Saí de casa em busca dos
últimos raios de sol para iluminar mais uns pontapés na bola e parei de
repente, hipnotizado. Já era mais noite que dia, e no meu campo de jogos estava
um enorme, reluzente e novo autocarro, com a iluminação interior toda acesa e
um sorridente motorista a olhar para mim. O meu amigo José estava orgulhoso da
nova máquina, e fez-me logo as honras da casa. Todos os dias andava de urbana,
por isso aquele momento era o equivalente a ser apresentado a um amigo que me
ia acompanhar durante muito tempo.
Era um Volvo, com a
matrícula TR-67-74 e o número 121 da frota da Empresa, pintado de vermelho e
amarelo, tinha um irmão gémeo, que fazia a ligação entre Angra e a Cruz das
Cinco Ribeiras, e um primo direito, que ficou com o percurso entre São Mateus e
a Carreirinha. O nosso, o da Terra-Chã, foi um sucesso imediato, pois estávamos
habituados às máquinas já velhas e ronceiras que por lá iam passando, e aquele
caixote de metal brilhante representava um enorme salto qualitativo em termos
de conforto. A malta da minha geração lembra-se, de certeza, de ir para o Ciclo
(gente nova, aprendam: era assim que chamávamos a escola de São bento) num
velho Mercedes arredondado, o 53, que tinha só uns dez lugares sentados, e o
Volvo era um luxo para fazer inveja a outras freguesias.
O José mostrou-me o
interior do 121 e nos anos seguintes levou-me incontáveis vezes de casa para a
escola e da escola para casa, na companhia de muitos passageiros que nunca souberam
respeitar o seu meio de transporte. Custava-me muito ver as costas dos bancos
todas riscadas, os rasgões na napa, a esponja a sair pelos cortes, mas não
podia fazer nada. Muitos dos rufiões eram maiores, mais velhos, mais sabidos, e
eram os reis do bairro naquela altura. Aos outros só restava esperar para
crescer e poder ser como eles… ou não, pois percebia-se que as pessoas adultas
não gostavam deles. Era estranho ver como aqueles que eram admirados por muitos
rapazes e raparigas no contexto da escola eram mal vistos fora dela, e no
mundinho pequenino das viagens de autocarro começava a desenhar-se o que seria
a vida de cada um.
Lembro-me de o José um
dia parar o autocarro e vir cá atrás, zangado como nunca o tinha visto, dar uma
descompostura medonha aos artistas de serviço, perante o risinho nervoso da
canalha miúda e o olhar de aprovação das senhoras de mais idade, certamente
fartas de tanta asneira. Como eu era dos últimos a sair, às vezes acabava a
viagem lá à frente, a falar com ele, que me perguntava quem tinha feito isto ou
dito aquilo. Eu nunca lhe disse. Há códigos de honra que não estão escritos em
lado nenhum mas não se quebram, e ponto final. Ele não levava a mal, e sorria.
O TR-67-74 tinha ainda
uma característica que me dava muito jeito: o degrau da porta da frente era
mesmo à altura da porta de minha casa, e não foram poucas as vezes que o José
me apanhou de salto, depois de a minha mãe lhe ter feito sinal para esperar
enquanto eu acabava de empinar a caneca de Suchard Express. Quando não era o
José ao volante, não era a mesma coisa, e não era só porque os outros não me
davam o jeitinho nem porque eu não me dava tão bem com eles, era porque o José
conduzia melhor. Quer dizer, não sei se conduzia melhor, mas era o que andava
mais depressa. Com ele, a urbana andava nas horas, e com outros até dava para
pegar no sono ou chegar atrasado à escola…
A minha relação com o 121
acabou quando comprei o meu primeiro carro, mas olhei sempre para ele com
saudade, e quando o José se reformou deixei mesmo de olhar para os autocarros,
que agora são todos novos mas não têm, para mim, o mesmo carisma. Sei que o meu
Volvo preferido foi acabar a carreira para o aeroporto, e foi lá que andei nele
pela última vez. Levou-me ao avião, mas levou a minha mente para muito mais
longe e deixou nas pontas dos dedos a saudade de ser menino. Ainda hoje,
garanto, se ouvir o som daquele motor sou capaz de o identificar...
Quanto ao José, sempre
que o vejo paro um bocado a falar com ele. É um gosto abraçar o meu velho
amigo. Saúde, José!
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