segunda-feira, 16 de maio de 2016

77 - O autocarro 121

Para quem está no início da adolescência, há coisas fantásticas. O "meu" autocarro acabou a vida no aeroporto e depois desapareceu para parte incerta. Ficou a crónica, também em jeito de homenagem ao seu condutor. O "meu" condutor.


Saí de casa em busca dos últimos raios de sol para iluminar mais uns pontapés na bola e parei de repente, hipnotizado. Já era mais noite que dia, e no meu campo de jogos estava um enorme, reluzente e novo autocarro, com a iluminação interior toda acesa e um sorridente motorista a olhar para mim. O meu amigo José estava orgulhoso da nova máquina, e fez-me logo as honras da casa. Todos os dias andava de urbana, por isso aquele momento era o equivalente a ser apresentado a um amigo que me ia acompanhar durante muito tempo.
Era um Volvo, com a matrícula TR-67-74 e o número 121 da frota da Empresa, pintado de vermelho e amarelo, tinha um irmão gémeo, que fazia a ligação entre Angra e a Cruz das Cinco Ribeiras, e um primo direito, que ficou com o percurso entre São Mateus e a Carreirinha. O nosso, o da Terra-Chã, foi um sucesso imediato, pois estávamos habituados às máquinas já velhas e ronceiras que por lá iam passando, e aquele caixote de metal brilhante representava um enorme salto qualitativo em termos de conforto. A malta da minha geração lembra-se, de certeza, de ir para o Ciclo (gente nova, aprendam: era assim que chamávamos a escola de São bento) num velho Mercedes arredondado, o 53, que tinha só uns dez lugares sentados, e o Volvo era um luxo para fazer inveja a outras freguesias.
O José mostrou-me o interior do 121 e nos anos seguintes levou-me incontáveis vezes de casa para a escola e da escola para casa, na companhia de muitos passageiros que nunca souberam respeitar o seu meio de transporte. Custava-me muito ver as costas dos bancos todas riscadas, os rasgões na napa, a esponja a sair pelos cortes, mas não podia fazer nada. Muitos dos rufiões eram maiores, mais velhos, mais sabidos, e eram os reis do bairro naquela altura. Aos outros só restava esperar para crescer e poder ser como eles… ou não, pois percebia-se que as pessoas adultas não gostavam deles. Era estranho ver como aqueles que eram admirados por muitos rapazes e raparigas no contexto da escola eram mal vistos fora dela, e no mundinho pequenino das viagens de autocarro começava a desenhar-se o que seria a vida de cada um.
Lembro-me de o José um dia parar o autocarro e vir cá atrás, zangado como nunca o tinha visto, dar uma descompostura medonha aos artistas de serviço, perante o risinho nervoso da canalha miúda e o olhar de aprovação das senhoras de mais idade, certamente fartas de tanta asneira. Como eu era dos últimos a sair, às vezes acabava a viagem lá à frente, a falar com ele, que me perguntava quem tinha feito isto ou dito aquilo. Eu nunca lhe disse. Há códigos de honra que não estão escritos em lado nenhum mas não se quebram, e ponto final. Ele não levava a mal, e sorria.
O TR-67-74 tinha ainda uma característica que me dava muito jeito: o degrau da porta da frente era mesmo à altura da porta de minha casa, e não foram poucas as vezes que o José me apanhou de salto, depois de a minha mãe lhe ter feito sinal para esperar enquanto eu acabava de empinar a caneca de Suchard Express. Quando não era o José ao volante, não era a mesma coisa, e não era só porque os outros não me davam o jeitinho nem porque eu não me dava tão bem com eles, era porque o José conduzia melhor. Quer dizer, não sei se conduzia melhor, mas era o que andava mais depressa. Com ele, a urbana andava nas horas, e com outros até dava para pegar no sono ou chegar atrasado à escola…
A minha relação com o 121 acabou quando comprei o meu primeiro carro, mas olhei sempre para ele com saudade, e quando o José se reformou deixei mesmo de olhar para os autocarros, que agora são todos novos mas não têm, para mim, o mesmo carisma. Sei que o meu Volvo preferido foi acabar a carreira para o aeroporto, e foi lá que andei nele pela última vez. Levou-me ao avião, mas levou a minha mente para muito mais longe e deixou nas pontas dos dedos a saudade de ser menino. Ainda hoje, garanto, se ouvir o som daquele motor sou capaz de o identificar...

Quanto ao José, sempre que o vejo paro um bocado a falar com ele. É um gosto abraçar o meu velho amigo. Saúde, José!

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