O susto. A dor. O medo. Uma cama ocupada no hospital. Uma cadeira vazia em casa...
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu.
depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto
Nós éramos seis. Pais, filhos e avós, um de cada lado, para equilibrar as contas. Os
dias nem sempre eram pacíficos, mas isso fazia parte de um quotidiano em que uns
cresciam, outros definhavam e os restantes aguentavam tudo como podiam. Uma
família normal, como tantas outras. Um dia, por minha culpa, ficaram só cinco.
Teve de ser, não houve escolha, e nunca saberei o que se viveu naquela casa nos dias
seguintes à minha partida. Fui para longe, à distância de um telefonema diário, mas na
mesa ficou sempre o lugar para o meu prato. Na outra mesa, onde eu comia agora,
havia sempre cinco lugares vazios de corpo mas cheios de alma.
Um dia, quase sem se dar por isso, ficaram só dois em casa. Dois lugares tinham
ficado permanentemente vagos de corpo, e outros dois estavam em suspenso,
preenchidos apenas em dias de férias. A casa estava triste, ansiando pelo regresso da
juventude.
Mais uma vez, apenas se imagina o que se sentiu entre aquelas quatro
paredes no dia em que apenas lá ficou um par… que aguardava ansioso o regresso do
outro.
E lá voltei eu. Cheio de força, cheio de vontade de trabalhar, de reconquistar o meu
espaço, de reaver o tempo perdido, de fazer tudo o que tinha ficado por fazer. Na
nossa mesa, éramos três, às vezes quatro, com o quarto elemento também à espera do
regresso da razão pela qual se sentava ali. Éramos três, às vezes quatro, mais os que
faltavam. E como sofria um dos que faltava! Quanto mais sofria, mais falta fazia, mas
aguentámos a pé firme, contra ventos e marés. Havia de chegar o dia…
Chegou. Voltámos a ser quatro, mais um. Tempos depois, quatro mais dois, com a lei
da vida a indicar o caminho, que levou de novo a casa a ficar mais vazia, mas desta
vez sem sofrimentos. Estávamos todos perto, as ausências eram de horas, todos os dias
nos víamos e sabíamos pelos nossos próprios olhos como andavam os outros. Os dias
corriam normais, sucedendo-se ao sabor do sol e dos orvalhos, das brisas húmidas e
das noites estreladas como só nós temos.
O livro da vida ganhou uma nova página, e passámos a ser sete. Um sete pequenino
mas cheio de vida, que transformou as vidas dos outros seis. Já não interessávamos
como dantes, agora era aquele pequeno sete quem mandava, mesmo sem o saber. De
uma assentada, todos nós ganhámos uma nova razão para viver, todos alimentámos a
curiosidade com o que é novo e cheio de graça, mas era necessário tomar cuidado com
o mais velho, que chamava a desgraça.
Outra cadeira ficou vazia. Quatro dias na primeira vez, umas horas na segunda, duas
semanas na terceira. Nas outras cadeiras, ninguém sorria, e foi a primeira vez que a
casa ficou tão só. Mesmo curtas, as distâncias eram inultrapassáveis pelo silêncio do
espaço vazio. As noites deixaram de ser de descanso. Agonia primeiro, sono inquieto
depois, derrota pelo cansaço a seguir… e os dias a arrastar-se todos iguais, com horas
tabeladas, com o piloto automático a comandar. Enquanto isso, na sombra, alguém
trabalhava.
A cadeira corria o risco de ficar vazia, esvaziando um Natal já de si estranho, por ser
dividido de avião, que se equacionou dispensar, mas mãos amigas ocultas na
penumbra trabalhavam para que isso não acontecesse. Dia após dia, as mãos
reconstruíam mais um pedaço de nós, colavam com carinho profissional os cacos que
uma mente iludida tinha originado ao longo de décadas, até conseguirem restabelecer
a ordem natural das coisas. Pelo caminho, as mãos e as vozes que se movimentam na
sombra conseguiram quebrar resistências, provar que são de confiança e que não há
que temê-las. Fizeram um bom trabalho.
Graças às mãos e às vozes, a cadeira deixou de estar vazia. Mãos que por vezes são
maltratadas por ignorância, vozes que tentam fazer-se entender por entre o ruído, mãos
que salvam, vozes que não têm preço, pois tratam do maior valor que a vida tem:
manter as cadeiras ocupadas. Nem sempre conseguem, há limites, mas dão o melhor
de si até mesmo quando não lhes damos o melhor de nós.
Aquelas mãos sabem. Nós
achamos que sabemos… e a prova está na cadeira, que deixou de estar vazia.
Dedicado a Aurora Lino, João Leal, Virgílio Schneider e respetivas equipas de mãos e
vozes amigas. Obrigado por terem mantido a cadeira ocupada. Feliz Natal.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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