segunda-feira, 16 de maio de 2016

76 - Bom dia, Pedro Moura!

Conheci Pedro Moura há vários anos, através do seu filho, piloto de ralis. Depois, convivemos profissionalmente aquando da minha aventura enquanto correspondente da RTP Açores na Ilha das Flores. O seu Bom Dia era o programa mais visto do canal, e de repente...

Bom dia, Pedro.
Espero que te encontres bem, em mais uma semana de expectativa pelo desempenho do teu campeão nacional. Acabo de saber que o teu programa vai acabar, também ele vítima da crise, que obriga a esforços por vezes incompreensíveis, e imagino que devas estar triste, pois tens razões para isso.
Sabes, Pedro, o teu Bom Dia é um mistério para alguns, mas não para mim. É verdade que o conheço mais por dentro do que a maior parte dos açorianos, mas não é por isso, é porque eu já vivi na primeira pessoa a essência do programa, já vi com os meus olhos aquilo que ele significa, e sei que acertaste em cheio quando definiste o que querias. Não preciso de um estudo de audiências para saber que os programas mais vistos da RTP-Açores são o teu e o Telejornal, por muito que isso custe engolir a certas elites.
O teu programa, caro Pedro, tem sido desde há muito o único a abranger verdadeiramente todos os açorianos. Nenhuma festa é pequena demais, nenhum evento é demasiado insignificante para aparecer no programa. Procissões, crismas, touradas, ralis, concursos de mergulho, festivais de sopas, acidentes, bebedeiras ao volante, concursos de misses, passagens de modelos, todos encontram lugar no Bom Dia, se calhar o primeiro programa que fez realmente valer a pena ligar a “nossa” televisão quando se acorda de manhã. É esta a força do Bom Dia, levar aos açorianos aquilo que os outros açorianos fazem, tratando todos por igual.
Só para te dar um exemplo (e penso que nunca te cheguei a contar isto), no tempo em que eu era correspondente na ponta ocidental filmei uma passagem de modelos organizada pelos alunos do 12º ano, mas a cassete andou perdida na SATA durante uma semana e eu já estava farto de explicar isso às pessoas, que estavam desejosas de ver como aquilo ficava na TV. Quando a cassete apareceu e foi para o ar, eu cheguei à porta da minha sala e não tinha alunos. Nem sequer funcionários se viam. Ouvia-se apenas muito barulho no bar, e não era para menos: a escola inteira estava a ver-te, esperando ansiosamente pela reportagem. Quando a passaste, foi uma emoção, num dia que ficou para a história porque não houve aulas entre as nove e as dez. E porquê? Por causa do Bom Dia.
Nós, que vivemos nas ilhas maiores, não compreendemos bem o alcance que pequenas coisas como esta podem ter, mas para o pessoal das “ilhas de baixo” (designação infeliz, mas que aqui serve muito bem…) estes minutos televisivos significam muito.
Tu sabes, porque és jornalista, que havia ilhas que só apareciam quando acontecia alguma desgraça, e foste tu quem mudou isso. Foste tu e o teu programa que as trouxeram para tempos de antena mais felizes, e isso fez maravilhas pela autoestima daquela gente. Nem só de desgraças vivem as notícias! Mas há notícias que são mesmo uma desgraça.
Sabes, Pedro, eu fiquei com a sensação de que havia muita gente na RTP-Açores que julgava que o povo se ia revoltar contra a decisão de reduzir a emissão própria a quatro ou cinco horas por dia, e essa gente ficou meia aparvalhada quando percebeu que, para uma parte muito significativa dos açorianos, não fazia grande diferença. Faz-se um inquérito à mesa do café, e as opiniões convergem: não faz grande falta, de qualquer maneira aquilo que aparece é quase tudo de São Miguel.
A bem da verdade, de há uns tempos para cá as coisas estão melhores, e é preciso ter em conta que não havia condições técnicas nem humanas para se fazer muito melhor, mas isso mudou, e também é verdade que se podia fazer muito melhor com os meios que se tem, mas isso é outra conversa… De qualquer maneira, à mesa do café também se diz que o único programa que vale a pena ver é o Bom Dia, mais não seja para ouvir o teu sotaque e as tuas ocasionais calinadas. Os diretos são assim, sem rede, o que é que se há de fazer?
A linha de fundo, só para não te chatear muito mais, é que tu tens um programa que cumpre a verdadeira missão de serviço público regional, enquanto outros parece que buscam apenas a luz da fogueira das vaidades.
Acabar com o Bom Dia, transformá-lo em Boa Tarde ou reduzi-lo a mais um programa “de São Miguel” será um erro histórico que o povo não deixará de condenar. Uma decisão que coloca na cabeça de muitos as orelhas de burro que justificam as exclamações populares, mas que te vai certamente confirmar o que já bem sabes: tens um programa querido e que vai deixar saudades, ao contrário das relvas cortadas, que depressa se tornam em estrume. Houvesse vontade política de cá e de lá, e a RTP-Açores poderia ser aquilo que devia ser e nunca foi verdadeiramente, mas não há essa vontade, nem o dinheiro para a pagar.

Bom Dia, Pedro, até sempre.

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