Memórias felizes guardadas num saco de batatas fritas caseiras.
Angra,
23 de junho de 2015. Noite grande das Sanjoaninas. Dia grande de festa, o mais
longo do ano inteiro. Na manhã seguinte, à hora em que habitualmente se
levantam para ir trabalhar, centenas de pessoas ainda estarão a saltar
fogueiras na Rua de São João.
Ainda
são onze da noite, o tempo ajuda e o desfile das marchas prossegue a bom ritmo.
A minha mulher já se foi embora para casa com a minha filha, o espírito da
festa não estava com ela, mas a mim apetecia-me estar ali com os meus pais, que
tinham trazido cadeiras para a Rua da Sé, e ali fiquei.
As
marchas passavam, umas mais originais, outras mais bem vestidas, mas todas
sorridentes. Do interior das roupas de São João vinham ondas de alegria de quem
gosta de viver a festa em vez de, simplesmente, estar na festa. Bailavam-me
ainda nos ouvidos as palavras de uma amiga, ao mesmo tempo triste por não ter a
oportunidade de fazer o seu trabalho naquela festa mas imensamente feliz por
poder participar nela. Deliciosas contradições que só um terceirense entende e
que os coriscos já começam a compreender.
Nessa
manhã, nascera a minha sobrinha, ruiva e linda como ela só. A minha irmã na
maternidade com ela, o meu cunhado em casa a recuperar do sono e da emoção e
nós ali, os três, felizes por eles, por nós e por todos os que ali estavam.
Entre uma marcha e outra, conversávamos sobre tudo e sobre nada e assistíamos
ao desfilar das mais recentes tendências da moda adolescente: para elas, quanto
menos calção, melhor, enquanto eles se dedicam ao frágil exercício de
equilibrar as calças no limite do rabo, desafiando a força da gravidade. De
longe em longe, passava um cesto de vime com pipocas, batatas fritas, gamas e
chocolates a fazer lembrar os gloriosos tempos dos candins da base. E eu, quase
inconscientemente, chamei por um deles.
Abri
o saco de batatas fritas caseiras, à moda antiga, e logo senti o cheiro a sal e
a óleo. De repente, e durante uns bons dez minutos, fui criança outra vez, sentado
entre os meus pais a ver marchas na Rua da Sé. A cada trincadela estaladiça
mudava de sítio, ora estava ali, ora estava com o meu pai no campo de jogos a
ver o Angrense, ora estava com a minha mãe à espera da urbana ao pé do hospital
velho, ora estava na Sociedade a ver O
gato que veio do espaço…
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