A minha mãe foi ao cemitério ver o meu pai. Na sombra, alguém esperava...
Olá.
Espero que esteja tudo bem contigo, pelo menos até acabares de ler esta
carta. Depois podes morrer à vontade, que não fazes cá falta nenhuma.
Eu conheço-te. Ainda andámos juntos na escola, eu a fazer o meu percurso
normal e tu na quarta classe dos repetentes, como lhe chamavam naquela altura.
Já naquele tempo eras um rufia, ao contrário da tua irmã que, apesar de não ter
cabeça para a escola, era boa rapariga e, ao que parece, continua a ser. Tu,
nem por isso. Eras um palerma, desgraçaste a tua vida porque quiseste e
tornaste-te um palerma ladrão, que ainda é pior.
Tu conheces-me. Eu era o cenoura gordo e caixa-de-óculos que tinha as
melhores notas e o melhor pontapé de biqueira da escola toda. Ao contrário de
ti, eu continuei na escola até ao fim e, mais importante do que isso,
transformei-me numa pessoa válida para a sociedade. Tu és um biscateiro que só
se mexe quando falta dinheiro para comida, cerveja, cigarros ou ganzas, não
necessariamente por esta ordem. O problema é que não és suficientemente bom
para que te deem sempre trabalho, por isso roubas.
Percebeste as rotinas. Andavas na zona e percebeste que naquele dia, mais
ou menos por aquela hora, a velhota aparecia, toda de preto, com umas flores
numa mão e uma mala na outra. Estudaste-a. Pousava a mala no chão, retirava as
flores velhas, lavava a floreira e punha lá as flores novas. Enquanto isso,
chorava, mas nenhuma daquelas lágrimas te amoleceu a alma, nenhum daqueles
suspiros te fez ter um pouco de pena. Tudo o que vias era a mala pousada no
chão.
Nova visita, nova oportunidade. É hoje, pensaste tu, e num ápice executaste
o teu plano. Ela nem deu por nada, com os ouvidos tapados pela água que enchia
o regador. A mala já era tua, só tinhas de sair de fininho, e assim foi, até
foste visto a saltar a parede para não fazeres barulho a abrir o portão. Houve
quem te visse a saltar e dissesse que tinhas “uma coisa” na mão, mas não
conseguiram ver bem o quê. Depois, sacaste de lá a carteira e deitaste a mala
no lixo, de onde mão amiga a recuperou uma hora depois. Vá lá que deixaste as
chaves para a coitada poder entrar em casa…
Entretanto, era o espanto, a confusão, o “onde é que eu pus a mala”, depois
o medo, a constatação, a raiva da impotência, a busca desesperada pelas
redondezas e a visita à polícia para apresentar queixa e sair de lá com a
certeza de que eles também seriam impotentes. Levaste meia dúzia de euros,
provocaste um incómodo tremendo e as várias despesas de ter de substituir os
documentos todos… levaste tudo e deixaste um rasto de burocracia, incompreensão
e medo.
Por mais voltas que dê à cabeça, não percebo que espécie
de animal é capaz de assaltar uma viúva que chora na campa do marido. Não
percebo como se chega a esse ponto de insensibilidade. Não há um código de
honra para ladrões? O que sei é que não és suficientemente inteligente para te
preocupar, mas acredita: um dia em que entres no cemitério e ouças “Ó filha da
puta!”, reza para que seja o meu pai que se tenha levantado…
Enquanto isso não acontece, não voltes a atravessar a rua
fora da passadeira, pois és muito feio para enfeite de capô e eu gosto mais do
meu carro do que de ti, mas é para isso que tenho seguro e tu… não estás seguro
em lado nenhum.
Já podes morrer agora. Adeus.