quinta-feira, 1 de novembro de 2007

35 - A sanita e o sifão

Em Portugal Continental há sanitas. Nos Açores há sifões. E depois?

Sabes como é que eles chamam as sanitas aqui? Sifões! Olha, fartei-me de rir…
Quem disse esta preciosidade da língua portuguesa foi uma colega minha do continente que está pela primeira vez nos Açores, dirigindo-se a outra colega na mesma situação. Eu, que estava ao lado, ri também, recordei em silêncio outras coisas que por cá se dizem que por lá são desconhecidas, e acabei a contar-lhes muitas particularidades do falar açoriano. Mas esta história começa há muitos anos atrás, por isso é melhor dar um salto no tempo…
Quase todos temos algum familiar ou conhecido que emigrou para as Américas no tempo em que ninguém dava um escudo pela vida nos Açores, e sabemos bem que o português quando sai de casa e tem que aprender outra língua acaba por misturar tudo e criar um “dialecto” próprio que não deixa de ter a sua graça se pensarmos na forma como certas palavras entraram no falar do dia-a-dia. Esta realidade terá, porventura, maior expressão na Terceira devido à presença dos amaricanos da base, mas estende-se a todo o arquipélago, de uma forma ou de outra.
Comecemos pela gama. Pergunte-se a um miúdo se quer uma, e quase de certeza que se vai abrir num sorriso, a menos que não seja açoriano. É que para os de fora tal palavra não diz nada, habituados que estão a mastigar pastilha elástica… Para nós, no entanto, é a maneira portuguesa de dizer chewing gum, que os nossos familiares mandavam aos quilos nas famosas “sacas da América”, juntamente com uns pacotes de candinhos, que não passavam de meros candies, simples rebuçados que alegravam a língua e melavam a roupa, que tinha de ir toda para dentro da pana fazer barrela. Mais um problema… vai ser preciso explicar que a pana é uma pan à moda açoriana, e é a mesma coisa que bacia ou alguidar, que para nós é de barro mas que para eles é de plástico.
E por falar em loiça, toda a vida ouvi dizer que os pratos se lavavam no cinco da loiça, mas já tinha entrado nos vintes quando parei para pensar que aquilo não fazia sentido, e percebi que afinal a loiça se lavava era no sink, ou melhor, no kitchen sink dito à maneira dos emigrantes que regressavam de Noioca… ou será New York? Enfim, não interessa agora. Eles mandavam gamas e candinhos e algum monim, e isso era o principal. Mas gostar, gostar, gostava mesmo era dos carros que vinham “da América” e que os calafonas diziam que cá eram muito difíceis de parcar. Ora parcar… deixa cá ver… parking! É isso: os carros eram difíceis de estacionar porque eram muito grandes, tão grandes que ficaram conhecidos como banheiras.
O meu avô andou lá por fora, mas não trouxe banheira nenhuma da América, e ainda bem, mas trouxe muitas calças, camisas, e um carrete de alvarozes tão bons que ainda hoje existem. Ele vestia-os quase todos os dias, eram práticos, confortáveis, resistentes, e quando eu era miúdo também gostava de ter uns, sem nunca perceber porque é que o resto da canalha os chamava de jardineiras. Para mim eram alvarozes e pronto… até ao dia em que descobri um catálogo de vendas por correspondência americano dos anos sessenta, e vi páginas e páginas cheias de over-alls de várias cores e feitios. Over-alls… estava desfeito o mistério dos alvarozes! Tinham aquele nome porque se podiam vestir por cima de tudo, à laia de fato-macaco, e à portuguesa por pouco não se confundiam com os albatrozes…
Mas acham que me preocupei com a descoberta? Isso é que era bom! Comigo a loiça continua a lavar-se no cinco, e mastigo uma gama quando me apetece. Não tenho é alvarozes nem digo que vou parcar o carro, mas as minhas amigas ficaram a saber que enquanto no continente elas se sentam numa sanita, por cá não têm outro remédio a não ser sentar-se no sifão. E ficam consoladas à mesma…

Dedicado à Sílvia e à Marlene, duas amigas que a vida colocou longe da vista, mas perto da recordação.

Sem comentários: