A Comunicação Social é outra das minhas paixões, e orgulho-me de poder dizer que, apesar das minhas convicções morais e políticas, nunca deixei de ser imparcial quando exerci funções de jornalista. Daí que...
Os tempos que correm são propícios a que se escreva sobre crises, políticos de
fraca qualidade, seus filhos e afilhados, FMI’s RSI’s, défices disto ou daquilo, e
é por isso que eu tenho andado quietinho, sem vontade nenhuma de sujar as
mãos em tanta… porcaria que por aí anda. Não me tem apetecido escrever,
apesar das solicitações para que o faça, mas agora não posso deixar de o fazer.
O episódio do Telejornal que “interrompeu” o discurso de César trouxe à
superfície o pior que tem a relação da comunicação social com o Governo, e a
televisão é o melhor exemplo disso. Filhos de deuses menores, aos jornalistas
das rádios e dos jornais de nada serve chegar a horas às conferências de
imprensa e outros eventos, pois sabem bem que enquanto a máquina de filmar
não estiver ligada nada se passará, e sabem muito bem as secas que apanham
enquanto esperam pelas muitas vezes atrasadas equipas de reportagem.
É a lei do mais forte, e todos querem aparecer no pequeno ecrã, coisa que os
meus tempos de repórter de rádio me demonstraram para além de qualquer
dúvida, como me ensinaram também que aquilo que surge na comunicação
social é apenas a ponta do icebergue, pois o melhor (entenda-se: aquilo que
realmente interessa) não se pode dizer, escrever ou mostrar, e quem furar o
esquema arrisca-se a ficar sem “fontes”.
Irrita-me solenemente a artimanha dos políticos para aparecerem em horário
nobre, em plenos telejornais, e irrita-me ainda mais que as televisões lhes façam
a vontade, quando podiam muito bem filtrar o que é dito e poupar-nos ao
aborrecimento de ouvir os pontapés gramaticais daqueles que elegemos para
trabalhar mas que se entretêm com jogos de retórica. A transmissão dos
trabalhos da Assembleia Regional foi um tormento para o espectador, e muito
poucos terão sido aqueles que conseguiram entender alguma coisa do que foi
dito. Felizmente, houve o bom senso de respeitar quem ligou o televisor para ver
o Telejornal da RTP Açores naquele dia, e cortou-se o pio ao parlamento.
Problema: estava a falar o Sr. Presidente. Situação de pasmo: todas as bancadas
protestaram pela “interrupção”. Solução: transmitiu-se tudo outra vez no dia
seguinte. Consequência 1: demitiu-se o Chefe de Redacção da RTP, que tinha
dado a ordem para avançar com o Telejornal. Consequência 2: os sindicatos e
organizações ligadas aos jornalistas ficaram revoltados com a subserviência da
RTP ao poder político. Consequência 3: ficaram todos cobertos de ridículo, à
excepção do Chefe de Redacção, que sai desta embrulhada de cabeça erguida.
É a minha opinião, e estou muito à-vontade para a transmitir, pois trata-se da
mesma pessoa que há uns tempos desanquei nestas páginas a respeito de um
trabalho seu (ver crónica Levem os maricas também em
http://eternoestudante.no.sapo.pt). Critico quando é de criticar, mas não tenho o
mínimo problema em elogiar quando acho que as pessoas o merecem, e desta
feita João Soares Ferreira merece por inteiro o meu aplauso. Quanto ao resto do
imbróglio, é um caso bicudo para outros resolverem em sede própria.
Não estão
aqui em causa cores políticas, está em causa fazer o que é correcto. Afinal, por
mais que isto possa escandalizar alguns, transmitir as sessões da Assembleia é o
equivalente a transmitir os jogos do Santa Clara enquanto está a jogar o Benfica.
Se em São Miguel nem cem espectadores vão ao estádio, porque diabo hei-de eu
ser obrigado a ouvir o relato de uma equipa que não me diz nada? Porque é uma
equipa paga pelo governo, mas esta parte não era para se dizer…
Dados os parabéns ao João, resta-me dizer adeus ao José. Não ao Sócrates, mas
ao Silva. A alma do desporto na RTP Açores reformou-se esta semana, deixando
um vazio difícil de preencher. Foram muitos os anos ao leme de um barco
complicado, e acredito que o cansaço tenha pesado na hora da decisão, daí que
tenha chegado a hora do merecido descanso. Goste-se ou não do estilo à frente
da câmara, a verdade é que José Silva soube granjear o respeito e a simpatia dos
agentes desportivos de todas as ilhas, movimentando-se com coerência e
competência num mundo feito de demasiados interesses e egos inchados. Foi
perfeito? Certamente que não, mas ninguém o é. Que goze bem a reforma, e que
se mantenha activo por aí, à sua maneira.
Parabéns João, boa sorte José.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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