quinta-feira, 1 de novembro de 2007

47 - Sonhos de infância

Ao Carlos Martins e ao Nuno Rosado, heróis açorianos no Lisboa-Dakar 2006.

Quando somos mais pequenos o céu é o limite da imaginação, e mesmo assim às vezes ainda conseguimos ir mais além, na simplicidade da nossa juventude. Não sei se Carlos Martins e Nuno Rosado tinham o Dakar como sonho de infância (provavelmente não…), mas o que esta dupla açoriana conseguiu é simplesmente notável e é um momento histórico para o automobilismo do nosso país. Fazer em casa um carro para enfrentar a mais dura das provas de todo-o-terreno e chegar ao fim logo à primeira tentativa sem problemas de maior é um enorme motivo de orgulho para todos nós e para a equipa, que levou nos carros um bocadinho de cada amigo, de cada açoriano que gosta destas “maluquices”. Todos nós, à nossa maneira, demos um empurrãozinho para superar as dunas da Mauritânia.
Agora, olhando para trás, é altura de recordar histórias antigas, que nos fazem pensar se realmente as coisas acontecem por acaso ou se alguém estará ocupado a tecer uma teia de relações e cruzamentos na nossa vida. Em 1998, foi a pretexto de uma prova organizada por Carlos Martins que escrevi a minha primeira reportagem de uma prova de automóveis, um todo-o-terreno com direito a dormida no Hotel Bahia Palace, no mesmo quarto de um jornalista do continente com uma preocupação extrema com o seu cabelo e com o ressonar do parceiro. Quase oito anos e muitos quilómetros de reportagens depois, tenho o prazer de lhe dar os parabéns pelo feito que acaba de alcançar, numa aventura que acompanhei com todo o interesse desde que foi tornada pública.
Quanto ao Nuno Rosado, a coisa vai mais atrás ainda. Conhecemo-nos superficialmente há uns quinze anos, mas pode dizer-se que nos iniciámos nestas coisas das competições mais ou menos ao mesmo tempo. A fotografia que acompanha este texto até pode não ser muito nítida, mas nela estão o Nuno Rosado (a sexta cabeça a contar da direita) e eu (o quarto a contar da esquerda), nos gloriosos tempos dos ralis de bicicleta que organizávamos com frequência na Terra-Chã e arredores. Na mesma foto estão outros dois homens das competições actuais: à minha esquerda Nuno Rocha (que em 2006 regressa aos ralis), e à esquerda do Rosado o Paulo Jesus (navegador de ralis e TT). E ainda lá estão mais quatro que já estiveram envolvidos nos ralis ou no TT. Está também um Amigo que já nos deixou, por infelicidade do destino, e que era também um apreciador do desporto automóvel. Ver o Nuno Rosado em cima do Land Rover a comemorar a chegada a Dakar tem, por isso, um significado especial para toda uma geração que cresceu junta e que mantém a paixão pelas coisas dos automóveis.
Com eles em cima do jipe estavam umas dezenas largas de amigos e conhecidos, que a esta hora estão orgulhosos do Nuno, do Carlos, do Leandro e do Vítor, a comitiva açoriana que deu corpo ao sonho. Os sonhos realizam-se. É preciso é dar-lhes asas.

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