ainda não teve tempo de o estragar, só tem um mês e pouco de vida no mundo que ele ainda não sabe que é cruel e o há-de trair vezes sem conta. O espírito está lá todo, e inteligência não lhe falta, mas não sabe que é como uma flor que tem de ser regada para não murchar. Embrutecido pelo tempo e pela ignorância de quem o deseducou, transformou-se num ser que poderia ter sido humano mas não o foi. A vivência foi mais de animal que de outra coisa, e a memória não lhe alcança o dia em que, vestido de branco, foi o centro das atenções de toda a gente. Naquele dia recebeu mais beijos do que no resto da sua vida, feita de apenas um amor verdadeiro, mas mesmo esse acabou mal, afogado em garrafas vazias.
Tal como no início, ele não sabe que está neste mundo. As recordações desfazem-se ao ritmo das pulsações, também elas mais fracas. Um homem vestido de branco tenta desesperadamente fazer com que não feche de vez os olhos. Uma recordação regressa, é o homem de branco que lhe faz um sinal na testa com água fria. Mas este carrega-lhe no peito com força, e em vez de água é um choque o que sente de vez em quando. Resulta. Abre os olhos e vê um mar de tubos, fios, seringas e gente de branco.
Onde estou? Está no hospital, escapou por um triz. Não pode beber nem fumar mais, tem uma filha que o aguarda na sala de espera, desfeita em lágrimas. Ele nunca lhe ligou muito, mas sente agora uma necessidade estranha de a abraçar, beijar e dizer que vai mudar. Ela entra, corre, abraça-o e chora sem parar. Ele sorri, e volta-lhe à memória o homem de branco que viu no tecto dos cuidados intensivos. Minha filha, eu sei que já venho tarde, mas acredita que ainda venho a tempo.
É dia de Natal. E um ano novo está para começar. A vida será o que ele quiser, e desta vez ele quer. À porta do quarto, um homem de branco sorri. Já viu muitas cenas assim, mas sente que esta é diferente. Afasta-se sem fazer barulho. Pai e filha continuam abraçados. Agora sim, ele sabe que está neste mundo, e nunca mais se vai esquecer. É a magia do Natal.
44 - Hoje faço greve
Apesar de não ser a favor de greves, desta vez o copo transbordou!
Não sou adepto de greves. Até hoje nunca fiz, e a que consta do meu processo resulta de um mal-entendido administrativo que agora também não me aquece nem me arrefece. Desta vez, no entanto, fico em casa. Pensei muito antes de tomar esta decisão, e custa-me, mas fico em casa. Acho que este país precisa é de que nós trabalhemos por ele e não que fiquemos em casa, mas…
Não faço greve por concordar com aquilo que dizem os sindicatos, ou melhor, com a forma como dizem. Soa-me demasiado a choradinho, e não sou de choradinhos. Nem sequer concordo que se faça greve à sexta-feira, por achar que assim uma grande parte da opinião pública fica a pensar que o que nós queremos é um fim-de-semana prolongado. Digo isto já, com toda a frontalidade, para que depois não seja a “contra-informação” a dizê-lo…
Não faço greve porque os sindicatos do continente me vêm agora dizer que são contra as colocações por três anos numa escola, por acharem que assim se condenam os professores ao “desterro”, esquecendo-se que nos Açores isso já acontece há meia dúzia anos e nunca os ouvi manifestar solidariedade para com os colegas “desterrados” nas nossas ilhas.
Faço-a porque de facto vejo um futuro cada vez mais sombrio para mim e para os alunos, a quem são dadas todas as facilidades e mais algumas para passar de ano, na ânsia cega de melhorar os resultados estatísticos do sucessor escolar, desvalorizando por completo o papel dos professores e levando a que a tão propalada “qualidade de ensino” seja apenas uma fantasia. Agora chega mais uma “novidade”, dizendo que os conselhos pedagógicos podem passar alunos que não tenham reunido condições para passar de ano…
Faço greve por achar que se têm tomado decisões importantes para o futuro do Ensino de forma irreflectida, com as consequências que daí se conhecem e sobre as quais já escrevi, provocando um dos arranques de ano lectivo mais turbulentos desde que sou professor.
Faço greve porque quase me obrigam a passar de ano alunos que não o merecem, dando-lhes toda a protecção e a mim nenhuma. Não os posso convidar a sair da sala de aula se chamarem nomes à minha mãe, só mesmo se eles me impedirem de dar a aula, e ainda assim só como último dos últimos recursos. Estão a ver a diferença? Eu também não… Mas está na lei.
Faço greve por achar que estão a gozar com a minha cara quando me congelam o salário dois anos seguidos, a seguir congelam a contagem de tempo de serviço e a progressão nas carreiras para depois, no dia 13 de Outubro, um ministro publicar em Diário da República que contratou alguém para prestar serviços de assessoria na manutenção dos conteúdos da página oficial do Ministério, com o ordenando mensal de 3254 euros, mais subsídio de refeição. 650 contos por mês para manter uma página na Internet??? E andei eu a estudar durante dezoito anos para isto?
Hoje faço greve. Triste, mas faço. E sempre fico com o triste consolo de, como disse um nosso governante, contribuir para a melhoria das contas do governo, pois em dia de greve sempre são menos uns milhões de euros em ordenados que ele tem que pagar. Caros governantes, ofereço-vos o meu dia de salário. Nem chega a quarenta euros, mas já vos ajuda…
Se fosse a tal pessoa da página de Internet a fazer greve eram mais de cem euros que se poupavam, mas essa, é claro, não tem razões para ficar em casa…
Não sou adepto de greves. Até hoje nunca fiz, e a que consta do meu processo resulta de um mal-entendido administrativo que agora também não me aquece nem me arrefece. Desta vez, no entanto, fico em casa. Pensei muito antes de tomar esta decisão, e custa-me, mas fico em casa. Acho que este país precisa é de que nós trabalhemos por ele e não que fiquemos em casa, mas…
Não faço greve por concordar com aquilo que dizem os sindicatos, ou melhor, com a forma como dizem. Soa-me demasiado a choradinho, e não sou de choradinhos. Nem sequer concordo que se faça greve à sexta-feira, por achar que assim uma grande parte da opinião pública fica a pensar que o que nós queremos é um fim-de-semana prolongado. Digo isto já, com toda a frontalidade, para que depois não seja a “contra-informação” a dizê-lo…
Não faço greve porque os sindicatos do continente me vêm agora dizer que são contra as colocações por três anos numa escola, por acharem que assim se condenam os professores ao “desterro”, esquecendo-se que nos Açores isso já acontece há meia dúzia anos e nunca os ouvi manifestar solidariedade para com os colegas “desterrados” nas nossas ilhas.
Faço-a porque de facto vejo um futuro cada vez mais sombrio para mim e para os alunos, a quem são dadas todas as facilidades e mais algumas para passar de ano, na ânsia cega de melhorar os resultados estatísticos do sucessor escolar, desvalorizando por completo o papel dos professores e levando a que a tão propalada “qualidade de ensino” seja apenas uma fantasia. Agora chega mais uma “novidade”, dizendo que os conselhos pedagógicos podem passar alunos que não tenham reunido condições para passar de ano…
Faço greve por achar que se têm tomado decisões importantes para o futuro do Ensino de forma irreflectida, com as consequências que daí se conhecem e sobre as quais já escrevi, provocando um dos arranques de ano lectivo mais turbulentos desde que sou professor.
Faço greve porque quase me obrigam a passar de ano alunos que não o merecem, dando-lhes toda a protecção e a mim nenhuma. Não os posso convidar a sair da sala de aula se chamarem nomes à minha mãe, só mesmo se eles me impedirem de dar a aula, e ainda assim só como último dos últimos recursos. Estão a ver a diferença? Eu também não… Mas está na lei.
Faço greve por achar que estão a gozar com a minha cara quando me congelam o salário dois anos seguidos, a seguir congelam a contagem de tempo de serviço e a progressão nas carreiras para depois, no dia 13 de Outubro, um ministro publicar em Diário da República que contratou alguém para prestar serviços de assessoria na manutenção dos conteúdos da página oficial do Ministério, com o ordenando mensal de 3254 euros, mais subsídio de refeição. 650 contos por mês para manter uma página na Internet??? E andei eu a estudar durante dezoito anos para isto?
Hoje faço greve. Triste, mas faço. E sempre fico com o triste consolo de, como disse um nosso governante, contribuir para a melhoria das contas do governo, pois em dia de greve sempre são menos uns milhões de euros em ordenados que ele tem que pagar. Caros governantes, ofereço-vos o meu dia de salário. Nem chega a quarenta euros, mas já vos ajuda…
Se fosse a tal pessoa da página de Internet a fazer greve eram mais de cem euros que se poupavam, mas essa, é claro, não tem razões para ficar em casa…
43 - Bom dia, Sr. Secretário!
Esta é forte! A alma veio toda para o papel, e os resultados foram muito para além do imaginável: fui aplaudido, elogiado, copiado e vi o problema resolvido (parte dele, pelo menos...).
Bom dia, Sr. Secretário! Há que tempos não nos falamos! Como vai o senhor? Bem? Olhe, eu cá só não vou melhor porque o senhor não me deixa. E porquê? Oh homem, ainda precisa de perguntar porquê? O senhor desculpe, mas parece-me que não conhece bem a realidade do ensino “menor” neste país. Na universidade as coisas são diferentes, eu sei, pois também já dei aulas lá, e por lá até podia ter ficado, mas as leis são o que são, paciência. Eu não sei se na universidade o senhor não trabalhava, e por isso acha que os seus soldados rasos também não trabalham, mas a verdade é que trabalham, e muito.
Mas o senhor é esperto, conseguiu pôr a opinião pública toda contra os professores, com estudos feitos com base em países civilizados na sua organização e mentalidade, coisa que por cá não acontece, para mal dos nossos pecados. Para todos os efeitos, nós não queremos é trabalhar, não é verdade? Tem consciência da injustiça que está a cometer? Eu, que adoro o meu trabalho e me sinto numa sala de aula como peixe na água, estou desmotivado como nunca pensei ser possível. Este ano tenho até a possibilidade de fazer a coisa um pouco mais descansadamente, pois só tenho um nível, mas tenho saído da escola de rastos, pois sou obrigado a estar lá à espera de que alguém me saiba dizer o que fazer, coisa que ainda ninguém sabe. E isso desgasta, mói, desanima até mais não. Eu tenho até pena dos conselhos executivos, pois esses é que apanham com as nossas reclamações em primeiro lugar. A eles só lhe foi dito que tínhamos de ter 26 horas marcadas, mas não lhes explicaram como é que se ia trabalhar, se nas escolas não há espaço, materiais e condições para fazermos seja o que for…
Sr. Secretário, não há um único professor que não queira trabalhar, mas a verdade é que assim não dá. E não dá porque, além de toda esta questão estar a ser baseada naquilo a que se pode chamar de desconfiança na classe docente, a realidade dos factos é bem diferente. Diz o senhor que as nove horas que restam para as trinta e cinco que compõem o horário de um qualquer funcionário público são suficientes para preparar as aulas, corrigir testes e trabalhos, fazer reuniões, e por aí fora, mas por aqui se vê que o senhor de professor tem muito pouco, ou então é um génio, a quem peço lições de como trabalhar. Vamos a contas!
A preparação de aulas é um trabalho moroso que, mesmo que parta de uma planificação-base comum a um grupo de professores, tem de ser adaptada não só às turmas e aos alunos de cada um mas também ao seu próprio estilo e método de dar as aulas. Fiz a experiência: para preparar uma semana de aulas, com exercícios diferenciados e conteúdos adaptados, levei mais ou menos seis horas. Até nem correu mal. E eu tenho só um nível! Quem tem dois ou três é só multiplicar. No ano passado, tinha eu 11º e 12º ano, cheguei a levar oito horas à volta da preparação de uma semana de aulas para os mais velhos. E compensou, pois que eu saiba só três dos meus alunos não passaram no exame nacional. Vale o que vale, mas é só para o senhor saber e não me chamar de incompetente. Restaram-me, portanto, três horas para chegar às 35 (26+6=32). Decidi pedir um trabalho de casa às minhas turmas, recolhi-o, e como tenho uns noventa alunos, a conta é fácil: se levar, por miséria, cinco minutos a corrigir cada um (levo mais, note-se…), gasto 450 minutos, qualquer coisa como… quase oito horas!!!
E ainda tenho que fazer teste esta semana, o que significa que vou levar bem à vontade umas duas ou três horas a dar-lhe corpo. E já vou em quarenta e três horas, com contas feitas por baixo. Como o meu horário é de 22 horas lectivas, mais quatro para completar as tais vinte e seis que o senhor encontrou graças aos segmentos de 45 minutos, mesmo que tivesse só as tais 22 marcadas, continuava a trabalhar sempre mais do que 35 horas semanais. Esta é que é a verdade! E na semana em que tiver que corrigir os testes, garanto que vou chegar bem perto das 50 horas de trabalho!
Sr. Secretário, já que mais ninguém parece ter a coragem de dar a cara (estão todos com medo!!!), dou eu, e faço o que nenhum sindicato fez: desafio-o a substituir-me durante uma semana no meu serviço. Desafio-o a cumprir o meu horário à risca, o horário de uma classe trabalhadora e honrada que se sente insultada por quem tinha e tem a obrigação de a defender e de lhe dar condições materiais e psicológicas para fazer aquilo que quer, pode e sabe: TRABALHAR! Se o senhor conseguir provar que estou errado, estendo-lhe a mão à palmatória e peço-lhe desculpa nestas mesmas páginas.
Tenha um bom dia, Sr. Secretário. Eu vou tentar…
Bom dia, Sr. Secretário! Há que tempos não nos falamos! Como vai o senhor? Bem? Olhe, eu cá só não vou melhor porque o senhor não me deixa. E porquê? Oh homem, ainda precisa de perguntar porquê? O senhor desculpe, mas parece-me que não conhece bem a realidade do ensino “menor” neste país. Na universidade as coisas são diferentes, eu sei, pois também já dei aulas lá, e por lá até podia ter ficado, mas as leis são o que são, paciência. Eu não sei se na universidade o senhor não trabalhava, e por isso acha que os seus soldados rasos também não trabalham, mas a verdade é que trabalham, e muito.
Mas o senhor é esperto, conseguiu pôr a opinião pública toda contra os professores, com estudos feitos com base em países civilizados na sua organização e mentalidade, coisa que por cá não acontece, para mal dos nossos pecados. Para todos os efeitos, nós não queremos é trabalhar, não é verdade? Tem consciência da injustiça que está a cometer? Eu, que adoro o meu trabalho e me sinto numa sala de aula como peixe na água, estou desmotivado como nunca pensei ser possível. Este ano tenho até a possibilidade de fazer a coisa um pouco mais descansadamente, pois só tenho um nível, mas tenho saído da escola de rastos, pois sou obrigado a estar lá à espera de que alguém me saiba dizer o que fazer, coisa que ainda ninguém sabe. E isso desgasta, mói, desanima até mais não. Eu tenho até pena dos conselhos executivos, pois esses é que apanham com as nossas reclamações em primeiro lugar. A eles só lhe foi dito que tínhamos de ter 26 horas marcadas, mas não lhes explicaram como é que se ia trabalhar, se nas escolas não há espaço, materiais e condições para fazermos seja o que for…
Sr. Secretário, não há um único professor que não queira trabalhar, mas a verdade é que assim não dá. E não dá porque, além de toda esta questão estar a ser baseada naquilo a que se pode chamar de desconfiança na classe docente, a realidade dos factos é bem diferente. Diz o senhor que as nove horas que restam para as trinta e cinco que compõem o horário de um qualquer funcionário público são suficientes para preparar as aulas, corrigir testes e trabalhos, fazer reuniões, e por aí fora, mas por aqui se vê que o senhor de professor tem muito pouco, ou então é um génio, a quem peço lições de como trabalhar. Vamos a contas!
A preparação de aulas é um trabalho moroso que, mesmo que parta de uma planificação-base comum a um grupo de professores, tem de ser adaptada não só às turmas e aos alunos de cada um mas também ao seu próprio estilo e método de dar as aulas. Fiz a experiência: para preparar uma semana de aulas, com exercícios diferenciados e conteúdos adaptados, levei mais ou menos seis horas. Até nem correu mal. E eu tenho só um nível! Quem tem dois ou três é só multiplicar. No ano passado, tinha eu 11º e 12º ano, cheguei a levar oito horas à volta da preparação de uma semana de aulas para os mais velhos. E compensou, pois que eu saiba só três dos meus alunos não passaram no exame nacional. Vale o que vale, mas é só para o senhor saber e não me chamar de incompetente. Restaram-me, portanto, três horas para chegar às 35 (26+6=32). Decidi pedir um trabalho de casa às minhas turmas, recolhi-o, e como tenho uns noventa alunos, a conta é fácil: se levar, por miséria, cinco minutos a corrigir cada um (levo mais, note-se…), gasto 450 minutos, qualquer coisa como… quase oito horas!!!
E ainda tenho que fazer teste esta semana, o que significa que vou levar bem à vontade umas duas ou três horas a dar-lhe corpo. E já vou em quarenta e três horas, com contas feitas por baixo. Como o meu horário é de 22 horas lectivas, mais quatro para completar as tais vinte e seis que o senhor encontrou graças aos segmentos de 45 minutos, mesmo que tivesse só as tais 22 marcadas, continuava a trabalhar sempre mais do que 35 horas semanais. Esta é que é a verdade! E na semana em que tiver que corrigir os testes, garanto que vou chegar bem perto das 50 horas de trabalho!
Sr. Secretário, já que mais ninguém parece ter a coragem de dar a cara (estão todos com medo!!!), dou eu, e faço o que nenhum sindicato fez: desafio-o a substituir-me durante uma semana no meu serviço. Desafio-o a cumprir o meu horário à risca, o horário de uma classe trabalhadora e honrada que se sente insultada por quem tinha e tem a obrigação de a defender e de lhe dar condições materiais e psicológicas para fazer aquilo que quer, pode e sabe: TRABALHAR! Se o senhor conseguir provar que estou errado, estendo-lhe a mão à palmatória e peço-lhe desculpa nestas mesmas páginas.
Tenha um bom dia, Sr. Secretário. Eu vou tentar…
42 - Faltas de Educação
A canalha de hoje é pior que a de ontem? Eu acho que sim!
Faz-me uma certa confusão estar sempre a ouvir os mais velhos dizer que “no meu tempo é que era bom”. Olho à minha volta e só vejo motivos para nos regozijarmos com o progresso. A tecnologia trouxe-nos melhores meios de comunicar uns com os outros, melhores transportes, mais facilidade de executar trabalhos complexos e morosos (será que ainda há quem use máquina de escrever?), novas formas de entretenimento, e por aí fora. No entanto, sinto que é verdade que se perderam algumas coisas boas “daquele tempo”.
“Antigamente”, segundo rezam as crónicas, havia uma coisa muito bonita chamada respeito, que se via por toda a parte. Quando alguém recebia uma carta respondia, mesmo que não gostasse do conteúdo, mas hoje já nem nos damos ao trabalho de responder a um e-mail, talvez por recebermos tantos que até já perdeu a graça. Dizem-me que não se viam poucas vergonhas na rua, e aí eu rio-me só de pensar na diferença entre os namoros de janela, que tantas dores de pescoço deram, e os… bem… os namoros de hoje em dia, que tantas dores de cabeça dão aos pais que ainda vão dando mostras de se preocupar com os filhos. Se me perguntarem, não quero voltar à janela, mas também reconheço que se está a cair num laxismo exagerado. No meio é que está a virtude.
Nas escolas, cada vez mais encontramos crianças “selvagens”, sem educação nenhuma, e aí não há nada a fazer. Ensino e educação são coisas completamente diferentes: o ensino é trabalho para os professores, mas a educação traz-se de casa, não deviam ser os professores a fazer o trabalho dos pais, mas cada vez mais é isso que se pede. O respeito pelos professores já vem minado de casa e… de casa? Que diabo, ele já vem minado pelos próprios responsáveis governamentais! Mas adiante, que isso dava outro artigo.
Comigo, o respeito é a dobrar. Logo no primeiro dia deixo clara a minha teoria dos três “R”: Respeito, Responsabilidade e Respeito. As regras são claras, e quem ultrapassar o risco arrisca-se a ver-me zangado, o que não é nada fácil. Há dois anos que nenhum aluno meu se gaba de me ouvir levantar a voz na sala de aula, e assim espero continuar. De qualquer forma, há alturas em que apetece fazer tudo menos manter a calma, e é isso que me traz aqui hoje.
A história conta-se em poucas palavras: ia eu pela Rua de São Pedro abaixo aí pelas oito da noite, altura em que ainda não é necessário ligar faróis para ver mas sim para ser visto, e vejo em sentido contrário um miúdo de bicicleta no meio da estrada. Abrandei, e já só quando estava em cima de mim é que ele se desviou, obrigando-me a parar. Olhei para ele, e abri as mãos interrogativamente, como quem diz “então?”, e mesmo com o vidro fechado consegui ouvir um sonoro FAKIÚ em inglês bem dizido. Não parei, até porque já tinha outro carro atrás, mas a minha vontade era agarrá-lo pelos capuchos e arrastá-lo a casa para o esfregar no nariz ao pai e à mãe. São estes vândalos que os professores só podem chumbar aos 5% de cada vez, porque se não vem a inquisição à escola saber quem é que infringiu a bendita lei, feita de propósito para melhorar artificialmente as estatísticas do insucesso escolar.
Quanto ao meu “agressor” de segunda-feira, não lhe fixei a cara, e ainda bem. Se ele ou os pais souberem ler, e se por acaso lerem isto, reflictam. É essa a educação que dão aos filhos?
Faz-me uma certa confusão estar sempre a ouvir os mais velhos dizer que “no meu tempo é que era bom”. Olho à minha volta e só vejo motivos para nos regozijarmos com o progresso. A tecnologia trouxe-nos melhores meios de comunicar uns com os outros, melhores transportes, mais facilidade de executar trabalhos complexos e morosos (será que ainda há quem use máquina de escrever?), novas formas de entretenimento, e por aí fora. No entanto, sinto que é verdade que se perderam algumas coisas boas “daquele tempo”.
“Antigamente”, segundo rezam as crónicas, havia uma coisa muito bonita chamada respeito, que se via por toda a parte. Quando alguém recebia uma carta respondia, mesmo que não gostasse do conteúdo, mas hoje já nem nos damos ao trabalho de responder a um e-mail, talvez por recebermos tantos que até já perdeu a graça. Dizem-me que não se viam poucas vergonhas na rua, e aí eu rio-me só de pensar na diferença entre os namoros de janela, que tantas dores de pescoço deram, e os… bem… os namoros de hoje em dia, que tantas dores de cabeça dão aos pais que ainda vão dando mostras de se preocupar com os filhos. Se me perguntarem, não quero voltar à janela, mas também reconheço que se está a cair num laxismo exagerado. No meio é que está a virtude.
Nas escolas, cada vez mais encontramos crianças “selvagens”, sem educação nenhuma, e aí não há nada a fazer. Ensino e educação são coisas completamente diferentes: o ensino é trabalho para os professores, mas a educação traz-se de casa, não deviam ser os professores a fazer o trabalho dos pais, mas cada vez mais é isso que se pede. O respeito pelos professores já vem minado de casa e… de casa? Que diabo, ele já vem minado pelos próprios responsáveis governamentais! Mas adiante, que isso dava outro artigo.
Comigo, o respeito é a dobrar. Logo no primeiro dia deixo clara a minha teoria dos três “R”: Respeito, Responsabilidade e Respeito. As regras são claras, e quem ultrapassar o risco arrisca-se a ver-me zangado, o que não é nada fácil. Há dois anos que nenhum aluno meu se gaba de me ouvir levantar a voz na sala de aula, e assim espero continuar. De qualquer forma, há alturas em que apetece fazer tudo menos manter a calma, e é isso que me traz aqui hoje.
A história conta-se em poucas palavras: ia eu pela Rua de São Pedro abaixo aí pelas oito da noite, altura em que ainda não é necessário ligar faróis para ver mas sim para ser visto, e vejo em sentido contrário um miúdo de bicicleta no meio da estrada. Abrandei, e já só quando estava em cima de mim é que ele se desviou, obrigando-me a parar. Olhei para ele, e abri as mãos interrogativamente, como quem diz “então?”, e mesmo com o vidro fechado consegui ouvir um sonoro FAKIÚ em inglês bem dizido. Não parei, até porque já tinha outro carro atrás, mas a minha vontade era agarrá-lo pelos capuchos e arrastá-lo a casa para o esfregar no nariz ao pai e à mãe. São estes vândalos que os professores só podem chumbar aos 5% de cada vez, porque se não vem a inquisição à escola saber quem é que infringiu a bendita lei, feita de propósito para melhorar artificialmente as estatísticas do insucesso escolar.
Quanto ao meu “agressor” de segunda-feira, não lhe fixei a cara, e ainda bem. Se ele ou os pais souberem ler, e se por acaso lerem isto, reflictam. É essa a educação que dão aos filhos?
41 - Por trás do General
Esta veio na sequência do mal entendido referido na anterior...
Há na banda desenhada do Recruta Zero várias personagens paradigmáticas da nossa vida do dia-a-dia, a começar pelo próprio Zero, o protótipo do magala preguiçoso que tenta ser sempre mais esperto que o terrível Sargento Tainha, que faz jus ao nome pregando inenarráveis “tainhas” no lombo dos soldados sob o seu comando. Depois há o Cosme, sempre com os seus esquemas para conseguir vender coisas aos camaradas, nem que seja um guarda-chuva furado com o argumento que assim é possível espreitar a Dona Teté pelos buraquinhos. Há o Quindim, engatatão-mor da Companhia, o Platão, que sabe tudo sobre tudo, desde que seja filosofia, o tenente Escovinha, arrogante e mandão, o Capitão Durindana, um dos poucos com juízo no meio daquela confusão toda, tal como o Major, cujo nome não me lembro agora, e o General Dureza, que manda na tropa mas é mandado pela mulher, e por aí fora.
O general é, no fundo, uma fachada, uma figura decorativa que tem alguém por trás a puxar os cordelinhos enquanto ele se vai divertindo a beber Martini em copos de cristal. Quando há uma discussão no quartel o general prefere perguntar a toda a gente o que fazer, mas é quando chega a casa e fala com a mulher que a coisa se decide. E se por acaso ele decidiu sozinho é certo e sabido que a mulher lhe vai moer a paciência até adormecer, pois vai achar que a decisão foi errada.
Lembro-me de ler uma história em que o general ficou sem saber o que fazer quando estalou a discórdia no quartel, pois os recrutas reclamavam promoções, mais e melhores regalias, menos tareias do sargento, e outras coisas do género. O general, atarantado, ficou a ver a discussão, entalado entre as várias facções, e só se mexeu quando já havia consenso. Consenso como quem diz, pois o que salvou o dia foi o Sargento Tainha, que apareceu em cena e estragou a festa dos outros tropas, distribuindo “fruta” a torto e a direito e colocando toda a gente a limpar retretes durante um mês, sem direito a sair no fim-de-semana. Depois, foi para a cozinha e pediu ao Cuca (tinha-me esquecido do cozinheiro do quartel, é verdade!) uma fatia de bolo de chocolate. Só uma, pois está sempre de dieta…
Vem esta lenga-lenga de banda desenhada a propósito de tantos e tantos “generais” iguais a este que andam por aí em altos cargos só porque foram subindo a escada do poder, quase sem se dar por eles, e sem que demonstrem verdadeiras capacidades de liderança, sendo mesmo contestados internamente no quartel, mas de mansinho, para que no quartel do vizinho ninguém saiba que o líder melhor não era aquele, mas foi o que se pôde arranjar. Quantas e quantas vezes já ficaram com a sensação de ter encontrado alguém assim, num lugar de topo? Ao longo da vida certamente já encontrámos (e talvez iremos continuar a encontrar…) muitos assim, daí que é necessário que sejamos capazes de distinguir o trigo do joio, o general do pau-mandado.
Aproximam-se tempos perigosos, e vai ser melhor que estejamos todos alerta para os “generais” à nossa volta… Há uns que apenas largam cheiro, e outros dos quais podemos espremer sumo. O difícil é distingui-los… ou talvez não!
Há na banda desenhada do Recruta Zero várias personagens paradigmáticas da nossa vida do dia-a-dia, a começar pelo próprio Zero, o protótipo do magala preguiçoso que tenta ser sempre mais esperto que o terrível Sargento Tainha, que faz jus ao nome pregando inenarráveis “tainhas” no lombo dos soldados sob o seu comando. Depois há o Cosme, sempre com os seus esquemas para conseguir vender coisas aos camaradas, nem que seja um guarda-chuva furado com o argumento que assim é possível espreitar a Dona Teté pelos buraquinhos. Há o Quindim, engatatão-mor da Companhia, o Platão, que sabe tudo sobre tudo, desde que seja filosofia, o tenente Escovinha, arrogante e mandão, o Capitão Durindana, um dos poucos com juízo no meio daquela confusão toda, tal como o Major, cujo nome não me lembro agora, e o General Dureza, que manda na tropa mas é mandado pela mulher, e por aí fora.
O general é, no fundo, uma fachada, uma figura decorativa que tem alguém por trás a puxar os cordelinhos enquanto ele se vai divertindo a beber Martini em copos de cristal. Quando há uma discussão no quartel o general prefere perguntar a toda a gente o que fazer, mas é quando chega a casa e fala com a mulher que a coisa se decide. E se por acaso ele decidiu sozinho é certo e sabido que a mulher lhe vai moer a paciência até adormecer, pois vai achar que a decisão foi errada.
Lembro-me de ler uma história em que o general ficou sem saber o que fazer quando estalou a discórdia no quartel, pois os recrutas reclamavam promoções, mais e melhores regalias, menos tareias do sargento, e outras coisas do género. O general, atarantado, ficou a ver a discussão, entalado entre as várias facções, e só se mexeu quando já havia consenso. Consenso como quem diz, pois o que salvou o dia foi o Sargento Tainha, que apareceu em cena e estragou a festa dos outros tropas, distribuindo “fruta” a torto e a direito e colocando toda a gente a limpar retretes durante um mês, sem direito a sair no fim-de-semana. Depois, foi para a cozinha e pediu ao Cuca (tinha-me esquecido do cozinheiro do quartel, é verdade!) uma fatia de bolo de chocolate. Só uma, pois está sempre de dieta…
Vem esta lenga-lenga de banda desenhada a propósito de tantos e tantos “generais” iguais a este que andam por aí em altos cargos só porque foram subindo a escada do poder, quase sem se dar por eles, e sem que demonstrem verdadeiras capacidades de liderança, sendo mesmo contestados internamente no quartel, mas de mansinho, para que no quartel do vizinho ninguém saiba que o líder melhor não era aquele, mas foi o que se pôde arranjar. Quantas e quantas vezes já ficaram com a sensação de ter encontrado alguém assim, num lugar de topo? Ao longo da vida certamente já encontrámos (e talvez iremos continuar a encontrar…) muitos assim, daí que é necessário que sejamos capazes de distinguir o trigo do joio, o general do pau-mandado.
Aproximam-se tempos perigosos, e vai ser melhor que estejamos todos alerta para os “generais” à nossa volta… Há uns que apenas largam cheiro, e outros dos quais podemos espremer sumo. O difícil é distingui-los… ou talvez não!
40 - Cada igreja, uma tasca
Por causa desta, tive uma pega com o director do jornal, pessoa muito católica mas que não se conseguiu fazer entender à primeira... assim nascem os mal-entendidos!
Há dias, no meio de uma conversa à roda de uma mesa bem regada, que se prolongou pela noite dentro, alguém disse que tinha dado um passeio pela ilha e constatado que ao pé de cada igreja havia uma tasca. Já não sei a que respeito surgiu este “desbloqueador de conversa”, mas o certo é que a coisa animou e toda a gente tentou fazer um exercício de memória para saber se era mesmo assim. Conclusão unânime: é! Até a Sé tem uma tasca em frente…
Por entre olhares de espanto e muitas gargalhadas, lá nos rendemos à evidência de que realmente é muito lucrativo ter um bar aberto ao pé da igreja. Afinal, quantos e quantos chegam à porta do templo e à última da hora se lembram de que estão com sede? Bem vistas as coisas, dentro da igreja um homem ainda fica com mais sede! E em dia de casamentos a coisa piora. Pois então! Basta ver que a maior parte dos casamentos acontece no Verão, que é quando está mais sol para tirar fotografias ao véu, mas é também quando faz mais calor dentro da igreja. A solução, já se sabe, é ir para a tasca.
E nos dias de procissão? É uma canseira! Já vi muito boa gente fazer na tasca a preparação física para levar o andor às costas. É fácil, basta agarrar num objecto esférico de vidro acastanhado ou esverdeado, de preferência bem fresco, e levantá-lo até à altura da boca várias vezes. Com o braço bem treinado, carregar o andor é uma brincadeira de crianças. E felizmente que o andor não sofre muito com o andar, que por sua vez pode ser afectado pelos efeitos secundários do exercício que se fez na tasca. Enfim, andor, que se faz tarde.
De qualquer maneira, não fiquei convencido com a conversa, e por isso dediquei uma parte do fim-de-semana a verificar se realmente a distribuição das tascas respeitava a das igrejas. Surpresa das surpresas, a coisa só não condiz em dois ou três casos, que não vou revelar aqui, para não tirar a quem lê o prazer de ir fazer também este passeio bem disposto. Aquelas igrejas que não têm uma tasca ao lado têm quase todas uma a menos de 100 metros, o que para o caso vai dar ao mesmo.
O pensamento tem o seu quê de engraçado, até porque está em linha com os evangelhos. Pois se até Jesus transformou água em vinho… À nossa!
Há dias, no meio de uma conversa à roda de uma mesa bem regada, que se prolongou pela noite dentro, alguém disse que tinha dado um passeio pela ilha e constatado que ao pé de cada igreja havia uma tasca. Já não sei a que respeito surgiu este “desbloqueador de conversa”, mas o certo é que a coisa animou e toda a gente tentou fazer um exercício de memória para saber se era mesmo assim. Conclusão unânime: é! Até a Sé tem uma tasca em frente…
Por entre olhares de espanto e muitas gargalhadas, lá nos rendemos à evidência de que realmente é muito lucrativo ter um bar aberto ao pé da igreja. Afinal, quantos e quantos chegam à porta do templo e à última da hora se lembram de que estão com sede? Bem vistas as coisas, dentro da igreja um homem ainda fica com mais sede! E em dia de casamentos a coisa piora. Pois então! Basta ver que a maior parte dos casamentos acontece no Verão, que é quando está mais sol para tirar fotografias ao véu, mas é também quando faz mais calor dentro da igreja. A solução, já se sabe, é ir para a tasca.
E nos dias de procissão? É uma canseira! Já vi muito boa gente fazer na tasca a preparação física para levar o andor às costas. É fácil, basta agarrar num objecto esférico de vidro acastanhado ou esverdeado, de preferência bem fresco, e levantá-lo até à altura da boca várias vezes. Com o braço bem treinado, carregar o andor é uma brincadeira de crianças. E felizmente que o andor não sofre muito com o andar, que por sua vez pode ser afectado pelos efeitos secundários do exercício que se fez na tasca. Enfim, andor, que se faz tarde.
De qualquer maneira, não fiquei convencido com a conversa, e por isso dediquei uma parte do fim-de-semana a verificar se realmente a distribuição das tascas respeitava a das igrejas. Surpresa das surpresas, a coisa só não condiz em dois ou três casos, que não vou revelar aqui, para não tirar a quem lê o prazer de ir fazer também este passeio bem disposto. Aquelas igrejas que não têm uma tasca ao lado têm quase todas uma a menos de 100 metros, o que para o caso vai dar ao mesmo.
O pensamento tem o seu quê de engraçado, até porque está em linha com os evangelhos. Pois se até Jesus transformou água em vinho… À nossa!
39 - O encanto de um par de cornos
Com um título destes, a crónica fala de quê? De toiros, está claro!
Há duas hipóteses para um texto com este título: ou se fala de perucas de touro ou se fala dos touros propriamente ditos. Desengane-se quem pensou que ia ler uma estória cabeluda…
Se há coisa que caracteriza um terceirense e ajuda a desbloquear muita conversa são as touradas, que despertam uma curiosidade enorme em quem nos visita. Quando estava em São Miguel, os meus amigos coriscos que me queriam “picar”, muito antes da polémica lei das touradas de praça proibir tal coisa, puxavam logo pelas festas e pelas touradas, que nos impediam de trabalhar e justificavam que a Terceira fosse conhecida como o parque de diversões dos Açores. Desgraça das desgraças, somos conhecidos fora de portas também pelo rabo torto dos cães das vacas, e lá se consolavam eles com a brincadeira, que ninguém levava a mal e sempre servia para puxar pelos talentos de imitação para falarmos como eles e desviar a conversa para outro lado.
Os colegas do continente mostravam-se sempre curiosos quanto à nossa festa brava, e lá tinha eu de explicar o melhor que podia a mecânica da coisa, e começava sempre por dizer que a tourada na minha freguesia começava sempre oito horas antes do touro sair da gaiola. É que às dez da matina já se prepara o bodo de leite (que também tinha de ser explicado…), e depois vai-se para o mato buscar os touros, que é como quem diz vamos fazer uma churrascada e beber umas frescas com os amigos. Só com a barriga cheia é que há então condições para enjaular os galhudos, que vêm em cortejo alegórico até ao arraial para descansar um bocado antes de serem chamados à rua. Eles gostavam da explicação, e já houve uns quantos que quando vieram cá fizeram questão de ir aos touros.
Claro que o melhor da festa é mesmo esperar por ela, mas mesmo assim ficavam todos confusos quando eu dizia que às vezes não via os quatro primeiros touros e andava a fugir do quinto, que eles não percebiam de onde vinha se só eram corridos quatro. E é verdade, porque houve um ano em que nas minhas duas touradas (não vou a mais, só às que me passam à porta) nem cheguei a saber se os cornos estavam lá todos.
Voltamos a São Miguel. Há uns meses atrás, tive oportunidade de correr Ponta Delgada de ponta a ponta, coisa que já não fazia há anos, e acabei a viagem no centro comercial Sol Mar, onde me esperava um Mister Burger na Paparoca. Para quem não sabe, é uma coisa nojenta que tem calorias suficientes para alimentar um touro durante um dia, e sabe tão bem que é preciso ter fome para não deixar nada no prato, que até fica feio. Adiante. Encomendei e, como de costume, fui dar uma volta pelas lojas do andar de cima, começando pela ourivesaria e acabando na livraria. Pelo caminho, a discoteca, que tinha em frente umas vinte pessoas a olhar para a montra e a rir. Curioso, aproximei-me, e qual não foi o meu espanto, quando vi que era um DVD de marradas! Parecia a montra do Pedro Amiguinho em dia de festa.
Estava tudo completamente absorvido pelo espectáculo, e nisto ouvi uma senhora virar-se para o marido e dizer-lhe que no Verão tinham de ir à Tercêra para ver aquilo ao vivo. Pelas gargalhadas dele, se ainda não vieram devem estar aí a pingar. Esta semana, no nosso hiper, estava eu no Multibanco e ouvi um Ti José dizer à Maria para ir andando para dentro, que ele ia ficar a ver a cassete dos toiros na talavisão da tabacaria. Lembrei-me logo dos coriscos… e dos colegas do continente a quem mostrei este ano uma gravação de marradas, e que mesmo sendo da protectora dos animais não deixaram de achar graça a algumas cenas verdadeiramente hilariantes.
Este nosso produto, quer-me parecer, não está a ser bem vendido aí por fora, pois isto é o tipo de coisa que atrai mosca de Verão até dizer chega e podia muito bem ajudar a encher camas por esses hotéis fora. É ver o exemplo dos nossos americanos, que saem da base à vontade sem saber conduzir e descem a Rua do Galo à procura de uma tourada no Cabo da Praia. Como aqueles deve haver muitos mais… Enfim, é só arranjar maneira de convencer os turistas do encanto de um par de cornos.
Há duas hipóteses para um texto com este título: ou se fala de perucas de touro ou se fala dos touros propriamente ditos. Desengane-se quem pensou que ia ler uma estória cabeluda…
Se há coisa que caracteriza um terceirense e ajuda a desbloquear muita conversa são as touradas, que despertam uma curiosidade enorme em quem nos visita. Quando estava em São Miguel, os meus amigos coriscos que me queriam “picar”, muito antes da polémica lei das touradas de praça proibir tal coisa, puxavam logo pelas festas e pelas touradas, que nos impediam de trabalhar e justificavam que a Terceira fosse conhecida como o parque de diversões dos Açores. Desgraça das desgraças, somos conhecidos fora de portas também pelo rabo torto dos cães das vacas, e lá se consolavam eles com a brincadeira, que ninguém levava a mal e sempre servia para puxar pelos talentos de imitação para falarmos como eles e desviar a conversa para outro lado.
Os colegas do continente mostravam-se sempre curiosos quanto à nossa festa brava, e lá tinha eu de explicar o melhor que podia a mecânica da coisa, e começava sempre por dizer que a tourada na minha freguesia começava sempre oito horas antes do touro sair da gaiola. É que às dez da matina já se prepara o bodo de leite (que também tinha de ser explicado…), e depois vai-se para o mato buscar os touros, que é como quem diz vamos fazer uma churrascada e beber umas frescas com os amigos. Só com a barriga cheia é que há então condições para enjaular os galhudos, que vêm em cortejo alegórico até ao arraial para descansar um bocado antes de serem chamados à rua. Eles gostavam da explicação, e já houve uns quantos que quando vieram cá fizeram questão de ir aos touros.
Claro que o melhor da festa é mesmo esperar por ela, mas mesmo assim ficavam todos confusos quando eu dizia que às vezes não via os quatro primeiros touros e andava a fugir do quinto, que eles não percebiam de onde vinha se só eram corridos quatro. E é verdade, porque houve um ano em que nas minhas duas touradas (não vou a mais, só às que me passam à porta) nem cheguei a saber se os cornos estavam lá todos.
Voltamos a São Miguel. Há uns meses atrás, tive oportunidade de correr Ponta Delgada de ponta a ponta, coisa que já não fazia há anos, e acabei a viagem no centro comercial Sol Mar, onde me esperava um Mister Burger na Paparoca. Para quem não sabe, é uma coisa nojenta que tem calorias suficientes para alimentar um touro durante um dia, e sabe tão bem que é preciso ter fome para não deixar nada no prato, que até fica feio. Adiante. Encomendei e, como de costume, fui dar uma volta pelas lojas do andar de cima, começando pela ourivesaria e acabando na livraria. Pelo caminho, a discoteca, que tinha em frente umas vinte pessoas a olhar para a montra e a rir. Curioso, aproximei-me, e qual não foi o meu espanto, quando vi que era um DVD de marradas! Parecia a montra do Pedro Amiguinho em dia de festa.
Estava tudo completamente absorvido pelo espectáculo, e nisto ouvi uma senhora virar-se para o marido e dizer-lhe que no Verão tinham de ir à Tercêra para ver aquilo ao vivo. Pelas gargalhadas dele, se ainda não vieram devem estar aí a pingar. Esta semana, no nosso hiper, estava eu no Multibanco e ouvi um Ti José dizer à Maria para ir andando para dentro, que ele ia ficar a ver a cassete dos toiros na talavisão da tabacaria. Lembrei-me logo dos coriscos… e dos colegas do continente a quem mostrei este ano uma gravação de marradas, e que mesmo sendo da protectora dos animais não deixaram de achar graça a algumas cenas verdadeiramente hilariantes.
Este nosso produto, quer-me parecer, não está a ser bem vendido aí por fora, pois isto é o tipo de coisa que atrai mosca de Verão até dizer chega e podia muito bem ajudar a encher camas por esses hotéis fora. É ver o exemplo dos nossos americanos, que saem da base à vontade sem saber conduzir e descem a Rua do Galo à procura de uma tourada no Cabo da Praia. Como aqueles deve haver muitos mais… Enfim, é só arranjar maneira de convencer os turistas do encanto de um par de cornos.
38 - Três anos depois, a despedida
Não me podia ir embora das Flores sem me despedir de todos. Foi esta a forma que encontrei, e não consigo reler isto sem que uma lágrima teimosa me apareça no canto do olho...
Estou, como sabem, de regresso à terra. A despedida foi dolorosa mas ao mesmo tempo doce, e o equilibrar das emoções não foi nem tem sido fácil, mas nada que o tempo não resolva. Vim-me embora, mas deixei uma mensagem de despedida para publicação no jornal O Monchique, que inicialmente não era para ser publicada também aqui, mas acho que devo isso aos meus leitores, que me acompanharam fielmente ao longo de tanto tempo. É essa despedida que agora partilho convosco porque, no fundo, o Eterno Estudante é só um, esteja onde estiver.
Existem acontecimentos que marcam e mudam a vida de todos nós. Na maior parte dos casos, as coisas acontecem sem que nos apercebamos, de forma gradual, mas sempre com um dia, uma hora como ponto de referência. Para mim, o dia 11 de Junho de 2002, às 18:30, é esse ponto. Foi então que descobri que os próximos três anos da minha vida seriam passados na ilha das Flores. O que nessa altura parecia ser o céu a cair sobre a minha cabeça veio a tornar-se numa experiência de vida que nunca mais esquecerei.
Saio das Flores mais açoriano do que quando entrei. Aprendi o que é ser – de facto – ilhéu, o que é estar sujeito às agruras do isolamento a que a ilha está sujeita, não só por força dos ventos e das águas mas também por aquilo que, ao fim de três anos, me parecem ser erros de concepção estruturais que não são agora para aqui chamados. A vivência das gentes florentinas é diferente, é marcada e determinada por séculos de dificuldades que se reflectem até na mentalidade dos mais novos, alguns dos quais até parece já nascerem desanimados e conformados com um futuro que só a eles cabe melhorar, sem que isso signifique deixar definitivamente a terra que amam.
Saio também mais homem e mais professor. Conheci colegas de todo o país e da região, troquei experiências, fiz amizades para a vida inteira, e percebi que é nas situações de dificuldade que se revela o melhor e o pior daquilo que somos. Juntar no mesmo saco uma quantidade de gente arrancada sem dó nem piedade à família, aos amigos e ao seu contexto social é uma experiência sociológica de valor inestimável, e merecia ser estudada, sem dúvida alguma. Os ódios, as paixões (as paixões…) crescem até limites nunca antes explorados, e com eles crescem as personalidades de jovens docentes, inexperientes e cheios de vontade de fazer o melhor, de se manterem ocupados, pois é o trabalho que ajuda a não lembrar o que ficou para trás. É traumatizante e, ao mesmo tempo, enriquecedor.
E depois há os alunos. Os bons, os maus, os trabalhadores, os preguiçosos… Com todos os meus alunos, sem excepção, aprendi alguma coisa. Aliás, não exagero quando digo que não sei se alguma vez irei encontrar alunos como os das Flores. Adoro-os, e eles sabem disso. Se a vida fosse justa para todos, eu ficaria ainda mais dois anos nas Flores, para acabar aquilo que comecei, para levar os meus meninos e meninas até ao fim do “colégio”, como eles dizem. Mas a vida não é justa, e por isso chegou a hora de partir. Regresso à minha terra para recomeçar quase tudo de novo, para o bem e para o mal. Quem vier atrás de mim herda um grupo de miúdos fantástico, que só não fará mais nem melhor se não quiser.
Não me consegui despedir de toda a gente como gostaria, nem mesmo de quem mais gostava. Prefiro guardar a última imagem e pensar que nos podemos reencontrar um dia destes algures por aí. Aos colegas que conheci nestes três anos, que dizer? Uns mais do que outros, todos deixaram em mim a sua marca, e há muitos que passaram a fazer parte de mim e nunca serão esquecidos. Estejam hoje onde estiverem, desejo-lhes as maiores felicidades.
Aos florentinos que conheci, deixo o meu agradecimento pela forma simpática como me trataram, em particular às gentes da Fajãzinha a quem fico a dever uma visita sempre adiada. Deixo ainda, que me desculpem a franqueza, um lamento pela forma como são encarados os professores de fora que vão trabalhar para as Flores. Por várias vezes tive a sensação de que éramos vistos como máquinas e éramos controlados sempre que púnhamos o pé no aeroporto. Conheci nas Flores maus profissionais do ensino, mas em três anos conto-os pelos dedos de uma só mão, pelo que faço um apelo para que os próximos a chegar sejam um pouco melhor recebidos. Depois se verá se merecem ou não continuar a ser bem tratados, e estou em crer que sim.
Por último na escrita mas em primeiro no pensamento, aos meus alunos deixo beijos, abraços, e a promessa de nunca os esquecer. Mesmo à distância, vou tentar acompanhá-los e saber como vão (espero que nunca deixem de me mandar aqueles e-mails tão lindos…). Tentei ensinar-lhes que há mais na vida do que apenas estudar, mas que enquanto se estuda se deve dar tudo, pois pode ser a porta aberta para um futuro melhor. Não me esqueço do dia em que entrei numa sala com uma aula preparada ao milímetro e dei de caras com uma turma toda de mau humor. Caras fechadas, atitude de derrotados como nunca os tinha visto. Arrumei tudo o que tinha preparado e estive 45 minutos a devolver-lhes o sorriso e a esperança, depois de uma situação menos agradável com outro professor. Eles agradeceram no fim, mas não era preciso. Aprendi muito mais nessa aula do que eles, e se calhar eu é que devia ter agradecido. Pude ver ao vivo como pensa um aluno e o que ele espera de um professor. Nesse dia, abriram-se comigo e eu com eles. Eu sou exigente com eles, mas comigo também, e gosto de pensar que foi essa uma das chaves do nosso bom relacionamento. Obrigado a todos, sem excepção, pelo muito que me ensinaram.
Voltarei um dia, não sei quando, para matar saudades. Até lá, a todos, bem hajam!
Um grande abraço do professor Jorge Silva.
Estou, como sabem, de regresso à terra. A despedida foi dolorosa mas ao mesmo tempo doce, e o equilibrar das emoções não foi nem tem sido fácil, mas nada que o tempo não resolva. Vim-me embora, mas deixei uma mensagem de despedida para publicação no jornal O Monchique, que inicialmente não era para ser publicada também aqui, mas acho que devo isso aos meus leitores, que me acompanharam fielmente ao longo de tanto tempo. É essa despedida que agora partilho convosco porque, no fundo, o Eterno Estudante é só um, esteja onde estiver.
Existem acontecimentos que marcam e mudam a vida de todos nós. Na maior parte dos casos, as coisas acontecem sem que nos apercebamos, de forma gradual, mas sempre com um dia, uma hora como ponto de referência. Para mim, o dia 11 de Junho de 2002, às 18:30, é esse ponto. Foi então que descobri que os próximos três anos da minha vida seriam passados na ilha das Flores. O que nessa altura parecia ser o céu a cair sobre a minha cabeça veio a tornar-se numa experiência de vida que nunca mais esquecerei.
Saio das Flores mais açoriano do que quando entrei. Aprendi o que é ser – de facto – ilhéu, o que é estar sujeito às agruras do isolamento a que a ilha está sujeita, não só por força dos ventos e das águas mas também por aquilo que, ao fim de três anos, me parecem ser erros de concepção estruturais que não são agora para aqui chamados. A vivência das gentes florentinas é diferente, é marcada e determinada por séculos de dificuldades que se reflectem até na mentalidade dos mais novos, alguns dos quais até parece já nascerem desanimados e conformados com um futuro que só a eles cabe melhorar, sem que isso signifique deixar definitivamente a terra que amam.
Saio também mais homem e mais professor. Conheci colegas de todo o país e da região, troquei experiências, fiz amizades para a vida inteira, e percebi que é nas situações de dificuldade que se revela o melhor e o pior daquilo que somos. Juntar no mesmo saco uma quantidade de gente arrancada sem dó nem piedade à família, aos amigos e ao seu contexto social é uma experiência sociológica de valor inestimável, e merecia ser estudada, sem dúvida alguma. Os ódios, as paixões (as paixões…) crescem até limites nunca antes explorados, e com eles crescem as personalidades de jovens docentes, inexperientes e cheios de vontade de fazer o melhor, de se manterem ocupados, pois é o trabalho que ajuda a não lembrar o que ficou para trás. É traumatizante e, ao mesmo tempo, enriquecedor.
E depois há os alunos. Os bons, os maus, os trabalhadores, os preguiçosos… Com todos os meus alunos, sem excepção, aprendi alguma coisa. Aliás, não exagero quando digo que não sei se alguma vez irei encontrar alunos como os das Flores. Adoro-os, e eles sabem disso. Se a vida fosse justa para todos, eu ficaria ainda mais dois anos nas Flores, para acabar aquilo que comecei, para levar os meus meninos e meninas até ao fim do “colégio”, como eles dizem. Mas a vida não é justa, e por isso chegou a hora de partir. Regresso à minha terra para recomeçar quase tudo de novo, para o bem e para o mal. Quem vier atrás de mim herda um grupo de miúdos fantástico, que só não fará mais nem melhor se não quiser.
Não me consegui despedir de toda a gente como gostaria, nem mesmo de quem mais gostava. Prefiro guardar a última imagem e pensar que nos podemos reencontrar um dia destes algures por aí. Aos colegas que conheci nestes três anos, que dizer? Uns mais do que outros, todos deixaram em mim a sua marca, e há muitos que passaram a fazer parte de mim e nunca serão esquecidos. Estejam hoje onde estiverem, desejo-lhes as maiores felicidades.
Aos florentinos que conheci, deixo o meu agradecimento pela forma simpática como me trataram, em particular às gentes da Fajãzinha a quem fico a dever uma visita sempre adiada. Deixo ainda, que me desculpem a franqueza, um lamento pela forma como são encarados os professores de fora que vão trabalhar para as Flores. Por várias vezes tive a sensação de que éramos vistos como máquinas e éramos controlados sempre que púnhamos o pé no aeroporto. Conheci nas Flores maus profissionais do ensino, mas em três anos conto-os pelos dedos de uma só mão, pelo que faço um apelo para que os próximos a chegar sejam um pouco melhor recebidos. Depois se verá se merecem ou não continuar a ser bem tratados, e estou em crer que sim.
Por último na escrita mas em primeiro no pensamento, aos meus alunos deixo beijos, abraços, e a promessa de nunca os esquecer. Mesmo à distância, vou tentar acompanhá-los e saber como vão (espero que nunca deixem de me mandar aqueles e-mails tão lindos…). Tentei ensinar-lhes que há mais na vida do que apenas estudar, mas que enquanto se estuda se deve dar tudo, pois pode ser a porta aberta para um futuro melhor. Não me esqueço do dia em que entrei numa sala com uma aula preparada ao milímetro e dei de caras com uma turma toda de mau humor. Caras fechadas, atitude de derrotados como nunca os tinha visto. Arrumei tudo o que tinha preparado e estive 45 minutos a devolver-lhes o sorriso e a esperança, depois de uma situação menos agradável com outro professor. Eles agradeceram no fim, mas não era preciso. Aprendi muito mais nessa aula do que eles, e se calhar eu é que devia ter agradecido. Pude ver ao vivo como pensa um aluno e o que ele espera de um professor. Nesse dia, abriram-se comigo e eu com eles. Eu sou exigente com eles, mas comigo também, e gosto de pensar que foi essa uma das chaves do nosso bom relacionamento. Obrigado a todos, sem excepção, pelo muito que me ensinaram.
Voltarei um dia, não sei quando, para matar saudades. Até lá, a todos, bem hajam!
Um grande abraço do professor Jorge Silva.
37 - Regressar a casa
Três anos de tristezas e alegrias chegam ao fim. Valeu a pena o esforço!
No dia 11 de Junho de 2002, eram mais ou menos seis e meia da tarde, recebi uma mensagem no telemóvel: “já saíram as listas dos concursos”. Só isto, curto e grosso. Estava nesse momento a escrever um texto no computador, e a consulta da lista de colocações do concurso dos professores estava ali a dois ou três cliques de distância. Nem pensei e fui lá ver. Seria desta?
Rapidamente vi que os dois lugares existentes na Terceira tinham sido preenchidos por alguém que não conhecia nem conheço, e só fui ver o resto da lista por descargo de consciência, como se costuma dizer. E lá estava eu, no penúltimo lugar, com o nome colocado na Escola Básica 1, 2, 3/JI/S Padre Maurício de Freitas, em Santa Cruz das Flores. A respiração parou, os suores frios jorraram incontroláveis, e na garganta deu-se um nó cego que levou meses a desatar. Eu? Três anos nas Flores? Não devo estar a ver bem! Mas estava…
Nesse dia o jantar custou a engolir a toda a gente. Mais abaixo, o Abelha nem sonhava com a notícia que tinha para lhe dar. Até lhe passou a vontade de jogar o Colin McRae, ele que já tinha montado tudo para uma sessão de rali virtual, uma engenhoca complicada que envolvia uma tábua de passar a ferro no meio da sala para fixar o volante e os pedais. Para mim e para outros, o mundo não tinha acabado, mas toda a gente tinha percebido que acabara de entrar em pausa.
2 de Maio de 2005, mais ou menos seis e meia da tarde. Estava a trabalhar no computador e o telemóvel tocou. Era a Maria Helena a dar-me os parabéns. Parabéns de quê? Não faço anos hoje! – respondi eu, divertido e confuso – Oh homem, a tua colocação, ficaste na Secundária de Angra – o mundo parou mesmo nessa altura. Gaguejei, fui à Internet da forma mais atabalhoada que há memória, e comprovei a concretização do desejo, o retorno do investimento de três anos de vida num contexto social diferente e difícil, muito difícil…
Ao contrário do que muita gente pensa, as Flores não é o fim do mundo nem anda lá perto, mas há vezes em que é difícil viver cá, principalmente para quem é de fora, e diga-se de passagem que há muita gente que não se preocupa em saber se o recém-chegado está bem ou mal, e muito menos se for professor, uma raça que para muita gente é mal-vinda. E digo isto doa a quem doer, pois podia contar muitas histórias a este respeito. Na hora do primeiro balanço, ainda mal refeito da emoção, as contas são muito positivas, e não me arrependo de ter passado mais três anos longe de onde quero estar. Aprendi e cresci muito a nível pessoal e profissional, e sairei das Flores muito mais açoriano do que era no dia em que cá cheguei.
Faltam ainda dois meses, mas já posso dizer: Estou de regresso a casa. Agora, seja o que Deus quiser e eu puder.
No dia 11 de Junho de 2002, eram mais ou menos seis e meia da tarde, recebi uma mensagem no telemóvel: “já saíram as listas dos concursos”. Só isto, curto e grosso. Estava nesse momento a escrever um texto no computador, e a consulta da lista de colocações do concurso dos professores estava ali a dois ou três cliques de distância. Nem pensei e fui lá ver. Seria desta?
Rapidamente vi que os dois lugares existentes na Terceira tinham sido preenchidos por alguém que não conhecia nem conheço, e só fui ver o resto da lista por descargo de consciência, como se costuma dizer. E lá estava eu, no penúltimo lugar, com o nome colocado na Escola Básica 1, 2, 3/JI/S Padre Maurício de Freitas, em Santa Cruz das Flores. A respiração parou, os suores frios jorraram incontroláveis, e na garganta deu-se um nó cego que levou meses a desatar. Eu? Três anos nas Flores? Não devo estar a ver bem! Mas estava…
Nesse dia o jantar custou a engolir a toda a gente. Mais abaixo, o Abelha nem sonhava com a notícia que tinha para lhe dar. Até lhe passou a vontade de jogar o Colin McRae, ele que já tinha montado tudo para uma sessão de rali virtual, uma engenhoca complicada que envolvia uma tábua de passar a ferro no meio da sala para fixar o volante e os pedais. Para mim e para outros, o mundo não tinha acabado, mas toda a gente tinha percebido que acabara de entrar em pausa.
2 de Maio de 2005, mais ou menos seis e meia da tarde. Estava a trabalhar no computador e o telemóvel tocou. Era a Maria Helena a dar-me os parabéns. Parabéns de quê? Não faço anos hoje! – respondi eu, divertido e confuso – Oh homem, a tua colocação, ficaste na Secundária de Angra – o mundo parou mesmo nessa altura. Gaguejei, fui à Internet da forma mais atabalhoada que há memória, e comprovei a concretização do desejo, o retorno do investimento de três anos de vida num contexto social diferente e difícil, muito difícil…
Ao contrário do que muita gente pensa, as Flores não é o fim do mundo nem anda lá perto, mas há vezes em que é difícil viver cá, principalmente para quem é de fora, e diga-se de passagem que há muita gente que não se preocupa em saber se o recém-chegado está bem ou mal, e muito menos se for professor, uma raça que para muita gente é mal-vinda. E digo isto doa a quem doer, pois podia contar muitas histórias a este respeito. Na hora do primeiro balanço, ainda mal refeito da emoção, as contas são muito positivas, e não me arrependo de ter passado mais três anos longe de onde quero estar. Aprendi e cresci muito a nível pessoal e profissional, e sairei das Flores muito mais açoriano do que era no dia em que cá cheguei.
Faltam ainda dois meses, mas já posso dizer: Estou de regresso a casa. Agora, seja o que Deus quiser e eu puder.
36 - Não há água quente!
Uma reflexão sobre a nossa incapacidade de regressar aos instintos mais básicos. Não é das coisas melhores que já escrevi, mas neste dia deu-me para isto...
Somos mesmo uns tristes. Séculos de desenvolvimento o melhor que nos conseguiram fazer foi transformar uma raça inteligente e dominadora nuns mariquinhas pé-de-salsa que já não sabem viver sem as comodidades do progresso…
Acordei aqui há dias com exclamações muito… exclamativas vindas do andar de baixo, mais propriamente da casa de banho. Era o meu colega de casa aos gritos porque estava a tomar duche de água fria. Bem feito, pensei eu, tivesses tomado banho ontem à noite. Só que nessa noite quem se tramou fui eu, e já não achei assim tanta graça. O que parecia ser uma simples questão de garrafas de gás fora de prazo acabou por ser um problema de canos entupidos que ameaçou dar-nos cabo do juízo até ao Verão. E desde que me vi obrigado a esventrar metade de uma casa por causa de um cano roto passei a ter muito respeitinho por aqueles insignificantes tubos enterrados debaixo do chão… já estava mesmo a ver o filme a repetir-se todo. Mas se eu até tomo banho de água fria de vez em quando porque me apetece, já o meu sócio mostrava-se irredutível e chamou ao senhorio os nomes todos possíveis e imaginários…
Está-se mesmo a ver que o coitado do homem não tinha culpa nenhuma e que era uma cabeça quente a falar para não estar calada, mas foi o suficiente para me pôr a pensar na forma como somos dominados – passe a expressão – por coisas tão simples como uma torneira ou um interruptor de electricidade. Hoje em dia é absolutamente impensável na nossa sociedade viver sem estes dois símbolos do progresso e do conforto da humanidade, mas apesar disso ainda há muito boa gente a viver sem água nem luz em casa. Lembro-me de ter ficado chocado aqui há uns dois ou três anos por ver a inauguração, com pompa e circunstância, do primeiro posto de transformação da EDP numa aldeia perdida nos confins de Portugal. Como é possível? Lisboa tem candeeiros eléctricos nas ruas há 150 anos…
Tudo isto para dizer o quê? Para perguntar quanto valemos nós de facto se tivermos de regressar às origens. Tente imaginar a vida sem água canalizada, electricidade e automóveis. Tudo aquilo que somos e fazemos depende em larga escala destes factores, e quando falta um é o caos. Ainda não há muito tempo, bastou dizer que havia pouca gasolina e foi toda a gente cheia de sede encher garrafões e rebentar estupidamente com o stock. Quando falta a água é outro disparate de lamúrias, que não se pode lavar a loiça nem a roupa, nem cozinhar, nem tomar banho, nem lavar o carro, e por aí fora.
Contudo, na Terceira estamos mesmo habituados é a que falte a luz. Isso é que é bom. E tem vantagens. Não há televisão, rádio só a pilhas e é se o emissor estiver a funcionar, por isso o melhor mesmo é acender as velas ou, melhor ainda, os candeeiros a petróleo, e… conversar. Muito simplesmente, conversar. Quantas e quantas famílias não beneficiariam de uma noite a conversar ou a jogar às cartas à volta da mesa. Quantos jogos infantis não ressuscitariam das trevas (literalmente…) para animar o serão? E se se conseguissem juntar avós e netos, melhor ainda, pois parece que os “velhotes” ganham outro encanto quando estão às escuras…
A realidade mais prosaica, no entanto, é outra, e manda que se diga que a Terceira é (quase de certeza) a ilha onde há mais cortes. Estive cinco anos em São Miguel, e lembro-me de faltar a luz duas ou três vezes, estou há quase três na outra ponta do arquipélago, e só por uma vez precisei de acender a vela.
Eu até gosto de conversar e de jogar às cartas (se for dominó, prefiro!), mas gosto de saber que o frigorífico vai resistir aos arranques da central do Feiojardim e que o computador não vai precisar de uma nova fonte de alimentação… e que vou conseguir fazer pipocas, pois em casa só havia das de microondas.
Somos mesmo uns tristes. Séculos de desenvolvimento o melhor que nos conseguiram fazer foi transformar uma raça inteligente e dominadora nuns mariquinhas pé-de-salsa que já não sabem viver sem as comodidades do progresso…
Acordei aqui há dias com exclamações muito… exclamativas vindas do andar de baixo, mais propriamente da casa de banho. Era o meu colega de casa aos gritos porque estava a tomar duche de água fria. Bem feito, pensei eu, tivesses tomado banho ontem à noite. Só que nessa noite quem se tramou fui eu, e já não achei assim tanta graça. O que parecia ser uma simples questão de garrafas de gás fora de prazo acabou por ser um problema de canos entupidos que ameaçou dar-nos cabo do juízo até ao Verão. E desde que me vi obrigado a esventrar metade de uma casa por causa de um cano roto passei a ter muito respeitinho por aqueles insignificantes tubos enterrados debaixo do chão… já estava mesmo a ver o filme a repetir-se todo. Mas se eu até tomo banho de água fria de vez em quando porque me apetece, já o meu sócio mostrava-se irredutível e chamou ao senhorio os nomes todos possíveis e imaginários…
Está-se mesmo a ver que o coitado do homem não tinha culpa nenhuma e que era uma cabeça quente a falar para não estar calada, mas foi o suficiente para me pôr a pensar na forma como somos dominados – passe a expressão – por coisas tão simples como uma torneira ou um interruptor de electricidade. Hoje em dia é absolutamente impensável na nossa sociedade viver sem estes dois símbolos do progresso e do conforto da humanidade, mas apesar disso ainda há muito boa gente a viver sem água nem luz em casa. Lembro-me de ter ficado chocado aqui há uns dois ou três anos por ver a inauguração, com pompa e circunstância, do primeiro posto de transformação da EDP numa aldeia perdida nos confins de Portugal. Como é possível? Lisboa tem candeeiros eléctricos nas ruas há 150 anos…
Tudo isto para dizer o quê? Para perguntar quanto valemos nós de facto se tivermos de regressar às origens. Tente imaginar a vida sem água canalizada, electricidade e automóveis. Tudo aquilo que somos e fazemos depende em larga escala destes factores, e quando falta um é o caos. Ainda não há muito tempo, bastou dizer que havia pouca gasolina e foi toda a gente cheia de sede encher garrafões e rebentar estupidamente com o stock. Quando falta a água é outro disparate de lamúrias, que não se pode lavar a loiça nem a roupa, nem cozinhar, nem tomar banho, nem lavar o carro, e por aí fora.
Contudo, na Terceira estamos mesmo habituados é a que falte a luz. Isso é que é bom. E tem vantagens. Não há televisão, rádio só a pilhas e é se o emissor estiver a funcionar, por isso o melhor mesmo é acender as velas ou, melhor ainda, os candeeiros a petróleo, e… conversar. Muito simplesmente, conversar. Quantas e quantas famílias não beneficiariam de uma noite a conversar ou a jogar às cartas à volta da mesa. Quantos jogos infantis não ressuscitariam das trevas (literalmente…) para animar o serão? E se se conseguissem juntar avós e netos, melhor ainda, pois parece que os “velhotes” ganham outro encanto quando estão às escuras…
A realidade mais prosaica, no entanto, é outra, e manda que se diga que a Terceira é (quase de certeza) a ilha onde há mais cortes. Estive cinco anos em São Miguel, e lembro-me de faltar a luz duas ou três vezes, estou há quase três na outra ponta do arquipélago, e só por uma vez precisei de acender a vela.
Eu até gosto de conversar e de jogar às cartas (se for dominó, prefiro!), mas gosto de saber que o frigorífico vai resistir aos arranques da central do Feiojardim e que o computador não vai precisar de uma nova fonte de alimentação… e que vou conseguir fazer pipocas, pois em casa só havia das de microondas.
35 - A sanita e o sifão
Em Portugal Continental há sanitas. Nos Açores há sifões. E depois?
Sabes como é que eles chamam as sanitas aqui? Sifões! Olha, fartei-me de rir…
Quem disse esta preciosidade da língua portuguesa foi uma colega minha do continente que está pela primeira vez nos Açores, dirigindo-se a outra colega na mesma situação. Eu, que estava ao lado, ri também, recordei em silêncio outras coisas que por cá se dizem que por lá são desconhecidas, e acabei a contar-lhes muitas particularidades do falar açoriano. Mas esta história começa há muitos anos atrás, por isso é melhor dar um salto no tempo…
Quase todos temos algum familiar ou conhecido que emigrou para as Américas no tempo em que ninguém dava um escudo pela vida nos Açores, e sabemos bem que o português quando sai de casa e tem que aprender outra língua acaba por misturar tudo e criar um “dialecto” próprio que não deixa de ter a sua graça se pensarmos na forma como certas palavras entraram no falar do dia-a-dia. Esta realidade terá, porventura, maior expressão na Terceira devido à presença dos amaricanos da base, mas estende-se a todo o arquipélago, de uma forma ou de outra.
Comecemos pela gama. Pergunte-se a um miúdo se quer uma, e quase de certeza que se vai abrir num sorriso, a menos que não seja açoriano. É que para os de fora tal palavra não diz nada, habituados que estão a mastigar pastilha elástica… Para nós, no entanto, é a maneira portuguesa de dizer chewing gum, que os nossos familiares mandavam aos quilos nas famosas “sacas da América”, juntamente com uns pacotes de candinhos, que não passavam de meros candies, simples rebuçados que alegravam a língua e melavam a roupa, que tinha de ir toda para dentro da pana fazer barrela. Mais um problema… vai ser preciso explicar que a pana é uma pan à moda açoriana, e é a mesma coisa que bacia ou alguidar, que para nós é de barro mas que para eles é de plástico.
E por falar em loiça, toda a vida ouvi dizer que os pratos se lavavam no cinco da loiça, mas já tinha entrado nos vintes quando parei para pensar que aquilo não fazia sentido, e percebi que afinal a loiça se lavava era no sink, ou melhor, no kitchen sink dito à maneira dos emigrantes que regressavam de Noioca… ou será New York? Enfim, não interessa agora. Eles mandavam gamas e candinhos e algum monim, e isso era o principal. Mas gostar, gostar, gostava mesmo era dos carros que vinham “da América” e que os calafonas diziam que cá eram muito difíceis de parcar. Ora parcar… deixa cá ver… parking! É isso: os carros eram difíceis de estacionar porque eram muito grandes, tão grandes que ficaram conhecidos como banheiras.
O meu avô andou lá por fora, mas não trouxe banheira nenhuma da América, e ainda bem, mas trouxe muitas calças, camisas, e um carrete de alvarozes tão bons que ainda hoje existem. Ele vestia-os quase todos os dias, eram práticos, confortáveis, resistentes, e quando eu era miúdo também gostava de ter uns, sem nunca perceber porque é que o resto da canalha os chamava de jardineiras. Para mim eram alvarozes e pronto… até ao dia em que descobri um catálogo de vendas por correspondência americano dos anos sessenta, e vi páginas e páginas cheias de over-alls de várias cores e feitios. Over-alls… estava desfeito o mistério dos alvarozes! Tinham aquele nome porque se podiam vestir por cima de tudo, à laia de fato-macaco, e à portuguesa por pouco não se confundiam com os albatrozes…
Mas acham que me preocupei com a descoberta? Isso é que era bom! Comigo a loiça continua a lavar-se no cinco, e mastigo uma gama quando me apetece. Não tenho é alvarozes nem digo que vou parcar o carro, mas as minhas amigas ficaram a saber que enquanto no continente elas se sentam numa sanita, por cá não têm outro remédio a não ser sentar-se no sifão. E ficam consoladas à mesma…
Dedicado à Sílvia e à Marlene, duas amigas que a vida colocou longe da vista, mas perto da recordação.
Sabes como é que eles chamam as sanitas aqui? Sifões! Olha, fartei-me de rir…
Quem disse esta preciosidade da língua portuguesa foi uma colega minha do continente que está pela primeira vez nos Açores, dirigindo-se a outra colega na mesma situação. Eu, que estava ao lado, ri também, recordei em silêncio outras coisas que por cá se dizem que por lá são desconhecidas, e acabei a contar-lhes muitas particularidades do falar açoriano. Mas esta história começa há muitos anos atrás, por isso é melhor dar um salto no tempo…
Quase todos temos algum familiar ou conhecido que emigrou para as Américas no tempo em que ninguém dava um escudo pela vida nos Açores, e sabemos bem que o português quando sai de casa e tem que aprender outra língua acaba por misturar tudo e criar um “dialecto” próprio que não deixa de ter a sua graça se pensarmos na forma como certas palavras entraram no falar do dia-a-dia. Esta realidade terá, porventura, maior expressão na Terceira devido à presença dos amaricanos da base, mas estende-se a todo o arquipélago, de uma forma ou de outra.
Comecemos pela gama. Pergunte-se a um miúdo se quer uma, e quase de certeza que se vai abrir num sorriso, a menos que não seja açoriano. É que para os de fora tal palavra não diz nada, habituados que estão a mastigar pastilha elástica… Para nós, no entanto, é a maneira portuguesa de dizer chewing gum, que os nossos familiares mandavam aos quilos nas famosas “sacas da América”, juntamente com uns pacotes de candinhos, que não passavam de meros candies, simples rebuçados que alegravam a língua e melavam a roupa, que tinha de ir toda para dentro da pana fazer barrela. Mais um problema… vai ser preciso explicar que a pana é uma pan à moda açoriana, e é a mesma coisa que bacia ou alguidar, que para nós é de barro mas que para eles é de plástico.
E por falar em loiça, toda a vida ouvi dizer que os pratos se lavavam no cinco da loiça, mas já tinha entrado nos vintes quando parei para pensar que aquilo não fazia sentido, e percebi que afinal a loiça se lavava era no sink, ou melhor, no kitchen sink dito à maneira dos emigrantes que regressavam de Noioca… ou será New York? Enfim, não interessa agora. Eles mandavam gamas e candinhos e algum monim, e isso era o principal. Mas gostar, gostar, gostava mesmo era dos carros que vinham “da América” e que os calafonas diziam que cá eram muito difíceis de parcar. Ora parcar… deixa cá ver… parking! É isso: os carros eram difíceis de estacionar porque eram muito grandes, tão grandes que ficaram conhecidos como banheiras.
O meu avô andou lá por fora, mas não trouxe banheira nenhuma da América, e ainda bem, mas trouxe muitas calças, camisas, e um carrete de alvarozes tão bons que ainda hoje existem. Ele vestia-os quase todos os dias, eram práticos, confortáveis, resistentes, e quando eu era miúdo também gostava de ter uns, sem nunca perceber porque é que o resto da canalha os chamava de jardineiras. Para mim eram alvarozes e pronto… até ao dia em que descobri um catálogo de vendas por correspondência americano dos anos sessenta, e vi páginas e páginas cheias de over-alls de várias cores e feitios. Over-alls… estava desfeito o mistério dos alvarozes! Tinham aquele nome porque se podiam vestir por cima de tudo, à laia de fato-macaco, e à portuguesa por pouco não se confundiam com os albatrozes…
Mas acham que me preocupei com a descoberta? Isso é que era bom! Comigo a loiça continua a lavar-se no cinco, e mastigo uma gama quando me apetece. Não tenho é alvarozes nem digo que vou parcar o carro, mas as minhas amigas ficaram a saber que enquanto no continente elas se sentam numa sanita, por cá não têm outro remédio a não ser sentar-se no sifão. E ficam consoladas à mesma…
Dedicado à Sílvia e à Marlene, duas amigas que a vida colocou longe da vista, mas perto da recordação.
34 - Escrever ou não escrever, eis a questão
Às vezes, escrever é uma coisa complicada. Quando vem de dentro, dói...
Peço desculpa a Shakespeare pelo meu título de hoje, mas não encontro melhor para exprimir o que vai cá dentro. Fiquei abismado quando, ao dar uma volta pelos arquivos de memória, constatei que há três meses não escrevia para o jornal, e fui confirmar as datas ao computador. Era verdade! Explicações para isso? Não é fácil…
A necessidade de escrever é menor, por um lado, devido ao novo projecto editorial que abracei, e que me ocupa as pontas dos dedos durante boa parte do tempo mas, por outro, motivos para teclar não faltaram desde o dia 15 de Novembro. O problema é que entre escrever o que me apetecia e deixar que outros lessem o que sentia vai uma distância que não é tão pequena como isso…
Para quem é professor em busca de poiso certo, esta é a altura em que todas as angústias vêm ao de cima. É ver a incerteza estampada na cara de quem concorre mais uma vez, sabendo de antemão que a vida está difícil e assim continuará, e sabendo também que “para o ano” não se sabe onde estarão aqueles que começam por ser colegas, passam a amigos, e depois até, quem sabe, algo mais. E, por aquilo que vejo, é justamente o “algo mais” que me preocupa. Não é fácil manter “algo” quando as pessoas estão separadas por muitos quilómetros de ar e mar, e conheço muito boa gente que prefere fazer de conta que não se passa nada só para que em Julho não haja cenas de baba, ranho e raiva perante uma vida que por vezes é estúpida que se farta…
Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, defendia que “mais vale a amizade que o amor”, pois só assim se conseguiria atingir o estado de ataraxia, ou seja, de total paz de espírito. Mas haverá paz de espírito quando se tem “algo mais” ali ao lado e as celulazinhas cinzentas mandam fazer de conta que não se percebe? Não será isto o adiar do inevitável? Venha o Diabo e responda…
E depois há os outros, os que se estão nas tintas para as células cinzentas e só ligam às pulsações vermelhas. Esses aparentam ser felizes, mas também são mais susceptíveis de bater com a cabeça na parede e ficar pelos cantos a carpir mágoas. Entre estes, há os que conseguem estar a centenas de quilómetros de distância e manter a chama. Seja por telefone, por SMS, e-mail, Internet, por atestado, seja como for. E o mais espantoso é que por vezes dá certo! E há também quem esteja absolutamente farto de estar num sítio, diga cobras e lagartos, deseje fugir para nunca mais voltar, e consiga sair. Só que, entre uma coisa e outra, o bicho mordeu e já surgiu a hipótese de regressar ao lugar outrora tão detestado…
Devia ser nisto que Carlos Tê estava a pensar quando escreveu As Regras da Sensatez para a voz de Rui Veloso, ainda que a princípio pareça que é o contrário… nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. Por muito que o coração diga, não faças o que ele diz…
Conclusão? Não há. Cada um tire a sua…
Peço desculpa a Shakespeare pelo meu título de hoje, mas não encontro melhor para exprimir o que vai cá dentro. Fiquei abismado quando, ao dar uma volta pelos arquivos de memória, constatei que há três meses não escrevia para o jornal, e fui confirmar as datas ao computador. Era verdade! Explicações para isso? Não é fácil…
A necessidade de escrever é menor, por um lado, devido ao novo projecto editorial que abracei, e que me ocupa as pontas dos dedos durante boa parte do tempo mas, por outro, motivos para teclar não faltaram desde o dia 15 de Novembro. O problema é que entre escrever o que me apetecia e deixar que outros lessem o que sentia vai uma distância que não é tão pequena como isso…
Para quem é professor em busca de poiso certo, esta é a altura em que todas as angústias vêm ao de cima. É ver a incerteza estampada na cara de quem concorre mais uma vez, sabendo de antemão que a vida está difícil e assim continuará, e sabendo também que “para o ano” não se sabe onde estarão aqueles que começam por ser colegas, passam a amigos, e depois até, quem sabe, algo mais. E, por aquilo que vejo, é justamente o “algo mais” que me preocupa. Não é fácil manter “algo” quando as pessoas estão separadas por muitos quilómetros de ar e mar, e conheço muito boa gente que prefere fazer de conta que não se passa nada só para que em Julho não haja cenas de baba, ranho e raiva perante uma vida que por vezes é estúpida que se farta…
Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, defendia que “mais vale a amizade que o amor”, pois só assim se conseguiria atingir o estado de ataraxia, ou seja, de total paz de espírito. Mas haverá paz de espírito quando se tem “algo mais” ali ao lado e as celulazinhas cinzentas mandam fazer de conta que não se percebe? Não será isto o adiar do inevitável? Venha o Diabo e responda…
E depois há os outros, os que se estão nas tintas para as células cinzentas e só ligam às pulsações vermelhas. Esses aparentam ser felizes, mas também são mais susceptíveis de bater com a cabeça na parede e ficar pelos cantos a carpir mágoas. Entre estes, há os que conseguem estar a centenas de quilómetros de distância e manter a chama. Seja por telefone, por SMS, e-mail, Internet, por atestado, seja como for. E o mais espantoso é que por vezes dá certo! E há também quem esteja absolutamente farto de estar num sítio, diga cobras e lagartos, deseje fugir para nunca mais voltar, e consiga sair. Só que, entre uma coisa e outra, o bicho mordeu e já surgiu a hipótese de regressar ao lugar outrora tão detestado…
Devia ser nisto que Carlos Tê estava a pensar quando escreveu As Regras da Sensatez para a voz de Rui Veloso, ainda que a princípio pareça que é o contrário… nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. Por muito que o coração diga, não faças o que ele diz…
Conclusão? Não há. Cada um tire a sua…
33 - Nasci há dez anos
Escrito no décimo aniversário da minha entrada para a Universidade dos Açores.
Lembra-se de onde estava e o que estava a fazer há exactamente dez anos? 15 de Novembro de 1994? Não? Eu sim. Passam hoje exactamente dez anos desde que fui para a universidade.
Os meus colegas de então apenas se lembram deste dia porque eu não os deixo esquecer, coisa que eu nunca consegui entender. Foi um marco histórico nas nossas vidas, o momento, para muitos, em que os pais e a família deixaram de estar sempre “lá” quando era preciso e em que tivemos de nos unir para superar as dificuldades de uma vida nova e desconhecida. Perigosa, talvez, mas aliciante, sem dúvida. A esta hora, já todos aqueles meus colegas desse tempo a quem tenho a honra de poder chamar Amigos receberam uma mensagem no telemóvel (há dez anos não havia modernices destas…) a lembrá-los do dia, e a esta hora já eu recebi um monte de respostas. Faz agora um ano, uma das respostas dizia assim: “Só mesmo tu para te lembrares destas coisas. Até me vieram as lágrimas aos olhos.” Lágrimas de felicidade, de saudade dos bons momentos, lágrimas de cumplicidade, lágrimas por um amor que nunca se concretizou, lágrimas cheias de vida em cada gota que cai.
Foram dias de reforço de amizades, dias de fazer novos amigos, dias que formaram um grupo que hoje tenho uma pena imensa por não poder juntar à mesma mesa… Jorges, Joões, Paulos, Fred, Rui, Roberto, Cristina, Patrícia, Ana, Fernanda, Vera… sei onde estão hoje quase todos, uns mais casados outros menos, uns com mais sucesso outros menos, enfim, todos já com mais dez anos de experiência em cima, mas todos ainda jovens e, acima de tudo, com uma ligação emocional muito grande.
E eu? Dez anos depois, olho para trás e tenho tanta coisa que dizer, tantas boas e más recordações, tantas coisas pequenas que hoje digo que poderia ter feito de outra forma… mas será que se tivesse ido pela esquerda em vez de ir pela direita as coisas se teriam passado de outra forma? É uma daquelas perguntas sem resposta que nos acompanham toda a vida, sem que isso signifique arrependimento. Posso dizer que não me arrependo de nada do que fiz, isso é verdade, mas se calhar até tenho pena de não ter feito certas coisas. Uma coisa é certa: tudo o que fiz teve influência na construção de quem sou e do que faço. Há quem me olhe para o currículo e diga que não percebe como é que já estive metido em tanta coisa, mas eu não sei ser de outra forma. Parar é morrer, já dizia o outro…
O curioso de toda esta construção de vida é que há apenas uma coisa que fazia na vida pré-universitária que me acompanhou sempre, e que acabou há precisamente um ano atrás, que foi a organização de eventos relacionados com desporto automóvel. Tudo o resto, compreendo agora, acabou por surgir e interligar-se com esta faceta da minha “carreira”, que infelizmente já não existe mas que me abriu portas para entrar, por exemplo, no mundo da comunicação social especializada na matéria. Dou voltas e voltas à cabeça, e chego sempre a este ponto como um fio condutor de tudo, à excepção do curso que tirei e das profissões que exerço. São vidas paralelas! Uma só existe porque tem a outra a suportá-la, e no entanto elas nunca se tocam em termos de conteúdo. Uma é, na verdade, o trabalho, a outra é um passatempo altamente compensador em termos de fuga ao quotidiano. Para usar um termo muito em voga, é “desstressante”… ainda que o professor de Português me diga que “relaxante” é a palavra certa!
Pontos negativos destes dez anos? Também os há… a minha família encolheu sem que eu pudesse estar presente nos piores momentos (e isso é talvez a única coisa que nunca vou perdoar à vida!), mas a pior parte é mesmo o facto de em dez anos apenas ter estado em casa durante três (pensando melhor, esta eu também não vou perdoar…), apesar de nunca estar ausente mais de dois meses, na pior das hipóteses. Mas não é, nem pode ser, a mesma coisa.
No fundo, se hoje sou quem sou é à minha família que o devo, e isso é coisa que não se esquece, não se pode esquecer, e nunca se vai esquecer.
Há dez anos estava em São Miguel. Hoje estou nas Flores. E amanhã?
Vida, não me pregues mais nenhuma partida. Sabes bem onde e com quem quero estar!
Lembra-se de onde estava e o que estava a fazer há exactamente dez anos? 15 de Novembro de 1994? Não? Eu sim. Passam hoje exactamente dez anos desde que fui para a universidade.
Os meus colegas de então apenas se lembram deste dia porque eu não os deixo esquecer, coisa que eu nunca consegui entender. Foi um marco histórico nas nossas vidas, o momento, para muitos, em que os pais e a família deixaram de estar sempre “lá” quando era preciso e em que tivemos de nos unir para superar as dificuldades de uma vida nova e desconhecida. Perigosa, talvez, mas aliciante, sem dúvida. A esta hora, já todos aqueles meus colegas desse tempo a quem tenho a honra de poder chamar Amigos receberam uma mensagem no telemóvel (há dez anos não havia modernices destas…) a lembrá-los do dia, e a esta hora já eu recebi um monte de respostas. Faz agora um ano, uma das respostas dizia assim: “Só mesmo tu para te lembrares destas coisas. Até me vieram as lágrimas aos olhos.” Lágrimas de felicidade, de saudade dos bons momentos, lágrimas de cumplicidade, lágrimas por um amor que nunca se concretizou, lágrimas cheias de vida em cada gota que cai.
Foram dias de reforço de amizades, dias de fazer novos amigos, dias que formaram um grupo que hoje tenho uma pena imensa por não poder juntar à mesma mesa… Jorges, Joões, Paulos, Fred, Rui, Roberto, Cristina, Patrícia, Ana, Fernanda, Vera… sei onde estão hoje quase todos, uns mais casados outros menos, uns com mais sucesso outros menos, enfim, todos já com mais dez anos de experiência em cima, mas todos ainda jovens e, acima de tudo, com uma ligação emocional muito grande.
E eu? Dez anos depois, olho para trás e tenho tanta coisa que dizer, tantas boas e más recordações, tantas coisas pequenas que hoje digo que poderia ter feito de outra forma… mas será que se tivesse ido pela esquerda em vez de ir pela direita as coisas se teriam passado de outra forma? É uma daquelas perguntas sem resposta que nos acompanham toda a vida, sem que isso signifique arrependimento. Posso dizer que não me arrependo de nada do que fiz, isso é verdade, mas se calhar até tenho pena de não ter feito certas coisas. Uma coisa é certa: tudo o que fiz teve influência na construção de quem sou e do que faço. Há quem me olhe para o currículo e diga que não percebe como é que já estive metido em tanta coisa, mas eu não sei ser de outra forma. Parar é morrer, já dizia o outro…
O curioso de toda esta construção de vida é que há apenas uma coisa que fazia na vida pré-universitária que me acompanhou sempre, e que acabou há precisamente um ano atrás, que foi a organização de eventos relacionados com desporto automóvel. Tudo o resto, compreendo agora, acabou por surgir e interligar-se com esta faceta da minha “carreira”, que infelizmente já não existe mas que me abriu portas para entrar, por exemplo, no mundo da comunicação social especializada na matéria. Dou voltas e voltas à cabeça, e chego sempre a este ponto como um fio condutor de tudo, à excepção do curso que tirei e das profissões que exerço. São vidas paralelas! Uma só existe porque tem a outra a suportá-la, e no entanto elas nunca se tocam em termos de conteúdo. Uma é, na verdade, o trabalho, a outra é um passatempo altamente compensador em termos de fuga ao quotidiano. Para usar um termo muito em voga, é “desstressante”… ainda que o professor de Português me diga que “relaxante” é a palavra certa!
Pontos negativos destes dez anos? Também os há… a minha família encolheu sem que eu pudesse estar presente nos piores momentos (e isso é talvez a única coisa que nunca vou perdoar à vida!), mas a pior parte é mesmo o facto de em dez anos apenas ter estado em casa durante três (pensando melhor, esta eu também não vou perdoar…), apesar de nunca estar ausente mais de dois meses, na pior das hipóteses. Mas não é, nem pode ser, a mesma coisa.
No fundo, se hoje sou quem sou é à minha família que o devo, e isso é coisa que não se esquece, não se pode esquecer, e nunca se vai esquecer.
Há dez anos estava em São Miguel. Hoje estou nas Flores. E amanhã?
Vida, não me pregues mais nenhuma partida. Sabes bem onde e com quem quero estar!
32 - Morreu um Eterno Estudante
Há professores que nos deixam marcas. Gostava de um dia ser lembrado assim...
Uma das coisas que mais me fascina num professor é a capacidade de falar sem constrangimentos com os seus alunos fora do espaço da sala de aula. É uma arte que alguns não compreendem, por verem os alunos como coisas e não como pessoas. Ao longo do meu percurso escolar tive professores assim, que dentro da sala eram uma coisa e na rua eram outra bem diferente. Se fosse preciso, fingiam que não nos viam… e nós, os alunos, víamos isso, comentávamos isso, e lamentávamos isso.
Todos os anos havia algum que se distinguia por conseguir ultrapassar a barreira entre o mestre e o discípulo, tornando-se algo mais do que um simples professor, um amigo com quem podíamos contar para resolver pequenos problemas escolares ou mesmo conversar um pouco no princípio ou no final da aula. Se fosse preciso, às vezes até se conversava durante a aula. Estes tinham o nosso respeito e, por inerência, a nossa colaboração, de maneira que as coisas corriam quase sempre bem dentro da sala. Os outros queixavam-se de que nós nos fechávamos em copas e que lhes fazíamos a vida negra em certas ocasiões. Pudera! Quem é que fala com alguém em quem não consegue confiar? Infelizmente, era mais vulgar encontrar um assim do que um da outra maneira, e se calhar ainda hoje é.
Dos outros não reza a história e ninguém os lembra, mas dos primeiros as memórias ficam, e quando partem fica a saudade. Conheci um destes Mestres muito antes de o ter como professor, por intermédio de meus pais, que tinham sido seus alunos. Habituara-me já a vê-los cumprimentá-lo alegremente na rua, a parar um pouco para conversar, recordar momentos do antigamente, e no Natal era sagrada a troca de cartões de Boas Festas. A tudo isto assistia e ficava a pensar o que teria ele de especial, e quantos dos meus antigos professores seriam capazes de conversar assim comigo. Sempre fui um bom aluno a quase tudo, não lhes dava chatices, se fosse preciso até lhes dava uma mãozinha, mas pura e simplesmente não os estava a ver dali a vinte ou trinta anos a cumprimentar-me calorosamente debaixo do olhar dos sinos da Sé.
Um dia, ou melhor, um ano, aconteceu. O antigo professor de meus pais tornou-se também meu professor, e pude tirar a limpo o que teria aquele homem de especial. Já estava na casa dos 60 anos, não era jovem nenhum no físico, mas era uma criança alegre no trato, com uma juventude de pensamento que nos conquistou desde o primeiro dia e um à vontade dentro da aula que impressionava. Tudo bem, a experiência ajudava, mas havia mais qualquer coisa, havia uma capacidade de comunicar com aqueles olhos brilhantes que nem as lentes dos óculos conseguiam esconder. Nunca as Técnicas de Tradução de Inglês foram tão fáceis como naquele ano lectivo 1992/1993.
Desde a primeira hora revelou-se à turma, e uma das primeiras coisas que explicou foi o facto de ser diabético, e disse-nos o que havíamos de fazer se por acaso lhe desse uma baixa de açúcar em plena aula, coisa que felizmente nunca chegou a acontecer. Revelou-se humano e igual a nós, não assumindo o papel de super-homem arrogante que muitos representam de cor e salteado, sem nunca chegarem a conhecer os alunos. O ser professor tem recompensas gratificantes para aqueles que se dedicam aos alunos, que os tentam compreender e ajudar…
O ser professor nunca foi uma das minhas prioridades, se calhar até pelo contrário, mas foi uma “vocação tardia” meia empurrada pelas circunstâncias, e quando chegou a altura de decidir a forma como ia encarar a miudagem, olhei para trás em busca de referências, e um dos primeiros que vi foi ele. Não sou um seu imitador, mas tento ser um seu seguidor na tarefa de ser um bom professor, um bom Eterno Estudante.
Foi por isso que recebi com pesar a notícia da partida definitiva do Professor Vítor Magalhães. Marcou gerações e, pelo que me disseram, essas gerações não o esqueceram e estiveram presentes na hora da despedida. Só não estive lá porque não pude, porque o ser Eterno Estudante em vida por vezes nos leva para longe.
Morreu um Eterno Estudante. Tornou-se, enfim, verdadeiramente Eterno.
Obrigado, Professor. Até sempre.
Uma das coisas que mais me fascina num professor é a capacidade de falar sem constrangimentos com os seus alunos fora do espaço da sala de aula. É uma arte que alguns não compreendem, por verem os alunos como coisas e não como pessoas. Ao longo do meu percurso escolar tive professores assim, que dentro da sala eram uma coisa e na rua eram outra bem diferente. Se fosse preciso, fingiam que não nos viam… e nós, os alunos, víamos isso, comentávamos isso, e lamentávamos isso.
Todos os anos havia algum que se distinguia por conseguir ultrapassar a barreira entre o mestre e o discípulo, tornando-se algo mais do que um simples professor, um amigo com quem podíamos contar para resolver pequenos problemas escolares ou mesmo conversar um pouco no princípio ou no final da aula. Se fosse preciso, às vezes até se conversava durante a aula. Estes tinham o nosso respeito e, por inerência, a nossa colaboração, de maneira que as coisas corriam quase sempre bem dentro da sala. Os outros queixavam-se de que nós nos fechávamos em copas e que lhes fazíamos a vida negra em certas ocasiões. Pudera! Quem é que fala com alguém em quem não consegue confiar? Infelizmente, era mais vulgar encontrar um assim do que um da outra maneira, e se calhar ainda hoje é.
Dos outros não reza a história e ninguém os lembra, mas dos primeiros as memórias ficam, e quando partem fica a saudade. Conheci um destes Mestres muito antes de o ter como professor, por intermédio de meus pais, que tinham sido seus alunos. Habituara-me já a vê-los cumprimentá-lo alegremente na rua, a parar um pouco para conversar, recordar momentos do antigamente, e no Natal era sagrada a troca de cartões de Boas Festas. A tudo isto assistia e ficava a pensar o que teria ele de especial, e quantos dos meus antigos professores seriam capazes de conversar assim comigo. Sempre fui um bom aluno a quase tudo, não lhes dava chatices, se fosse preciso até lhes dava uma mãozinha, mas pura e simplesmente não os estava a ver dali a vinte ou trinta anos a cumprimentar-me calorosamente debaixo do olhar dos sinos da Sé.
Um dia, ou melhor, um ano, aconteceu. O antigo professor de meus pais tornou-se também meu professor, e pude tirar a limpo o que teria aquele homem de especial. Já estava na casa dos 60 anos, não era jovem nenhum no físico, mas era uma criança alegre no trato, com uma juventude de pensamento que nos conquistou desde o primeiro dia e um à vontade dentro da aula que impressionava. Tudo bem, a experiência ajudava, mas havia mais qualquer coisa, havia uma capacidade de comunicar com aqueles olhos brilhantes que nem as lentes dos óculos conseguiam esconder. Nunca as Técnicas de Tradução de Inglês foram tão fáceis como naquele ano lectivo 1992/1993.
Desde a primeira hora revelou-se à turma, e uma das primeiras coisas que explicou foi o facto de ser diabético, e disse-nos o que havíamos de fazer se por acaso lhe desse uma baixa de açúcar em plena aula, coisa que felizmente nunca chegou a acontecer. Revelou-se humano e igual a nós, não assumindo o papel de super-homem arrogante que muitos representam de cor e salteado, sem nunca chegarem a conhecer os alunos. O ser professor tem recompensas gratificantes para aqueles que se dedicam aos alunos, que os tentam compreender e ajudar…
O ser professor nunca foi uma das minhas prioridades, se calhar até pelo contrário, mas foi uma “vocação tardia” meia empurrada pelas circunstâncias, e quando chegou a altura de decidir a forma como ia encarar a miudagem, olhei para trás em busca de referências, e um dos primeiros que vi foi ele. Não sou um seu imitador, mas tento ser um seu seguidor na tarefa de ser um bom professor, um bom Eterno Estudante.
Foi por isso que recebi com pesar a notícia da partida definitiva do Professor Vítor Magalhães. Marcou gerações e, pelo que me disseram, essas gerações não o esqueceram e estiveram presentes na hora da despedida. Só não estive lá porque não pude, porque o ser Eterno Estudante em vida por vezes nos leva para longe.
Morreu um Eterno Estudante. Tornou-se, enfim, verdadeiramente Eterno.
Obrigado, Professor. Até sempre.
31 - O restaurante, a tasca, o polícia e o bófia
Explicações para quê? O título diz tudo.
Estou de volta. As férias acabaram, e no momento em que este escrito lhe entra pelos olhos já eu estou de novo a muitos quilómetros da minha terra. Só falta um ano para o regresso… pelo menos assim espero! E é essa esperança que me vai valendo e dando forças.
Muita coisa aconteceu neste Verão que talvez merecesse uma cronicazinha, mas foi já no fim que ocorreram duas situações daquelas que me fazem sentar diante de uma tela branca e martelar no teclado. Duas situações que me fizeram e fazem pensar como por vezes as pessoas conseguem ser… não queria dizer estúpidas, mas não me vem nada melhor à cabeça dos dedos. Seja então estúpidas. Andamos a falar constantemente na qualidade dos serviços, na qualidade do atendimento, e é certo que demos, damos e continuaremos a dar passos nesse sentido, mas continuam a existir ovelhas ronhosas e maçãs podres um pouco por toda a parte…
Em tempo de rali, foram muitos os “estrangeiros” que nos visitaram, dois deles meus particulares amigos, com quem passei muito do meu tempo, e a quem mostrei alguns dos sítios onde melhor se come nesta terra. Como micaelenses adoptivos há mais de vinte anos, estão já habituados a, por exemplo, jantar “fora de horas” e encontrar restaurantes abertos para isso, mesmo numa quinta-feira às nove e meia da noite. Nada mais normal, pensei eu, também já com experiência de faca e garfo na ilha do arcanjo, e lá fomos os três ali para os lados da Feteira.
Franqueada a porta, um franzir de sobrolho de quem julgo ser o proprietário não me indiciou nada de bom, mas sempre fui dizendo que éramos três para jantar. Consultado o relógio, a resposta veio pronta e enfadada: “A cozinha fecha agora, mas posso pedir à cozinheira que espere um bocadinho. Desde que não seja para fazer serão…” Escusado será dizer que, depois de um momento de estupefacção, acabámos por ir pregar para outra freguesia… Que a cozinha já tivesse fechado, tudo bem, era uma resposta adequada e ninguém tinha ficado chateado com isso, agora … “desde que não seja para fazer serão”??? Mas o que é isto? Poucas vezes tive tanta vergonha como naquela ocasião.
Correu-lhe mal. Por acaso (só por acaso), estamos a falar de pessoas ligadas à comunicação social e com interesse em ambientes diversificados em restaurantes e afins, e aquele restaurante passou a estar na lista negra no que às sugestões terceirenses diz respeito. Levei-os para São Sebastião, e mais dia, menos dia vamos poder ler um trabalho sobre a forma como foi recentemente recuperado um restaurante daquela freguesia, pois ficaram encantados com o espaço e com o atendimento, quando já faltava um quarto para as dez…
Dois dias depois, em pleno rali, fiz menção de estacionar num determinado local para exercer a minha missão de reportagem. De imediato fui mandado avançar por um agente da PSP com cara de muito poucos amigos. Como o local em questão estava vazio e é normalmente utilizado pela comunicação social em serviço, apresentei educadamente a minha identificação e fui brindado com este naco de prosa: “Isso a mim não me interessa para nada. Vamos embora.” Não estou à espera de um tapete vermelho e de um polícia a falar como um mordomo inglês, mas assim também já é demais! No mínimo, um pouco de profissionalismo não lhe fazia mal nenhum e eu tinha ido parar para outro lado da mesma forma, com a simples diferença de que assim não precisava de escrever isto… Já agora, um pouco mais à frente encontrei um agente compreensivo e de olhos abertos para a realidade, que me facilitou a vida e o trabalho. A ele, o meu agradecimento.
Há três anos, no Rali Açores, um agente da PSP chegou junto de mim, cumprimentou-me e fez-me mudar de sítio da forma mais calma e eficaz que se possa imaginar. No fundo, foi educado, fez o seu serviço, e eu mexi os pezinhos para outro lugar sem um queixume, pela simples razão de que não tinha motivos para refilar.
Assim se explica este meu título de hoje. Quando vou a uma tasca, já sei ao que vou, e geralmente as bifanas estão que é uma delícia, acompanhadas por uma garrafa de qualquer coisa bem gelada. Quando vou a um restaurante, espero encontrar também delícias, mas servidas por alguém que não tenha os modos de um carroceiro analfabruto, com a camisa aberta e o peito suado a pingar por cima da mesa. Às vezes, antes ir a uma tasca…
Quanto à questão do polícia, sou daqueles que os respeita e compreende (quase tudo) o que fazem, porque a isso são obrigados. Já não compreendo a má vontade e a falta de profissionalismo dos outros. O polícia do Rali Açores é digno de o ser, o outro é dos tais que nos fazem chamar nomes aos homens da farda azul…
Estou de volta. As férias acabaram, e no momento em que este escrito lhe entra pelos olhos já eu estou de novo a muitos quilómetros da minha terra. Só falta um ano para o regresso… pelo menos assim espero! E é essa esperança que me vai valendo e dando forças.
Muita coisa aconteceu neste Verão que talvez merecesse uma cronicazinha, mas foi já no fim que ocorreram duas situações daquelas que me fazem sentar diante de uma tela branca e martelar no teclado. Duas situações que me fizeram e fazem pensar como por vezes as pessoas conseguem ser… não queria dizer estúpidas, mas não me vem nada melhor à cabeça dos dedos. Seja então estúpidas. Andamos a falar constantemente na qualidade dos serviços, na qualidade do atendimento, e é certo que demos, damos e continuaremos a dar passos nesse sentido, mas continuam a existir ovelhas ronhosas e maçãs podres um pouco por toda a parte…
Em tempo de rali, foram muitos os “estrangeiros” que nos visitaram, dois deles meus particulares amigos, com quem passei muito do meu tempo, e a quem mostrei alguns dos sítios onde melhor se come nesta terra. Como micaelenses adoptivos há mais de vinte anos, estão já habituados a, por exemplo, jantar “fora de horas” e encontrar restaurantes abertos para isso, mesmo numa quinta-feira às nove e meia da noite. Nada mais normal, pensei eu, também já com experiência de faca e garfo na ilha do arcanjo, e lá fomos os três ali para os lados da Feteira.
Franqueada a porta, um franzir de sobrolho de quem julgo ser o proprietário não me indiciou nada de bom, mas sempre fui dizendo que éramos três para jantar. Consultado o relógio, a resposta veio pronta e enfadada: “A cozinha fecha agora, mas posso pedir à cozinheira que espere um bocadinho. Desde que não seja para fazer serão…” Escusado será dizer que, depois de um momento de estupefacção, acabámos por ir pregar para outra freguesia… Que a cozinha já tivesse fechado, tudo bem, era uma resposta adequada e ninguém tinha ficado chateado com isso, agora … “desde que não seja para fazer serão”??? Mas o que é isto? Poucas vezes tive tanta vergonha como naquela ocasião.
Correu-lhe mal. Por acaso (só por acaso), estamos a falar de pessoas ligadas à comunicação social e com interesse em ambientes diversificados em restaurantes e afins, e aquele restaurante passou a estar na lista negra no que às sugestões terceirenses diz respeito. Levei-os para São Sebastião, e mais dia, menos dia vamos poder ler um trabalho sobre a forma como foi recentemente recuperado um restaurante daquela freguesia, pois ficaram encantados com o espaço e com o atendimento, quando já faltava um quarto para as dez…
Dois dias depois, em pleno rali, fiz menção de estacionar num determinado local para exercer a minha missão de reportagem. De imediato fui mandado avançar por um agente da PSP com cara de muito poucos amigos. Como o local em questão estava vazio e é normalmente utilizado pela comunicação social em serviço, apresentei educadamente a minha identificação e fui brindado com este naco de prosa: “Isso a mim não me interessa para nada. Vamos embora.” Não estou à espera de um tapete vermelho e de um polícia a falar como um mordomo inglês, mas assim também já é demais! No mínimo, um pouco de profissionalismo não lhe fazia mal nenhum e eu tinha ido parar para outro lado da mesma forma, com a simples diferença de que assim não precisava de escrever isto… Já agora, um pouco mais à frente encontrei um agente compreensivo e de olhos abertos para a realidade, que me facilitou a vida e o trabalho. A ele, o meu agradecimento.
Há três anos, no Rali Açores, um agente da PSP chegou junto de mim, cumprimentou-me e fez-me mudar de sítio da forma mais calma e eficaz que se possa imaginar. No fundo, foi educado, fez o seu serviço, e eu mexi os pezinhos para outro lugar sem um queixume, pela simples razão de que não tinha motivos para refilar.
Assim se explica este meu título de hoje. Quando vou a uma tasca, já sei ao que vou, e geralmente as bifanas estão que é uma delícia, acompanhadas por uma garrafa de qualquer coisa bem gelada. Quando vou a um restaurante, espero encontrar também delícias, mas servidas por alguém que não tenha os modos de um carroceiro analfabruto, com a camisa aberta e o peito suado a pingar por cima da mesa. Às vezes, antes ir a uma tasca…
Quanto à questão do polícia, sou daqueles que os respeita e compreende (quase tudo) o que fazem, porque a isso são obrigados. Já não compreendo a má vontade e a falta de profissionalismo dos outros. O polícia do Rali Açores é digno de o ser, o outro é dos tais que nos fazem chamar nomes aos homens da farda azul…
30 - Os dois lados de uma bola
Não sabe quais são? Leia até ao fim...
Há uns meses atrás, como o programa da disciplina incluía a crónica como conteúdo a leccionar, “descaí-me” e contei aos meus alunos do 10º ano que também escrevia de vez em quando umas coisas parecidas com crónicas. Acharam piada ao facto de terem um professor que pratica o que prega, e o certo é que a matéria até entrou relativamente bem naquelas cabecinhas pensadoras.
Hoje de manhã, um aluno perguntou-me se já tinha escrito uma crónica sobre o Euro 2004, pois já há tempos que não via nada meu no site do jornal na Internet. Disse-lhe que não e andei sempre, mas a pergunta ficou-me na cabeça o dia todo: por que é que não escrevi nada sobre o Euro? Porque não me apeteceu, porque achei que já havia gente a mais a falar e a escrever sobre os futebóis de Verão, incluindo gente que não sabe quantos lados tem uma bola, quanto mais distinguir um fora-de-jogo de um penalti…
Pois bem, cá estou eu a escrever sobre o Euro!
Pertenço a uma raça que não gosta de vitórias parciais e muito menos de vitórias morais.Aliás, quando vejo jogos da minha equipa fico contente com o primeiro e com o segundo golo, mas só faço festa quando chega o 3-0. Se for 3-1 não chega, pois dois golos de vantagem só dão descanso quando acaba o jogo. Não viram o que aconteceu à Holanda frente à República Checa?
Por aqui já se vê que não andei entusiasmado por aí além com o Euro. O mais perto que estive disso foi no Portugal – Inglaterra, candidato sério a melhor jogo do campeonato (nem sei se houve essa eleição). Festa, para mim, só no fim. Se a minha pouca fé na nossa selecção não deixava antever nada de bom, a derrota no jogo inaugural encarregou-se de levá-la toda por água abaixo, e nem a revolução com a Rússia a recuperou. Só comecei a acreditar que tínhamos mais qualquer coisa do que um grupo de jogadores com a vitória frente à Espanha. Mais do que a vitória, foi a demonstração de vontade e ganas de vencer que me fez sonhar. Frente à Inglaterra, o auge, frente à Holanda a confirmação do que já se sabia, e frente à Grécia o desmoronar de um edifício lindo que afinal não tinha alicerces…
Dito isto, está claro que não fui para a rua festejar o segundo lugar. Foi a melhor organização de sempre, e isso enche o país de orgulho. Foi a nossa melhor classificação de sempre num campeonato de selecções seniores? Sem dúvida. Mas o que interessa isso? Daqui a dez anos já ninguém se lembrará que Portugal e República Checa foram as mais espectaculares em campo. Quem precisar de ir ao livro só vai ver que os gregos foram campeões, porque despacharam portugueses, franceses e checos com uma eficácia assustadora. Dos fracos não reza a história, por isso não me venham pedir para festejar o facto de sermos os primeiros dos últimos. De vitórias morais estamos nós fartos, mas ainda bem que muito do povo vermelho amarelo e verde sentiu vontade de celebrar a classificação. Os jogadores e treinadores estão, apesar de tudo, de parabéns, mais não seja pelo facto sublime de terem unido a nação em torno de um objectivo comum: vencer.
Para um país habituado a perder, só por isso o Euro já teria valido a pena. Será que vamos conseguir tentar ganhar o Mundial daqui a dois anos? Estou pronto a festejar…
P. S. – Para quem ficou curioso, a bola tem dois lados: o de dentro e o de fora. E se não sabe a diferença entre um fora-de-jogo e um penalti, dedique-se à pesca…
Há uns meses atrás, como o programa da disciplina incluía a crónica como conteúdo a leccionar, “descaí-me” e contei aos meus alunos do 10º ano que também escrevia de vez em quando umas coisas parecidas com crónicas. Acharam piada ao facto de terem um professor que pratica o que prega, e o certo é que a matéria até entrou relativamente bem naquelas cabecinhas pensadoras.
Hoje de manhã, um aluno perguntou-me se já tinha escrito uma crónica sobre o Euro 2004, pois já há tempos que não via nada meu no site do jornal na Internet. Disse-lhe que não e andei sempre, mas a pergunta ficou-me na cabeça o dia todo: por que é que não escrevi nada sobre o Euro? Porque não me apeteceu, porque achei que já havia gente a mais a falar e a escrever sobre os futebóis de Verão, incluindo gente que não sabe quantos lados tem uma bola, quanto mais distinguir um fora-de-jogo de um penalti…
Pois bem, cá estou eu a escrever sobre o Euro!
Pertenço a uma raça que não gosta de vitórias parciais e muito menos de vitórias morais.Aliás, quando vejo jogos da minha equipa fico contente com o primeiro e com o segundo golo, mas só faço festa quando chega o 3-0. Se for 3-1 não chega, pois dois golos de vantagem só dão descanso quando acaba o jogo. Não viram o que aconteceu à Holanda frente à República Checa?
Por aqui já se vê que não andei entusiasmado por aí além com o Euro. O mais perto que estive disso foi no Portugal – Inglaterra, candidato sério a melhor jogo do campeonato (nem sei se houve essa eleição). Festa, para mim, só no fim. Se a minha pouca fé na nossa selecção não deixava antever nada de bom, a derrota no jogo inaugural encarregou-se de levá-la toda por água abaixo, e nem a revolução com a Rússia a recuperou. Só comecei a acreditar que tínhamos mais qualquer coisa do que um grupo de jogadores com a vitória frente à Espanha. Mais do que a vitória, foi a demonstração de vontade e ganas de vencer que me fez sonhar. Frente à Inglaterra, o auge, frente à Holanda a confirmação do que já se sabia, e frente à Grécia o desmoronar de um edifício lindo que afinal não tinha alicerces…
Dito isto, está claro que não fui para a rua festejar o segundo lugar. Foi a melhor organização de sempre, e isso enche o país de orgulho. Foi a nossa melhor classificação de sempre num campeonato de selecções seniores? Sem dúvida. Mas o que interessa isso? Daqui a dez anos já ninguém se lembrará que Portugal e República Checa foram as mais espectaculares em campo. Quem precisar de ir ao livro só vai ver que os gregos foram campeões, porque despacharam portugueses, franceses e checos com uma eficácia assustadora. Dos fracos não reza a história, por isso não me venham pedir para festejar o facto de sermos os primeiros dos últimos. De vitórias morais estamos nós fartos, mas ainda bem que muito do povo vermelho amarelo e verde sentiu vontade de celebrar a classificação. Os jogadores e treinadores estão, apesar de tudo, de parabéns, mais não seja pelo facto sublime de terem unido a nação em torno de um objectivo comum: vencer.
Para um país habituado a perder, só por isso o Euro já teria valido a pena. Será que vamos conseguir tentar ganhar o Mundial daqui a dois anos? Estou pronto a festejar…
P. S. – Para quem ficou curioso, a bola tem dois lados: o de dentro e o de fora. E se não sabe a diferença entre um fora-de-jogo e um penalti, dedique-se à pesca…
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