Há por aí muita gente sem vergonha na cara, que, se estivesse calada, era herdeira de Camões...
Sem Vergonha nasceu no hospital, e logo por lá começou a dar mostrar de um caráter
preocupante. Mal aparecia uma enfermeira, o Sem Vergonha demonstrava o seu
contentamento com uma reação que só era esperada na adolescência e, quando era posto
ao colo de uma mulher, procurava de imediato o ponto certo para lhe permitir fazer o
que seria a sua filosofia de vida: mamar.
Sem Vergonha cresceu e tornou-se um homem, mas não se tornou Homem. Senhor de
uma capacidade inata para o contorcionismo verbal, tornou-se mestre em dizer de
manhã uma coisa e à tarde outra, nunca se mostrando capaz de reconhecer estar errado.
Sempre que é apanhado nas suas próprias teias, assobia para o lado, fingindo que não é
nada com ele, ou contra ataca, de modo a confundir quem o ouve ou lê. Sim, quem o lê,
pois o Sem Vergonha não se contenta com discursos ocos nos círculos por onde se
movimenta, e faz questão de escrever nos jornais, para toda a gente saber que ele é
merecedor do seu nome.
Sem Vergonha tem opinião sobre tudo e sobre todos, faz política porque não sabe fazer
mais nada, critica as tradições porque acha que não têm razão de ser, faz de conta que
ouve os argumentos de quem não concorda, e anda na rua com um sorriso nos lábios,
que se querem sempre prontos a funcionar ao sabor das circunstâncias, mas quase nunca
é capaz de dizer as coisas cara a cara.
Num mundo perfeito, este texto seria sobre uma pessoa apenas, mas nesta terra nada é
perfeito e, por isso, o que aqui se lê é facilmente aplicável a homens e mulheres que
todos conhecemos, para mal dos nossos pecados. E nós temos culpa, pois se lhes
cortássemos as vazas logo à primeira oportunidade seriam imediatamente postos no seu
lugar e deixavam de incomodar. Já alguém disse que o maior triunfo do Mal é fazer com
que as pessoas de Bem tenham medo de falar, e isso é bem verdade.
Quantas e quantas
vezes ficamos quietos e calados perante uma determinada situação porque não nos
queremos chatear? Vale a pena apanhar um ladrão dentro de casa se ele depois sai em
liberdade no dia seguinte e nos processa porque lhe fizemos uma nódoa negra? Vale a
pena desmentir o Sem Vergonha se ele no dia seguinte volta à carga com mais
argumentos para defender o que não faz sentido? Vale a pena confrontar o Sem
Vergonha com as suas próprias contradições se ele no dia seguinte desvia as atenções do
povo para outra coisa? Vale a pena chamar a atenção ao Sem Vergonha que rumina
pastilha elástica enquanto trabalha no atendimento ao público? Vale a pena criticar o
Sem Vergonha que tira férias no verão quando é nessa estação que a sua empresa mais
precisa dele? Vale a pena apontar o dedo ao patrão que tal permite?
São muitas perguntas, com uma só resposta, e num mundo perfeito poderíamos dizer
nomes e apontar casos concretos, mas este mundo perdeu, também ele, a vergonha, e
temos medo de ir parar ao tribunal, pois o Sem Vergonha ainda nos acusa a nós de
sermos sem vergonha… quando aquilo que sentimos muitas vezes é, precisamente,
vergonha!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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