O Eterno Estudante foi pai. No meio de toda a felicidade que a Maria João representa, houve espaço para a quase tragédia. Na minha vida, nada acontece sem esforço ou sobressalto...
Olá filha. Quando leres isto, muitos anos terão passado desde o dia em que
nasceste, e os teus pais nunca se vão esquecer do que se passou, mas achei
melhor escrevê-lo, para referência futura.
Foste um bebé simpático dentro da barriga, apesar de nos teres pregado um susto
enorme aos três meses, que obrigou a tua mãe a deixar de trabalhar, como
medida de precaução para que tu te desenvolvesses bem. Acabaste por não lhe
provocar enjoos, o que já não foi mau, mas deixaste-a com muitas dores nas
costas e não a deixaste dormir nada de jeito nos últimos dois meses, pois estavas
enorme e fizeste-lhe inchar de tal forma a barriga que a coitada nem conseguia
ter posição na cama.
Terminado “o tempo”, não querias sair, e ainda ficaste no quentinho mais uma
semana e meia, até já dizíamos que estavas com medo de sair para o meio da
crise, vê lá tu. Sim, filha, a crise era palavra de ordem, vinham a caminho os
senhores do FMI para colocar ordem nas contas do nosso país, pois os senhores
que estavam no governo só se tinham sabido governar a si próprios. E depois
sempre chegou o grande dia…
A seguir ao jantar, a tua mãe começou a sentir umas dores mais fortes, que
foram crescendo em intensidade e diminuindo em intervalo. À uma da manhã,
quando as contracções já estavam a querer baixar dos cinco minutos, lá fomos
nós para o hospital. A senhora enfermeira que nos recebeu disse que a tua mãe ia
ficar, mas que ainda não ias nascer durante a noite, pois estava tudo muito
no início, e mandou-me embora para casa dormir, dizendo que bastava aparecer
no hospital lá para as dez da manhã. E eu fui, mas não dormi nada que prestasse,
como podes imaginar. Entretanto, a tua mãe ficou contente, pois a senhora
doutora de serviço era a mesma que te tinha acompanhado dentro da barriga, o
que sempre dava mais alguma confiança.
Ainda antes das dez, lá estava eu, mas não havia novidades. Ou melhor: não
havia bebé, pois a tua mãe estava cheia de dores, e levou duas vezes uma
anestesia com um nome esquisito, mas não fez efeito nem à primeira nem à
segunda. Fiquei à espera que me deixassem vê-la, mas nada. Disseram-me que
não era possível, e fiquei sentadinho cá fora. Enquanto lá estive, chegou uma
senhora, disse que era amiga de uma doutora, e deixaram-na ir ver uma outra
senhora grávida. Depois, chegou um casal, disse que era amigo não percebi de
quem, e também entrou. Chegou uma senhora que falava muito alto, disse que
trabalhava para os americanos, e deixaram-na entrar também. Aliás, essa entrou
mais que uma vez, parecia a dona da maternidade, e sempre a falar pelos
cotovelos. O teu pai, com muita paciência, ainda esperava…
Já era quase uma da tarde quando o pai se chateou, tocou à campainha e disse
umas coisas pouco simpáticas à senhora que abriu a porta. Ela rodou nos
calcanhares, chamou outra senhora com um casaco azul, e trinta segundos
depois o teu pai estava ao pé da tua mãe. Ela, coitada, estava de rastos. Tinha
gritado, tinha chorado, e já não tinha forças para mais. E estava zangada, filha,
muito zangada, pois a tal senhora doutora que te tinha acompanhado dentro da
barriga da mãe só tinha aparecido uma vez, já de manhã, para dizer que se ia
embora. A tua mãe estava possessa, até porque lhe tinha implorado que fizesse
cesariana, tantas eram as dores, mas ela tinha de se ir embora para o seu
consultório. A tua mãe só dizia que parecia mentira, quando era a pagar estava
sempre disponível, mas agora nem sequer tinha aparecido uma vez em dez
horas. Eu, como tu já percebeste, sou muito apaziguador, mas também achei que
ela tinha razão, só que na altura apenas tentei acalmar a mãe… durante mais um
minuto, pois puseram-me na rua logo a seguir a eu ter avisado a senhora
enfermeira de que queria assistir ao teu nascimento.
Entretanto, já tinham chegado os teus avós, e ficámos todos do lado de fora à tua
espera. Qual não foi o nosso espanto quando, às 15:50, a porta se abriu e uma
senhora doutora chamou por mim, muito séria, para me dizer que iam fazer
imediatamente uma cesariana à tua mãe, pois tinham iniciado os procedimentos
para o parto (sem me avisar…), e tinham tentado tirar-te com uma ventosa, mas
a ventosa partiu-se e não podiam fazer nova tentativa, qualquer coisa a ver com
regras que eu nem ouvi bem. Ouvi e vi muito bem foi a senhora doutora a dizer
que nunca lhe tinha acontecido semelhante coisa, encolhendo os ombros, com as
mãos enterradas nos bolsos, e desculpando-se com o facto de o “material” ser
velho. Penso que estava a referir-se à ventosa e não a ela própria, mas o stress
era tanto que nem te sei dizer ao certo.
O certo é que a tua mãe estava em pânico, pois tinha percebido que as coisas
tinham corrido mal e achava que havia problemas contigo, mas levaram-na logo
para o bloco operatório. No elevador, ela só me dizia que tinha corrido mal, que
tinha sentido um puxão e tinha ficado toda a gente silenciosa e a olhar uns para
os outros, sem saber o que fazer. E lá foi ela para sala de operações…
Não sei, filha, mas foram os minutos mais longos da minha vida… até que uma
senhora de bata verde veio cá fora e disse: “Já nasceu. Está tudo bem.” Foi a
única pessoa em todo este processo que se dignou a vir falar comigo por sua
própria iniciativa, e nunca lhe cheguei a agradecer por isso. Quando a vir, hei-de
fazê-lo!
E pronto, tinhas nascido, dali a bocado já estavas no meu colo a beber
leitinho de um biberão que uma senhora enfermeira de olhos azuis me deu, os
teus avós estavam todos contentes, tiveste várias visitas de amigos do papá… e
eu só pensava na tua mãe, só fiquei descansado quando ela chegou e vi que
estava bem. A tua primeira fotografia, quero que saibas, só deixei que a tirassem
quando a tua mãe chegou. Sem ela, nada fazia sentido para mim, filha.
Agora tens um mês e pouco, és linda, enorme, e recebes elogios de toda a gente.
e tens uma característica muito boa: sempre nos deixaste dormir! Neste teu
tempo de vida, só aconteceu uma coisa estranha, que foi quando um senhor
doutor disse às enfermeiras, meio a sério meio a brincar, que tu tinhas de ser
bem atendida, porque o teu pai é jornalista.
O teu pai, filha, é professor, e tem
muito orgulho nisso. Às vezes escreve para o jornal, e não escreve tanto como
gostaria por causa da crise, mas não passa disso. Quando tiveres de escolher
uma profissão, escolhe o que quiseres, mas escreve também umas coisas num
jornal qualquer. Até pode não servir para mais nada, mas se der jeito para os
teus filhos serem bem atendidos num hospital, então já terá valido a pena!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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