O Eterno Estudante foi convidado a ser o orador de
serviço na homenagem recentemente feita pela Junta de Freguesia da Terra-Chã ao
Coro Tibério Franco e ao Matraquilhos Futebol Clube, e aceitou. É o discurso
desse dia que quero partilhar com os meus leitores, fazendo assim também, para
um público mais alargado, a minha homenagem a essas instituições. Tive, no
entanto, por motivos que se prendem com o espaço disponível nas páginas deste
jornal, de fazer alguns cortes, tentando não desvirtuar o todo.
Porquê fazer uma homenagem?
A pergunta pode parecer descabida, tendo em conta o momento em que a faço,
mas parece-me que será útil para nos ajudar a sintonizar os nossos espíritos em
torno dos dois grandes motivos que nos trazem hoje a esta sala. A palavra em si
– homenagem – tem origem na palavra homem, e o seu significado é muito simples:
demonstração de respeito. Sendo assim, faz perfeito sentido fazer homenagens
quando a intenção é exatamente essa: demonstrar respeito por alguém ou, como é
o caso, por uma instituição. E ainda faz mais sentido que se façam estas
demonstrações de respeito enquanto os homenageados estão junto de nós.
A Junta de Freguesia da Terra-Chã entendeu homenagear, em 2012, um conjunto
de personalidades que, por direito próprio, entraram para a galeria de notáveis
desta freguesia, centrando-se as atenções nos primeiros autarcas do pós-25 de
abril e nos professores que, durante décadas, ensinaram as primeiras letras e
os primeiros números às crianças da nossa freguesia. Recordo esse momento hoje
por uma simples razão: uma das homenageadas de há um ano atrás – a minha
professora primária – faleceu em janeiro e tenho a certeza de que, tal como
todos os outros, ficou feliz por se terem lembrado dela mas também tenho a
certeza de que todos os envolvidos ficaram felizes por terem podido
demonstrar-lhe o devido respeito antes que a lei da vida seguisse o seu
caminho.
Confesso que, quando o senhor Presidente da Junta me disse que tinham
decidido homenagear o Coro Tibério Franco e o Matraquilhos Futebol Clube, sorri
por dentro. Sorri porque achei uma ótima ideia juntar duas instituições que não
podiam ser mais diferentes, quer em objetivos quer na sua antiguidade, sorri
porque me veio de imediato à cabeça que era uma ótima oportunidade de conciliar
o passado, o presente e o futuro da freguesia, e sorri porque imaginei desde
logo que haveria quem não concordasse com a escolha dos homenageados. No
entanto, isso faz parte da vida. No Coro, haverá certamente quem não goste de
cantar esta ou aquela parte do Messias,
de Haendel, e no Matraquilhos haverá certamente jogadores que não gostam de
determinada tática mas respeitam quem decide, e esse tem de ser um dos
fundamentos da nossa sociedade: o respeito, que tantas vezes parece querer
perder-se por entre as pedras da calçada. E, porque a idade é um posto e aos
mais velhos é devido respeito, começo pelo Coro Tibério Franco.
Quando o professor Tibério Franco criou o coro, em 7 de fevereiro de 1981,
criou algo mais, criou uma força cultural que é hoje conhecida e reconhecida na
Terceira, nos Açores, em Portugal continental e no estrangeiro, um grupo que
apresenta uma qualidade musical acima de qualquer suspeita e que já levou o
nome da nossa freguesia a paragens longínquas. E a freguesia orgulha-se do seu
grupo. Talvez nem sempre o tenha demonstrado da melhor forma – nós,
portugueses, somos muito bons a criticar mas somos muito esquisitos quando
chega a hora de elogiar – mas a freguesia orgulha-se do seu grupo.
Eu cresci a ouvir falar do orfeão. Não sei se há no grupo quem não goste
desta designação, por isso peço desde já desculpa se desagrada a alguém. Cresci
a ouvir falar no orfeão, que começou por estar ligado à nossa Casa do Povo e
depois acabou por seguir o seu caminho de forma independente, e também cresci
um bocadinho no orfeão. Teria dez anos, talvez, mas lembro-me de ter feito
parte dos “escalões de formação” do orfeão, um coro infantil orientado pelo
professor Tibério, algo que foi uma boa ideia mas que, talvez por consequência
do repentino desaparecimento do fundador, acabou por não ter continuidade.
Ao longo dos anos, este grupo consolidou o seu lugar enquanto referência
dentro deste género musical, e hoje não há um terceirense que se preze que não
tenha ouvido falar do Coro Tibério Franco. Homenageamos hoje o grupo e, por
consequência, todos os elementos que dele fazem ou fizeram parte, com o seu
criador à cabeça mas sem esquecer o professor Luís Soares, que assumiu a
ingrata tarefa de manter o grupo unido após a morte do fundador, sem esquecer a
sócia número um, Liliana Silva, que também já dirigiu o coro e dele continua a
fazer parte, e destacando o papel do padre Ricardo Henriques, que há 23 anos
dirige o grupo.
É por tudo isto, e pelo muito mais que fica por dizer, que esta homenagem
já tardava. Reconhecer o mérito cultural do Coro Tibério Franco era urgente.
Era urgente para que o grupo tivesse a confirmação de que o seu trabalho não
passa despercebido. Era urgente reconhecer publicamente que a Terra-Chã se
orgulha deste Coro, que marcou de forma indelével as últimas três décadas da
vida desta freguesia e que vai – com toda a certeza – marcar muitas mais.
Passamos da música para o desporto, da veterania à juventude, de um grupo
com créditos mais do que firmados para outro com uma história muito jovem mas
recheada de êxitos e com um trabalho meritório junto da juventude da freguesia.
O Matraquilhos Futebol Clube é mais do que um clube de futebol. Talvez nem
todos os que aqui estão presentes tenham a noção disso, mas esta jovem
agremiação representa o concretizar de um sonho para os seus fundadores.
Conheço-os, são rapazes mais ou menos da minha idade e os nossos caminhos
cruzaram-se pela primeira vez há mais de vinte anos, quando éramos adolescentes
espalhados pelas ruas da Terra-Chã. O Luís, o Nuno, o Paulo e o Sérgio andaram
comigo no atletismo, jogaram futebol comigo no ringue de cimento da nossa Casa
do Povo, e começaram a construir por cá as suas vidas enquanto eu fui
prosseguir estudos para longe.
São amigos desde sempre, e sei que desde há muito acalentavam o sonho de
ter um clube seu, em que pudessem concretizar as suas ideias e a sua paixão
pelo futebol. A diferença, neste caso, é que passaram das palavras aos atos e,
ao contrário dos que muito falam mas pouco fazem, puseram de pé o Matraquilhos.
Até o nome tem o seu quê de infantil, uma reminiscência do tempo em que
passávamos horas a jogar futebol com os pulsos.
Estes rapazes conseguiram, no entanto, uma coisa ainda mais extraordinária:
mostrar à freguesia que há gente no bairro capaz de fazer coisas bonitas,
coisas “a sério”, mostrar que o estigma social que carregaram às costas era de
todo imerecido. Não tenhamos ilusões: todos sabemos dos problemas que existem
por lá, todos sabemos que a exclusão social existe e que nem todos têm a
capacidade de se levantar sozinhos. Num mundo tão pequeno, tão fechado e
complicado, com todos os tipos de solicitações ilícitas ao virar da esquina, a
prática desportiva é um oásis que mostra aos mais jovens como é possível
trilhar outros caminhos, é para muitos a primeira forma séria de convívio que
encontram na vida, e pode ser a escola de valores de que necessitam para se tornarem
cidadãos válidos e responsáveis.
O Matraquilhos é tudo isso, com a vantagem de ser muito mais. Em seis anos
de existência, conseguiu a proeza de se tornar num clube de referência do
futsal terceirense e açoriano, levando ainda o nome da freguesia a diversas
localidades de Portugal continental, por força da sua participação na segunda
divisão nacional de futsal.
Pelo caminho da sua curta história ficou ainda outro marco: com tão curta
existência, o Matraquilhos Futebol Clube foi já reconhecido pelo Governo
Regional com o estatuto de Instituição de Utilidade Pública Desportiva. Nada
mau para um clube que nasceu nas vielas de um bairro mal-amado, fruto do sonho
de quatro rapazes que conseguiram congregar à sua volta largas dezenas de
atletas e colaboradores, que dão muito do seu tempo livre a este projeto que,
hoje, merece também a nossa demonstração de respeito. Esta homenagem, para além
do reconhecimento do trabalho feito até aqui, é um incentivo para que continuem
a dar o máximo pelo vosso clube e pela vossa freguesia.
Para finalizar, apetece-me pegar no lema que está inscrito nas camisolas e
utilizá-lo para juntar a uma só voz as duas instituições que aqui homenageamos:
Coro Tibério Franco e Matraquilhos Futebol Clube: todos juntos pela Terra-Chã!
Terra-Chã, 6 de setembro de 2013