quinta-feira, 1 de novembro de 2007

55 - Professor: um alvo a abater

Um lamento, puro e duro.

O défice deste país não é económico, é intelectual. Eu não tenho consciência das coisas há muitos anos, pois não tenho idade para isso. Antes, desde que não me chateassem, estava sempre tudo bem, mas agora que já passei dos trinta consigo pensar, consigo olhar para o que me rodeia e consigo fazer comparações.
No meu tempo de escola, eu sabia que passava de ano com duas negativas (que nunca tive, felizmente) e que se tivesse três ficava atrás. Era eu e toda a gente, as regras eram claras e ninguém tinha as dúvidas que tem hoje, em que os alunos passam até ao 9º ano sempre a abrir, pois a lei diz que os professores devem passá-los sempre que considerem: a) Nos anos terminais de ciclo, que o aluno desenvolveu as competências necessárias para prosseguir com sucesso os seus estudos no ciclo ou nível de escolaridade subsequente; b) Nos anos não terminais de ciclo, que o progresso no desenvolvimento das competências demonstrado pelo aluno permite perspectivar que as competências essenciais definidas para o final do ciclo serão atingidas. É bonito de ler, mas isto das competências gera discussões sem fim, e o resultado prático é que tanto passa quem teve duas como quem teve cinco negativas, caso os professores achem que o aluno ainda pode “chegar lá” nos anos que restam para o final de ciclo, como se lê na alínea B.
Com estas decisões, mesmo que escudadas na lei, os professores perdem credibilidade e respeito junto de pais e alunos, que não conseguem entender por que razão o João, que é vizinho do José, passou com negativa a Educação Física, Educação Visual, Ciências, História e Matemática, enquanto o José perdeu porque teve negativa a Matemática, Ciências e Português. Os nomes são fictícios, e os casos são extremos, mas isto acontece, é um facto. Faltam regras claras para uns e para outros, até porque a própria definição de “competência” é mais nebulosa que o nevoeiro na via rápida, e da sua avaliação é bom nem falar.
Reter um aluno hoje em dia é o cabo dos trabalhos, e chumbá-lo é ser anti-pedagógico, pois a crianças têm de ser protegidas das crueldades e desigualdades da vida, dizem os pedagogos. Da treta, adjectivo eu.
Cair de uma árvore, esfolar um joelho, entalar um dedo na corrente do baloiço, dar uma cabeçada no poste, chumbar um ano, são apenas amostras do que nos pode acontecer quando formos grandes, e ensinam-nos a superar dificuldades e a criar carácter. De que me serve usar eufemismos se a realidade é sempre dura? Não estudei, chumbei, devia ser tão simples como isto.
Estudar, esse verbo tão maltratado… Um professor é um estudante profissional ou, se quisermos, um Eterno Estudante que nunca pára de aprender no seu trabalho. Para se ser professor, na melhor das hipóteses, é preciso estudar 17 anos. Eu sei, eu fiz isso, e quando acabei o curso ainda demorei mais cinco anos para estabilizar, por isso me custa muito ver como quem manda no ensino em Portugal trata os professores, essa força de trabalho altamente qualificada mas completamente desunida. Querer obrigar agora os professores a fazer uma prova de acesso à carreira é passar um atestado de incompetência às universidades, e é injustiçar milhares de profissionais por todo o país, que vêem as regras mudar a meio do jogo. Mais ainda: se a ideia passar por fazer um exame de conhecimentos científicos, então é reveladora de uma ignorância tal que eu não acredito que tenha saído da cabeça de um professor. Posso estar errado, mas acho que ninguém domina de fio a pavio toda a matéria que vai ensinar, nem isso interessa! De que me serve saber tudo sobre os heterónimos de Fernando Pessoa se estou a dar 7º e 8º ano? O meu trabalho exige que saiba um pouco de tudo, mas esses conteúdos apenas os aprofundo a cem por cento quando os vou utilizar, é para isso que invisto tanto tempo na preparação das aulas.
Um professor, mais do que uma máquina de transmissão de conhecimentos, é uma entidade pedagógica, e isso é coisa que dificilmente se avalia. É possível ser-se bom professor sem se ser um “crânio”, da mesma forma que é possível ser-se político profissional só com a quarta classe, e nós temos bons políticos com a quarta classe, da mesma forma que temos incompetentes chapados com licenciaturas e doutoramentos.
O facto é que Portugal tem professores a mais, que o governo não quer, e há um fosso enorme entre os que já estão com a vida feita e os que lutam pelo seu trabalho, por isso o governo tem feito o que quer da classe. É por isso que nas escolas há professores que estão lá a cumprir horário só para que se possa dizer que “os professores estão na escola”. É por isso que a desmotivação se instala quando se vê que o trabalho é sempre a aumentar mas os vencimentos estão congelados há quatro ou cinco anos, já nem sei bem. É por isso que nos últimos dois anos vi gente abandonar a carreira, depois de terem sido triturados pelo sistema sem dó nem piedade. E muitos mais vão sair.
A última proposta é só mais uma para acabar com a dignidade que ainda resta nas escolas: o PS propôs na Assembleia da República que os alunos deixem de chumbar por faltas. Faltam como e quando quiserem, e depois a escola há-de fazer uma prova de recuperação para os meninos. Em vez de estudar o ano todo, estudam só uma semana, e depois pode ser que passem…
Quem nos acode?

2 comentários:

José Carrancudo disse...

O défice intelectual mais grave existe no Governo e no Parlamento, não excluindo o Ministério de Educação. Com efeito, o M.E. não sabe o que fazer com o Ensino, alem de poupar dinheiro.

O M.E. deve, antes de mais, reparar os danos provocados pelas abordagens pedagógicas inválidas impostas a nossa Escola há 30 anos. O resto virá em seu tempo.

José Carrancudo disse...

Quanto aos chumbos por faltas, este é mais um não-assunto: a Escola ficou transformada num passatempo inútil, assim, qualquer aluno que consegue estudar sozinho merece todo o crédito e todo o nosso apoio.