Mais uma vez, escrevo a quem comanda os destinos da Secretaria da Educação. E logo a duas de uma assentada!
Não posso dizer que tenha sido apanhado de surpresa pela mudança de comando
na Secretaria Regional da Educação. Era algo que se previa desde que Lina
Mendes teve a ousadia de dizer em voz alta na Assembleia Regional aquilo que
todos pensam mas escondem em nome do “politicamente correcto”. A partir
desse momento, ficou sem ter quem a defendesse, pois se ter um independente a
chefiar militantes já é mau, imagine-se um independente capaz de dizer verdades
inconvenientes! Sabe-se lá o que uma pessoa destas seria capaz de fazer!
Talvez para espanto de muitos, afirmo aqui que apreciei o mandato da Secretária
agora substituída, da mesma forma que apreciei as suas declarações, admitindo
que a política não é a sua área e que não tem ambições políticas, pelo que não
regressaria ao papel de deputada no parlamento. Neste ponto, ouviu-se um
enorme suspiro de alívio nas hostes socialistas, pois isso implicaria tirar o lugar
a um dos que lá estão... ou não!
Lina Mendes não é da política, e isso foi um atractivo para todos os professores
aquando da sua nomeação para o cargo.
Era grande a expectativa para ver a
mudança face ao estilo autocrático do seu antecessor, mais não fosse por ser
uma mulher ligada ao Ensino Básico e, por isso, conhecedora das reais
dificuldades das escolas. No entanto, tudo o que pudesse querer fazer estava
espartilhado por força de políticas do passado recente, que não convinha alterar,
e por esse monstro devorador chamado “avaliação do desempenho”. Fica para a
história como a governante que implementou a avaliação, com um modelo
ligeiramente menos aberrante que o verificado no continente, mas depois já não
houve jogo de cintura para fazer adaptações como se viu “lá fora”. Era preciso
avaliar o modelo, mas isso só ao fim de dois anos… que estão a terminar, e eu
estou a arder de curiosidade, até porque há um “Manual de Procedimentos” que
só chegou às escolas mais de um ano depois do início da avaliação.
Fica também com o peso de ter sido obrigada a tomar a decisão de suspender o
Concurso Externo para este ano, em nome da contenção de custos.
Quer saber o
verdadeiro porquê de todos os anos ser necessário contratar centenas de
professores em vez de integrar muitos deles nos quadros? Os “contratados” são
muito mais baratos, pois não têm direito a progredir na carreira.
Claro está que tudo isto gerou contestação, criou desgastes, e o engenho político
de quem realmente manda fez o resto, colocando um terceirense jovem – e
político profissional – como líder do grupo parlamentar socialista e escondendo
na manga uma antiga Secretária Regional com passado e competências mais do
que suficientes para ser a escolha lógica para esse lugar, mas que também é
professora e está integrada na máquina do partido e do Governo.
Estava criado o
cenário para a substituição de Lina Mendes, de quem me despeço agora:
agradeço a sua postura honesta e a forma desassombrada como foi capaz de falar
com os professores, e acho que apenas pode ser criticada pela falta de bagagem
e retórica política, nunca em termos de competência pessoal ou profissional.
Desejo-lhe as maiores felicidades no regresso ao seu trabalho. E agora vamos lá à sua sucessora.
Olá Cláudia. Já não falamos há muito tempo, não é? Cruzamo-nos de carro
quando calha, trocamos o aceno da praxe, mas desde aquela tarde de conversa
na Rua de São João já passaram alguns anos, lembras-te? Antes de mais, quero
dizer-te que isto de seres agora a minha chefe irrita-me, pois faz-me sentir velho,
já que é a primeira vez que posso tratar um chefe por tu. Perdoar-me-ás pela
familiaridade em público, estou certo, até porque sabes – julgo eu – que em
matérias relativas ao ensino não tenho cor política, guio-me apenas por aquilo
que acho mais correcto, e deixa-me dizer-te que acho muito correcto que sejas tu
a nova secretária. Há dez anos que não dás aulas, mas tenho esperança que ainda
te lembres daquilo que é a escola e dos problemas que nela enfrentamos todos os
dias.
És uma mulher de convicções, e admiro-te por isso, mesmo quando não
concordo contigo. Leio-te nas páginas deste jornal, conheço o teu pensamento
escrito, e gosto de ver a forma como não te coíbes de mandar recados para as
tuas hostes sempre que achas necessário. É dessa frontalidade que necessitamos,
e espero que ela te sirva de guia nos tempos conturbados que vais atravessar.
Não me vou alongar mais, que já estou a esgotar a paciência dos leitores e talvez
a tua, deixo-te apenas os mais sinceros votos de boa sorte. Sabes o que é
necessário fazer, por isso fá-lo. Mesmo que isso implique ser, por vezes, pouco
política…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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