A política devia ser uma atividade nobre, mas se muitos dos políticos não têm nível para isso, já se sabe que a coisa não pode correr bem.
Nos últimos tempos,
infelizmente, os professores voltaram à ribalta pelos piores motivos. Já
ninguém pode ouvir falar deles, parece que passam o tempo mais preocupados com
o seu futuro do que com os seus alunos, parece que estão contra toda e qualquer
alteração legislativa que lhes diga respeito… parece!
A realidade, no
entanto, é outra, bem mais séria. Séria demais para que esteja entregue à
politiquice que reina na Assembleia Legislativa Regional dos Açores (ALRA).
Desta vez, melhor teria sido que os deputados tivessem feito aquilo de que
alguns os acusam, ou seja, nada. Tivessem eles ficado quietinhos a consultar o
Facebook durante os discursos do Professor Astromar da bancada adversária e
nada disto teria acontecido.
Aos olhos da opinião
pública, vou-me apercebendo, aquilo que fica é que os professores estão outra
vez contra o sistema, pouco interessando que, desta vez, tenha sido o sistema a
funcionar contra si próprio, levando os professores por arrasto e utilizando-os
(de novo) como arma de arremesso político. O barulho todo na ALRA não foi por
causa daquilo que os professores queriam mas sim porque, numa coisa chamada
“Comissão de Redação”, os deputados que a integram alteraram uma norma que
tinha sido votada, modificando assim o texto e pensando que ninguém ia dar por
nada. Parece que os estou a ver: “Eh pá, muda lá isso e não te preocupes. De
qualquer maneira, mais ninguém vai ler isto outra vez.” Correu-lhes mal.
Os meus colegas contratados,
que viram no cumprimento de uma diretiva da União Europeia a estabilização das
suas vidas pessoais e profissionais e, com a mudança das leis, viram a vida
andar para trás, não interessam para nada. O que interessa é discutir quem
mudou as vírgulas e os pontos.
Explicar o problema é
fácil: de há uma dúzia de anos para cá, os concursos fazem-se de forma clara e
transparente, com os professores a terem a possibilidade de concorrer apenas às
escolas e/ou ilhas que lhes interessam. Isso é muito importante, pois permitiu
que as pessoas fizessem uma escolha clara e consciente: ir efetivar para outra
ilha, tendo de lá ficar pelo menos três anos e depois esperar a sorte de haver
um lugar na ilha desejada, ou então ficar como contratados sempre na mesma terra,
à espera de uma oportunidade de entrar para o quadro, permitindo constituir
família, comprar uma casa, um carro e outras coisinhas menores que ajudam a
compor a taxa de natalidade desta nação envelhecida. Muitos, mesmo perdendo
dinheiro, preferiram a segunda opção, colocando a família à frente da carreira.
Temos nos Açores, para que não restem dúvidas, muitos professores contratados
há dez e mais anos consecutivos na mesma escola, prova de que há lugar para
eles.
O que fizeram os
deputados? Mudaram a regra, e agora toda a gente vai ser obrigada a concorrer
para todas as ilhas se quiser entrar para o quadro. O Felismino, que vive na
Terceira desde que nasceu, casou, tem dois filhos, amigos, casa, carro e uma
vida inteira estabelecida, vê-se agora na iminência de ir trabalhar para o
Corvo durante três anos, rezando para que, findo esse tempo, consiga um
lugarinho de destacamento na sua ilha. Percebem agora o que está
verdadeiramente em causa? As pessoas, não as vírgulas, os pontos ou os umbigos
de alguns deputados. A política deve ter como objetivo as pessoas, meus caros,
não a satisfação de necessidades partidárias.
Com as regras
anteriores, nunca um lugar de quadro ficou por preencher, nunca um aluno ficou
sem aulas e nunca isso iria acontecer. Ouvir agora deputados que também foram
(são!) professores defender esta violência pessoal e familiar é confrangedor e
revelador da falta de nível de tais indivíduos, que se esquecem das pessoas
para defender a política. Pior: vimos um comunista defender nos Açores o que
critica ao governo do continente: as pessoas devem sair da sua zona de conforto
e ir para onde há trabalho. Dois pesos e duas medidas na mesma boca. Pior
ainda: vimos uma antiga primeira figura institucional da região socorrer-se da
mais vil ironia para escrever cartas a um pai que não é o seu, gozando
despudoradamente com a angústia de terceiros. Ainda pior: vimos essa mesma
figura atacar, também a reboque deste caso e com uma baixeza tal que envergonha
o cargo que ocupou, outras figuras da política, achincalhando nomes próprios e
méritos profissionais. Não havia necessidade.
Falta, cada vez mais,
nível na política. Falta que os políticos se preocupem mais com as pessoas.
Quando isso acontecer, talvez as pessoas voltem a votar. Para muitos, será já
tarde demais…
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