Eu sou assim, vou enchendo, enchendo, até transbordar. Não suporto a mentira, muito menos na política, e quando os governantes nos querem fazer passar por parvos o melhor mesmo é reagir. A crónica fala por si...
Politics…the art of deception
Dependent on misplaced perception
Where evil is good, where black is white
Fiction is truth, and most wrongs are right
The fight for power and all that goes with it
Where double-talk hypocrisy’s entirely legit
Good citizens, need not believe all they hear
Political promises are rarely sincere
Stanley Cooper
Política… a arte do engano
Dependente de percepções erradas
Onde o mal é bom, o preto é branco
Ficção é verdade, e muitos erros estão certos
A luta pelo poder e tudo o que ela traz
Onde a hipocrisia vira-casacas é legítima
Bons cidadãos, não têm de acreditar em tudo o que ouvem
Promessas políticas raramente são sinceras
Eu não sei nadar. Parece mentira, ainda para mais vindo de um açoriano de gema, mas é verdade. E esta introdução só serve para que toda a gente fique logo a perceber que me vou meter num assunto onde até me posso afogar, mas há coisas que não podem ficar por dizer, pois a modos que começo a ficar farto de me andarem a comer por tolo. A mim, e a muito boa gente, pois antes de haver crise de dinheiro já havia crise de honestidade ou – pior ainda – de bom senso.
Desde que o Primeiro-Ministro-dos-Portugueses-que-votaram-nele afirmou, alto e bom som, que a política era a arte de conviver com a decepção (se não foi isto, foi parecido), o país devia ter percebido que o futuro ia ser feito de enganos, até porque tal pensamento foi retirado do poema que está reproduzido nesta página, o qual tomei a liberdade de traduzir para ajudar os menos letrados no inglês. Ora o senhor Pinto de Sousa, no seu inglês por correspondência, confundiu o termo “deception”, que significa “engano”, com “decepção”, que é sinónimo de “desilusão”. O poético da questão é que a boca fugiu-lhe para a verdade, e hoje estamos todos desiludidos com o engano que tem sido esta governação desgovernada.
Nos Açores, com tanta água que se mete por uns lados e que falta por outros, a coisa não parece muito melhor, e confesso que, como terceirense, começo a ficar verdadeiramente confuso. Não choveu como era habitual, ficámos sem água; veio um especialista do continente, e os de cá disseram que ele afinal não disse nada de novo; o do continente foi tomar banho para casa com as algibeiras mais cheias, e por cá fechou-se uma estrada porque afinal a Furna d’Água está em risco de abater. Mesmo ao lado, está uma pedreira onde, ao que parece, se usou dinamite; mais atrás, os terrenos que eram de turfa e serviam para segurar água passaram a ser pastos, e agora diz-se que é preciso desfazer esse erro, ao mesmo tempo que se retira este assunto da responsabilidade da Câmara Municipal, passando-o para a alçada do governo, talvez porque há eleições autárquicas depois do Verão e não convém que isso sirva de arma de arremesso político quando a água voltar a faltar…
Descendo à cidade e aos seus arredores, há uma escola nova em folha que custou perto de 30 milhões de euros e foi inaugurada com pompa e circunstância, contando entre os seus equipamentos com uma piscina que, sabe-se agora, afinal é apenas um tanque que serve para aprender a nadar. Enquanto isso, a natação está em risco por causa de um mal-entendido entre as entidades competentes, e a reboque desta situação vieram a público notícias extraordinárias nas páginas deste jornal: o governo paga ao Inatel 313 euros por hora para utilizar a piscina do Bailão; a piscina da Escola Tomás de Borba tem menos nove metros do que o necessário; o responsável diz que se fosse hoje a piscina era outra, mas adianta que esta ficou com o tamanho que tem porque o projecto era anterior a 1998 e justifica-se também com constrangimentos de espaço. É de mim, ou estão a querer fazer de nós parvos?
Antes de 1998 já se sabia que as provas de natação se desenrolam em recintos com determinadas medidas (a piscina da Escola das Laranjeiras tem-nas, e foi construída no início da década de 90…), por isso a única conclusão possível é que o projecto foi mal feito. No mínimo, houve falta de visão. Simples, não é? Mais: ficámos a saber, de uma vez por todas, que uma obra na Terceira precisa de pelo menos dez anos para passar do papel à existência. E não é que já não soubéssemos, pois o hospital, a via rápida e o parque de exposições estão aí para demonstrá-lo. E mais o quê? Ah, a falta de espaço, não é? Lamento. Qualquer pessoa com meio olho na cara chega lá e vê que o espaço onde está o depósito do gás para a caldeira tem os tais nove metros que faltam à piscina, e mesmo que não os tivesse bastava olhar para o fundo do pavilhão e ver que quem expropriou tanta terra tinha expropriado mais dez metros para trás, pois ali só há baldio.
Agora vamos fazer contas a isto tudo: recuperar o abastecimento de água ao concelho de Angra e apagar os erros do passado recente? Não tem preço. Construir uma piscina com mais nove metros de comprimento? Não sei em quanto ficaria, mas a derrapagem orçamental já foi tão grande que mais uns 200 mil euros não escandalizavam ninguém. E se dividirmos esse dinheiro por 313 obtemos qualquer coisa como 640. Ou seja: em termos simplistas, 640 horas de utilização da piscina do Inatel custam ao governo 200 mil euros, o que significa que esse pequeno investimento na piscina da escola se iria pagar a si próprio num instante… E não serve de nada perguntar agora o que é que se faria com a piscina do Inatel se lá não houvesse competições, pois isto é como a história dos vidros eléctricos nos carros: depois de os termos, não queremos voltar ao tempo da manivela! Não ficava às moscas, de certeza, ia era obrigar a maior criatividade e responsabilidade na sua gestão, mas isso são palavras que parecem ter desaparecido do dicionário governamental.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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