Com aquela que será a mãe dos meus filhos a trabalhar em São Jorge, tive a oportunidade de ir conhecer melhor a "ilha do dragão" e os seus encantos. Esta crónica é, no fundo, o resultado da descida à Calderia de Santo Cristo. Uma coisa maravilhosa...
A caminhada faz-se por um trilho estreito e perigoso. Há alturas em que o melhor é não olhar para baixo, é preferível nem saber ao certo que estamos a dois passos do perigo e da morte certa enquanto andamos. Olhos fixos no chão de terra avermelhada, e de vez em quando espraiar o olhar pelo horizonte, embebendo o espírito na paisagem que nos rodeia. No final do trilho, dizem-nos, há uma espécie de povoação sem água canalizada nem luz eléctrica, que vive quase esquecida no meio da fajã. Fajã de Santo Cristo, para ser mais exacto, o local onde o silêncio é rei e a tranquilidade rainha.
O calor aperta em pleno mês de Abril. Coisa rara, num ano em que a chuva decidiu fazer a confirmação do ditado. Para trás já ficou quase uma hora de caminho, e ao virar da esquina há a promessa da chegada ao paraíso das amêijoas, bem à vista da Terceira e da Graciosa, ilhas irmãs da costa norte de São Jorge. A tabuleta publicitária de um restaurante anuncia a chegada à “civilização”, e logo depois o grupo pára, deslumbrado. À nossa frente, a caldeira. Não há vento, a água não mexe, e a maré vazia deixou o espelho do céu e das montanhas na água salgada e fria. Ninguém fala…
O silêncio que nos envolve torna desnecessárias as palavras, num mundo em que tantas vezes falamos demais. Parecemos até ter perdido a capacidade de ouvir, a capacidade de apreciar, de viver o silêncio. Por entre as primeiras casas, o surgir de uma moto de quatro rodas parece um contra-senso, um intruso ruidoso num mundo de sossego. O carreiro estreita entre muros de pedra seca, e desemboca num pequeno… cais, será? A vista arregala-se para a esquerda. Um barco virado nas pedras, um cão, e uma mulher de picareta em punho revira as pedras no azul líquido em busca de conchas carnudas. Petisco para muitos, sustento para alguns, como ela. Lá ficará por mais horas, à vista de todos. A interrogação, óbvia, fica-nos a bailar na boca, mas as costas não cedem, e os braços continuam o vaivém incessante enquanto os olhos treinados distinguem sem esforço a amêijoa da pedra roliça.
A curiosidade leva-nos ao restaurante. Em conjunto com a antiga presa das uvas, a televisão e o DVD parecem objectos extraterrestres ali, mas a conversa rapidamente desvenda o mistério. Há electricidade, sim senhor, mas só durante algumas horas durante a noite. Dá para ver as notícias ou um filme, e depois joga-se às cartas e conversa-se à luz de velas. Congelados? Não senhor, não temos, a arca nunca tem electricidade para fazer gelo, aqui é tudo fresco. As amêijoas? Por enquanto só de reserva, mas temos linguiça, omeletas… querem comer alguma coisa?
Quisemos. Linguiça caseira, omeletas com ovos recolhidos no quintal da casa, uma delícia! E o silêncio. Ouvem-se maxilares e talheres. Até a conversa se rendeu aos sabores e à vista sobre o mar. No pilar de madeira, o fatídico sinal dos fumadores até destoa. Ali não é preciso fiscalização para nada, a não ser, talvez, para o ruído. O silêncio envolve-nos. Fechamos os olhos e deixamo-nos ir… é este o sabor da tranquilidade.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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