Os últimos tempos têm sido difíceis para os professores, e o desencanto avoluma-se, começando a tomar proporções deveras preocupantes. Este texto é uma consequência dos anteriores, que até pareciam premonitórios... Infelizmente!
É verdade, cá estou eu outra vez a falar de ensino. Estive a ler algumas coisas que publiquei, e fiquei triste por ver que aquilo que previa se confirma a cada dia que passa. Já tive dias de muito desânimo, já tive outros em que me apeteceu partir a loja toda, e também já pensei em publicar um anúncio do tipo “Professor profissionalizado pertencente aos quadros procura trabalho em área que valorize os seus conhecimentos e lhe dê a possibilidade de progredir com justiça na carreira, mesmo que o ordenado seja inferior”, mas acabei sempre por não escrever, porque andei às voltas com o problema do aluno que falta às aulas por tudo e por nada, com a elaboração dos planos de prevenção do insucesso escolar e com a correcção de testes e trabalhos. No resto do tempo, quero pensar em tudo menos no trabalho.
Assisti com tristeza à manifestação dos meus colegas, pois é mesmo muito triste que as coisas tenham chegado onde chegaram, fruto da cegueira e da teimosia de quem não foi capaz de entender que não se apanham moscas com vinagre. Primeiro foi a congelação das carreiras, depois foi um nunca mais acabar de renovações legislativas que só trouxeram mais trabalho burocrático, a seguir vieram as aulas de substituição que o Ministério não quer pagar, em cima juntaram-se uns pozinhos de estatuto do aluno, que afinal já pode faltar e depois fazer um exame “especial” com direito a explicações por parte dos professores, e para encimar a caldeirada veio a avaliação dos professores, com itens tão esclarecedores como “o docente promoveu contactos adequados com os encarregados de educação dos alunos a cargo, promovendo um relacionamento de complementaridade entre a escola e a família através de estratégias inovadoras e bem sucedidas”. Eu mandei um SMS a um encarregado de educação e ele no dia seguinte veio à escola falar comigo fora da minha hora normal de atendimento. Isto conta como uma estratégia inovadora e bem sucedida, Sra. Ministra? Então quero subir de escalão, se não for muito incómodo…
A panela de pressão, está mais que visto, estava a pontos de rebentar, e quando a nossa “chefe” diz diante dos jornalistas que nós somos “professorzecos” assinou definitivamente a sentença de morte da sua credibilidade junto da classe. Até pode ser muito boa pessoa e ter ideias definidas quanto ao que quer, mas (para ser bonzinho) não as soube explicar, e quem não sabe explicar não serve para ser professor, por isso no item “o docente teve um desempenho excepcional no exercício dos cargos e funções para o qual foi eleito ou escolhido” a Sra. Ministra terá, inevitavelmente, nota negativa e, por isso, não subirá de escalão.
A melhor avaliação que já me fizeram chegou esta semana por e-mail (outro método inovador de contacto com os alunos, tal como o Messenger, que uso de vez em quando para dar explicações e tirar dúvidas a partir de casa, mas isso ninguém avalia), e diz assim: Olá professor, como tem passado? As aulas andam a correr bem? Tenho duas coisas para lhe contar (hehehehe) e uma opinião para pedir...
Primeiro, tem de assinar as minhas fitas =) pois é verdade, já passaram 3 anos e em princípio fica tudo feito este ano =) e como foi um dos professores que marcou o meu secundário, como óptimo professor mas também como óptima pessoa, gostava mesmo de ter o seu nome numa fita... não sei é como dá-la...
Está bem, eu confesso: a lágrima veio ao canto do olho. Satisfeitos? Posso continuar? Então vamos lá.
É por estas e por outras que ainda gosto de ser professor, pois não vejo esta aluna há quase três anos e nunca pensei ser merecedor da honra de lhe assinar as fitas universitárias. Mas vou fazê-lo, nem que tenha de ir a São Miguel de propósito! Em face disto, que me importam os disparates de quem me “governa”? Muito. E o problema é esse, pois eles não matam, mas moem… e de que maneira! Pensando bem, acho que sempre vou deixar aqui o tal anúncio, a ver se calha:
Professor efectivo de Português e Inglês com experiência em comunicação social (jornais, rádio e televisão), conhecimentos de informática (hardware e software), fluente em Inglês e Francês e com experiência em gestão de recursos humanos procura trabalho em área que lhe permita sentir-se dignificado ao fim do dia quando vai para casa. Aceita vencimento inferior ao actual, desde que lhe seja assegurada a possibilidade de progredir na carreira de forma justa. Respostas e/ou propostas para jorge.silva@tugamail.com.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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