sexta-feira, 6 de maio de 2016

70 - No dia em que nasceste

O Eterno Estudante foi pai. No meio de toda a felicidade que a Maria João representa, houve espaço para a quase tragédia. Na minha vida, nada acontece sem esforço ou sobressalto...

Olá filha. Quando leres isto, muitos anos terão passado desde o dia em que nasceste, e os teus pais nunca se vão esquecer do que se passou, mas achei melhor escrevê-lo, para referência futura. Foste um bebé simpático dentro da barriga, apesar de nos teres pregado um susto enorme aos três meses, que obrigou a tua mãe a deixar de trabalhar, como medida de precaução para que tu te desenvolvesses bem. Acabaste por não lhe provocar enjoos, o que já não foi mau, mas deixaste-a com muitas dores nas costas e não a deixaste dormir nada de jeito nos últimos dois meses, pois estavas enorme e fizeste-lhe inchar de tal forma a barriga que a coitada nem conseguia ter posição na cama.
Terminado “o tempo”, não querias sair, e ainda ficaste no quentinho mais uma semana e meia, até já dizíamos que estavas com medo de sair para o meio da crise, vê lá tu. Sim, filha, a crise era palavra de ordem, vinham a caminho os senhores do FMI para colocar ordem nas contas do nosso país, pois os senhores que estavam no governo só se tinham sabido governar a si próprios. E depois sempre chegou o grande dia…
A seguir ao jantar, a tua mãe começou a sentir umas dores mais fortes, que foram crescendo em intensidade e diminuindo em intervalo. À uma da manhã, quando as contracções já estavam a querer baixar dos cinco minutos, lá fomos nós para o hospital. A senhora enfermeira que nos recebeu disse que a tua mãe ia ficar, mas que ainda não ias nascer durante a noite, pois estava tudo muito no início, e mandou-me embora para casa dormir, dizendo que bastava aparecer no hospital lá para as dez da manhã. E eu fui, mas não dormi nada que prestasse, como podes imaginar. Entretanto, a tua mãe ficou contente, pois a senhora doutora de serviço era a mesma que te tinha acompanhado dentro da barriga, o que sempre dava mais alguma confiança.
Ainda antes das dez, lá estava eu, mas não havia novidades. Ou melhor: não havia bebé, pois a tua mãe estava cheia de dores, e levou duas vezes uma anestesia com um nome esquisito, mas não fez efeito nem à primeira nem à segunda. Fiquei à espera que me deixassem vê-la, mas nada. Disseram-me que não era possível, e fiquei sentadinho cá fora. Enquanto lá estive, chegou uma senhora, disse que era amiga de uma doutora, e deixaram-na ir ver uma outra senhora grávida. Depois, chegou um casal, disse que era amigo não percebi de quem, e também entrou. Chegou uma senhora que falava muito alto, disse que trabalhava para os americanos, e deixaram-na entrar também. Aliás, essa entrou mais que uma vez, parecia a dona da maternidade, e sempre a falar pelos cotovelos. O teu pai, com muita paciência, ainda esperava…
Já era quase uma da tarde quando o pai se chateou, tocou à campainha e disse umas coisas pouco simpáticas à senhora que abriu a porta. Ela rodou nos calcanhares, chamou outra senhora com um casaco azul, e trinta segundos depois o teu pai estava ao pé da tua mãe. Ela, coitada, estava de rastos. Tinha gritado, tinha chorado, e já não tinha forças para mais. E estava zangada, filha, muito zangada, pois a tal senhora doutora que te tinha acompanhado dentro da barriga da mãe só tinha aparecido uma vez, já de manhã, para dizer que se ia embora. A tua mãe estava possessa, até porque lhe tinha implorado que fizesse cesariana, tantas eram as dores, mas ela tinha de se ir embora para o seu consultório. A tua mãe só dizia que parecia mentira, quando era a pagar estava sempre disponível, mas agora nem sequer tinha aparecido uma vez em dez horas. Eu, como tu já percebeste, sou muito apaziguador, mas também achei que ela tinha razão, só que na altura apenas tentei acalmar a mãe… durante mais um minuto, pois puseram-me na rua logo a seguir a eu ter avisado a senhora enfermeira de que queria assistir ao teu nascimento.
Entretanto, já tinham chegado os teus avós, e ficámos todos do lado de fora à tua espera. Qual não foi o nosso espanto quando, às 15:50, a porta se abriu e uma senhora doutora chamou por mim, muito séria, para me dizer que iam fazer imediatamente uma cesariana à tua mãe, pois tinham iniciado os procedimentos para o parto (sem me avisar…), e tinham tentado tirar-te com uma ventosa, mas a ventosa partiu-se e não podiam fazer nova tentativa, qualquer coisa a ver com regras que eu nem ouvi bem. Ouvi e vi muito bem foi a senhora doutora a dizer que nunca lhe tinha acontecido semelhante coisa, encolhendo os ombros, com as mãos enterradas nos bolsos, e desculpando-se com o facto de o “material” ser velho. Penso que estava a referir-se à ventosa e não a ela própria, mas o stress era tanto que nem te sei dizer ao certo.
O certo é que a tua mãe estava em pânico, pois tinha percebido que as coisas tinham corrido mal e achava que havia problemas contigo, mas levaram-na logo para o bloco operatório. No elevador, ela só me dizia que tinha corrido mal, que tinha sentido um puxão e tinha ficado toda a gente silenciosa e a olhar uns para os outros, sem saber o que fazer. E lá foi ela para sala de operações… Não sei, filha, mas foram os minutos mais longos da minha vida… até que uma senhora de bata verde veio cá fora e disse: “Já nasceu. Está tudo bem.” Foi a única pessoa em todo este processo que se dignou a vir falar comigo por sua própria iniciativa, e nunca lhe cheguei a agradecer por isso. Quando a vir, hei-de fazê-lo!
E pronto, tinhas nascido, dali a bocado já estavas no meu colo a beber leitinho de um biberão que uma senhora enfermeira de olhos azuis me deu, os teus avós estavam todos contentes, tiveste várias visitas de amigos do papá… e eu só pensava na tua mãe, só fiquei descansado quando ela chegou e vi que estava bem. A tua primeira fotografia, quero que saibas, só deixei que a tirassem quando a tua mãe chegou. Sem ela, nada fazia sentido para mim, filha. Agora tens um mês e pouco, és linda, enorme, e recebes elogios de toda a gente. e tens uma característica muito boa: sempre nos deixaste dormir! Neste teu tempo de vida, só aconteceu uma coisa estranha, que foi quando um senhor doutor disse às enfermeiras, meio a sério meio a brincar, que tu tinhas de ser bem atendida, porque o teu pai é jornalista.
O teu pai, filha, é professor, e tem muito orgulho nisso. Às vezes escreve para o jornal, e não escreve tanto como gostaria por causa da crise, mas não passa disso. Quando tiveres de escolher uma profissão, escolhe o que quiseres, mas escreve também umas coisas num jornal qualquer. Até pode não servir para mais nada, mas se der jeito para os teus filhos serem bem atendidos num hospital, então já terá valido a pena!

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