segunda-feira, 16 de maio de 2016

79 - Obrigado, Dona Teresa

Gratidão. Uma palavra que parece desconhecida de muitos mas ocupa lugar importante no meu dicionário. A minha professora primária passou a ser minha amiga e nunca deixei de a visitar, passados tantos anos. Um dia, a porta não abriu.

Não me lembro do dia em que a conheci. Devia estar assustado ou entusiasmado, as duas opções possíveis para uma criança que vai à escola pela primeira vez. Não me lembro do que aconteceu, não sei já onde me sentei nem ao lado de quem. Terá sido do Renato ou da Carla, que eram meus vizinhos, ou então do Ulisses ou da Sónia… não sei. Só sei que devo ter gostado, pois as coisas correram bem. E gostei da professora que tinha acabado de conhecer.
Ao longo de quatro anos, aperfeiçoou as minhas letras e os meus números, que já tinham levado em casa um empurrão, e fez-me gostar ainda mais de ler. E eu lia. Jornais, revistas, livros policiais, livrinhos de cowboys de quando o meu pai era novo, Mickey, Tio Patinhas, Pato Donald. Lia tudo. Lia e lembrava-me de quase tudo o que lia, uma vantagem decisiva para a vida de estudante. A Dona Teresa – era assim que a chamávamos em casa – viu em mim essa chama de querer saber mais e nunca a deixou esmorecer, entendo-o hoje, a trinta anos de distância, quando os meus dedos percorrem o teclado em esforço, tentando dela despedir-se sem tropeçar na humidade das recordações. Entendo-o e agradeço-lhe.
Guardo memórias difusas desses primeiros tempos, quando o Nuno saltava pela janela para voltar a casa assim que a mãe deixava o portão da escola, deixando a professora aflita. Lembro-me do cheiro dos testes, feitos num duplicador a álcool, lembro-me das reguadas a castigar os erros ortográficos (será por isso que, anos mais tarde, venci um campeonato de ortografia?), lembro-me dos ralhetes por andar à bulha com o Joe no buraco que havia de receber um pau da luz e lembro, acima de tudo, a proteção que me dispensava face aos mais velhos, os calmeirões que mandavam na escola. Não era fácil ser gorducho, cenoura e caixa-de-óculos naquele tempo. Ainda se fosse mau aluno a coisa passava, mas era exatamente o contrário…
Éramos os melhores, eu e a Sónia. Uma vez, pelo Natal, ensaiámos uma peça de teatro para apresentar no palco da Casa do Povo. Eu era o Menino Jesus e ela era um Anjo. Ou talvez Nossa Senhora, não interessa. Interessa é que ela falava primeiro que eu e, com os nervos, disse as suas falas todas de uma vez, deixando-me especado no meio do palco sem saber o que fazer. À falta de melhor, solidarizei-me inconscientemente com ela e debitei também as minhas falas todas de uma vez, reduzindo dez minutos de representação a dois minutos de humilhação perante uma plateia perdida de riso e o olhar reprovador da professora – que apenas ficou triste, não ralhou com ninguém.
Aqueles quatro anos passaram, mas ficámos sempre amigos. Quer dizer: quando se tem dez anos, se calhar só há conversas porque a nossa mãe empurra, mas o certo é que não me lembro de ter problemas em falar com a Senhora Professora, e sempre gostei de lhe fazer uma visita no Natal, de lhe levar umas castanhas ou umas laranjas lá de casa, muitas vezes apanhadas por mim. E nunca, mas nunca se esqueceu dos meus anos. Cresci, fui para longe duas vezes, e no dia certo lá vinha o telefonema sagrado, que recebia com prazer. Tratava-me por “meu filho”, o que era mais uma maneira de dizer do que outra coisa qualquer, mas que sempre encarei como um privilégio.
As rodas do tempo giraram implacavelmente e puseram-me perante a esmagadora responsabilidade de ser professor da sua descendência. Falámos sobre isso há um ano atrás, falámos sobre a coincidência que era eu ser professor da sua neta, e vi-lhe nos olhos uma indisfarçável satisfação por isso ter acontecido. Pesada herança, que tento honrar com o meu melhor trabalho e empenho. Recordarei sempre os seus olhos sorridentes, que lamento não ter visto mais vezes. É sempre assim, julgo. Percebemos sempre que podíamos ter dado um pouco mais de nós próprios. Vi-lhe o sorriso quando contei que ia ser pai, vi-lhe o gosto com que conheceu a minha filha, e adivinho-lhe o desgosto por a não ter visto mais vezes. E eu tentei…
Bati-lhe à porta antes do Natal, em vão. Fiz o mesmo no ano novo, e a porta manteve-se fechada, mas aí reparei que estava a ficar desabituada de abrir, e fiquei preocupado. No dia seguinte, uma pergunta deu-me a resposta que eu temia ouvir. Estava doente. Internada. E a coisa não parecia bem.
Fiquei mal disposto. Aquilo impressionou-me para além do que se possa pensar, saber que estava a bater à porta de uma casa vazia. Afinal, tinha adoecido depois de nos termos visto pela última vez, ao canto da Rua de Santo Espírito, e o destino encarregou-se de me pregar mais uma vez a partida de não me encontrar na ilha na hora das despedidas, tal como aconteceu com os meus avós, o que prova, para além de qualquer dúvida, que a Dona Teresa era família. Muito mais família do que alguns com quem tenho restos de sangue em comum, isso é certo. O Eterno Estudante está mais pobre. 
Minha querida professora, não era esta a prenda que tinha para lhe dar neste Natal, mas é a que lhe vou entregar, na esperança de que a consiga ler aí de cima.

Obrigado por tudo, Dona Teresa. Até um dia.

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