terça-feira, 11 de dezembro de 2007

56 - Os meus diamantes

Os meus alunos dizem que estão velhos para estudar. Têm 16, 17, 18 anos e estão no 9º ano. À partida, poêm-lhes logo o chapéu de orelhas de burro, mas eu gosto de ver mais além. E até hoje nunca me enganei...

Eles olham o mundo que os rodeia, mas não conseguem transformá-lo em seu favor. Às vezes é difícil entender o que lhes vai na alma, mas eu tento. E digo alma conscientemente, pois é a alma deles que me interessa. Não sei se serão os efeitos do Auto da Barca do Inferno, mas em cada um deles vejo uma alma à espera de ser salva de si própria. Quando me olham e dizem logo à primeira que não sabem o que é para fazer, não sei se me enerve se tenha pena, pois faz-lhes falta perceber que este mundo não lhes dá nada de mão beijada. As portas estão todas abertas para eles, mas são incapazes de as ver. Ou melhor: vêem, mas não observam as reais oportunidades que cada novo dia lhes traz.
Saíram da sala baralhados, e foi de propósito. Eles olham para o que está à volta, mas nunca pensam nas histórias que se escondem por baixo de cada pedra, por trás de cada esquina e em cada canto escondido onde tantos antes deles já namoraram. A escola tem tantas histórias quantos os alunos que por lá passaram, e quando eles de lá saírem serão também história, mesmo que nunca o saibam. Para trás fica a cadeira da sala 6 onde está escrito “calhoa” e a sala 5, com a sua tranca de portão e as três fluorescentes a menos, que tanta falta fazem para se conseguir ler o que está escrito no quadro.
Eles são agressivos uns com os outros quando falam. Eles chamam-nas de mexeriqueiras e elas respondem, com ar de desafio, que a conversa ainda não chegou ao sifão. Elas pegam-se de gadelha só porque uma olhou para a outra com mais força, e é uma sorte quando não começam a voar lápis, canetas e tesouras. Estão habituados a isso, é o que muitos trazem de casa e da vizinhança, e não percebem que quando estão na escola está nas suas mãos o poder de serem melhores, e – meu Deus! – como eles são melhores do que aquilo que aparentam… Há tanto potencial, tanta criatividade escondida, tantos diamantes em bruto à espera de serem lapidados… e não vêem que a cada professor o que interessa em primeiro lugar é que saiam da escola mais Homens e mais Mulheres, não mais alunos com a cabeça cheia de sujeitos e complementos directos.
Cada um deles é um Sujeito, e não percebem que a escola pode ser o Complemento Directo para uma vida melhor. Falta-lhes (talvez) aprender a conjugar o Verbo Estudar.

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