Apesar de não ser a favor de greves, desta vez o copo transbordou!
Não sou adepto de greves. Até hoje nunca fiz, e a que consta do meu processo resulta de um mal-entendido administrativo que agora também não me aquece nem me arrefece. Desta vez, no entanto, fico em casa. Pensei muito antes de tomar esta decisão, e custa-me, mas fico em casa. Acho que este país precisa é de que nós trabalhemos por ele e não que fiquemos em casa, mas…
Não faço greve por concordar com aquilo que dizem os sindicatos, ou melhor, com a forma como dizem. Soa-me demasiado a choradinho, e não sou de choradinhos. Nem sequer concordo que se faça greve à sexta-feira, por achar que assim uma grande parte da opinião pública fica a pensar que o que nós queremos é um fim-de-semana prolongado. Digo isto já, com toda a frontalidade, para que depois não seja a “contra-informação” a dizê-lo…
Não faço greve porque os sindicatos do continente me vêm agora dizer que são contra as colocações por três anos numa escola, por acharem que assim se condenam os professores ao “desterro”, esquecendo-se que nos Açores isso já acontece há meia dúzia anos e nunca os ouvi manifestar solidariedade para com os colegas “desterrados” nas nossas ilhas.
Faço-a porque de facto vejo um futuro cada vez mais sombrio para mim e para os alunos, a quem são dadas todas as facilidades e mais algumas para passar de ano, na ânsia cega de melhorar os resultados estatísticos do sucessor escolar, desvalorizando por completo o papel dos professores e levando a que a tão propalada “qualidade de ensino” seja apenas uma fantasia. Agora chega mais uma “novidade”, dizendo que os conselhos pedagógicos podem passar alunos que não tenham reunido condições para passar de ano…
Faço greve por achar que se têm tomado decisões importantes para o futuro do Ensino de forma irreflectida, com as consequências que daí se conhecem e sobre as quais já escrevi, provocando um dos arranques de ano lectivo mais turbulentos desde que sou professor.
Faço greve porque quase me obrigam a passar de ano alunos que não o merecem, dando-lhes toda a protecção e a mim nenhuma. Não os posso convidar a sair da sala de aula se chamarem nomes à minha mãe, só mesmo se eles me impedirem de dar a aula, e ainda assim só como último dos últimos recursos. Estão a ver a diferença? Eu também não… Mas está na lei.
Faço greve por achar que estão a gozar com a minha cara quando me congelam o salário dois anos seguidos, a seguir congelam a contagem de tempo de serviço e a progressão nas carreiras para depois, no dia 13 de Outubro, um ministro publicar em Diário da República que contratou alguém para prestar serviços de assessoria na manutenção dos conteúdos da página oficial do Ministério, com o ordenando mensal de 3254 euros, mais subsídio de refeição. 650 contos por mês para manter uma página na Internet??? E andei eu a estudar durante dezoito anos para isto?
Hoje faço greve. Triste, mas faço. E sempre fico com o triste consolo de, como disse um nosso governante, contribuir para a melhoria das contas do governo, pois em dia de greve sempre são menos uns milhões de euros em ordenados que ele tem que pagar. Caros governantes, ofereço-vos o meu dia de salário. Nem chega a quarenta euros, mas já vos ajuda…
Se fosse a tal pessoa da página de Internet a fazer greve eram mais de cem euros que se poupavam, mas essa, é claro, não tem razões para ficar em casa…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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