Eleições? Já estava farto de ouvir falar nelas!
Já estava farto de eleições. Outros méritos não tivesse, a vitória de Cavaco Silva à primeira volta serviu para nos livrar de mais um mês de campanha eleitoral, e finalmente podemos todos voltar ao trabalho descansados, sem ter que discutir quem tem de dar cavaco a quem, quem fica alegre ou triste, que tem ou não de calçar as pantufas, fazer chichi e ir para a cama, e por aí fora.
Confesso que me fez confusão toda esta história de pré-campanha e campanha, pois no fundo vai dar tudo ao mesmo, mas mais confusão me fez o facto de que quem ganhou nem ter precisado de fazer grande coisa, pois os adversários fizeram tudo por ele. O povo português é estranho, e tem uma certa tendência para ter pena dos aparentemente mais fracos, daí a expressão “não batas mais no ceguinho”. Cavaco fez nestas eleições o papel do “ceguinho”, mas só de um olho, e enquanto todos lhe davam pancada ele encostou-se à cadeira e esperou pelo veredicto final. Fez bem.
Não ouvi um candidato que fosse, à excepção de Garcia Pereira, a dizer coisas que interessassem ao país, estavam todos mais preocupados em dizer mal do Cavaco, e ele não lhes deu cavaco. O homem do MRPP, como estava farto de saber que não ganhava coisa nenhuma, aproveitou para dizer duas ou três verdades, e até sai do acto eleitoral como o vencedor moral, pois se a esquerda queria derrotar Cavaco a última coisa de que precisava era de dividir votos por cinco candidatos, e foi ele quem disse primeiro “esquerdistas, uni-vos”, mas ninguém o quis ouvir. Ficaram todos a olhar para o umbigo, até mesmo aqueles que já estão fartos de o conhecer.
Fiquei até chocado, na sexta-feira, ao ouvir uma data de gente num comício a dizer que era mais importante o Cavaco perder do que o seu candidato ganhar. Como é que alguém espera ter credibilidade quando diz barbaridades destas? A imagem que tenho do antigo Primeiro-Ministro é a de uma pessoa séria e competente, que não tem medo de fazer pegas de caras, e é disso que o país precisa. Sócrates não tem que se preocupar, pois terá nele um aliado nas reformas que é preciso fazer, mas tem de abrir o olho e esquecer aquilo que não é essencial. Quando saiu o anterior Ministro das Finanças o pior que se disse dele foi que estava a seguir a mesma política de Manuela Ferreira Leite, e só isso já dá para desconfiar. Duas pessoas de áreas políticas diferentes têm a mesma noção do que é preciso fazer e estão ambas erradas? Se não fosse mesmo preciso congelar salários durante dois anos ninguém o teria feito.
Cavaco até pode vir a ser um péssimo Presidente da República, mas não acredito muito nisso. Parece-me sim que a estabilidade política e governativa até ao final do mandato legislativo está assegurada, e o Governo só tem que fazer uma coisa: trabalhar. E dar o exemplo, já agora…
E por amor de Deus, parem lá de falar mal uns dos outros! Alegre regressa à poesia, Soares volta para a reforma, Jerónimo rebobina a cassete, Louçã vai treinar os discursos, Garcia Pereira vai para o escritório, e nós vamos dar descanso aos ouvidos, finalmente!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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