quinta-feira, 18 de novembro de 2010

62 - Queimar as fitas do futuro

Tenho antigos alunos do meu tempo na Ilha das Flores que já estão a queimar fitas e prontos a ser "doutores". Esta é para eles...

É nesta altura do ano que as emoções andam ao rubro nas universidades por esse país fora. Benzem-se pastas, queimam-se fitas, fazem-se balanços do que foi o passado, mas, acima de tudo, põem-se os olhos no futuro e na vida que há depois de se ter o “canudo” na mão. Eu sei. Já passei por isso, já benzi pasta, queimei fitas e olhei o futuro com olhos trémulos. Dez anos depois, tenho antigos alunos a fazer o mesmo.
Em boa verdade, esta não é a primeira vez que vejo antigos alunos a finalizar o curso, mas a emoção é sempre a mesma. É com grande satisfação que vejo os meus meninos e meninas de há uns anos atrás concluir um percurso longo e difícil, e gosto de pensar que pude contribuir de algum modo para a formação dos homens e mulheres que hoje são. Vê-los sorridentes, de traje académico, com as fitas penduradas na pasta, é algo que me marca, que me faz também sorrir por dentro, e que não deixa de me humedecer o canto do olho. Por trás daquele sorriso há muitas lágrimas, e só quem não passou por isso não é capaz de dar o devido valor ao momento.
Os olhos agora viram-se para a frente. Tudo o que acontecer a partir deste momento em termos de vida universitária será aproveitado de forma diferente, tudo terá um sabor agridoce de quase adeus, e não é difícil imaginar o que vai na alma de alguém que acaba de se aperceber que nunca mais viverá uma Semana Académica, que só tem mais alguns meses de universidade pela frente e depois tem apenas um ponto de interrogação. Perspectivas pode sempre haver, e os mais sortudos até poderão ter certezas, mas o ponto de interrogação está sempre lá, e demora a sair.
É a incerteza, a inexperiência, a falta de autoconfiança para aplicar o que se aprendeu, e mais tarde será a constatação de que, afinal, não se aprendeu assim tanto como se julgava, e que é a vida real que se encarrega de preencher os espaços em branco no diploma. É um pouco como tirar carta de condução: só depois é que se aprende mesmo a conduzir…
A nós, que vivemos já no mundo real do trabalho, cabe-nos a tarefa de os ajudar, de os encorajar, de lhes ensinar o que falta saber, e cabe-nos contribuir para que a sociedade entenda a mais-valia que é ter gente qualificada para trabalhar, cabe-nos também trabalhar para inverter este miserável estado de coisas, em que um licenciado (agora já são todos mestres…) não é devidamente valorizado. Na sociedade actual, estudar parece pecado, e quem dá valor aos livros é menosprezado. Pior: quem tem o papel de ensinar é completamente desvalorizado por muitos, que não compreendem as vantagens de ter filhos com os olhos bem abertos para a vida, algo que só se consegue com fome de conhecimentos e sede de leituras, às quais a vida depois se encarregará de dar substância.
É necessário que a própria sociedade seja praxada, estude, benza pasta e queime fitas, talvez assim compreenda o valor daqueles que se deram a esse trabalho. Os outros, que por qualquer razão não quiseram, não puderam ou não conseguiram chegar a este patamar, não têm menos valor por isso. Têm um valor diferente, e são igualmente necessários para fazer a sua terra andar para a frente. Se calhar, com a mesma idade já casaram, já têm uma casa para sustentar e filhos para criar, e já têm a escola do trabalho. Nesse capítulo estão em vantagem, mas aos jovens que agora saem das universidades é bom que se diga que há tempo para tudo.
E o tempo deles é agora, mesmo com os olhos húmidos e o coração apertado.
Eferrreá!!!

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