sexta-feira, 29 de julho de 2016

96 - Carta ao ladrão que roubou a minha mãe

A minha mãe foi ao cemitério ver o meu pai. Na sombra, alguém esperava...

Olá.
Espero que esteja tudo bem contigo, pelo menos até acabares de ler esta carta. Depois podes morrer à vontade, que não fazes cá falta nenhuma.
Eu conheço-te. Ainda andámos juntos na escola, eu a fazer o meu percurso normal e tu na quarta classe dos repetentes, como lhe chamavam naquela altura. Já naquele tempo eras um rufia, ao contrário da tua irmã que, apesar de não ter cabeça para a escola, era boa rapariga e, ao que parece, continua a ser. Tu, nem por isso. Eras um palerma, desgraçaste a tua vida porque quiseste e tornaste-te um palerma ladrão, que ainda é pior.
Tu conheces-me. Eu era o cenoura gordo e caixa-de-óculos que tinha as melhores notas e o melhor pontapé de biqueira da escola toda. Ao contrário de ti, eu continuei na escola até ao fim e, mais importante do que isso, transformei-me numa pessoa válida para a sociedade. Tu és um biscateiro que só se mexe quando falta dinheiro para comida, cerveja, cigarros ou ganzas, não necessariamente por esta ordem. O problema é que não és suficientemente bom para que te deem sempre trabalho, por isso roubas.
Percebeste as rotinas. Andavas na zona e percebeste que naquele dia, mais ou menos por aquela hora, a velhota aparecia, toda de preto, com umas flores numa mão e uma mala na outra. Estudaste-a. Pousava a mala no chão, retirava as flores velhas, lavava a floreira e punha lá as flores novas. Enquanto isso, chorava, mas nenhuma daquelas lágrimas te amoleceu a alma, nenhum daqueles suspiros te fez ter um pouco de pena. Tudo o que vias era a mala pousada no chão.
Nova visita, nova oportunidade. É hoje, pensaste tu, e num ápice executaste o teu plano. Ela nem deu por nada, com os ouvidos tapados pela água que enchia o regador. A mala já era tua, só tinhas de sair de fininho, e assim foi, até foste visto a saltar a parede para não fazeres barulho a abrir o portão. Houve quem te visse a saltar e dissesse que tinhas “uma coisa” na mão, mas não conseguiram ver bem o quê. Depois, sacaste de lá a carteira e deitaste a mala no lixo, de onde mão amiga a recuperou uma hora depois. Vá lá que deixaste as chaves para a coitada poder entrar em casa…
Entretanto, era o espanto, a confusão, o “onde é que eu pus a mala”, depois o medo, a constatação, a raiva da impotência, a busca desesperada pelas redondezas e a visita à polícia para apresentar queixa e sair de lá com a certeza de que eles também seriam impotentes. Levaste meia dúzia de euros, provocaste um incómodo tremendo e as várias despesas de ter de substituir os documentos todos… levaste tudo e deixaste um rasto de burocracia, incompreensão e medo.
            Por mais voltas que dê à cabeça, não percebo que espécie de animal é capaz de assaltar uma viúva que chora na campa do marido. Não percebo como se chega a esse ponto de insensibilidade. Não há um código de honra para ladrões? O que sei é que não és suficientemente inteligente para te preocupar, mas acredita: um dia em que entres no cemitério e ouças “Ó filha da puta!”, reza para que seja o meu pai que se tenha levantado…
            Enquanto isso não acontece, não voltes a atravessar a rua fora da passadeira, pois és muito feio para enfeite de capô e eu gosto mais do meu carro do que de ti, mas é para isso que tenho seguro e tu… não estás seguro em lado nenhum.
            Já podes morrer agora. Adeus.