Há coisas que me perturbam. Lido mal com a miséria social, não consigo compreender como certas coisas acontecem e como se permite que certas situações se mantenham.
A carga pronta e metida nos contentores… adeus ó meus amores que me vou para o outro mundo.
Que história de vida se esconde por trás daqueles olhos mortiços e daqueles andrajos que um dia tiveram cor? Era nisto que ele pensava, completamente paralisado, depois de se cruzar com ela. Nas suas caminhadas já percebera que a pé se consegue ver muito mais do que quando se vai sentado ao volante, e isso tinha-se tornado num vício saudável, cuja recompensa até àquele momento havia sido apenas o redescobrir dos caminhos das suas próprias redondezas. Mas depois apareceu ela, que não tinha nada, e ele ficou a perceber que tinha tudo.
A imagem atormentou-o durante semanas. Vê-la assim, mulher sem idade e sem futuro, abrigada num caixote de ferro velho que num mundo às direitas nunca serviria de casa a ninguém, era uma realidade simultaneamente tão próxima e tão distante que custava a admitir. Ele fez perguntas, mas não conseguiu obter respostas. É verdade que talvez não tenha perguntado às pessoas certas, mas se calhar também não queria. Tinha medo das respostas, tinha medo que a história por trás de tal miséria se tornasse demasiado penosa para que a pudesse suportar. E decidiu fazer como faz o resto da sociedade, pensando que se não pensasse no assunto ele acabaria por morrer… ou ela primeiro.
Foi impossível. Por circunstâncias da vida, todos os dias lhe passava à porta, e todos os dias pensava como tinha sido possível alguém chegar a tal estado. Pior ainda, pensava como era possível que ao longo dos anos já tivesse passado por ali milhares de vezes sem se aperceber da tragédia silenciosa que habitava aquela esquina. Não sabia se o caso tinha acompanhamento ou não, mas era estranho que, com tantos realojamentos, não houvesse um cantinho para aquele corpo martirizado acabar os seus dias com dignidade. Inquieto, deu por si a pensar no que poderia fazer para ajudar, mas ficou na mesma.
E chegou o Natal. Ele, que já percebera ter tudo, pensou várias vezes nela, mas nunca conseguiu reunir forças para dar um passo em frente. À boa maneira portuguesa, foi adiando o que já sabia ser inevitável, e na noite da Consoada não conseguiu retirar dos olhos a imagem daquela mulher curvada, com um pau e um cão por companhia. Reuniu todas as forças, não disse nada a ninguém, e foi às compras, apenas para perceber que não sabia o que havia de comprar. Precisaria de leite? Certamente que sim. Enlatados? Quase de certeza, até porque se calhar nem frigorífico havia, mas o que poderia comer? Devia ter problemas de saúde, se calhar precisava de medicamentos… O turbilhão de pensamentos desencontrados acabou por derrotá-lo, e tomou a decisão que lhe pareceu mais acertada na altura: comprou um bolo-rei, levantou algumas notas no Multibanco mais próximo, enfiou-as num envelope, respirou fundo, e lá foi, ao encontro dos seus fantasmas.
Passou-lhe à porta três vezes antes de conseguir parar. À quarta, parou mesmo, aproximou-se, e chamou. Quem é? A voz chegou-lhe fraca e desgastada aos ouvidos, e foi quase mecanicamente que respondeu A senhora não me conhece, mas eu tenho aqui um presente de Natal para lhe dar. Quem é? Ouço muito mal, quem é que está aí? Ele suspirou e repetiu, mais alto. Abriu-se uma fresta na porta, a custo e a medo. Tenho uma coisa para si, repetiu ele. Posso entrar? Mas ela já vinha a caminho, aos tropeções até ao portão, enquanto mandava calar o cão. Já não vejo bem, e ouvir também não. Quem é o senhor?
A resposta demorou a sair. Os olhos dele não se despegavam dos trapos que lhe serviam de roupa, do andar arrastado, das pernas deformadas, dos óculos velhos e gastos, e só quando ela estendeu a mão e lhe tocou ele voltou a si. Uma mão velha, enrugada e suja. Incrivelmente suja. Mas ele segurou-a, como quem segura a mão da avó velhinha, e disse-lhe ao que vinha, pendurando-lhe o saco de plástico no braço. Tem aí um bolo-rei para adoçar o Natal e um dinheirinho para o que a senhora precisar, está a perceber? Ai senhor, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece, isto é um presente por alma dos meus. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece. Só queria dar-lhe esta lembrança. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada…
Ele já não conseguiu dizer mais nada. Os nervos eram tantos que estava quase em estado de choque com o que acabava de ver. Era tudo muito pior do que imaginava, e as emoções começaram a jorrar-lhe pelos olhos. Há já muito tempo não chorava, mas naquele dia derramou lágrimas gordas, e nem conseguia falar. Chorou durante quilómetros até se acalmar e recuperar um pouco de auto controlo, sabendo perfeitamente que não tinha resolvido nada, mas que talvez tivesse conseguido deitar um pouco de açúcar no fel daquela vida. Foi fraco o consolo, mas foi melhor que nada.Nunca disse nada sobre o assunto a ninguém, nem vai dizer. Aquela imagem persegue-o, e só sabe que naquele dia de Natal ficou um pouco diferente. Valoriza mais aquilo que tem, relativiza os seus problemas, e sempre que se sente mais em baixo diz a si mesmo que há quem esteja muito pior, e pensa naquela mão suja e calejada, traída pela vida. Não fica mais feliz, mas…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário