sexta-feira, 6 de maio de 2016

71 - O Sem Vergonha

Há por aí muita gente sem vergonha na cara, que, se estivesse calada, era herdeira de Camões...

Sem Vergonha nasceu no hospital, e logo por lá começou a dar mostrar de um caráter preocupante. Mal aparecia uma enfermeira, o Sem Vergonha demonstrava o seu contentamento com uma reação que só era esperada na adolescência e, quando era posto ao colo de uma mulher, procurava de imediato o ponto certo para lhe permitir fazer o que seria a sua filosofia de vida: mamar.
Sem Vergonha cresceu e tornou-se um homem, mas não se tornou Homem. Senhor de uma capacidade inata para o contorcionismo verbal, tornou-se mestre em dizer de manhã uma coisa e à tarde outra, nunca se mostrando capaz de reconhecer estar errado. Sempre que é apanhado nas suas próprias teias, assobia para o lado, fingindo que não é nada com ele, ou contra ataca, de modo a confundir quem o ouve ou lê. Sim, quem o lê, pois o Sem Vergonha não se contenta com discursos ocos nos círculos por onde se movimenta, e faz questão de escrever nos jornais, para toda a gente saber que ele é merecedor do seu nome.
Sem Vergonha tem opinião sobre tudo e sobre todos, faz política porque não sabe fazer mais nada, critica as tradições porque acha que não têm razão de ser, faz de conta que ouve os argumentos de quem não concorda, e anda na rua com um sorriso nos lábios, que se querem sempre prontos a funcionar ao sabor das circunstâncias, mas quase nunca é capaz de dizer as coisas cara a cara.
Num mundo perfeito, este texto seria sobre uma pessoa apenas, mas nesta terra nada é perfeito e, por isso, o que aqui se lê é facilmente aplicável a homens e mulheres que todos conhecemos, para mal dos nossos pecados. E nós temos culpa, pois se lhes cortássemos as vazas logo à primeira oportunidade seriam imediatamente postos no seu lugar e deixavam de incomodar. Já alguém disse que o maior triunfo do Mal é fazer com que as pessoas de Bem tenham medo de falar, e isso é bem verdade.
Quantas e quantas vezes ficamos quietos e calados perante uma determinada situação porque não nos queremos chatear? Vale a pena apanhar um ladrão dentro de casa se ele depois sai em liberdade no dia seguinte e nos processa porque lhe fizemos uma nódoa negra? Vale a pena desmentir o Sem Vergonha se ele no dia seguinte volta à carga com mais argumentos para defender o que não faz sentido? Vale a pena confrontar o Sem Vergonha com as suas próprias contradições se ele no dia seguinte desvia as atenções do povo para outra coisa? Vale a pena chamar a atenção ao Sem Vergonha que rumina pastilha elástica enquanto trabalha no atendimento ao público? Vale a pena criticar o Sem Vergonha que tira férias no verão quando é nessa estação que a sua empresa mais precisa dele? Vale a pena apontar o dedo ao patrão que tal permite?
São muitas perguntas, com uma só resposta, e num mundo perfeito poderíamos dizer nomes e apontar casos concretos, mas este mundo perdeu, também ele, a vergonha, e temos medo de ir parar ao tribunal, pois o Sem Vergonha ainda nos acusa a nós de sermos sem vergonha… quando aquilo que sentimos muitas vezes é, precisamente, vergonha!

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