quinta-feira, 26 de maio de 2016

95 - Os pais da Maria

Esta Maria e esta Mafalda foram inventadas, mas existem. Existem à nossa esquerda, à nossa direita, à nossa frente. Têm a vida como madrasta e o destino como padrasto. Lutam contra os dois. Às vezes perdem, às vezes ganham. Estas linhas são dedicadas ao seu futuro, que se deseja bem passado.

Maria tem pais e sabe quem eles são. É essa a maior tragédia da sua vida.
Nasceu, como quase todas as crianças, do desejo dos pais, que já tinham um filho e queriam agora a menina para “fazer o casalinho”, como dizem as tias velhinhas que, pela frente, passam a vida a falar dos maraus que são as raparigas de hoje mas, por trás, querem é ver bebés com fartura. Nos seus primeiros anos de vida nem se apercebia, não tinha capacidade para isso, mas o casamento dos pais estava a perder fulgor. Os desentendimentos sucediam-se ao ritmo dos episódios da telenovela e o desfecho era previsível.
Um dia, Maria deixou de viver com pai e mãe. Foi cada um para o seu lado sem crianças, que foram entregues a gente simpática mas apenas cheia de amor profissional. Maria demorou a perceber o que lhe tinha acontecido. Queria o pai, queria a mãe, mas eles não a queriam. Foram muitas noites de sono lavado por lágrimas, foram muitos dias à procura de um sentido onde ele não existia. Valeram-lhe as companheiras mais velhas, já habituadas ao tempo, ao espaço e às circunstâncias.
- Deixa lá, os meus pais fizeram o mesmo e eu não morri.
- Olha, estou melhor aqui do que em casa, e se calhar vai acontecer o mesmo contigo.
- O meu pai dava-me tareias de cinto, aqui ninguém me bate.
- As senhoras são fixes, desde que faças o que te mandam.
Assim cresceu Maria, e assim ela própria se transformou numa das mais velhas, recebendo novas inquilinas ao sabor dos abandonos. De vez em quando, o pai ou a mãe lembravam-se da sua existência e iam buscá-la para passar uma tarde. A namorada do pai não queria saber de canalha, o namorado da mãe não estava interessado nos filhos que ela já tinha, e Maria era invariavelmente devolvida em lágrimas ao armazém onde dormia.
A Maria vai à escola porque tem de ser, não por gostar. Ou melhor: ela até gosta da escola, não gosta é das aulas, e os professores sabem disso, mas no papel o que fica é apenas mais um caso de abandono que se transformara em incapacidade de obtenção de resultados minimamente satisfatórios. Fizeram-lhe planos de prevenção, diagnósticos psicológicos, testes especiais. O diretor de turma, sem ter um pai ou uma mãe com quer falar, tentava levá-la a bem, mas sem sucesso. Maria fechava-se em copas, o seu mundo não era igual ao dos colegas, que tinham tudo e não valorizavam nada.
Foi então que apareceu Mafalda. Logo no primeiro dia se percebeu que não era uma professora igual às outras, mas foi com o passar das aulas que Maria se sentiu, pela primeira vez, à vontade para falar com uma professora. E Mafalda ficou surpreendida. A história, de tão triste e injusta, comoveu-a e fê-la perceber que Maria precisava, acima de tudo, de ter alguém com quem falar. A professora, desde o início, percebeu que Maria não tinha tantas dificuldades como o diagnóstico psicológico fazia crer. A explicação veio célere e triste. Ó professora, eu não ia estar a falar da minha vida com uma pessoa que não conhecia de lado nenhum. Nem sequer me esforcei para responder bem às perguntas do teste que me fizeram...
Mafalda “adotou” Maria. Era rara a aula em que não ficavam a conversar no intervalo, e isso fez com que a raiva começasse a ser canalizada para o trabalho na escola. As fraquezas foram-se fazendo forças e as notas começaram a subir, mas Maria guardava sempre a esperança de que a voltassem a querer. De vez em quando, alguém dava um sinal de que isso seria possível, para depois Maria cair novamente na realidade.
Um dia, Mafalda teve de lhe dizer as palavras mais duras de sempre.
- Maria, esquece o teu pai e a tua mãe. Cada vez que pensas neles, ficas triste. Já sabes que só podes contar contigo. É triste, mas, quanto mais cedo fores capaz de encarar a realidade, melhor para ti.
- Isso não é justo, professora! Eu não fiz nada de mal, porque é que isto me aconteceu?
- A vida não é justa, Maria. E a tua há de ser aquilo que tu fizeres com ela. Nunca te esqueças disso...


terça-feira, 17 de maio de 2016

Falar de escrita perante alunos que não são meus

Pediram-me que enfrentasse uma plateia de alunos para lhes falar do que é isto de escrever um blog. Ou um blogue, que é como já está nos dicionários.
Sim, eu sei que até escrevo umas coisas que algumas pessoas gostam de ler, mas tenho escrito menos do que nunca, e ultimamente até parece que só escrevo epitáfios. O último, então...
Enfim, posso dizer-vos, meus caros, que escrever é uma coisa fantástica, principalmente quando conseguimos saber reações de quem leu, mas também pode ser uma coisa muito dolorosa...
Mas disso falaremos já a seguir...

segunda-feira, 16 de maio de 2016

94 - A cadeira ficou vazia

O meu pai morreu. Deixei-lhe esta homenagem. Não consigo escrever mais nada.

Pai

Não sou de palavras ditas
ao sabor de conveniências
ou momentos mais ou menos
lembrados. Não sou de escritas
de filosofias ou ciências
matemáticas, senos e co-senos
que tantas mentes deixam aflitas

Não sou de usar palavras vãs
quando o assunto somos nós
e os nossos sentimentos.
Prefiro pensar nos amanhãs
recordando os meus avós
e guardando esses bons momentos

Não sou de nada disso.
Não sou muito destas coisinhas.
Não sou, e isso é normal.
Sou de falar quase por feitiço,
Sou de um beijo nas entrelinhas
Sou teu filho e ponto final


O meu pai morreu.
Não há outra forma de o dizer; dói muito, dói ainda mais escrevê-lo e é ainda pior senti-lo, mas, à medida que os dias passam e as ideias vão assentando, ganha forma a ideia de que foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Ao mesmo tempo, leio o que acabo de escrever e sei que parece horrível. Não quero que seja verdade, quero chegar a casa e encontrá-lo sentado a ver futebol na televisão, quero poder perguntar-lhe o que acha dos acontecimentos políticos do dia, quero que ele me peça para lhe comprar os jornais quando sair do trabalho.
Mas é verdade.
Agora, chego a casa e está a Júlia no seu lugar, a lembrar-nos que a vida continua. A minha sobrinha, que tem quatro meses, não teve a sorte de conhecer verdadeiramente o avô. A minha filha, que tem quatro anos, provavelmente vai guardar uma ou duas memórias difusas mas a maior parte dos momentos que viveram juntos vai desaparecer nas voltas do relógio. Ficam as fotografias, o que já não é pouco, e ficamos nós para a fazer recordar o que for possível. Ela sabe que já não o volta a ver, mas não ficou triste, não é ainda capaz de processar este tipo de informação, e ainda bem. Ontem à noite, ao sair do carro, viu as estrelas a brilhar e perguntou qual delas era o avô. Eu disse-lhe que era a mais brilhante, ela apontou uma e sorriu.
Eu gostava de ser como a minha filha e mandar beijinhos para céu a sorrir. No entanto, vemo-la fazer isso e só a custo dominamos as lágrimas. Eu gostava de ser capaz de mandar beijos para o céu, palavra de honra, mas só consigo pensar em tudo o que foi acontecendo, no lento definhar de alguém que era indestrutível, nas vezes em que me fui apercebendo do fim iminente mas preferi sempre pensar que ainda poderia haver algo mais a fazer. E não havia.
Sei – tenho a certeza – que os próximos meses trariam mais dores, mais visitas ao hospital, mais perda de autonomia, mais perda de qualidade de vida. Sei isso tudo e já me ouvi dizer várias vezes que, apesar de tudo, acontecer o que aconteceu da forma como aconteceu foi o melhor que podia ter acontecido. A frase é confusa, mas verdadeira.
Deverei, pois, agradecer a Alguém pela misericórdia que teve? Provavelmente, sim. Afinal, não é para todos cumprir na morte o que se desejou em vida. Não quero ficar a chatear ninguém, dizia ele. E nunca chateou. Se for para morrer, que seja sem dar por isso, dizia ele. E não deu. Foi tão rápido como acabar uma frase e deixar pender a cabeça para o lado enquanto discutia política com dois companheiros. Foi uma morte linda, dizem-me. Como se tal coisa existisse…
A cadeira ficou vazia, e desta vez não é só por uns dias. Em casa, ficará sempre o lugar dele, e para nós ficará a lembrança das centenas de pessoas que nos acompanharam nestes dias. Fora de casa, já não era o Presidente, já não era o Chefe, já não era o colega de trabalho, mas continuava a ter amigos em todo o lado. Quando era criança, detestava ir à cidade com ele, pois estávamos sempre a parar para falar com alguém, chegávamos sempre atrasados. Agora, à beira dos quarenta, posso dizer que tenho um orgulho imenso em ser filho do Jorge da Terra-Chã. O Jorge que foi presidente da Junta, presidente da Casa do Povo, presidente da Associação de Futebol, presidente da Mesa Administrativa do Império, Furriel na tropa, dirigente do Angrense e destacado militante do PSD.
Não. O meu pai não merecia ter a doença a roê-lo até ao fim. Foi-se embora antes disso, “à Jorge Silva”, sem dizer nada a ninguém, que era para não chatear. Fez bem. E fez-nos muito bem enquanto cá esteve.
Pai, a gente não te esquece e não vai deixar que a Maria te esqueça. Quanto à Júlia, há de saber quem foi o avô. Aliás, não temos a menor dúvida de que, daqui a uns anos, hão de dizer a alguém que são tuas netas e ver portas a abrir por causa disso. De resto, não te preocupes, que a gente toma conta da mãe.
Obrigado, Pai.

E um beijo.

93 - Things of the arch of the old woman*

Nunca escrevi um texto com tanto impacto. Mais de 7500 visualizações no Facebook, das quais 2500 em hora e meia. E porquê? Porque a minha cidade é gerida por uma cambada de doutorados em ciências mas chumbados em senso comum...

George Ávila da Silva

A cidade de Angra foi invadida por uma série de placas toponímicas de belo efeito visual, dignas de figurar nas ruas Património Mundial em que passamos todos os dias. No entanto, o que lá está escrito é de tal forma trágico que levanta várias questões quanto ao seu processo de fabrico. Não que existam incorreções factuais, longe disso, o problema é que estão em Português e em Inglês, com a tradução a ser o ponto em que the pig twists the tail. Ou melhor, existe uma incorreção, que é escrever-se que Pêro Anes do Canto está “internado” na Igreja da Sé, mas essa deve ter sido uma gralha… que mostra que ninguém verificou o trabalho antes de se pôr a placa no seu lugar! A alternativa é pensar que alguém achou que, se a diferença entre “interned” e “interred” é só uma letra, pode ser que ninguém dê por isso! Come the devil and choose. E vá lá que “Anes” ficou bem escrito. Bastava trocar o “e” por outra vogal e a piada estava lá, esfinctérica e real, nas duas línguas.
Um turista que entenda Inglês vai apreciar o facto de lhe ser oferecida uma explicação, por mais resumida que seja, do sítio onde está. Não entendendo Português, a "tradução" que lhe é oferecida não lhe vai suscitar problemas de maior na compreensão global, muito embora alguns dos termos utilizados possam não lhe soar muito bem, mas, lá está, como sabe que essa não é a língua dos nativos, vai dar-lhes um desconto, sorrir e andar sempre. Afinal, you don’t look at the teeth of a horse that someone gave you.
O problema coloca-se a outro nível. O nosso. O nível que nós temos, o que nós não temos e o que merecemos ter. Quem sabe Português e Inglês sabe que algumas partes das traduções não fazem sentido, sabe que uma das mais elementares regras da tradução é, precisamente, não traduzir à letra, daí que Straight Street (o nome dado à Rua Direita) possa vir a ser conhecida nos estrangeiro como "Rua Heterossexual" e Top of the Holes (pobre Alto das Covas…) possa deixar os visitantes a pensar o que diabo estará, afinal, em cima dos buracos. Também poderá ficar meio confuso ao saber que está em frente ao Palácio dos Capitães Gerais (que é o que significa "General Captains", pois o correto seria Captain General, o que faz toda a diferença, até porque as patentes militares combinadas se iniciam sempre pelo posto inferior, como Tenente Coronel ou Major General), e nem quero pensar no reduzidíssimo número de falantes do Inglês que sabem o que é uma cedilha, visto que "façade" (fachada de um edifício) é uma palavra francesa que foi adotada pelos ingleses e é normalmente grafada sem a cedilha, que é um sinal gráfico inexistente nas línguas anglo-saxónicas. É que todos sabemos que old donkey doesn’t learn languages…
Aqueles de nós que têm, efetivamente, nível de conhecimento linguístico, sentir-se-ão envergonhados, os que não têm o nível suficiente para perguntar a quem sabe também não terão o nível para humildemente reconhecer as suas culpas, e será esse o nível que todos acabamos por merecer, pois, em última análise, somos todos nós que permitimos que tais coisas aconteçam enquanto nos viramos para o outro lado em busca da próxima tourada. 
Estas coisas não podem continuar a acontecer! Nas grandes e nas pequenas coisas, parece que estamos entregues a gente sem experiência ou vontade de aprender, parece que quem tem responsabilidades de gestão das coisas públicas não sabe nem quer saber, desde que o seu lugar não esteja em risco. É que falar destas infelizes placas é falar de uma série de coisas mal feitas, mal acabadas ou por fazer que temos por aí. Nem tudo é mau, valha a verdade, ainda há quem gives an air of their grace, mas há tanta coisa capaz de put our hairs on their feet que começa a fazer confusão. É a biblioteca, é o Parque de Exposições, é o laboratório de veterinária, é a radioterapia, é o parque tecnológico, é o porto da Praia, é a Base das Lajes, é o Porto das Pipas… é tanta coisa que começa mesmo a apetecer mandar muita gente to the whore that gave them birth!
Mas será que ainda há quem se interesse? Será mesmo verdade que saints of the house don’t make miracles?


*Coisas do arco da velha

92 - Um saco de batatas fritas

Memórias felizes guardadas num saco de batatas fritas caseiras.

Angra, 23 de junho de 2015. Noite grande das Sanjoaninas. Dia grande de festa, o mais longo do ano inteiro. Na manhã seguinte, à hora em que habitualmente se levantam para ir trabalhar, centenas de pessoas ainda estarão a saltar fogueiras na Rua de São João.
Ainda são onze da noite, o tempo ajuda e o desfile das marchas prossegue a bom ritmo. A minha mulher já se foi embora para casa com a minha filha, o espírito da festa não estava com ela, mas a mim apetecia-me estar ali com os meus pais, que tinham trazido cadeiras para a Rua da Sé, e ali fiquei.
As marchas passavam, umas mais originais, outras mais bem vestidas, mas todas sorridentes. Do interior das roupas de São João vinham ondas de alegria de quem gosta de viver a festa em vez de, simplesmente, estar na festa. Bailavam-me ainda nos ouvidos as palavras de uma amiga, ao mesmo tempo triste por não ter a oportunidade de fazer o seu trabalho naquela festa mas imensamente feliz por poder participar nela. Deliciosas contradições que só um terceirense entende e que os coriscos já começam a compreender.
Nessa manhã, nascera a minha sobrinha, ruiva e linda como ela só. A minha irmã na maternidade com ela, o meu cunhado em casa a recuperar do sono e da emoção e nós ali, os três, felizes por eles, por nós e por todos os que ali estavam. Entre uma marcha e outra, conversávamos sobre tudo e sobre nada e assistíamos ao desfilar das mais recentes tendências da moda adolescente: para elas, quanto menos calção, melhor, enquanto eles se dedicam ao frágil exercício de equilibrar as calças no limite do rabo, desafiando a força da gravidade. De longe em longe, passava um cesto de vime com pipocas, batatas fritas, gamas e chocolates a fazer lembrar os gloriosos tempos dos candins da base. E eu, quase inconscientemente, chamei por um deles.
Abri o saco de batatas fritas caseiras, à moda antiga, e logo senti o cheiro a sal e a óleo. De repente, e durante uns bons dez minutos, fui criança outra vez, sentado entre os meus pais a ver marchas na Rua da Sé. A cada trincadela estaladiça mudava de sítio, ora estava ali, ora estava com o meu pai no campo de jogos a ver o Angrense, ora estava com a minha mãe à espera da urbana ao pé do hospital velho, ora estava na Sociedade a ver O gato que veio do espaço

Enquanto durou aquele saco de sabores de mim, fui criança outra vez. Durante aqueles dez minutos, fui feliz como já não era há algum tempo. Depois, dei o saco vazio à minha mãe, que o guardou para deitar fora mais tarde, e bati palmas à marcha.

91 - Lombas, pombas e trombas

O tempo passa mas a gente não aprende. E, mais uma vez, estive meses sem escrever...

Cá vou andando, obrigado pela pergunta. É verdade, ando desaparecido, isto nos últimos seis meses foi uma tristeza, não prestei para nada. Para falar a verdade, tive dias de não me conhecer a mim mesmo. Quem me mandou comprar uma casa a modos de ser acabada? Já está pronta, é verdade, mas deu muito que fazer à cabeça. Fiz umas quantas asneiras, fui enrolado pelo empreiteiro, o dinheiro não deu para tudo mas hei de saldar as contas à medida que puder, que isto de dívidas só consinto tê-las ao banco. Enfim, adiante.
Não, não ganhei o Euromilhões. Mudei um bocado de estilo de vida, troquei de carro, comprei a casa e, no processo, torrei dez anos de poupanças, mas estou feliz. A minha filha cresce linda, alegre e sadia, a minha mulher dá-me forças para respirar, por isso agora estou a sentir novas energias para escrever. Cérebro descansado, dedos ocupados, bem podia ser o meu novo lema.
É, minha gente, isto tem de ser com calma, para se poder passar por cima dos obstáculos que a vida nos vai pondo à frente. Mas e vocês, como têm passado? Ouvi dizer que a crise está a desaparecer devagarinho, até que enfim, e que há uns aviões novos a voar para São Miguel, capazes de nos levar ao continente pelo preço de um jantar bem regado. Ainda bem! Mas também já acabaram com o voo de Madrid para a Terceira, não é? Foi tudo para São Miguel ver as lagoas?
E desapareceram as quotas leiteiras? Pois, é capaz de ser um problema, não percebo muito disso. Mas parece que já se sabia há uns anos que ia ser assim, não é? Eu pergunto porque fiquei confuso ao ver o CDS (ou PP, ou lá como eles se chamam) dizer que ia pedir um debate de urgência sobre o assunto. É que se já se sabe há anos que as quotas iam desaparecer, qual é a urgência agora? Nunca se falou disso na Assembleia Regional? Vou investigar o caso.
Os meus amigos dizem-me que a Universidade não quis manter aberto por cá o curso de Gestão de Empresas. Pois. É assim que eles fazem as coisas: o curso na Terceira dá lucro? Tem muitos alunos? Então não pode ser, que nós precisamos de ter prejuízos para pedir mais dinheiro ao governo. De qualquer maneira, não se pode ter lá um curso com alunos melhores que os de cá, vamos lá arranjar maneira de fazer com os alunos o que se fez com a SATA: queremos cá os aviões todos. E o reitor, ainda por cima, foi para a televisão dizer que os professores de cá não prestavam. Se fosse comigo, não ficava assim…
E houve rali, não é? Parece que veio cá um carro espetacular, que nunca se tinha visto por estas bandas. A minha vizinha diz que foi por causa disso que mandaram fazer umas lombas grandes ali em frente ao Centro Cultural e na Ladeira Branca, para esse tal carro andar mais devagar. Ó vizinha, quero lá saber desse carro, quero saber é do meu, que de desportivo não tem nada e arrastou com a frente no chão na primeira vez que passou lá a subir! Passa fora! Era fazer uma lomba na cabeça de quem as desenhou assim! Na fila do hiper, a respeito disto, uma senhora dizia à empregada da caixa que eles haviam era de ir brincar com a pombinha para a areia…
E os americanos sempre se vão embora, não é? Agora parece que o problema não é dos despedimentos, afinal vão ser muito poucos, o problema é do dinheiro que eles vão deixar de gastar cá. Vai ser preciso arrendar casas por muito menos dinheiro, diz um homem à mesa do café…
Enfim, já percebi. Andei seis meses meio afastado do mundo e parece que pouco mudou. Anda tudo preocupado com as lombas desta vida, anda tudo preocupado com o que se faz com as pombas nos tempos livres… anda tudo de trombas!

Acho que vou fazer mais uma casa.

90 - Onde pensas que vais, Dolores?

A respeito de uma amiga que morreu demasiado cedo. E que eu nem sabia estar doente...

Sabes, Dolores, isto assim é uma chatice. É que uma pessoa como tu não morre, apenas se torna eterna. E não há direito! Quer dizer: uma pessoa nem sequer sabia que estavas doente e, de repente, vêm dizer-lhe que ganhaste asas? Não pode ser!
Ainda no outro dia me mostravas como é que se mexia naquelas mesas de mistura com botões de fogão que o Rádio Clube tinha e agora transformaste-te numa memória? Brincamos?
E essa tua boa disposição de sempre, como é que fica? E essa tua gargalhada quando eu fazia asneira do outro lado do vidro? E a tua paciência para nos aturar tolices? Não pode ser assim tão simples, minha amiga, não te livras de nós tão facilmente. Vem aí o Carnaval, de que tu tanto gostavas, e tinhas tanto orgulho no teu trabalho a fazer ligações para que a nossa emissão saísse o melhor possível. Mesmo depois de te reformares, apareceste para dar uma vista de olhos ao que estava feito na sociedade de São Bento e ainda conseguiste melhorar lá um cabelo que estava fora de sítio a fazer um efeito qualquer no som… Hoje de manhã, o João dizia que tu foste a primeira pessoa a deixá-lo mexer nos botões… e fomos tantos a aprender contigo…
É por isso que a gente não te vai esquecer, é por isso que, mais do que olhar para as fotografias na parede do Rádio Clube à procura daquelas que têm o Tony Ramos ou o António Variações, a gente vai procurar aquelas em que tu estás. Tu foste, és e serás uma parte daquela casa, eles foram só enfeites para a festa.
Tu eras a festa.
Agora, deixaste-nos com um sentimento de vazio, e mais vazio fiquei quando a Carla me telefonou para dar a notícia e recordou como tu lhe dizias que gostavas muito da minha escrita. E eu tenho escrito tão pouco… gostava de ter uma oportunidade de te explicar porquê, só para te ver abanar a cabeça e dizer “home, isto tá tudo tolo” por entre duas gaitadas.

Descansa, Dolores. A gente vê-se por aí. E sintoniza o RCA no Carnaval e no rali, que te vamos dedicar o nosso melhor. E se a emissão aí desse lado não estiver grande coisa, faz aquilo que sabes melhor: diz ao chefe para se arredar, que já vais arranjar maneira de a coisa se ouvir em condições.

89 - E já lá vão vinte anos…

Uma pessoa pisca os olhos e vinte anos desaparecem naquele instante. Sem saber como, estou a comemorar duas décadas desde que fui para a Universidade. E a minha vida mudou.
  
Eles estavam cheios de medo. Quer dizer…não seria bem medo, era uma mistura de excitação, ansiedade e curiosidade para saber o que iria acontecer a seguir. Era dia 15 de novembro de 1994. Não havia telemóveis, a internet era uma coisa primitiva que muitos só descobriram quando o mIRC foi lançado (em fevereiro de 95, já agora…) e a televisão por cabo ainda não tinha chegado a todo o lado.
Juntaram-se todos, manhã cedo, nos jardins. Cadernos na mão, canetas no bolso e muitos pontos de interrogação na pasta. Será que as coisas iam ser parecidas com o ano anterior? Será que agora o método era outro? E teriam de usar a expressão “senhor doutor” ou podia ser só “professor”?
No bar, o Adriano e o senhor Amaral já tinham aviado dezenas de cafés nervosos, galões pensativos e sandes de nó na garganta. À porta das salas de aula, o burburinho oscilava entre o tom sussurrado de quem ainda não conhecia bem os colegas do lado e as gargalhadas dos que já traziam entrosamento de trás. E via-se uma coisa curiosa: os grupinhos faziam-se mais por proveniência dos elementos do que pelos cursos que frequentavam. Gente que, na sua terra de origem, só se conhecia de vista estava agora a conversar como se fossem amigos de longa data. Pudera. Estavam todos num barco novo e ninguém sabia bem como se remava nem para que lado ia a maré.
Era o primeiro dia de aulas na universidade. Alguns já andavam por lá desde setembro, pois não sabiam ainda do adiamento da data de início das hostilidades e mandaram-se de avião para a ilha. Não voltaram para trás, que ficava muito caro. Chegou a hora, os senhores doutores chegaram, as salas encheram-se de gente nova.
No intervalo, as opiniões dividiam-se. Xiiiii, estamos desgraçados, esta tipa é maluca. Oh pá, não é nada, eu até achei que foi bem acessível. Este fulano é teso. Vocês já ouviram falar no Dartacão? Homem, vai gozar outro. E vocês viram quando ela limpou as mãos sujas de giz à saia? Ficou que até parecia que a tinham apalpado. Adorei foi o bigode dele, parecia enrolado nas pontas. Aquela fulana estava a gozar quando mandou consultar livros em russo, não estava?
Era o princípio de uma aventura linda. Ninguém sabia o dia de amanhã naquele admirável mundo novo, ninguém sabia se sabia estudar ou não, ninguém sabia que estava a embarcar numa experiência que iria mudar vidas. As suas. Uns safaram-se bem, outros nem por isso. Houve quem fosse chamado de volta a casa ao fim de um ano de muito convívio mas pouco estudo, houve quem decidisse mudar de curso e até de universidade, houve quem percebesse que não tinha jeito para aquilo…
E, de repente, passaram vinte anos. Estão todos a bater à porta da ternura do Paco Bandeira e todos têm histórias para contar. Histórias de vida. Há quem seja doutor, engenheiro, professor, há quem seja essas coisas todas mas não faça vida do seu canudo, há quem tenha ficado a meio da viagem, há quem esteja bem, há quem esteja mal, há quem tenha filhos, há solteiros, casados, divorciados, há os vivos e há os mortos, dos quais também reza esta história.
No entanto, há algo que a todos une. Há um dia que os marcou, mesmo que muitos já dele nem se lembrem. Outros recordam-no sempre, com saudade ou nem por isso. Já passou muito tempo, mas as memórias do tempo em que se tornaram homens e mulheres não desaparecem. E podem ver-se só muito de vez em quando, mas quando se veem é como se o tempo não tivesse passado e tivessem todos outra vez 18 anos.
E, no entanto, já se passaram vinte…


Dedicado a todos os caloiros de 1994 do polo de Ponta Delgada da Universidade dos Açores. Sicut Aurora Scientia Lucet.

88 - Engenharia de tampas de esgoto

Enquanto condutor, não há coisa que me irrite mais do que as nossas tampas de esgoto e afins. Poucas são as que estão ao nível da estrada, transformando-se em buracos permanentes. É verdade que às vezes já nem nos desviamos, mas quando se leva uma grávida no carro...

Será que as moscas também aprendem quando vão à universidade?
Passou-me isto pela cabeça quando alguém disse que tinham ficado vários cursos com vagas por preencher e até um ou dois com zero interessados em frequentá-los, com o polo da Terceira a ser, mais uma vez, falado pelas piores razões.
É assim, devagarinho, quase sem se dar por isso, que se vai percebendo a utilidade de alguns cursos e a forma como se engrossam as filas do desemprego com licenciados muito qualificados para profissões sem futuro. É assim que se vai percebendo como temos cursos e universidades a mais ou, pelo menos, desenquadrados da realidade. Tem faltado capacidade de ver mais além, e é bom que nos preparemos para ouvir dizer, daqui a uns tempos, que faltam engenheiros disto ou professores daquilo.
Assim sendo, está na hora de procurar alternativas. Melhor dizendo: está na hora de criar alternativas, pelo que aqui aproveito para deixar algumas sugestões.

Planeamento de Trânsito (Pós-Graduação).
Curso destinado a indivíduos com formação superior em engenharia civil, ambiental ou que ocupem cargo político relevante. Confere habilitação para integrar comissões especializadas em estudos de fluxo de trânsito, definição de políticas de transportes urbanos, encerramento de ruas, delimitação de zonas de estacionamento e afins.

Programação Cultural (Licenciatura)
Curso destinado a indivíduos com necessidades educativas especiais em termos de bom senso na articulação de ofertas culturais com a matriz ideológica da sociedade em que se inserem. Confere habilitação para a definição de agendas culturais capazes de inovar e abrir horizontes de forma gradual, sem entrar em choque com a cultura estabelecida, educando progressivamente as massas e aproximando-as do pensamento das elites esclarecidas.

Arquitetura paisagista urbana (Pós-Graduação)
Curso destinado a indivíduos com formação superior nas áreas de arquitetura, arquitetura paisagista, desenho técnico de fachadas ou que ocupem cargo político relevante. Confere habilitação para projetar ou definir acabamentos em edifícios de nova construção integrados em zonas classificadas ou de arquitetura tradicional. Tem como objetivo proporcionar e/ou desenvolver ferramentas intelectuais capazes de discernir as fronteiras do antigo e do moderno, de modo a introduzir traços arquitetónicos diferenciados e funcionais sem agredir a estética circundante nem colocar em causa a funcionalidade por falta de acessibilidades e afins.

Engenharia de tampas de esgoto (Doutoramento)
Curso destinado a indivíduos com formação superior em todas as áreas relacionadas com a engenharia civil. Confere habilitação para conseguir projetar e/ou requalificar estradas em que as diversas aberturas necessárias (esgotos, águas, eletricidade, telecomunicações, etc.) fiquem ao nível do asfalto, evitando assim que as redes viárias se transformem em gincanas onde os automobilistas se entretenham a contornar as tampas metálicas das referidas aberturas. Trata-se de um curso da maior relevância nos dias de hoje, dada a quantidade de acabamentos deficientes nas obras de repavimentação de estradas, em que os desníveis verificados se tornam obstáculos à segurança de viaturas e peões.


Pretende-se com esta pequena amostragem de alternativas contribuir para a rentabilização das estruturas universitárias existentes no país e, em particular, na ilha Terceira. De acordo com as mais recentes pesquisas, trata-se de uma oferta formativa que ainda não existe em qualquer universidade no país e que poderá ser vital na manutenção e desenvolvimento do polo de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.

87 - O ouro da casa

Não há coisa mais difícil de mudar que uma mentalidade. Digo isto muitas vezes aos meus alunos, que demoram a entender todo o alcance desta afirmação mas acabam por chegar lá. E nós estamos muito mal habituados, pensamos sempre que o que vem de fora é que é bom.
No entanto...
  
Somos mesmo esquisitos. A força do hábito é que nos molda o quotidiano e nos faz esquecer das coisas boas dos sítios onde vivemos, mesmo que outros vejam neles o paraíso. Para um habitante de Bora-Bora, com praias deslumbrantes de água transparente, umas férias na neve devem ser o máximo da felicidade, enquanto o mesmo será válido, em sentido inverso, para quem vive nos Alpes.
Nós por cá habituámo-nos à velha ideia de que “o que vem de fora é que é bom” e nem reparamos que passamos o dia numa cidade fantástica, que deixa de boca aberta todos quantos a visitam. Já lá vão mais de dez anos, fiz de guia turístico pela primeira vez na Terceira, e nesse dia, pelos olhos de outra pessoa, apreciei coisas lindas que sempre tinham estado diante de mim sem que me apercebesse. Não me esqueci da lição.
Com o avançar do tempo, já tive ocasião de mostrar a ilha a gente que nela se estreava, sempre com reações de espanto positivo, inclusivamente no que toca às Sanjoaninas, que deixam deslumbrados os que cá vêm por aqueles dias. Tudo muito bem em termos de vistas, festas e monumentos. E as pessoas?
Por alegrias da paternidade, dei comigo a ver o Peter Pan no Teatro Angrense. Não fosse a minha filha, teria perdido um espetáculo lindíssimo, feito por gente da terra, com muito trabalho de construção, muita encenação, muita alegria, muita juventude e até algum arrojo técnico. Uma maravilha verdadeira, que levou ao palco dezenas de jovens e encheu por duas vezes a plateia da mais bonita sala de espetáculos desta ilha. Saí de lá a pensar…
Depois, vieram as Sanjoaninas. Logo no primeiro dia, uma colega que se estreava nas nossas festas ficou rendida ao cortejo de abertura. Mostrava-se espantada, em primeiro lugar, com a quantidade de gente na rua, e depois não se calava com os carros e as coreografias e as roupas e o trabalho todo que aquilo deu e com as raparigas lindas que iam em cima dos carros e com a rainha que era lindíssima e tinha um vestido fantástico e…
Continuaram as festas e vieram as marchas, com festa até o sol raiar, veio o desfile etnográfico, que impressionou até os menos apreciadores deste tipo de coisa, veio o desfile do desporto, mais um sucesso, e veio o desfile para as crianças, que transformou Angra numa selva encantada, com animais ferozes à solta e muita animação nas ruas, para deslumbramento total de miúdos e graúdos. Não sou crítico de arte, mas cá vai: foi um cortejo extraordinário, que podia ter sido apresentado em qualquer parte do mundo e seria sempre extraordinário. O trabalho que aquilo deu foi amplamente compensado pelo resultado final, que devia merecer um prémio qualquer, nem que fosse um elefante de peluche, para recordação do dia em que a Sé viu passar um elefante “verdadeiro” à sua frente. Nesse dia, ao meu lado, uma senhora comentava com o marido qualquer coisa do tipo “já viste bem o que se pode fazer com a prata da casa?”
Temos, não haja dúvida, gente mais do que suficiente na Terceira para trabalhar com qualidade e pôr de pé trabalhos capazes de fazer inveja a qualquer um, e temos capacidade, graças a isso, de atrair gente de fora para se juntar à festa e, quem sabe, ao trabalho que dá fazer a festa. É por isso que, quando se fala agora na universidade e no que lhe estão a fazer, ganha forma a ideia de sermos capazes de nos organizarmos para mostrar quem somos e do que somos capazes.
Fechar um curso de sucesso por conta de uma toleima burocrática não parece ser um problema. Pois bem, crie-se um problema de volta! A Universidade dos Açores sobreviveu ao pior reitor da sua história mas pode muito bem não sobreviver à marioneta governativa que lá puseram agora.

A tal senhora falava em “prata da casa” mas eu não concordo com ela. Para mim, a expressão certa seria “ouro da casa”. Porque a nossa gente vale, de facto, ouro, e está na hora de mostrar esse valor. Está na hora de mostrar que o ouro da casa é bem melhor que o pechisbeque que vem de fora e quer mandar cá dentro.

86 - Os académicos

Para quem não sabe, as pessoas que estamos habituados a ver na televisão não são melhores que nós. Simplesmente, conseguiram de alguma forma destacar-se dos restante, mas isso não faz deles mais inteligentes, por muitos doutoramentos que tenham.

Há uma dúzia de anos atrás, numa universidade que permanecerá anónima, um jovem professor convidado tomou o seu lugar na primeira reunião do seu departamento. À sua volta estavam caras e nomes que ele só conhecia dos jornais e de “ouvir falar”, tendo decidido que a melhor tática para este primeiro embate seria “primeiro ouvir e depois – talvez – falar”.
Ao fim de uns minutos, estava a sentir-se incomodado. Aquelas pessoas, que ele se habituara a ver como uma espécie de sumidades, eram afinal normais, tão normais que alguns deles chegavam a parecer anormais. A reunião arrastava-se penosamente, parecendo-lhe que se discutia tudo menos o que estava na ordem de trabalhos, quando, do nada, uma senhora de renome atirou para cima da mesa uma proposta para que se mudasse o nome daquele departamento. No seu entender, “professores” não era uma designação suficientemente digna, devendo substituir-se essa palavra pelo sinónimo “docentes”. Na sua opinião, portanto, aquela valência da universidade deveria passar a chamar-se “Centro Integrado de Formação de Docentes”.
O nosso jovem professor torceu-se na cadeira.
De imediato se gerou uma discussão filosófica sobre os méritos da proposta, que se arrastou por muito mais tempo que o desejável. O nosso jovem professor (seria melhor dizer “docente”?) pediu então a palavra, perante algum espanto geral, pois ele era apenas um novato, um convidado que nem sequer pertencia à “casa”. A sua intervenção foi simples: “Meus senhores e minhas senhoras, vão desculpar-me pelo atrevimento, em particular a senhora doutora A., mas queria apenas chamar-vos a atenção para o facto de este departamento ser conhecido como CIFOP, dadas as suas iniciais, e a mudança proposta vai fazer com que a última letra seja outra, dando azo a um trocadilho que poderá ser deveras embaraçoso”.
Os “da casa” demoraram dois segundos a processar a informação. Findo esse tempo, o doutor P. começou a rir descontroladamente, no que foi acompanhado por boa parte dos restantes, deixando a autora de tão descabida proposta mergulhada no mar de sangue que lhe afluiu à cara quando percebeu a trapalhada em que se tinha metido. O nosso jovem professor recebeu uma amistosa palmada nas costas e uns quantos olhares de aprovação por ter conseguido o feito de compreender uma coisa tão óbvia antes das sumidades todas.
Lembrei-me desta historieta depois de ler o “folhetim” de Luiz Fagundes Duarte (doravante aqui referido pelas iniciais LFD) no Diário Insular de domingo, 8 de junho, dedicado implícita mas claramente a Félix Rodrigues (doravante identificado pelas iniciais FR). Lembrei-me da historieta e tive pena, pois tinha a figura em elevada conta, mas a falta de educação de tal escrito contrasta flagrantemente com o alto cargo exercido nos Açores por LFD. Não que eu seja particularmente apreciador das deambulações de FR por caminhos diferentes daqueles que a sua habilitação académica recomenda, entenda-se. Aliás, nem sequer consigo estar de acordo com ele em termos políticos, mas entendo que há limites para tudo e, neste caso, foram largamente ultrapassados. LFD não é Almada Negreiros nem FR é Júlio Dantas e nós não estamos no meio de uma qualquer polémica literária do início do século XX. Nem sequer estou interessado em discutir quem nasceu primeiro, o português ou a língua portuguesa.
Os académicos, não poucas vezes, são muito bons numa determinada área, à qual dedicaram anos de vida, na qual se especializaram e pela qual são conhecidos e, quiçá, reconhecidos, mas quando saem dessa área de conforto, tal como o sapateiro que um dia quis ir além da chinela, dão-se mal. Os académicos, já se sabe, passam de si uma imagem de superioridade que nos leva a colocá-los numa espécie de pedestal virtual, até ao dia em que percebemos que, afinal, não é bem assim, e também são pessoas normais, que se enganam, têm devaneios, deslizes e lapsos dos quais, por vezes, se arrependem.
No caso de um, talvez se venha a arrepender de ter trocado os estudos de literatura pelo encerramento de escolas (contra tudo o que vem na própria literatura); no caso de outro, talvez se venha a arrepender de ter tentado transformar um calhau num templo…

De uma forma ou de outra, caros LFD, FR e quejandos, deixem as tricas para a Assembleia Regional e dediquem-se mas é ao trabalho, que é para isso que vos pagamos.

85 - Uma questão de nível

A política devia ser uma atividade nobre, mas se muitos dos políticos não têm nível para isso, já se sabe que a coisa não pode correr bem.
  
Nos últimos tempos, infelizmente, os professores voltaram à ribalta pelos piores motivos. Já ninguém pode ouvir falar deles, parece que passam o tempo mais preocupados com o seu futuro do que com os seus alunos, parece que estão contra toda e qualquer alteração legislativa que lhes diga respeito… parece!
A realidade, no entanto, é outra, bem mais séria. Séria demais para que esteja entregue à politiquice que reina na Assembleia Legislativa Regional dos Açores (ALRA). Desta vez, melhor teria sido que os deputados tivessem feito aquilo de que alguns os acusam, ou seja, nada. Tivessem eles ficado quietinhos a consultar o Facebook durante os discursos do Professor Astromar da bancada adversária e nada disto teria acontecido.
Aos olhos da opinião pública, vou-me apercebendo, aquilo que fica é que os professores estão outra vez contra o sistema, pouco interessando que, desta vez, tenha sido o sistema a funcionar contra si próprio, levando os professores por arrasto e utilizando-os (de novo) como arma de arremesso político. O barulho todo na ALRA não foi por causa daquilo que os professores queriam mas sim porque, numa coisa chamada “Comissão de Redação”, os deputados que a integram alteraram uma norma que tinha sido votada, modificando assim o texto e pensando que ninguém ia dar por nada. Parece que os estou a ver: “Eh pá, muda lá isso e não te preocupes. De qualquer maneira, mais ninguém vai ler isto outra vez.” Correu-lhes mal.
Os meus colegas contratados, que viram no cumprimento de uma diretiva da União Europeia a estabilização das suas vidas pessoais e profissionais e, com a mudança das leis, viram a vida andar para trás, não interessam para nada. O que interessa é discutir quem mudou as vírgulas e os pontos.
Explicar o problema é fácil: de há uma dúzia de anos para cá, os concursos fazem-se de forma clara e transparente, com os professores a terem a possibilidade de concorrer apenas às escolas e/ou ilhas que lhes interessam. Isso é muito importante, pois permitiu que as pessoas fizessem uma escolha clara e consciente: ir efetivar para outra ilha, tendo de lá ficar pelo menos três anos e depois esperar a sorte de haver um lugar na ilha desejada, ou então ficar como contratados sempre na mesma terra, à espera de uma oportunidade de entrar para o quadro, permitindo constituir família, comprar uma casa, um carro e outras coisinhas menores que ajudam a compor a taxa de natalidade desta nação envelhecida. Muitos, mesmo perdendo dinheiro, preferiram a segunda opção, colocando a família à frente da carreira. Temos nos Açores, para que não restem dúvidas, muitos professores contratados há dez e mais anos consecutivos na mesma escola, prova de que há lugar para eles.
O que fizeram os deputados? Mudaram a regra, e agora toda a gente vai ser obrigada a concorrer para todas as ilhas se quiser entrar para o quadro. O Felismino, que vive na Terceira desde que nasceu, casou, tem dois filhos, amigos, casa, carro e uma vida inteira estabelecida, vê-se agora na iminência de ir trabalhar para o Corvo durante três anos, rezando para que, findo esse tempo, consiga um lugarinho de destacamento na sua ilha. Percebem agora o que está verdadeiramente em causa? As pessoas, não as vírgulas, os pontos ou os umbigos de alguns deputados. A política deve ter como objetivo as pessoas, meus caros, não a satisfação de necessidades partidárias.
Com as regras anteriores, nunca um lugar de quadro ficou por preencher, nunca um aluno ficou sem aulas e nunca isso iria acontecer. Ouvir agora deputados que também foram (são!) professores defender esta violência pessoal e familiar é confrangedor e revelador da falta de nível de tais indivíduos, que se esquecem das pessoas para defender a política. Pior: vimos um comunista defender nos Açores o que critica ao governo do continente: as pessoas devem sair da sua zona de conforto e ir para onde há trabalho. Dois pesos e duas medidas na mesma boca. Pior ainda: vimos uma antiga primeira figura institucional da região socorrer-se da mais vil ironia para escrever cartas a um pai que não é o seu, gozando despudoradamente com a angústia de terceiros. Ainda pior: vimos essa mesma figura atacar, também a reboque deste caso e com uma baixeza tal que envergonha o cargo que ocupou, outras figuras da política, achincalhando nomes próprios e méritos profissionais. Não havia necessidade.

Falta, cada vez mais, nível na política. Falta que os políticos se preocupem mais com as pessoas. Quando isso acontecer, talvez as pessoas voltem a votar. Para muitos, será já tarde demais…

84 - Eu, praxado, me confesso

A praxe universitária é alvo de polémicas anuais. Desta vez, um grupinho de inconscientes foi passear trajado à beira-mar e dizem que andaram a experimentar umas praxes novas. Só um deles escapou ao afogamento...

No verão de 1994, já lá vão quase vinte anos, acabei o liceu, decidi ir para a universidade e a escolha foi ficar o mais perto possível de casa, por isso a viagem parou em São Miguel, já que na Terceira não havia um curso para mim. O Joel ainda me tentou convencer a ir para Lisboa, para Comunicação Social, garantindo que quando regressasse seria “um rei”, mas não me convenceu.
Nesse ano, por força do atraso na construção do novo edifício de Ciências Humanas, as aulas começaram mais tarde e o verão da despedida acabou por ser bem maior que o habitual e foi vivido com uma intensidade nunca repetida. Sanjoaninas, talvez festas da Praia (ainda não se faziam todos os anos) Lajes, Vila Nova, Agualva, São Carlos, o rali, participei em tudo como se não houvesse mais no ano seguinte… até que chegou o dia. Lá fui, numa manhã fria de novembro, à boleia do Orlando, que fez o favor de nos levar, a mim e ao meu pai, ao aeroporto. Era domingo, dia 13.
À nossa espera estava o Liberal – era assim que o meu pai o chamava – para nos levar ao quarto alugado que me iria receber os estudos ao longo de cinco anos e para nos mostrar a cidade. Na segunda-feira, fomos conhecer a universidade, tratar de papéis, comprar senhas de refeição, saber o horário, perceber o caminho das pedras, e por aí fora. Conheci logo a Ana, que estava a ver o mesmo horário que eu. Era do Faial e hoje está na Terceira, por capricho do destino. Trocámos olhares e sorrisos amedrontados. Almoçámos na cantina, eu, o meu pai e alguns terceirenses desterrados que já estavam lá por sua conta. Acho que o meu pai percebeu que já tinha feito o que precisava de fazer e decidiu antecipar o regresso. Nessa noite, o Liberal foi levá-lo ao aeroporto, levou-me a jantar o frango de churrasco mais picante da história universal e deixou-me em casa, com a recomendação de lhe ligar se precisasse de alguma coisa e o pedido de que o fosse visitar à loja de vez em quando. Nunca precisei de nada, mas visitei-o muitas vezes.
Terça-feira, 15 de novembro de 1994. Primeiro dia de aulas.
A malta da Terceira juntou-se instintivamente. Uns já se conheciam do liceu, outros só de vista, alguns nem isso, mas juntámo-nos todos ao almoço. Não havia tristeza, apenas entusiasmo pelo que aí vinha. Ao grupo juntaram-se outros caloiros, também eles em busca de entrosamento. Foi nesse dia que conheci, para a vida toda, o Frederico e o Rui. E começaram as praxes. Caloiros de pé! Caloiros têm de comer com a mão esquerda, para perceberem o que custa a vida! És canhoto? Come com a direita! E as gargalhadas não se fizeram esperar.
Vieram os “distintivos”, barretes brancos com a fita da cor do curso, para nos distinguir dos veteranos. Cantámos em grupo, fizemos “pudim Danone” com as raparigas, percebemos para que servia um curso de “línguas”, inventámos declarações de amor na hora, andámos à procura dos nossos sapatos entre centenas de pares, atravessámos o lago com uma vela na mão para sermos batizados, sentámos o rabo em água para sermos julgados, fomos condenados a ser Justiça, a lavar o cabelo com champô de ovo e farinha, a perceber como se enfia um balão num pepino… tudo isto enquanto conhecíamos mais caloiros, mais veteranos, mais colegas. Quando acabou a praxe, quase sem darmos por isso, conhecíamos meia universidade e a outra metade conhecia-nos a nós.
E assim me tornei dirigente da Associação Académica, locutor de rádio, jogador de futsal, representante do curso, organizador de semanas académicas. E assim me tornei praxador, vestindo com orgulho um traje que guardo com carinho.

É isto a praxe. Feliz de quem a viveu e soube aproveitar.

83 - Quem reprova a prova?

Isto de ser professor não é fácil. Depois de se tirar o curso e fazer o estágio, agora decidiram que também é preciso fazer uma prova de acesso à carreira...

Hoje é dia de prova para alguns professores contratados. É dia de nervos, de impotência, de prepotência… e de alguma demência. Hoje é também, para mim, dia de vergonha, por ver colegas meus apanhados nas malhas canalhas de uma lei socialista aplicada pelos social-democratas. Sim, lei socialista. É bom não esquecer, só para contextualizar, que esta lei foi assinada pelo punho cor-de-rosa do nosso filósofo afrancesado, mas a coragem de a aplicar ficou para outros, pois a ministra-que-foi-recompensada-com-um-cargo-na-FLAD já não aguentava mais pancada política depois da burrice da avaliação dos professores.
Louvo a coragem? Sim. Louvo a forma como se fizeram as coisas? Não.
Passo a explicar. Passo a passo, sem saltos de coelho.
Tudo o que seja alteração de regras a meio do jogo é, para mim, batota. Neste momento, não há um único professor em Portugal que tenha sido formado através de um curso estruturado de modo a terminar com uma prova de acesso à carreira. Não existe, mas devia existir. Neste momento, todos aqueles que têm habilitação profissional para dar aulas cumpriram normalmente a sua licenciatura (aqui não há Relvas nem canudos postiços) e fizeram o estágio respetivo, sendo avaliados por critérios claros, bem definidos, por orientadores acreditados para essa função pelas universidades a que pertencem. Neste momento, todos os professores em Portugal terminaram um curso que lhes confere, automaticamente, habilitação para dar aulas, e é aqui que está um dos problemas. Mas já lá iremos. Primeiro, a tal prova que ninguém aprova.
A minha opinião: se houver um único professor que não seja capaz de resolver aquela prova-tipo que foi apresentada, essa pessoa não merece dar aulas. Aquilo é tão fácil que não me entra na cabeça haver um licenciado em ensino neste país que não se saia bem. A questão dos erros de português levarem a ter zero na pergunta de desenvolvimento parece-me muito bem, e haverá muito boa gente a trocar os pés na escrita, o que não é aceitável, tenham lá paciência. Sobra o resto para se safarem e terem positiva, mas do “puxão de orelhas” não se livram.
Então (já ouço o coro…) se a prova é assim tão fácil, de que é que os professores se queixam?
Acima de tudo, queixam-se da alteração de regras a meio do jogo, que parece destinada a eliminar das listas uns quantos menos dados a exercícios de cadernos de passatempos, de modo a diminuir os números do desemprego dos professores. Mas, se isso é assim, porquê dispensar da prova quem já anda nisto há mais de cinco anos? Para dar um rebuçado aos sindicatos, que não se apanham moscas com vinagre, e para dar a entender que se está a perder a confiança nas universidades e na qualidade da formação realizada de há uns anos para cá.
E agora, a revelação: eu sou a favor de uma prova.
Se me disserem assim: a partir do ano letivo 2019/2020 (o tempo para que os novos candidatos a professores terminem o curso), quem quiser ser professor terá de realizar uma prova de acesso à carreira, prova essa que será criada e aplicada pela Ordem dos Professores, de acordo com a nova estrutura dos cursos de ensino a ministrar pelas universidades portuguesas, eu aceito. Aceito, porque assim já sabemos com o que contamos e sabemos que as coisas foram feitas a começar pelos alicerces e não pelo telhado.
(Telefonema do governo)
Olhe, Sr. Jorge, o problema é que os resultados dos alunos portugueses têm sido tão maus que nós achamos que é preciso selecionar melhor os professores…
(Resposta do Sr. Jorge)
Tenham coragem de chamar os bois pelos nomes! E que tal olharem para a forma como os alunos são educados em casa? Não dá jeito dizer a muitos pais que não sabem educar os filhos, pois não? Mesmo assim, se acham que o problema é os professores não prestarem, sabem porque há maus professores? Porque na sua formação nunca entraram numa sala de aulas para trabalhar com alunos até ao dia em que iniciaram o estágio. Nesse dia, deram-lhes uma chave para a mão e disseram-lhes para ir dar aulas à turma X. Na cabeça tinham muita teoria, mas nenhuma prática. Na prática, os alunos foram cobaias. Há maus professores porque os seus orientadores viram que eles não tinham jeito nenhum para a coisa mas não tiveram coragem de os chumbar (dava muito trabalho, ainda ficavam mal vistos e era uma chatice estar agora a cortar as pernas a uma pessoa que tinha estudado cinco anos para estar ali), preferindo convidá-los a desistir. Eles, claro, não desistiram. Há maus professores porque se desvalorizou a capacidade pedagógica do indivíduo e se privilegiou o marranço científico. Há maus professores porque não aprenderam a escrever sem erros. Há maus professores por todas as avaliações e experiências que não tiveram na sua formação. Reformulem os cursos! Dignifiquem o papel do professor! A continuar com esta palhaçada, daqui a dez anos querem professores e eles não existem, pois ninguém está para aturar estas coisas!
(O Governo desligou…)
Há maus professores porque sim, e sempre vai haver. Não há maus professores porque não fizeram uma prova… ou porque foram aprovados numa.


82 - O campeão? É açoriano!


“Luís Pimentel foi quarto, mas mostrou-se mais rápido do que em 2004, fruto da evolução do Subaru, só que frente aos Mitsubishi não pode aspirar a muito mais, tendo passado o tempo entretido com Ricardo Moura, que felizmente conseguiu apoio para esta época. O carro é velho, desatualizado e está quase de série, mas Moura mostrou que sabe de facto para que servem três pedais, um volante e duas alavancas. O discurso, esse, não se alterou: calmo, ponderado e, acima de tudo, educado.”

in Reportagem Rali Sical, Rotações Magazine, abril de 2005

Acompanhei a carreira de Ricardo Moura nos ralis praticamente desde o início, encontrando facilmente no meu arquivo várias referências elogiosas aos desempenhos do piloto micaelense. Escolhi esta que acompanha o texto por me parecer aquela que melhor sintetiza o tricampeão nacional de ralis, feito alcançado no passado sábado, no Rali Casinos do Algarve.
Apetece-me escrever hoje qualquer coisa sobre o Ricardo. Há uns anos atrás (em 2002…), dediquei uma crónica à vitória de Horácio Franco no campeonato nacional de Produção, mas o decréscimo da minha escrita levou a que nunca tivesse feito a mesma justiça ao homem que levou os Açores ao topo dos ralis nacionais. Um homem que, mesmo depois de deixar de ser “jovem”, continuou a ser tratado como tal por alguma imprensa, graças ao seu ar de menino tímido que pede desculpa por ser tão bom a brincar com os carrinhos.
Vimo-lo começar com um Toyota Starlet, ainda meio a brincar, vimo-lo dar passos certos rumo a carros mais competitivos, passando por Seat Ibiza, Citroen Saxo, Daewoo Lanos, Mitsubishi com material de segunda… até, finalmente, ter Mitsubishi de primeira e um Skoda (quase) de topo. Foram muitos anos, foram muitos ralis, foram muitas aprendizagens que culminaram naquilo que é hoje: um piloto grande demais para os Açores, capaz de levar de vencida toda a concorrência nacional e até fazer umas cócegas a alguns nomes do panorama internacional.
Pelo meio, ficam disputas mais ou menos “acesas” com Fernando Peres nos Açores e ficam lutas dentro e fora da estrada com Bernardo Sousa, mas em todas imperou (tanto quanto nos foi dado ver) a tal calma, ponderação e educação de que falava em 2005. De facto, a tranquilidade é a imagem de marca do piloto, que, mesmo nos momentos de maior tensão, prima por se apresentar diante dos microfones com um discurso correto e apaziguador. Aqui e acolá terá tropeçado nas palavras? Sim, mas é a exceção que confirma a regra, como se diz em bom Português. Confesso-me, pois, um admirador de Moura. Não me custa reconhecê-lo nem isso me tolda a imparcialidade jornalística nas três vezes por ano em que me sento aos comandos de um microfone.
Com meia dúzia de títulos açorianos no bolso e um saboroso “tri” nacional, o que resta a Ricardo Moura? Emigrar? Fala-se muito nisso, na fuga para o estrangeiro de gente com qualificações, mas este não será bem o caso. Pelo que conhecemos do homem e dos que o rodeiam, não será mais um título nacional que o fará embandeirar em arco. Mais ainda, os portugueses dos ralis têm bem presente o sucedido com Armindo Araújo, que desapareceu do mapa depois de uma aventura mal sucedida no Mundial de ralis.
A internacionalização será o passo lógico a dar na carreira, mas terá de ser bem pensado e melhor medido. Moura tem pernas longas, mas este é daqueles casos em que mais vale dar passos curtos… para que não falte o fôlego para chegar mais longe. Pôr-se em bicos de pés não é o seu estilo, e ainda bem. Há que mostrar trabalho, consistência e andamento, ingredientes que o nosso campeão já mostrou ter de sobra para consumo interno. Agora, parafraseando, o injustiçado Álvaro, há que investir nas exportações, mas com cuidado.

Parabéns, Ricardo!

81 - O meu respeito


O Eterno Estudante foi convidado a ser o orador de serviço na homenagem recentemente feita pela Junta de Freguesia da Terra-Chã ao Coro Tibério Franco e ao Matraquilhos Futebol Clube, e aceitou. É o discurso desse dia que quero partilhar com os meus leitores, fazendo assim também, para um público mais alargado, a minha homenagem a essas instituições. Tive, no entanto, por motivos que se prendem com o espaço disponível nas páginas deste jornal, de fazer alguns cortes, tentando não desvirtuar o todo.

Porquê fazer uma homenagem?
A pergunta pode parecer descabida, tendo em conta o momento em que a faço, mas parece-me que será útil para nos ajudar a sintonizar os nossos espíritos em torno dos dois grandes motivos que nos trazem hoje a esta sala. A palavra em si – homenagem – tem origem na palavra homem, e o seu significado é muito simples: demonstração de respeito. Sendo assim, faz perfeito sentido fazer homenagens quando a intenção é exatamente essa: demonstrar respeito por alguém ou, como é o caso, por uma instituição. E ainda faz mais sentido que se façam estas demonstrações de respeito enquanto os homenageados estão junto de nós.
A Junta de Freguesia da Terra-Chã entendeu homenagear, em 2012, um conjunto de personalidades que, por direito próprio, entraram para a galeria de notáveis desta freguesia, centrando-se as atenções nos primeiros autarcas do pós-25 de abril e nos professores que, durante décadas, ensinaram as primeiras letras e os primeiros números às crianças da nossa freguesia. Recordo esse momento hoje por uma simples razão: uma das homenageadas de há um ano atrás – a minha professora primária – faleceu em janeiro e tenho a certeza de que, tal como todos os outros, ficou feliz por se terem lembrado dela mas também tenho a certeza de que todos os envolvidos ficaram felizes por terem podido demonstrar-lhe o devido respeito antes que a lei da vida seguisse o seu caminho.
Confesso que, quando o senhor Presidente da Junta me disse que tinham decidido homenagear o Coro Tibério Franco e o Matraquilhos Futebol Clube, sorri por dentro. Sorri porque achei uma ótima ideia juntar duas instituições que não podiam ser mais diferentes, quer em objetivos quer na sua antiguidade, sorri porque me veio de imediato à cabeça que era uma ótima oportunidade de conciliar o passado, o presente e o futuro da freguesia, e sorri porque imaginei desde logo que haveria quem não concordasse com a escolha dos homenageados. No entanto, isso faz parte da vida. No Coro, haverá certamente quem não goste de cantar esta ou aquela parte do Messias, de Haendel, e no Matraquilhos haverá certamente jogadores que não gostam de determinada tática mas respeitam quem decide, e esse tem de ser um dos fundamentos da nossa sociedade: o respeito, que tantas vezes parece querer perder-se por entre as pedras da calçada. E, porque a idade é um posto e aos mais velhos é devido respeito, começo pelo Coro Tibério Franco.
Quando o professor Tibério Franco criou o coro, em 7 de fevereiro de 1981, criou algo mais, criou uma força cultural que é hoje conhecida e reconhecida na Terceira, nos Açores, em Portugal continental e no estrangeiro, um grupo que apresenta uma qualidade musical acima de qualquer suspeita e que já levou o nome da nossa freguesia a paragens longínquas. E a freguesia orgulha-se do seu grupo. Talvez nem sempre o tenha demonstrado da melhor forma – nós, portugueses, somos muito bons a criticar mas somos muito esquisitos quando chega a hora de elogiar – mas a freguesia orgulha-se do seu grupo.
Eu cresci a ouvir falar do orfeão. Não sei se há no grupo quem não goste desta designação, por isso peço desde já desculpa se desagrada a alguém. Cresci a ouvir falar no orfeão, que começou por estar ligado à nossa Casa do Povo e depois acabou por seguir o seu caminho de forma independente, e também cresci um bocadinho no orfeão. Teria dez anos, talvez, mas lembro-me de ter feito parte dos “escalões de formação” do orfeão, um coro infantil orientado pelo professor Tibério, algo que foi uma boa ideia mas que, talvez por consequência do repentino desaparecimento do fundador, acabou por não ter continuidade.
Ao longo dos anos, este grupo consolidou o seu lugar enquanto referência dentro deste género musical, e hoje não há um terceirense que se preze que não tenha ouvido falar do Coro Tibério Franco. Homenageamos hoje o grupo e, por consequência, todos os elementos que dele fazem ou fizeram parte, com o seu criador à cabeça mas sem esquecer o professor Luís Soares, que assumiu a ingrata tarefa de manter o grupo unido após a morte do fundador, sem esquecer a sócia número um, Liliana Silva, que também já dirigiu o coro e dele continua a fazer parte, e destacando o papel do padre Ricardo Henriques, que há 23 anos dirige o grupo.
É por tudo isto, e pelo muito mais que fica por dizer, que esta homenagem já tardava. Reconhecer o mérito cultural do Coro Tibério Franco era urgente. Era urgente para que o grupo tivesse a confirmação de que o seu trabalho não passa despercebido. Era urgente reconhecer publicamente que a Terra-Chã se orgulha deste Coro, que marcou de forma indelével as últimas três décadas da vida desta freguesia e que vai – com toda a certeza – marcar muitas mais.
Passamos da música para o desporto, da veterania à juventude, de um grupo com créditos mais do que firmados para outro com uma história muito jovem mas recheada de êxitos e com um trabalho meritório junto da juventude da freguesia.
O Matraquilhos Futebol Clube é mais do que um clube de futebol. Talvez nem todos os que aqui estão presentes tenham a noção disso, mas esta jovem agremiação representa o concretizar de um sonho para os seus fundadores. Conheço-os, são rapazes mais ou menos da minha idade e os nossos caminhos cruzaram-se pela primeira vez há mais de vinte anos, quando éramos adolescentes espalhados pelas ruas da Terra-Chã. O Luís, o Nuno, o Paulo e o Sérgio andaram comigo no atletismo, jogaram futebol comigo no ringue de cimento da nossa Casa do Povo, e começaram a construir por cá as suas vidas enquanto eu fui prosseguir estudos para longe.
São amigos desde sempre, e sei que desde há muito acalentavam o sonho de ter um clube seu, em que pudessem concretizar as suas ideias e a sua paixão pelo futebol. A diferença, neste caso, é que passaram das palavras aos atos e, ao contrário dos que muito falam mas pouco fazem, puseram de pé o Matraquilhos. Até o nome tem o seu quê de infantil, uma reminiscência do tempo em que passávamos horas a jogar futebol com os pulsos.
Estes rapazes conseguiram, no entanto, uma coisa ainda mais extraordinária: mostrar à freguesia que há gente no bairro capaz de fazer coisas bonitas, coisas “a sério”, mostrar que o estigma social que carregaram às costas era de todo imerecido. Não tenhamos ilusões: todos sabemos dos problemas que existem por lá, todos sabemos que a exclusão social existe e que nem todos têm a capacidade de se levantar sozinhos. Num mundo tão pequeno, tão fechado e complicado, com todos os tipos de solicitações ilícitas ao virar da esquina, a prática desportiva é um oásis que mostra aos mais jovens como é possível trilhar outros caminhos, é para muitos a primeira forma séria de convívio que encontram na vida, e pode ser a escola de valores de que necessitam para se tornarem cidadãos válidos e responsáveis.
O Matraquilhos é tudo isso, com a vantagem de ser muito mais. Em seis anos de existência, conseguiu a proeza de se tornar num clube de referência do futsal terceirense e açoriano, levando ainda o nome da freguesia a diversas localidades de Portugal continental, por força da sua participação na segunda divisão nacional de futsal.
Pelo caminho da sua curta história ficou ainda outro marco: com tão curta existência, o Matraquilhos Futebol Clube foi já reconhecido pelo Governo Regional com o estatuto de Instituição de Utilidade Pública Desportiva. Nada mau para um clube que nasceu nas vielas de um bairro mal-amado, fruto do sonho de quatro rapazes que conseguiram congregar à sua volta largas dezenas de atletas e colaboradores, que dão muito do seu tempo livre a este projeto que, hoje, merece também a nossa demonstração de respeito. Esta homenagem, para além do reconhecimento do trabalho feito até aqui, é um incentivo para que continuem a dar o máximo pelo vosso clube e pela vossa freguesia.
Para finalizar, apetece-me pegar no lema que está inscrito nas camisolas e utilizá-lo para juntar a uma só voz as duas instituições que aqui homenageamos: Coro Tibério Franco e Matraquilhos Futebol Clube: todos juntos pela Terra-Chã!

Terra-Chã, 6 de setembro de 2013

80 - A vida num suspiro

Onde se fala - mais uma vez - da falta de pachorra para escrever e de como uma sobremesa nos traz memórias sorridentes. 

Há muito tempo que não me apetece escrever. Ando por aí às voltas com o trabalho e com a família, vou olhando para o que se passa à minha volta, dou comigo a pensar “isto dava uma crónica engraçada”, digo para mim que quando chegar a casa vou sentar os dedos no teclado mas, na hora da verdade, falta-me a vontade.
Uma pessoa lê jornais, ouve notícias e vê reportagens com coisas mal feitas, asneiras de bradar aos céus, mas acaba por se encolher e alinhar no coro dos que dizem que não vale a pena, e a verdade é que não vale mesmo. E não é por falta de assunto. Várias vezes me abordam na rua e dão sugestões, mas eu não escrevo por encomenda. Falar mal da nova biblioteca? Para quê? Está à vista de toda a gente que aquilo é um disparate monstro, que ainda nos vai custar mais uns bons milhões mas quem tem o poder não faz nada. Falar mal da via rápida? Para quê? Toda a gente que passa lá percebe que o pavimento não presta e já está cheio de rachas um pouco por toda a parte. Toda a gente lê jornais e percebe que, como o empreiteiro já teve de remendar a coisa duas vezes, agora lembrou-se de pôr tudo em tribunal e exigir uns milhões de indemnização porque os papéis que o governo lhe deu estavam errados e eles trabalharam com aquilo que lhes deram.
Ainda aqui há dias me perguntaram o que pensava sobre a universidade. A minha resposta foi não saber o que havia de pensar. O que é que se há de dizer de um reitor que autoriza a abertura de um processo de contratação numa terça para na quinta mandar uma carta ao ministro a dizer que não tem dinheiro para aguentar a porta aberta e depois se vê forçado a anular o concurso? O que é que se há de pensar perante o silêncio da universidade terceirense em relação ao seu futuro? O que é que se há de pensar quando se analisam as causas e as consequências dos acontecimentos no Porto Judeu? O que é que uma pessoa pode dizer quando vem a público que os perigos estavam mais do que identificados e, mesmo assim, ninguém fez caso dos avisos dos cientistas dessa mesma universidade, que produz investigação e conhecimento reconhecidos no exterior mas desdenhados dentro de casa?
O que é que um professor pode pensar quando ouve um médico travestido de deputado a dizer no parlamento que não é por uma criança ter fome que tem maus resultados na escola? Passa fora!
A coisa mais certa que li nos últimos tempos foi a entrevista em que se dizia que a Terceira precisa de elites. Precisa mesmo! Como de pão para a boca! Gente desapegada do poder, gente que seja capaz de levantar a voz e dizer “não é assim” de maneira que todos ouçam e – mais importante ainda – que todos percebam. De nada serve vir para a rua com textos e palavreados que o cidadão comum não consegue entender. Uma mente brilhante é aquela que se faz entender, não é aquela que se esconde por trás da sua eloquência por se achar num nível acima.
Uma pessoa olha para trás, vê o que caminhou, vê o que tem feito na vida e chega a um ponto em que não percebe por que razão se deixou ultrapassar pelos acontecimentos. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, acho que cheguei a esta fase, de olhar em volta e ver gente em lugares onde nunca devia ter entrado, de ver gente em lugares de responsabilidade e achar que era capaz de fazer melhor. Ou talvez não, mas isso só se saberá quando (e se) as coisas acontecerem. O sofá é muito apelativo, mas o gosto de saber que se contribuiu para a sociedade de alguma forma não o é menos.
Estas coisas vêm à cabeça quando menos se espera, e a torrente dos pensamentos foi iniciada desta vez por uma sobremesa. Mesmo em tempos de crise e tendo de jogar com os orçamentos, esforço-me para, de vez em quando, poder fazer uma pequena extravagância e, aqui há dias, o dentinho doce puxou-me para uma coisa chamada “merengue com frutos vermelhos”. Quando chegou à mesa, lá vinha o molho vermelho por cima de um creme branco e, por baixo daquilo tudo, um suspiro. Um suspiro! Aos anos que eu não comia um suspiro! Por entre os sabores da memória, vieram-me as imagens dos suspiros em casa da minha avó, dos suspiros da Leitaria Regional, ali em frente ao Teatro Angrense, guardados em boiões de vidro… vieram-me à memória os pensamentos de infância, o que queres ser quando fores grande, o desfilar de tudo o que se fez na vida, o desejar que a minha filha possa ter da sua infância memórias felizes como o pai tem da sua, o desejar ser capaz de contribuir para que o futuro dela seja menos sombrio do que alguns perspetivam.

E, por arrasto, veio mais uma crónica do Eterno Estudante… 

79 - Obrigado, Dona Teresa

Gratidão. Uma palavra que parece desconhecida de muitos mas ocupa lugar importante no meu dicionário. A minha professora primária passou a ser minha amiga e nunca deixei de a visitar, passados tantos anos. Um dia, a porta não abriu.

Não me lembro do dia em que a conheci. Devia estar assustado ou entusiasmado, as duas opções possíveis para uma criança que vai à escola pela primeira vez. Não me lembro do que aconteceu, não sei já onde me sentei nem ao lado de quem. Terá sido do Renato ou da Carla, que eram meus vizinhos, ou então do Ulisses ou da Sónia… não sei. Só sei que devo ter gostado, pois as coisas correram bem. E gostei da professora que tinha acabado de conhecer.
Ao longo de quatro anos, aperfeiçoou as minhas letras e os meus números, que já tinham levado em casa um empurrão, e fez-me gostar ainda mais de ler. E eu lia. Jornais, revistas, livros policiais, livrinhos de cowboys de quando o meu pai era novo, Mickey, Tio Patinhas, Pato Donald. Lia tudo. Lia e lembrava-me de quase tudo o que lia, uma vantagem decisiva para a vida de estudante. A Dona Teresa – era assim que a chamávamos em casa – viu em mim essa chama de querer saber mais e nunca a deixou esmorecer, entendo-o hoje, a trinta anos de distância, quando os meus dedos percorrem o teclado em esforço, tentando dela despedir-se sem tropeçar na humidade das recordações. Entendo-o e agradeço-lhe.
Guardo memórias difusas desses primeiros tempos, quando o Nuno saltava pela janela para voltar a casa assim que a mãe deixava o portão da escola, deixando a professora aflita. Lembro-me do cheiro dos testes, feitos num duplicador a álcool, lembro-me das reguadas a castigar os erros ortográficos (será por isso que, anos mais tarde, venci um campeonato de ortografia?), lembro-me dos ralhetes por andar à bulha com o Joe no buraco que havia de receber um pau da luz e lembro, acima de tudo, a proteção que me dispensava face aos mais velhos, os calmeirões que mandavam na escola. Não era fácil ser gorducho, cenoura e caixa-de-óculos naquele tempo. Ainda se fosse mau aluno a coisa passava, mas era exatamente o contrário…
Éramos os melhores, eu e a Sónia. Uma vez, pelo Natal, ensaiámos uma peça de teatro para apresentar no palco da Casa do Povo. Eu era o Menino Jesus e ela era um Anjo. Ou talvez Nossa Senhora, não interessa. Interessa é que ela falava primeiro que eu e, com os nervos, disse as suas falas todas de uma vez, deixando-me especado no meio do palco sem saber o que fazer. À falta de melhor, solidarizei-me inconscientemente com ela e debitei também as minhas falas todas de uma vez, reduzindo dez minutos de representação a dois minutos de humilhação perante uma plateia perdida de riso e o olhar reprovador da professora – que apenas ficou triste, não ralhou com ninguém.
Aqueles quatro anos passaram, mas ficámos sempre amigos. Quer dizer: quando se tem dez anos, se calhar só há conversas porque a nossa mãe empurra, mas o certo é que não me lembro de ter problemas em falar com a Senhora Professora, e sempre gostei de lhe fazer uma visita no Natal, de lhe levar umas castanhas ou umas laranjas lá de casa, muitas vezes apanhadas por mim. E nunca, mas nunca se esqueceu dos meus anos. Cresci, fui para longe duas vezes, e no dia certo lá vinha o telefonema sagrado, que recebia com prazer. Tratava-me por “meu filho”, o que era mais uma maneira de dizer do que outra coisa qualquer, mas que sempre encarei como um privilégio.
As rodas do tempo giraram implacavelmente e puseram-me perante a esmagadora responsabilidade de ser professor da sua descendência. Falámos sobre isso há um ano atrás, falámos sobre a coincidência que era eu ser professor da sua neta, e vi-lhe nos olhos uma indisfarçável satisfação por isso ter acontecido. Pesada herança, que tento honrar com o meu melhor trabalho e empenho. Recordarei sempre os seus olhos sorridentes, que lamento não ter visto mais vezes. É sempre assim, julgo. Percebemos sempre que podíamos ter dado um pouco mais de nós próprios. Vi-lhe o sorriso quando contei que ia ser pai, vi-lhe o gosto com que conheceu a minha filha, e adivinho-lhe o desgosto por a não ter visto mais vezes. E eu tentei…
Bati-lhe à porta antes do Natal, em vão. Fiz o mesmo no ano novo, e a porta manteve-se fechada, mas aí reparei que estava a ficar desabituada de abrir, e fiquei preocupado. No dia seguinte, uma pergunta deu-me a resposta que eu temia ouvir. Estava doente. Internada. E a coisa não parecia bem.
Fiquei mal disposto. Aquilo impressionou-me para além do que se possa pensar, saber que estava a bater à porta de uma casa vazia. Afinal, tinha adoecido depois de nos termos visto pela última vez, ao canto da Rua de Santo Espírito, e o destino encarregou-se de me pregar mais uma vez a partida de não me encontrar na ilha na hora das despedidas, tal como aconteceu com os meus avós, o que prova, para além de qualquer dúvida, que a Dona Teresa era família. Muito mais família do que alguns com quem tenho restos de sangue em comum, isso é certo. O Eterno Estudante está mais pobre. 
Minha querida professora, não era esta a prenda que tinha para lhe dar neste Natal, mas é a que lhe vou entregar, na esperança de que a consiga ler aí de cima.

Obrigado por tudo, Dona Teresa. Até um dia.