Adoro esta. E há aqui uma passagem que coloco entre as coisas melhores que já me saíram das pontas dos dedos...
Ele não sabe que está neste mundo. À sua volta estão perto de cem pessoas que não o conhecem mas que o olham e sorriem, comentando a forma como está vestido, como tem as bochechas gordas, como é tão lindo, o anjinho! Ele olha, e de vez em quando sorri por entre os dentes que hão-de vir. Sente-se seguro, está ao colo da mãe, sabe que aquele cheiro é igual ao seu e é nele que confia de olhos fechados. Não distingue bem as caras que o rodeiam, nem percebe o que está a fazer e a dizer aquele homem que de vez em quando abre os braços e a quem toda a gente responde numa ladainha mais ou menos possível de entender.
A mãe olha-o, como todas as mães olham os filhos (será?), e pensa no que lhe há-de fazer quando sair da missa, à qual só foi porque o baptizado tinha de se realizar. O dia não podia ser melhor. Afinal, que dia melhor para baptizar alguém do que o dia em que nasceu Aquele que começou tudo? Já teve outros filhos, mas este é de um pai novo, e talvez por isso a sorte mude. Dos outros já nem sabe bem quantos são nem onde estão. O juízo não lhe dá para mais. Se a cabeça trabalhasse tão bem como as partes reprodutoras, era um génio!
Ele sorri de novo e esfrega o nariz no pescoço da madrinha. O padre lá continua a rezar. A tia Maria olha para baixo, e enquanto debita o credo vai pensando se as dores que sente são só dos pés ou se serão os sapatos que estão apertados. Já os tem há quase vinte anos, e acha que os pés estão a inchar. O ti Chico já dorme, não se aguenta acordado mais de dez minutos seguidos, e o sermão também não ajudou. Ele, o anjinho, abre a boca. Ficam todos sem saber se ele tem sono ou fome, coitadinho. E lá vai o corpinho indefeso para outro colo. O homem de branco sai de trás daquela mesa esquisita e avança pelo corredor abaixo. Ele sente-se transportado e passa por uns cem pares de olhos sem dar por isso.
Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. Um dedo frio na testa faz uma cruz. Um arrepio percorre-lhe a espinha, mas não chora. Abana a cabeça, mas não chora. Tão pequeno e já percebeu que não vale a pena chorar quando a vida prega partidas. À sua volta todos sorriem, e o clarão da máquina fotográfica regista para a posteridade um momento que ele provavelmente nunca verá, pois as fotografias vão-se perder no fundo de uma gaveta qualquer e hão-de ir para o lixo sem se dar por isso na próxima vez que se fizer uma limpeza em casa. Mas a ele nada disso importa. Um dia, mais tarde, alguém lhe há-de dizer que foi baptizado, e ele há-de ficar espantado porque não sabe bem o que isso é. Só foi à missa no dia da primeira comunhão e nunca mais apareceu na catequese.
O que nasceu naquele dia disse que bem aventurados seriam os pobres de espírito, mas o dele é rico. Ainda não teve tempo de o estragar, só tem um mês e pouco de vida no mundo que ele ainda não sabe que é cruel e o há-de trair vezes sem conta. O espírito está lá todo, e inteligência não lhe falta, mas não sabe que é como uma flor que tem de ser regada para não murchar. Embrutecido pelo tempo e pela ignorância de quem o deseducou, transformou-se num ser que poderia ter sido humano mas não o foi. A vivência foi mais de animal que de outra coisa, e a memória não lhe alcança o dia em que, vestido de branco, foi o centro das atenções de toda a gente. Naquele dia recebeu mais beijos do que no resto da sua vida, feita de apenas um amor verdadeiro, mas mesmo esse acabou mal, afogado em garrafas vazias.
Tal como no início, ele não sabe que está neste mundo. As recordações desfazem-se ao ritmo das pulsações, também elas mais fracas. Um homem vestido de branco tenta desesperadamente fazer com que não feche de vez os olhos. Uma recordação regressa, é o homem de branco que lhe faz um sinal na testa com água fria. Mas este carrega-lhe no peito com força, e em vez de água é um choque o que sente de vez em quando. Resulta. Abre os olhos e vê um mar de tubos, fios, seringas e gente de branco.
Onde estou? Está no hospital, escapou por um triz. Não pode beber nem fumar mais, tem uma filha que o aguarda na sala de espera, desfeita em lágrimas. Ele nunca lhe ligou muito, mas sente agora uma necessidade estranha de a abraçar, beijar e dizer que vai mudar. Ela entra, corre, abraça-o e chora sem parar. Ele sorri, e volta-lhe à memória o homem de branco que viu no tecto dos cuidados intensivos. Minha filha, eu sei que já venho tarde, mas acredita que ainda venho a tempo.
É dia de Natal. E um ano novo está para começar. A vida será o que ele quiser, e desta vez ele quer. À porta do quarto, um homem de branco sorri. Já viu muitas cenas assim, mas sente que esta é diferente. Afasta-se sem fazer barulho. Pai e filha continuam abraçados. Agora sim, ele sabe que está neste mundo, e nunca mais se vai esquecer. É a magia do Natal.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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