sexta-feira, 6 de maio de 2016

66 - Parabéns João, adeus José

A Comunicação Social é outra das minhas paixões, e orgulho-me de poder dizer que, apesar das minhas convicções morais e políticas, nunca deixei de ser imparcial quando exerci funções de jornalista. Daí que...

Os tempos que correm são propícios a que se escreva sobre crises, políticos de fraca qualidade, seus filhos e afilhados, FMI’s RSI’s, défices disto ou daquilo, e é por isso que eu tenho andado quietinho, sem vontade nenhuma de sujar as mãos em tanta… porcaria que por aí anda. Não me tem apetecido escrever, apesar das solicitações para que o faça, mas agora não posso deixar de o fazer.
O episódio do Telejornal que “interrompeu” o discurso de César trouxe à superfície o pior que tem a relação da comunicação social com o Governo, e a televisão é o melhor exemplo disso. Filhos de deuses menores, aos jornalistas das rádios e dos jornais de nada serve chegar a horas às conferências de imprensa e outros eventos, pois sabem bem que enquanto a máquina de filmar não estiver ligada nada se passará, e sabem muito bem as secas que apanham enquanto esperam pelas muitas vezes atrasadas equipas de reportagem. É a lei do mais forte, e todos querem aparecer no pequeno ecrã, coisa que os meus tempos de repórter de rádio me demonstraram para além de qualquer dúvida, como me ensinaram também que aquilo que surge na comunicação social é apenas a ponta do icebergue, pois o melhor (entenda-se: aquilo que realmente interessa) não se pode dizer, escrever ou mostrar, e quem furar o esquema arrisca-se a ficar sem “fontes”.
Irrita-me solenemente a artimanha dos políticos para aparecerem em horário nobre, em plenos telejornais, e irrita-me ainda mais que as televisões lhes façam a vontade, quando podiam muito bem filtrar o que é dito e poupar-nos ao aborrecimento de ouvir os pontapés gramaticais daqueles que elegemos para trabalhar mas que se entretêm com jogos de retórica. A transmissão dos trabalhos da Assembleia Regional foi um tormento para o espectador, e muito poucos terão sido aqueles que conseguiram entender alguma coisa do que foi dito. Felizmente, houve o bom senso de respeitar quem ligou o televisor para ver o Telejornal da RTP Açores naquele dia, e cortou-se o pio ao parlamento.
Problema: estava a falar o Sr. Presidente. Situação de pasmo: todas as bancadas protestaram pela “interrupção”. Solução: transmitiu-se tudo outra vez no dia seguinte. Consequência 1: demitiu-se o Chefe de Redacção da RTP, que tinha dado a ordem para avançar com o Telejornal. Consequência 2: os sindicatos e organizações ligadas aos jornalistas ficaram revoltados com a subserviência da RTP ao poder político. Consequência 3: ficaram todos cobertos de ridículo, à excepção do Chefe de Redacção, que sai desta embrulhada de cabeça erguida. É a minha opinião, e estou muito à-vontade para a transmitir, pois trata-se da mesma pessoa que há uns tempos desanquei nestas páginas a respeito de um trabalho seu (ver crónica Levem os maricas também em http://eternoestudante.no.sapo.pt). Critico quando é de criticar, mas não tenho o mínimo problema em elogiar quando acho que as pessoas o merecem, e desta feita João Soares Ferreira merece por inteiro o meu aplauso. Quanto ao resto do imbróglio, é um caso bicudo para outros resolverem em sede própria.
Não estão aqui em causa cores políticas, está em causa fazer o que é correcto. Afinal, por mais que isto possa escandalizar alguns, transmitir as sessões da Assembleia é o equivalente a transmitir os jogos do Santa Clara enquanto está a jogar o Benfica. Se em São Miguel nem cem espectadores vão ao estádio, porque diabo hei-de eu ser obrigado a ouvir o relato de uma equipa que não me diz nada? Porque é uma equipa paga pelo governo, mas esta parte não era para se dizer…
Dados os parabéns ao João, resta-me dizer adeus ao José. Não ao Sócrates, mas ao Silva. A alma do desporto na RTP Açores reformou-se esta semana, deixando um vazio difícil de preencher. Foram muitos os anos ao leme de um barco complicado, e acredito que o cansaço tenha pesado na hora da decisão, daí que tenha chegado a hora do merecido descanso. Goste-se ou não do estilo à frente da câmara, a verdade é que José Silva soube granjear o respeito e a simpatia dos agentes desportivos de todas as ilhas, movimentando-se com coerência e competência num mundo feito de demasiados interesses e egos inchados. Foi perfeito? Certamente que não, mas ninguém o é. Que goze bem a reforma, e que se mantenha activo por aí, à sua maneira.
Parabéns João, boa sorte José.

Sem comentários: