segunda-feira, 16 de maio de 2016

87 - O ouro da casa

Não há coisa mais difícil de mudar que uma mentalidade. Digo isto muitas vezes aos meus alunos, que demoram a entender todo o alcance desta afirmação mas acabam por chegar lá. E nós estamos muito mal habituados, pensamos sempre que o que vem de fora é que é bom.
No entanto...
  
Somos mesmo esquisitos. A força do hábito é que nos molda o quotidiano e nos faz esquecer das coisas boas dos sítios onde vivemos, mesmo que outros vejam neles o paraíso. Para um habitante de Bora-Bora, com praias deslumbrantes de água transparente, umas férias na neve devem ser o máximo da felicidade, enquanto o mesmo será válido, em sentido inverso, para quem vive nos Alpes.
Nós por cá habituámo-nos à velha ideia de que “o que vem de fora é que é bom” e nem reparamos que passamos o dia numa cidade fantástica, que deixa de boca aberta todos quantos a visitam. Já lá vão mais de dez anos, fiz de guia turístico pela primeira vez na Terceira, e nesse dia, pelos olhos de outra pessoa, apreciei coisas lindas que sempre tinham estado diante de mim sem que me apercebesse. Não me esqueci da lição.
Com o avançar do tempo, já tive ocasião de mostrar a ilha a gente que nela se estreava, sempre com reações de espanto positivo, inclusivamente no que toca às Sanjoaninas, que deixam deslumbrados os que cá vêm por aqueles dias. Tudo muito bem em termos de vistas, festas e monumentos. E as pessoas?
Por alegrias da paternidade, dei comigo a ver o Peter Pan no Teatro Angrense. Não fosse a minha filha, teria perdido um espetáculo lindíssimo, feito por gente da terra, com muito trabalho de construção, muita encenação, muita alegria, muita juventude e até algum arrojo técnico. Uma maravilha verdadeira, que levou ao palco dezenas de jovens e encheu por duas vezes a plateia da mais bonita sala de espetáculos desta ilha. Saí de lá a pensar…
Depois, vieram as Sanjoaninas. Logo no primeiro dia, uma colega que se estreava nas nossas festas ficou rendida ao cortejo de abertura. Mostrava-se espantada, em primeiro lugar, com a quantidade de gente na rua, e depois não se calava com os carros e as coreografias e as roupas e o trabalho todo que aquilo deu e com as raparigas lindas que iam em cima dos carros e com a rainha que era lindíssima e tinha um vestido fantástico e…
Continuaram as festas e vieram as marchas, com festa até o sol raiar, veio o desfile etnográfico, que impressionou até os menos apreciadores deste tipo de coisa, veio o desfile do desporto, mais um sucesso, e veio o desfile para as crianças, que transformou Angra numa selva encantada, com animais ferozes à solta e muita animação nas ruas, para deslumbramento total de miúdos e graúdos. Não sou crítico de arte, mas cá vai: foi um cortejo extraordinário, que podia ter sido apresentado em qualquer parte do mundo e seria sempre extraordinário. O trabalho que aquilo deu foi amplamente compensado pelo resultado final, que devia merecer um prémio qualquer, nem que fosse um elefante de peluche, para recordação do dia em que a Sé viu passar um elefante “verdadeiro” à sua frente. Nesse dia, ao meu lado, uma senhora comentava com o marido qualquer coisa do tipo “já viste bem o que se pode fazer com a prata da casa?”
Temos, não haja dúvida, gente mais do que suficiente na Terceira para trabalhar com qualidade e pôr de pé trabalhos capazes de fazer inveja a qualquer um, e temos capacidade, graças a isso, de atrair gente de fora para se juntar à festa e, quem sabe, ao trabalho que dá fazer a festa. É por isso que, quando se fala agora na universidade e no que lhe estão a fazer, ganha forma a ideia de sermos capazes de nos organizarmos para mostrar quem somos e do que somos capazes.
Fechar um curso de sucesso por conta de uma toleima burocrática não parece ser um problema. Pois bem, crie-se um problema de volta! A Universidade dos Açores sobreviveu ao pior reitor da sua história mas pode muito bem não sobreviver à marioneta governativa que lá puseram agora.

A tal senhora falava em “prata da casa” mas eu não concordo com ela. Para mim, a expressão certa seria “ouro da casa”. Porque a nossa gente vale, de facto, ouro, e está na hora de mostrar esse valor. Está na hora de mostrar que o ouro da casa é bem melhor que o pechisbeque que vem de fora e quer mandar cá dentro.

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