O sistema educativo é, como já se percebeu, uma das minhas preocupações, e mais preocupado fico quando tomo consciência de que há muito boa gente a não compreender que se chega a uma altura em que certos rapazes e raparigas serão mais felizes fora da escola... mesmo que mais tarde voltem a ela para acabar o que deixaram a meio. Pelo caminho, amadureceram o suficiente para compreender qual a decisão mais acertada.
Acabo de acordar enquanto conduzo em direcção ao trabalho. É o meu ritual, aproveitar esses momentos preciosos para quem não consegue manter uma conversa decente nos primeiros minutos depois do sono e necessita de sentir a luz do dia para despertar corpo e alma. E gosto de ir olhando para as paredes ao longo do caminho, gosto de descobrir pormenores e apreciar as pessoas que vou encontrando, quase sempre as mesmas e quase sempre nos mesmos lugares.
Por volta das 08:40, faça chuva ou faça sol, lá vem uma senhora a pé, apressada, lá está um fulano de mau aspecto a pedir boleia (será que alguém lha dá?), e lá está um carro amarelo, sempre no mesmo lugar, pronto para entrar na fila de trânsito. São as rotinas do dia-a-dia, que começam a desenhar-se desde cedo, mas nos últimos tempos houve algo que se alterou no meu percurso e que me desviou a atenção para outros assuntos.
Há uma casa que está a ser pintada. Dito assim, não parece nada de especial, e não é, mas no primeiro dia de trabalho um dos pintores cumprimentou-me quando passei. Ainda a fazer a “verificação dos sistemas”, não consegui ver quem era, mas também não pensei mais no assunto… até à manhã seguinte. Quando lá passei, afinei os sentidos à pressa para ver se ele aparecia outra vez, e lá estava, de novo a acenar quando me aproximei. Agora vi-o bem, era um antigo aluno meu, transformado em pintor de construção civil.
Já nem me lembro se acabou o 9º ano, lembro-me sim dele e do irmão, colegas de turma unidos pelo sangue, pelo futebol e pela pouca (nenhuma) vontade de estar na escola. Capacidades não lhes faltavam, simplesmente não estavam para ali virados, e o resultado só podia ser um: atrapalhavam mais do que ajudavam. Estavam, no fundo, apenas a passar tempo, tentando concluir a escolaridade obrigatória para depois perseguir livremente o sonho da bola… ou então agarrar nos pincéis.
Nunca é fácil dizer a um aluno que a escola já não pode fazer mais nada por ele, mas eu digo. Chega-se a um ponto em que a questão tem de ser colocada de outra forma, já não se pensa naquilo que a escola pode fazer pelo aluno, pensa-se naquilo que o aluno pode fazer por si, e em alguns casos o melhor mesmo é ir trabalhar para ajudar a sustentar a família. É a realidade, nem todos têm “cabeça” para prosseguir estudos, nem todos podem ser “doutores”, mas todos podem e devem contribuir com o seu trabalho para a sociedade, que também necessita destes trabalhadores braçais, se assim lhes podemos chamar. Se isso implica começar a trabalhar com 16 anos, pois que seja, já que a um pintor ou um pedreiro não interessa ter um curso universitário, basta ser competente no seu trabalho.
O meu pintor acenava-me, sorridente, e eu retribuí, também sorridente. Sempre nos demos bem nas aulas, apesar de alguns (frequentes) choques de opinião, se calhar porque sempre lhe falei duro, olhos nos olhos, mas sempre o respeitei. Nesse dia, fui trabalhar mais bem disposto com aquele sorriso, e nem de propósito: dali a nada ouvia-se na rádio mais um disparate educativo, com a possibilidade de os alunos como ele poderem “saltar” do 8º para o 10º ano. Primeiro ri-me, depois fiquei sério, tão sério como o assunto, e só conseguia pensar que é urgente pôr professores de verdade a mandar nas escolas deste país e acabar com tanta demagogia e tanto disparate, que apenas desmotiva quem dá a cara perante pais e alunos todos os dias.
Nessa tarde, parei junto à tal casa quando regressava à minha, e fui procurar o pintor. Alto, já queimado pelo sol, salpicado de tinta e com um sorriso de orelha a orelha, lá estava ele, e encolheu-se quando lhe estendi o braço, dizendo que tinha as mãos sujas de tinta. Nunca tive medo de apertar a mão a um homem de trabalho, disse-lhe eu, e juntámos as palmas com força. Quis saber da vida dele, quis saber se gostava do que fazia, quis saber do irmão, quis saber muita coisa, e estivemos uns dez minutos assim, até um colega de trabalho o chamar, antes que o patrão chateasse.
Fiquei a saber que andava feliz da vida. A escola não era para mim, aqui estou à minha vontade, apanho sol, ganho bom dinheiro, tenho tempo para ir tomar banho, jogar futebol e namorar. Resume-se a isto a teoria de vida daquele rapaz, que ainda vai a tempo de a reformular, mas não parece muito interessado nisso. Está feliz e, disse-me, o irmão também, pois anda igualmente na vida das pinturas. Fiquei feliz por eles.
De regresso ao carro, o pensamento foi lógico: estes rapazes se estivessem agora no 7º ano iam ser obrigados a estar na escola até ao 12º. Em vez de andarem felizes, iam estar na escola a atrapalhar a vida daqueles que realmente querem alguma coisa com os estudos e a infernizar a vida aos professores. O pior é que é exactamente isto que nos espera, daí que até se compreenda a desastrada tentativa ministerial de “despachar” alguns retardatários do 8º ano, a ver se eles libertam espaço nas escolas para caber toda a gente que vai ter de lá estar até aos 18 anos.
Deus nos acuda!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
63 - Há sempre quem esteja pior...
Há coisas que me perturbam. Lido mal com a miséria social, não consigo compreender como certas coisas acontecem e como se permite que certas situações se mantenham.
A carga pronta e metida nos contentores… adeus ó meus amores que me vou para o outro mundo.
Que história de vida se esconde por trás daqueles olhos mortiços e daqueles andrajos que um dia tiveram cor? Era nisto que ele pensava, completamente paralisado, depois de se cruzar com ela. Nas suas caminhadas já percebera que a pé se consegue ver muito mais do que quando se vai sentado ao volante, e isso tinha-se tornado num vício saudável, cuja recompensa até àquele momento havia sido apenas o redescobrir dos caminhos das suas próprias redondezas. Mas depois apareceu ela, que não tinha nada, e ele ficou a perceber que tinha tudo.
A imagem atormentou-o durante semanas. Vê-la assim, mulher sem idade e sem futuro, abrigada num caixote de ferro velho que num mundo às direitas nunca serviria de casa a ninguém, era uma realidade simultaneamente tão próxima e tão distante que custava a admitir. Ele fez perguntas, mas não conseguiu obter respostas. É verdade que talvez não tenha perguntado às pessoas certas, mas se calhar também não queria. Tinha medo das respostas, tinha medo que a história por trás de tal miséria se tornasse demasiado penosa para que a pudesse suportar. E decidiu fazer como faz o resto da sociedade, pensando que se não pensasse no assunto ele acabaria por morrer… ou ela primeiro.
Foi impossível. Por circunstâncias da vida, todos os dias lhe passava à porta, e todos os dias pensava como tinha sido possível alguém chegar a tal estado. Pior ainda, pensava como era possível que ao longo dos anos já tivesse passado por ali milhares de vezes sem se aperceber da tragédia silenciosa que habitava aquela esquina. Não sabia se o caso tinha acompanhamento ou não, mas era estranho que, com tantos realojamentos, não houvesse um cantinho para aquele corpo martirizado acabar os seus dias com dignidade. Inquieto, deu por si a pensar no que poderia fazer para ajudar, mas ficou na mesma.
E chegou o Natal. Ele, que já percebera ter tudo, pensou várias vezes nela, mas nunca conseguiu reunir forças para dar um passo em frente. À boa maneira portuguesa, foi adiando o que já sabia ser inevitável, e na noite da Consoada não conseguiu retirar dos olhos a imagem daquela mulher curvada, com um pau e um cão por companhia. Reuniu todas as forças, não disse nada a ninguém, e foi às compras, apenas para perceber que não sabia o que havia de comprar. Precisaria de leite? Certamente que sim. Enlatados? Quase de certeza, até porque se calhar nem frigorífico havia, mas o que poderia comer? Devia ter problemas de saúde, se calhar precisava de medicamentos… O turbilhão de pensamentos desencontrados acabou por derrotá-lo, e tomou a decisão que lhe pareceu mais acertada na altura: comprou um bolo-rei, levantou algumas notas no Multibanco mais próximo, enfiou-as num envelope, respirou fundo, e lá foi, ao encontro dos seus fantasmas.
Passou-lhe à porta três vezes antes de conseguir parar. À quarta, parou mesmo, aproximou-se, e chamou. Quem é? A voz chegou-lhe fraca e desgastada aos ouvidos, e foi quase mecanicamente que respondeu A senhora não me conhece, mas eu tenho aqui um presente de Natal para lhe dar. Quem é? Ouço muito mal, quem é que está aí? Ele suspirou e repetiu, mais alto. Abriu-se uma fresta na porta, a custo e a medo. Tenho uma coisa para si, repetiu ele. Posso entrar? Mas ela já vinha a caminho, aos tropeções até ao portão, enquanto mandava calar o cão. Já não vejo bem, e ouvir também não. Quem é o senhor?
A resposta demorou a sair. Os olhos dele não se despegavam dos trapos que lhe serviam de roupa, do andar arrastado, das pernas deformadas, dos óculos velhos e gastos, e só quando ela estendeu a mão e lhe tocou ele voltou a si. Uma mão velha, enrugada e suja. Incrivelmente suja. Mas ele segurou-a, como quem segura a mão da avó velhinha, e disse-lhe ao que vinha, pendurando-lhe o saco de plástico no braço. Tem aí um bolo-rei para adoçar o Natal e um dinheirinho para o que a senhora precisar, está a perceber? Ai senhor, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece, isto é um presente por alma dos meus. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece. Só queria dar-lhe esta lembrança. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada…
Ele já não conseguiu dizer mais nada. Os nervos eram tantos que estava quase em estado de choque com o que acabava de ver. Era tudo muito pior do que imaginava, e as emoções começaram a jorrar-lhe pelos olhos. Há já muito tempo não chorava, mas naquele dia derramou lágrimas gordas, e nem conseguia falar. Chorou durante quilómetros até se acalmar e recuperar um pouco de auto controlo, sabendo perfeitamente que não tinha resolvido nada, mas que talvez tivesse conseguido deitar um pouco de açúcar no fel daquela vida. Foi fraco o consolo, mas foi melhor que nada.Nunca disse nada sobre o assunto a ninguém, nem vai dizer. Aquela imagem persegue-o, e só sabe que naquele dia de Natal ficou um pouco diferente. Valoriza mais aquilo que tem, relativiza os seus problemas, e sempre que se sente mais em baixo diz a si mesmo que há quem esteja muito pior, e pensa naquela mão suja e calejada, traída pela vida. Não fica mais feliz, mas…
A carga pronta e metida nos contentores… adeus ó meus amores que me vou para o outro mundo.
Que história de vida se esconde por trás daqueles olhos mortiços e daqueles andrajos que um dia tiveram cor? Era nisto que ele pensava, completamente paralisado, depois de se cruzar com ela. Nas suas caminhadas já percebera que a pé se consegue ver muito mais do que quando se vai sentado ao volante, e isso tinha-se tornado num vício saudável, cuja recompensa até àquele momento havia sido apenas o redescobrir dos caminhos das suas próprias redondezas. Mas depois apareceu ela, que não tinha nada, e ele ficou a perceber que tinha tudo.
A imagem atormentou-o durante semanas. Vê-la assim, mulher sem idade e sem futuro, abrigada num caixote de ferro velho que num mundo às direitas nunca serviria de casa a ninguém, era uma realidade simultaneamente tão próxima e tão distante que custava a admitir. Ele fez perguntas, mas não conseguiu obter respostas. É verdade que talvez não tenha perguntado às pessoas certas, mas se calhar também não queria. Tinha medo das respostas, tinha medo que a história por trás de tal miséria se tornasse demasiado penosa para que a pudesse suportar. E decidiu fazer como faz o resto da sociedade, pensando que se não pensasse no assunto ele acabaria por morrer… ou ela primeiro.
Foi impossível. Por circunstâncias da vida, todos os dias lhe passava à porta, e todos os dias pensava como tinha sido possível alguém chegar a tal estado. Pior ainda, pensava como era possível que ao longo dos anos já tivesse passado por ali milhares de vezes sem se aperceber da tragédia silenciosa que habitava aquela esquina. Não sabia se o caso tinha acompanhamento ou não, mas era estranho que, com tantos realojamentos, não houvesse um cantinho para aquele corpo martirizado acabar os seus dias com dignidade. Inquieto, deu por si a pensar no que poderia fazer para ajudar, mas ficou na mesma.
E chegou o Natal. Ele, que já percebera ter tudo, pensou várias vezes nela, mas nunca conseguiu reunir forças para dar um passo em frente. À boa maneira portuguesa, foi adiando o que já sabia ser inevitável, e na noite da Consoada não conseguiu retirar dos olhos a imagem daquela mulher curvada, com um pau e um cão por companhia. Reuniu todas as forças, não disse nada a ninguém, e foi às compras, apenas para perceber que não sabia o que havia de comprar. Precisaria de leite? Certamente que sim. Enlatados? Quase de certeza, até porque se calhar nem frigorífico havia, mas o que poderia comer? Devia ter problemas de saúde, se calhar precisava de medicamentos… O turbilhão de pensamentos desencontrados acabou por derrotá-lo, e tomou a decisão que lhe pareceu mais acertada na altura: comprou um bolo-rei, levantou algumas notas no Multibanco mais próximo, enfiou-as num envelope, respirou fundo, e lá foi, ao encontro dos seus fantasmas.
Passou-lhe à porta três vezes antes de conseguir parar. À quarta, parou mesmo, aproximou-se, e chamou. Quem é? A voz chegou-lhe fraca e desgastada aos ouvidos, e foi quase mecanicamente que respondeu A senhora não me conhece, mas eu tenho aqui um presente de Natal para lhe dar. Quem é? Ouço muito mal, quem é que está aí? Ele suspirou e repetiu, mais alto. Abriu-se uma fresta na porta, a custo e a medo. Tenho uma coisa para si, repetiu ele. Posso entrar? Mas ela já vinha a caminho, aos tropeções até ao portão, enquanto mandava calar o cão. Já não vejo bem, e ouvir também não. Quem é o senhor?
A resposta demorou a sair. Os olhos dele não se despegavam dos trapos que lhe serviam de roupa, do andar arrastado, das pernas deformadas, dos óculos velhos e gastos, e só quando ela estendeu a mão e lhe tocou ele voltou a si. Uma mão velha, enrugada e suja. Incrivelmente suja. Mas ele segurou-a, como quem segura a mão da avó velhinha, e disse-lhe ao que vinha, pendurando-lhe o saco de plástico no braço. Tem aí um bolo-rei para adoçar o Natal e um dinheirinho para o que a senhora precisar, está a perceber? Ai senhor, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece, isto é um presente por alma dos meus. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada, mas o senhor quem é? A senhora não me conhece. Só queria dar-lhe esta lembrança. Ai senhor, muito obrigada, muito obrigada…
Ele já não conseguiu dizer mais nada. Os nervos eram tantos que estava quase em estado de choque com o que acabava de ver. Era tudo muito pior do que imaginava, e as emoções começaram a jorrar-lhe pelos olhos. Há já muito tempo não chorava, mas naquele dia derramou lágrimas gordas, e nem conseguia falar. Chorou durante quilómetros até se acalmar e recuperar um pouco de auto controlo, sabendo perfeitamente que não tinha resolvido nada, mas que talvez tivesse conseguido deitar um pouco de açúcar no fel daquela vida. Foi fraco o consolo, mas foi melhor que nada.Nunca disse nada sobre o assunto a ninguém, nem vai dizer. Aquela imagem persegue-o, e só sabe que naquele dia de Natal ficou um pouco diferente. Valoriza mais aquilo que tem, relativiza os seus problemas, e sempre que se sente mais em baixo diz a si mesmo que há quem esteja muito pior, e pensa naquela mão suja e calejada, traída pela vida. Não fica mais feliz, mas…
62 - Queimar as fitas do futuro
Tenho antigos alunos do meu tempo na Ilha das Flores que já estão a queimar fitas e prontos a ser "doutores". Esta é para eles...
É nesta altura do ano que as emoções andam ao rubro nas universidades por esse país fora. Benzem-se pastas, queimam-se fitas, fazem-se balanços do que foi o passado, mas, acima de tudo, põem-se os olhos no futuro e na vida que há depois de se ter o “canudo” na mão. Eu sei. Já passei por isso, já benzi pasta, queimei fitas e olhei o futuro com olhos trémulos. Dez anos depois, tenho antigos alunos a fazer o mesmo.
Em boa verdade, esta não é a primeira vez que vejo antigos alunos a finalizar o curso, mas a emoção é sempre a mesma. É com grande satisfação que vejo os meus meninos e meninas de há uns anos atrás concluir um percurso longo e difícil, e gosto de pensar que pude contribuir de algum modo para a formação dos homens e mulheres que hoje são. Vê-los sorridentes, de traje académico, com as fitas penduradas na pasta, é algo que me marca, que me faz também sorrir por dentro, e que não deixa de me humedecer o canto do olho. Por trás daquele sorriso há muitas lágrimas, e só quem não passou por isso não é capaz de dar o devido valor ao momento.
Os olhos agora viram-se para a frente. Tudo o que acontecer a partir deste momento em termos de vida universitária será aproveitado de forma diferente, tudo terá um sabor agridoce de quase adeus, e não é difícil imaginar o que vai na alma de alguém que acaba de se aperceber que nunca mais viverá uma Semana Académica, que só tem mais alguns meses de universidade pela frente e depois tem apenas um ponto de interrogação. Perspectivas pode sempre haver, e os mais sortudos até poderão ter certezas, mas o ponto de interrogação está sempre lá, e demora a sair.
É a incerteza, a inexperiência, a falta de autoconfiança para aplicar o que se aprendeu, e mais tarde será a constatação de que, afinal, não se aprendeu assim tanto como se julgava, e que é a vida real que se encarrega de preencher os espaços em branco no diploma. É um pouco como tirar carta de condução: só depois é que se aprende mesmo a conduzir…
A nós, que vivemos já no mundo real do trabalho, cabe-nos a tarefa de os ajudar, de os encorajar, de lhes ensinar o que falta saber, e cabe-nos contribuir para que a sociedade entenda a mais-valia que é ter gente qualificada para trabalhar, cabe-nos também trabalhar para inverter este miserável estado de coisas, em que um licenciado (agora já são todos mestres…) não é devidamente valorizado. Na sociedade actual, estudar parece pecado, e quem dá valor aos livros é menosprezado. Pior: quem tem o papel de ensinar é completamente desvalorizado por muitos, que não compreendem as vantagens de ter filhos com os olhos bem abertos para a vida, algo que só se consegue com fome de conhecimentos e sede de leituras, às quais a vida depois se encarregará de dar substância.
É necessário que a própria sociedade seja praxada, estude, benza pasta e queime fitas, talvez assim compreenda o valor daqueles que se deram a esse trabalho. Os outros, que por qualquer razão não quiseram, não puderam ou não conseguiram chegar a este patamar, não têm menos valor por isso. Têm um valor diferente, e são igualmente necessários para fazer a sua terra andar para a frente. Se calhar, com a mesma idade já casaram, já têm uma casa para sustentar e filhos para criar, e já têm a escola do trabalho. Nesse capítulo estão em vantagem, mas aos jovens que agora saem das universidades é bom que se diga que há tempo para tudo.
E o tempo deles é agora, mesmo com os olhos húmidos e o coração apertado.
Eferrreá!!!
É nesta altura do ano que as emoções andam ao rubro nas universidades por esse país fora. Benzem-se pastas, queimam-se fitas, fazem-se balanços do que foi o passado, mas, acima de tudo, põem-se os olhos no futuro e na vida que há depois de se ter o “canudo” na mão. Eu sei. Já passei por isso, já benzi pasta, queimei fitas e olhei o futuro com olhos trémulos. Dez anos depois, tenho antigos alunos a fazer o mesmo.
Em boa verdade, esta não é a primeira vez que vejo antigos alunos a finalizar o curso, mas a emoção é sempre a mesma. É com grande satisfação que vejo os meus meninos e meninas de há uns anos atrás concluir um percurso longo e difícil, e gosto de pensar que pude contribuir de algum modo para a formação dos homens e mulheres que hoje são. Vê-los sorridentes, de traje académico, com as fitas penduradas na pasta, é algo que me marca, que me faz também sorrir por dentro, e que não deixa de me humedecer o canto do olho. Por trás daquele sorriso há muitas lágrimas, e só quem não passou por isso não é capaz de dar o devido valor ao momento.
Os olhos agora viram-se para a frente. Tudo o que acontecer a partir deste momento em termos de vida universitária será aproveitado de forma diferente, tudo terá um sabor agridoce de quase adeus, e não é difícil imaginar o que vai na alma de alguém que acaba de se aperceber que nunca mais viverá uma Semana Académica, que só tem mais alguns meses de universidade pela frente e depois tem apenas um ponto de interrogação. Perspectivas pode sempre haver, e os mais sortudos até poderão ter certezas, mas o ponto de interrogação está sempre lá, e demora a sair.
É a incerteza, a inexperiência, a falta de autoconfiança para aplicar o que se aprendeu, e mais tarde será a constatação de que, afinal, não se aprendeu assim tanto como se julgava, e que é a vida real que se encarrega de preencher os espaços em branco no diploma. É um pouco como tirar carta de condução: só depois é que se aprende mesmo a conduzir…
A nós, que vivemos já no mundo real do trabalho, cabe-nos a tarefa de os ajudar, de os encorajar, de lhes ensinar o que falta saber, e cabe-nos contribuir para que a sociedade entenda a mais-valia que é ter gente qualificada para trabalhar, cabe-nos também trabalhar para inverter este miserável estado de coisas, em que um licenciado (agora já são todos mestres…) não é devidamente valorizado. Na sociedade actual, estudar parece pecado, e quem dá valor aos livros é menosprezado. Pior: quem tem o papel de ensinar é completamente desvalorizado por muitos, que não compreendem as vantagens de ter filhos com os olhos bem abertos para a vida, algo que só se consegue com fome de conhecimentos e sede de leituras, às quais a vida depois se encarregará de dar substância.
É necessário que a própria sociedade seja praxada, estude, benza pasta e queime fitas, talvez assim compreenda o valor daqueles que se deram a esse trabalho. Os outros, que por qualquer razão não quiseram, não puderam ou não conseguiram chegar a este patamar, não têm menos valor por isso. Têm um valor diferente, e são igualmente necessários para fazer a sua terra andar para a frente. Se calhar, com a mesma idade já casaram, já têm uma casa para sustentar e filhos para criar, e já têm a escola do trabalho. Nesse capítulo estão em vantagem, mas aos jovens que agora saem das universidades é bom que se diga que há tempo para tudo.
E o tempo deles é agora, mesmo com os olhos húmidos e o coração apertado.
Eferrreá!!!
61 - Quanto vale um tanque de água?
Eu sou assim, vou enchendo, enchendo, até transbordar. Não suporto a mentira, muito menos na política, e quando os governantes nos querem fazer passar por parvos o melhor mesmo é reagir. A crónica fala por si...
Politics…the art of deception
Dependent on misplaced perception
Where evil is good, where black is white
Fiction is truth, and most wrongs are right
The fight for power and all that goes with it
Where double-talk hypocrisy’s entirely legit
Good citizens, need not believe all they hear
Political promises are rarely sincere
Stanley Cooper
Política… a arte do engano
Dependente de percepções erradas
Onde o mal é bom, o preto é branco
Ficção é verdade, e muitos erros estão certos
A luta pelo poder e tudo o que ela traz
Onde a hipocrisia vira-casacas é legítima
Bons cidadãos, não têm de acreditar em tudo o que ouvem
Promessas políticas raramente são sinceras
Eu não sei nadar. Parece mentira, ainda para mais vindo de um açoriano de gema, mas é verdade. E esta introdução só serve para que toda a gente fique logo a perceber que me vou meter num assunto onde até me posso afogar, mas há coisas que não podem ficar por dizer, pois a modos que começo a ficar farto de me andarem a comer por tolo. A mim, e a muito boa gente, pois antes de haver crise de dinheiro já havia crise de honestidade ou – pior ainda – de bom senso.
Desde que o Primeiro-Ministro-dos-Portugueses-que-votaram-nele afirmou, alto e bom som, que a política era a arte de conviver com a decepção (se não foi isto, foi parecido), o país devia ter percebido que o futuro ia ser feito de enganos, até porque tal pensamento foi retirado do poema que está reproduzido nesta página, o qual tomei a liberdade de traduzir para ajudar os menos letrados no inglês. Ora o senhor Pinto de Sousa, no seu inglês por correspondência, confundiu o termo “deception”, que significa “engano”, com “decepção”, que é sinónimo de “desilusão”. O poético da questão é que a boca fugiu-lhe para a verdade, e hoje estamos todos desiludidos com o engano que tem sido esta governação desgovernada.
Nos Açores, com tanta água que se mete por uns lados e que falta por outros, a coisa não parece muito melhor, e confesso que, como terceirense, começo a ficar verdadeiramente confuso. Não choveu como era habitual, ficámos sem água; veio um especialista do continente, e os de cá disseram que ele afinal não disse nada de novo; o do continente foi tomar banho para casa com as algibeiras mais cheias, e por cá fechou-se uma estrada porque afinal a Furna d’Água está em risco de abater. Mesmo ao lado, está uma pedreira onde, ao que parece, se usou dinamite; mais atrás, os terrenos que eram de turfa e serviam para segurar água passaram a ser pastos, e agora diz-se que é preciso desfazer esse erro, ao mesmo tempo que se retira este assunto da responsabilidade da Câmara Municipal, passando-o para a alçada do governo, talvez porque há eleições autárquicas depois do Verão e não convém que isso sirva de arma de arremesso político quando a água voltar a faltar…
Descendo à cidade e aos seus arredores, há uma escola nova em folha que custou perto de 30 milhões de euros e foi inaugurada com pompa e circunstância, contando entre os seus equipamentos com uma piscina que, sabe-se agora, afinal é apenas um tanque que serve para aprender a nadar. Enquanto isso, a natação está em risco por causa de um mal-entendido entre as entidades competentes, e a reboque desta situação vieram a público notícias extraordinárias nas páginas deste jornal: o governo paga ao Inatel 313 euros por hora para utilizar a piscina do Bailão; a piscina da Escola Tomás de Borba tem menos nove metros do que o necessário; o responsável diz que se fosse hoje a piscina era outra, mas adianta que esta ficou com o tamanho que tem porque o projecto era anterior a 1998 e justifica-se também com constrangimentos de espaço. É de mim, ou estão a querer fazer de nós parvos?
Antes de 1998 já se sabia que as provas de natação se desenrolam em recintos com determinadas medidas (a piscina da Escola das Laranjeiras tem-nas, e foi construída no início da década de 90…), por isso a única conclusão possível é que o projecto foi mal feito. No mínimo, houve falta de visão. Simples, não é? Mais: ficámos a saber, de uma vez por todas, que uma obra na Terceira precisa de pelo menos dez anos para passar do papel à existência. E não é que já não soubéssemos, pois o hospital, a via rápida e o parque de exposições estão aí para demonstrá-lo. E mais o quê? Ah, a falta de espaço, não é? Lamento. Qualquer pessoa com meio olho na cara chega lá e vê que o espaço onde está o depósito do gás para a caldeira tem os tais nove metros que faltam à piscina, e mesmo que não os tivesse bastava olhar para o fundo do pavilhão e ver que quem expropriou tanta terra tinha expropriado mais dez metros para trás, pois ali só há baldio.
Agora vamos fazer contas a isto tudo: recuperar o abastecimento de água ao concelho de Angra e apagar os erros do passado recente? Não tem preço. Construir uma piscina com mais nove metros de comprimento? Não sei em quanto ficaria, mas a derrapagem orçamental já foi tão grande que mais uns 200 mil euros não escandalizavam ninguém. E se dividirmos esse dinheiro por 313 obtemos qualquer coisa como 640. Ou seja: em termos simplistas, 640 horas de utilização da piscina do Inatel custam ao governo 200 mil euros, o que significa que esse pequeno investimento na piscina da escola se iria pagar a si próprio num instante… E não serve de nada perguntar agora o que é que se faria com a piscina do Inatel se lá não houvesse competições, pois isto é como a história dos vidros eléctricos nos carros: depois de os termos, não queremos voltar ao tempo da manivela! Não ficava às moscas, de certeza, ia era obrigar a maior criatividade e responsabilidade na sua gestão, mas isso são palavras que parecem ter desaparecido do dicionário governamental.
Politics…the art of deception
Dependent on misplaced perception
Where evil is good, where black is white
Fiction is truth, and most wrongs are right
The fight for power and all that goes with it
Where double-talk hypocrisy’s entirely legit
Good citizens, need not believe all they hear
Political promises are rarely sincere
Stanley Cooper
Política… a arte do engano
Dependente de percepções erradas
Onde o mal é bom, o preto é branco
Ficção é verdade, e muitos erros estão certos
A luta pelo poder e tudo o que ela traz
Onde a hipocrisia vira-casacas é legítima
Bons cidadãos, não têm de acreditar em tudo o que ouvem
Promessas políticas raramente são sinceras
Eu não sei nadar. Parece mentira, ainda para mais vindo de um açoriano de gema, mas é verdade. E esta introdução só serve para que toda a gente fique logo a perceber que me vou meter num assunto onde até me posso afogar, mas há coisas que não podem ficar por dizer, pois a modos que começo a ficar farto de me andarem a comer por tolo. A mim, e a muito boa gente, pois antes de haver crise de dinheiro já havia crise de honestidade ou – pior ainda – de bom senso.
Desde que o Primeiro-Ministro-dos-Portugueses-que-votaram-nele afirmou, alto e bom som, que a política era a arte de conviver com a decepção (se não foi isto, foi parecido), o país devia ter percebido que o futuro ia ser feito de enganos, até porque tal pensamento foi retirado do poema que está reproduzido nesta página, o qual tomei a liberdade de traduzir para ajudar os menos letrados no inglês. Ora o senhor Pinto de Sousa, no seu inglês por correspondência, confundiu o termo “deception”, que significa “engano”, com “decepção”, que é sinónimo de “desilusão”. O poético da questão é que a boca fugiu-lhe para a verdade, e hoje estamos todos desiludidos com o engano que tem sido esta governação desgovernada.
Nos Açores, com tanta água que se mete por uns lados e que falta por outros, a coisa não parece muito melhor, e confesso que, como terceirense, começo a ficar verdadeiramente confuso. Não choveu como era habitual, ficámos sem água; veio um especialista do continente, e os de cá disseram que ele afinal não disse nada de novo; o do continente foi tomar banho para casa com as algibeiras mais cheias, e por cá fechou-se uma estrada porque afinal a Furna d’Água está em risco de abater. Mesmo ao lado, está uma pedreira onde, ao que parece, se usou dinamite; mais atrás, os terrenos que eram de turfa e serviam para segurar água passaram a ser pastos, e agora diz-se que é preciso desfazer esse erro, ao mesmo tempo que se retira este assunto da responsabilidade da Câmara Municipal, passando-o para a alçada do governo, talvez porque há eleições autárquicas depois do Verão e não convém que isso sirva de arma de arremesso político quando a água voltar a faltar…
Descendo à cidade e aos seus arredores, há uma escola nova em folha que custou perto de 30 milhões de euros e foi inaugurada com pompa e circunstância, contando entre os seus equipamentos com uma piscina que, sabe-se agora, afinal é apenas um tanque que serve para aprender a nadar. Enquanto isso, a natação está em risco por causa de um mal-entendido entre as entidades competentes, e a reboque desta situação vieram a público notícias extraordinárias nas páginas deste jornal: o governo paga ao Inatel 313 euros por hora para utilizar a piscina do Bailão; a piscina da Escola Tomás de Borba tem menos nove metros do que o necessário; o responsável diz que se fosse hoje a piscina era outra, mas adianta que esta ficou com o tamanho que tem porque o projecto era anterior a 1998 e justifica-se também com constrangimentos de espaço. É de mim, ou estão a querer fazer de nós parvos?
Antes de 1998 já se sabia que as provas de natação se desenrolam em recintos com determinadas medidas (a piscina da Escola das Laranjeiras tem-nas, e foi construída no início da década de 90…), por isso a única conclusão possível é que o projecto foi mal feito. No mínimo, houve falta de visão. Simples, não é? Mais: ficámos a saber, de uma vez por todas, que uma obra na Terceira precisa de pelo menos dez anos para passar do papel à existência. E não é que já não soubéssemos, pois o hospital, a via rápida e o parque de exposições estão aí para demonstrá-lo. E mais o quê? Ah, a falta de espaço, não é? Lamento. Qualquer pessoa com meio olho na cara chega lá e vê que o espaço onde está o depósito do gás para a caldeira tem os tais nove metros que faltam à piscina, e mesmo que não os tivesse bastava olhar para o fundo do pavilhão e ver que quem expropriou tanta terra tinha expropriado mais dez metros para trás, pois ali só há baldio.
Agora vamos fazer contas a isto tudo: recuperar o abastecimento de água ao concelho de Angra e apagar os erros do passado recente? Não tem preço. Construir uma piscina com mais nove metros de comprimento? Não sei em quanto ficaria, mas a derrapagem orçamental já foi tão grande que mais uns 200 mil euros não escandalizavam ninguém. E se dividirmos esse dinheiro por 313 obtemos qualquer coisa como 640. Ou seja: em termos simplistas, 640 horas de utilização da piscina do Inatel custam ao governo 200 mil euros, o que significa que esse pequeno investimento na piscina da escola se iria pagar a si próprio num instante… E não serve de nada perguntar agora o que é que se faria com a piscina do Inatel se lá não houvesse competições, pois isto é como a história dos vidros eléctricos nos carros: depois de os termos, não queremos voltar ao tempo da manivela! Não ficava às moscas, de certeza, ia era obrigar a maior criatividade e responsabilidade na sua gestão, mas isso são palavras que parecem ter desaparecido do dicionário governamental.
60 - Bom dia, Sra. Secretária
As eleições legislativas regionais de 2008 trouxeram mudanças no governo. O partido ficou na mesma, mas houve dança de cadeiras, e a nova Secretária Regional da Educação mereceu o meu voto de confiança. Entretanto, já o perdeu...
Seja bem-vinda ao seu novo cargo. Antes de mais, deixe-me que lhe diga que folgo em ver que a escolha do Senhor das Ilhas recaiu em alguém com verdadeira experiência no terreno do ensino, o que deverá trazer-lhe (a si, minha Senhora) algumas vantagens no domínio das questões a enfrentar e dos problemas a resolver. Os seus primeiros tempos serão, bem o sabemos, para conhecer os cantos à casa e tentar perceber bem a alhada em que se foi meter, por isso não esteja preocupada em aparecer em público a mostrar serviço. Até ao Natal, deixe-se estar no gabinete a tomar o pulso às coisas, e quando entrar 2009 venha para a rua e comece a marcar diferenças em relação ao seu antecessor. É um conselho de amigo, com muita – e verdadeira – estima pessoal, de alguém que está disposto a trabalhar consigo para melhorar a situação degradante em que todos nos encontramos.
As escolas estão em polvorosa, como sabe, devido a tudo aquilo que tem vindo a acontecer ao longo dos últimos anos, e, só para que as pessoas entendam esta nossa conversa, vamos explicar devagarinho para toda a gente entender: de há cinco anos para cá, os professores não sabem o que é um aumento de ordenado, os mais velhos viram as regras da reforma mudar a meio do jogo, ficando claramente prejudicados, todos viram suspensa a contagem de tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira, todos foram obrigados a passar mais tempo na escola, muitas vezes sem condições para poder trabalhar e sem que isso se traduzisse numa melhoria verdadeira do sistema, viram a sua autoridade perante os alunos ser constantemente diminuída por força da publicação de leis cada vez mais facilitistas (laxistas talvez fosse uma palavra melhor, mas deixei ficar esta), e viram ser aprovado um estatuto guiado por preocupações economicistas que, para cúmulo, ainda traz um sistema de avaliação que, em boa verdade, não avalia coisa nenhuma. É muita coisa em pouco tempo, e faltou tacto político para tudo.
É claro que nos tempos que correm só se fala na parte da avaliação, e politicamente fez-se tudo para passar a ideia de que os professores não querem é ser avaliados e são uma cambada de malandros, mas ainda bem que a senhora também é professora e sabe que isto não é verdade, por isso terá certamente mais bom-senso. O seu antecessor, aliás, teve um raro assomo desta qualidade quando decidiu – e muito bem – que o Estatuto da Carreira Docente nos Açores seria diferente do implementado no continente, esse sim um verdadeiro atentado à dignidade da profissão, e por si só justificativo de todas as manifestações e mais algumas, tirando a dos ovos podres, pois a roupa da outra senhora não tem culpa nenhuma dos disparates de quem a veste. O Estatuto em vigor nos Açores é muito menos mau que o do continente, por isso a sua tarefa, Sra. Secretária, é mais fácil neste campo, e não me surpreenderia se fosse adaptado pelo Ministério, pois a versão “continental” é simplesmente má demais para ser verdade. O seu antecessor, honra lhe seja feita neste ponto, teve a inteligência suficiente para perceber que aquilo não tinha pés e cabeça, por isso nos deixou um pouco melhor e não teve que enfrentar as recentes manifestações. No entanto, muito há a fazer.
Era fastidioso estar aqui a falar de todos os aspectos que enumerei há pouco, por isso vamos apenas concentrar-nos na avaliação. Foi triste ver como a Secretaria Regional da Educação conduziu todo o processo de implementação, deixando as escolas ao Deus-dará até há coisa de um mês, altura em que começou a fazer uma ronda de sessões de esclarecimento com os avaliadores. O ano lectivo começou a 1 de Setembro, e nesses dois meses nem uma palavra se ouviu da tutela, deixando que a incerteza se apoderasse de avaliadores e avaliados. Já vi, Sra. Secretária, gente a chorar com o stress da avaliação, e isto é inadmissível. Houve escolas que tiveram calma e esperaram para ver, enquanto outras até puseram na Internet as datas das aulas observadas e o nome dos professores, para os alunos poderem ver e preparar-se convenientemente para estragar o dia ao professor, a quem não pagam para ser simpático mas sim para ensinar. Triste, mas verdadeiro: cada escola vai aplicar a avaliação à sua maneira, o que vai gerar injustiças no sistema, ferido de morte à partida por uma grelha desenhada para ser praticamente impossível um professor atingir o “Excelente”.
Analisemos a grelha: era já conhecida há largos meses, mas nunca houve explicações concretas sobre a interpretação dos seus itens, e esse é desde logo outro problema: uma grelha de avaliação que não é clara nos seus enunciados é uma grelha que não presta para nada. Na universidade, ensina-se aos futuros professores que a avaliação deve ser objectiva, mas quem fez esta grelha nem deve ser professor, com certeza.
Não vou explorá-la a fundo, Sra. Secretária, até porque a senhora esteve na mesma sessão de esclarecimento em que eu estive, e sabe perfeitamente ao que me refiro. Vou apenas resumir a coisa para aqueles que nos lêem poderem perceber: há itens de avaliação na grelha que estão formulados de modo a ser impossível atingir a nota máxima nesse item, e há outros que estão feitos para 90% dos professores terem nota 0 (zero). Se isto não é uma coisa mal feita e profundamente injusta, então eu não sei o que seja. Para além disto, há toda uma componente burocrática da questão que foi estruturada sem ter em conta as possibilidades de organização das escolas. Um Coordenador de Departamento passou a ser, de um momento para o outro, uma pessoa a menos para as tarefas de final de ano, e há estabelecimentos em que isso é dramático para o bom funcionamento de exames, formação de turmas, horários, e por aí fora. Ou então estão a pensar seriamente em pôr os coordenadores a dormir na escola, para conseguirem dar conta do recado, e aí talvez se consiga…
Os professores dos Açores esperam de si a abertura e a sensibilidade suficiente para encarar de forma séria e responsável o problema. A questão da necessidade da avaliação não se coloca, pois todos a aceitam, mas desta forma não. O modelo continental é para esquecer, o modelo açoriano precisa de obras nos alicerces, e espero bem que esta crise não se torne por cá ainda maior do que já é…
Votos sinceros de bom trabalho, Sra. Secretária. Não lhe invejo o lugar, mas no que puder ajudar cá estarei à sua disposição.
Seja bem-vinda ao seu novo cargo. Antes de mais, deixe-me que lhe diga que folgo em ver que a escolha do Senhor das Ilhas recaiu em alguém com verdadeira experiência no terreno do ensino, o que deverá trazer-lhe (a si, minha Senhora) algumas vantagens no domínio das questões a enfrentar e dos problemas a resolver. Os seus primeiros tempos serão, bem o sabemos, para conhecer os cantos à casa e tentar perceber bem a alhada em que se foi meter, por isso não esteja preocupada em aparecer em público a mostrar serviço. Até ao Natal, deixe-se estar no gabinete a tomar o pulso às coisas, e quando entrar 2009 venha para a rua e comece a marcar diferenças em relação ao seu antecessor. É um conselho de amigo, com muita – e verdadeira – estima pessoal, de alguém que está disposto a trabalhar consigo para melhorar a situação degradante em que todos nos encontramos.
As escolas estão em polvorosa, como sabe, devido a tudo aquilo que tem vindo a acontecer ao longo dos últimos anos, e, só para que as pessoas entendam esta nossa conversa, vamos explicar devagarinho para toda a gente entender: de há cinco anos para cá, os professores não sabem o que é um aumento de ordenado, os mais velhos viram as regras da reforma mudar a meio do jogo, ficando claramente prejudicados, todos viram suspensa a contagem de tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira, todos foram obrigados a passar mais tempo na escola, muitas vezes sem condições para poder trabalhar e sem que isso se traduzisse numa melhoria verdadeira do sistema, viram a sua autoridade perante os alunos ser constantemente diminuída por força da publicação de leis cada vez mais facilitistas (laxistas talvez fosse uma palavra melhor, mas deixei ficar esta), e viram ser aprovado um estatuto guiado por preocupações economicistas que, para cúmulo, ainda traz um sistema de avaliação que, em boa verdade, não avalia coisa nenhuma. É muita coisa em pouco tempo, e faltou tacto político para tudo.
É claro que nos tempos que correm só se fala na parte da avaliação, e politicamente fez-se tudo para passar a ideia de que os professores não querem é ser avaliados e são uma cambada de malandros, mas ainda bem que a senhora também é professora e sabe que isto não é verdade, por isso terá certamente mais bom-senso. O seu antecessor, aliás, teve um raro assomo desta qualidade quando decidiu – e muito bem – que o Estatuto da Carreira Docente nos Açores seria diferente do implementado no continente, esse sim um verdadeiro atentado à dignidade da profissão, e por si só justificativo de todas as manifestações e mais algumas, tirando a dos ovos podres, pois a roupa da outra senhora não tem culpa nenhuma dos disparates de quem a veste. O Estatuto em vigor nos Açores é muito menos mau que o do continente, por isso a sua tarefa, Sra. Secretária, é mais fácil neste campo, e não me surpreenderia se fosse adaptado pelo Ministério, pois a versão “continental” é simplesmente má demais para ser verdade. O seu antecessor, honra lhe seja feita neste ponto, teve a inteligência suficiente para perceber que aquilo não tinha pés e cabeça, por isso nos deixou um pouco melhor e não teve que enfrentar as recentes manifestações. No entanto, muito há a fazer.
Era fastidioso estar aqui a falar de todos os aspectos que enumerei há pouco, por isso vamos apenas concentrar-nos na avaliação. Foi triste ver como a Secretaria Regional da Educação conduziu todo o processo de implementação, deixando as escolas ao Deus-dará até há coisa de um mês, altura em que começou a fazer uma ronda de sessões de esclarecimento com os avaliadores. O ano lectivo começou a 1 de Setembro, e nesses dois meses nem uma palavra se ouviu da tutela, deixando que a incerteza se apoderasse de avaliadores e avaliados. Já vi, Sra. Secretária, gente a chorar com o stress da avaliação, e isto é inadmissível. Houve escolas que tiveram calma e esperaram para ver, enquanto outras até puseram na Internet as datas das aulas observadas e o nome dos professores, para os alunos poderem ver e preparar-se convenientemente para estragar o dia ao professor, a quem não pagam para ser simpático mas sim para ensinar. Triste, mas verdadeiro: cada escola vai aplicar a avaliação à sua maneira, o que vai gerar injustiças no sistema, ferido de morte à partida por uma grelha desenhada para ser praticamente impossível um professor atingir o “Excelente”.
Analisemos a grelha: era já conhecida há largos meses, mas nunca houve explicações concretas sobre a interpretação dos seus itens, e esse é desde logo outro problema: uma grelha de avaliação que não é clara nos seus enunciados é uma grelha que não presta para nada. Na universidade, ensina-se aos futuros professores que a avaliação deve ser objectiva, mas quem fez esta grelha nem deve ser professor, com certeza.
Não vou explorá-la a fundo, Sra. Secretária, até porque a senhora esteve na mesma sessão de esclarecimento em que eu estive, e sabe perfeitamente ao que me refiro. Vou apenas resumir a coisa para aqueles que nos lêem poderem perceber: há itens de avaliação na grelha que estão formulados de modo a ser impossível atingir a nota máxima nesse item, e há outros que estão feitos para 90% dos professores terem nota 0 (zero). Se isto não é uma coisa mal feita e profundamente injusta, então eu não sei o que seja. Para além disto, há toda uma componente burocrática da questão que foi estruturada sem ter em conta as possibilidades de organização das escolas. Um Coordenador de Departamento passou a ser, de um momento para o outro, uma pessoa a menos para as tarefas de final de ano, e há estabelecimentos em que isso é dramático para o bom funcionamento de exames, formação de turmas, horários, e por aí fora. Ou então estão a pensar seriamente em pôr os coordenadores a dormir na escola, para conseguirem dar conta do recado, e aí talvez se consiga…
Os professores dos Açores esperam de si a abertura e a sensibilidade suficiente para encarar de forma séria e responsável o problema. A questão da necessidade da avaliação não se coloca, pois todos a aceitam, mas desta forma não. O modelo continental é para esquecer, o modelo açoriano precisa de obras nos alicerces, e espero bem que esta crise não se torne por cá ainda maior do que já é…
Votos sinceros de bom trabalho, Sra. Secretária. Não lhe invejo o lugar, mas no que puder ajudar cá estarei à sua disposição.
59 - Levem os maricas também!
Esta crónica é um grito de revolta perante várias coisas: a desfaçatez de quem acha sempre que a galinha da vizinha é mais gorda do que a sua, a falta de profissionalismo de alguns jornalistas, a promiscuidade entre jornalismo e política...
Se está a ler isto, das duas uma: ou ficou curioso ou ficou ofendido com o título, mas asseguro que a minha intenção, apesar de politicamente incorrecto, não é ofender ninguém, e quando acabar de ler este artigo vai perceber.
Quando há coisa de ano e meio atrás escrevi sobre a t-shirt dos toiros micaelenses e sobre a confissão de um amigo agente de viagens que me disse que a sorte do turismo terceirense era não haver touradas em São Miguel (pode reler o texto em www.eternoestudante.no.sapo.pt), não me passava pela cabeça voltar ao assunto, e muito menos nestes termos, mas a peça “jornalística” emitida no Telejornal da RTP-Açores do passado dia 21 de Julho trouxe-me à memória o aviso e deixou-me triste pela pobreza do trabalho em si.
Tinha acabado de jantar, sentei-me a ver o que restava do noticiário, e a coisa começava assim: “Quase se diria estarmos na Ilha Terceira. Milhares de pessoas acorreram ao Porto dos Carneiros para uma tourada à corda integrada no Dia do Mundo Rural da quarta Festa da Juventude, uma iniciativa da Câmara Municipal da vila da costa sul da Ilha de São Miguel”. A tourada aconteceu, como se percebe, na Lagoa, e as imagens mostram, de facto, que estava lá muita gente. No entanto, em tempo de pré-campanha eleitoral, convinha mostrar as figuras do partido que o jornalista serviu durante tantos anos, e lá aparecem eles na imagem, com o seguinte texto a acompanhar: “No entretanto, o mordomo da festa, o mesmo é dizer o Presidente da Câmara da Lagoa, João Ponte, recebia formação adequada à ocasião por parte do experiente Director Regional do Desenvolvimento Agrário, o terceirense Joaquim Pires.” Que não é terceirense coisa nenhuma, só que talvez haja interesse em dar a entender que sim. Mas vejamos o que veio a seguir: “Para além de alguma correria, o Telejornal não conseguiu testemunhar qualquer outro feito digno de registo na lide do autarca. Ficou a intenção, e a certeza de que as touradas à corda estão a ganhar adeptos aos milhares na ilha de São Miguel.”
É curioso como o próprio jornalista reconhece que não houve nada “digno de registo” na aparição do autarca, não é? O pior veio depois, e quando ouvimos o resto da reportagem ficamos sem perceber se o jornalismo já deixou de ser informação e passou a ser opinião, duas coisas completamente diferentes. O que vai ler é a transcrição exacta do que foi dito: “Havendo vozes a queixar-se de que a capital da cultura já não é Angra do Heroísmo, e que os micaelenses já gostam mais e têm mais festas do que os terceirenses, resta ver quanto tempo mais será preciso ainda para a ilha do Arcanjo ganhar a dianteira nas tradições taurinas. Que vai ser difícil, ninguém tem dúvidas, mas aos terceirenses fica o aviso: cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Qualquer dia, quando quiserem organizar uma corrida, constatam que toiros, pastores e capinhas estão todos em São Miguel.”
Respire fundo. Os erro gramaticais, deixei-os ficar de propósito. Já está refeito? Então vamos lá.
O jornalista não pode assumir o papel de comentador quando está a ser jornalista, e muito menos utilizar o tom altamente irónico e provocador que se percebe no texto mas que foi perfeitamente claro na transmissão televisiva. Esta peça, mais que um insulto aos terceirenses, foi um mau exemplo de serviço público e mais uma acha para a fogueira das justificações para não vermos a RTP Açores. São poucos, muito poucos, os programas de produção regional que vale a pena ver, com o Bom Dia à cabeça. Pedro Moura pode não ter grande presença no ecrã e ter um sotaque micaelense carregado, mas ao menos é genuíno e mostra aos açorianos aquilo que é feito pelos açorianos. Se calhar, tentaram calar-lhe a boca por isso mesmo, mas o público exigiu – em boa hora – o seu regresso.
Mais do que reinventar o que já foi escrito, reproduzo aqui, com a devida vénia, o pensamento de Miguel de Sousa Azevedo, expresso no seu blog Porto das Pipas (www.portodaspipas.blogs.sapo.pt): Quero crer que o sr. Jornalista, e antigo assessor do presidente do Governo Regional, não mediu a dimensão do texto com que deu voz à reportagem da recente tourada à corda do porto da Lagoa, em São Miguel.
Não tem a ver com bairrismos nem outras tontices doentias, simplesmente com irrealidade...nua e crua. E o jornalismo não deve ser folhetim de propaganda política, mas antes um veículo informativo. Opinativa ou não, esta reportagem foi irreal...
Meu caro amigo, ela foi bem real, para mal dos nossos pecados, e reflecte bem o que se tem passado ao longo dos anos, com São Miguel a levar tudo e a deixar as migalhas para os outros. Ficaram com as Portas do Mar, e deixaram os outros às portas do inferno, com gares de passageiros que não o são, com um cais de ferries onde os ferries não conseguem atracar, com hospitais, escolas e estradas penduradas por toda a parte, e por aí fora. São exemplos de todas as ilhas, não só da Terceira, mas que temos razão para nos sentirmos incomodados, isso temos. Que Angra há muito deixou de ser capital da cultura é uma realidade, não é preciso que a esfreguem descaradamente no nosso nariz pois todos temos olhos para ver o que se passa. Agora querem que os toiros vão para São Miguel…
Levem os políticos, levem os clubes de futebol, levem os tais que estão no título, levem a Via Rápida para adiantar a ligação ao Nordeste, levem o que resta da universidade, levem a diocese e o bispo, mas deixem ficar a Sé e os toiros, por favor! A Sé para nós rezarmos a pedir protecção contra a inveja e o mau-olhado, e os toiros para quando quiserem vir cá conquistar a Terceira nós podermos reeditar a Batalha da Salga… Aí vão levar com eles, ai vão, vão!
Se está a ler isto, das duas uma: ou ficou curioso ou ficou ofendido com o título, mas asseguro que a minha intenção, apesar de politicamente incorrecto, não é ofender ninguém, e quando acabar de ler este artigo vai perceber.
Quando há coisa de ano e meio atrás escrevi sobre a t-shirt dos toiros micaelenses e sobre a confissão de um amigo agente de viagens que me disse que a sorte do turismo terceirense era não haver touradas em São Miguel (pode reler o texto em www.eternoestudante.no.sapo.pt), não me passava pela cabeça voltar ao assunto, e muito menos nestes termos, mas a peça “jornalística” emitida no Telejornal da RTP-Açores do passado dia 21 de Julho trouxe-me à memória o aviso e deixou-me triste pela pobreza do trabalho em si.
Tinha acabado de jantar, sentei-me a ver o que restava do noticiário, e a coisa começava assim: “Quase se diria estarmos na Ilha Terceira. Milhares de pessoas acorreram ao Porto dos Carneiros para uma tourada à corda integrada no Dia do Mundo Rural da quarta Festa da Juventude, uma iniciativa da Câmara Municipal da vila da costa sul da Ilha de São Miguel”. A tourada aconteceu, como se percebe, na Lagoa, e as imagens mostram, de facto, que estava lá muita gente. No entanto, em tempo de pré-campanha eleitoral, convinha mostrar as figuras do partido que o jornalista serviu durante tantos anos, e lá aparecem eles na imagem, com o seguinte texto a acompanhar: “No entretanto, o mordomo da festa, o mesmo é dizer o Presidente da Câmara da Lagoa, João Ponte, recebia formação adequada à ocasião por parte do experiente Director Regional do Desenvolvimento Agrário, o terceirense Joaquim Pires.” Que não é terceirense coisa nenhuma, só que talvez haja interesse em dar a entender que sim. Mas vejamos o que veio a seguir: “Para além de alguma correria, o Telejornal não conseguiu testemunhar qualquer outro feito digno de registo na lide do autarca. Ficou a intenção, e a certeza de que as touradas à corda estão a ganhar adeptos aos milhares na ilha de São Miguel.”
É curioso como o próprio jornalista reconhece que não houve nada “digno de registo” na aparição do autarca, não é? O pior veio depois, e quando ouvimos o resto da reportagem ficamos sem perceber se o jornalismo já deixou de ser informação e passou a ser opinião, duas coisas completamente diferentes. O que vai ler é a transcrição exacta do que foi dito: “Havendo vozes a queixar-se de que a capital da cultura já não é Angra do Heroísmo, e que os micaelenses já gostam mais e têm mais festas do que os terceirenses, resta ver quanto tempo mais será preciso ainda para a ilha do Arcanjo ganhar a dianteira nas tradições taurinas. Que vai ser difícil, ninguém tem dúvidas, mas aos terceirenses fica o aviso: cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Qualquer dia, quando quiserem organizar uma corrida, constatam que toiros, pastores e capinhas estão todos em São Miguel.”
Respire fundo. Os erro gramaticais, deixei-os ficar de propósito. Já está refeito? Então vamos lá.
O jornalista não pode assumir o papel de comentador quando está a ser jornalista, e muito menos utilizar o tom altamente irónico e provocador que se percebe no texto mas que foi perfeitamente claro na transmissão televisiva. Esta peça, mais que um insulto aos terceirenses, foi um mau exemplo de serviço público e mais uma acha para a fogueira das justificações para não vermos a RTP Açores. São poucos, muito poucos, os programas de produção regional que vale a pena ver, com o Bom Dia à cabeça. Pedro Moura pode não ter grande presença no ecrã e ter um sotaque micaelense carregado, mas ao menos é genuíno e mostra aos açorianos aquilo que é feito pelos açorianos. Se calhar, tentaram calar-lhe a boca por isso mesmo, mas o público exigiu – em boa hora – o seu regresso.
Mais do que reinventar o que já foi escrito, reproduzo aqui, com a devida vénia, o pensamento de Miguel de Sousa Azevedo, expresso no seu blog Porto das Pipas (www.portodaspipas.blogs.sapo.pt): Quero crer que o sr. Jornalista, e antigo assessor do presidente do Governo Regional, não mediu a dimensão do texto com que deu voz à reportagem da recente tourada à corda do porto da Lagoa, em São Miguel.
Não tem a ver com bairrismos nem outras tontices doentias, simplesmente com irrealidade...nua e crua. E o jornalismo não deve ser folhetim de propaganda política, mas antes um veículo informativo. Opinativa ou não, esta reportagem foi irreal...
Meu caro amigo, ela foi bem real, para mal dos nossos pecados, e reflecte bem o que se tem passado ao longo dos anos, com São Miguel a levar tudo e a deixar as migalhas para os outros. Ficaram com as Portas do Mar, e deixaram os outros às portas do inferno, com gares de passageiros que não o são, com um cais de ferries onde os ferries não conseguem atracar, com hospitais, escolas e estradas penduradas por toda a parte, e por aí fora. São exemplos de todas as ilhas, não só da Terceira, mas que temos razão para nos sentirmos incomodados, isso temos. Que Angra há muito deixou de ser capital da cultura é uma realidade, não é preciso que a esfreguem descaradamente no nosso nariz pois todos temos olhos para ver o que se passa. Agora querem que os toiros vão para São Miguel…
Levem os políticos, levem os clubes de futebol, levem os tais que estão no título, levem a Via Rápida para adiantar a ligação ao Nordeste, levem o que resta da universidade, levem a diocese e o bispo, mas deixem ficar a Sé e os toiros, por favor! A Sé para nós rezarmos a pedir protecção contra a inveja e o mau-olhado, e os toiros para quando quiserem vir cá conquistar a Terceira nós podermos reeditar a Batalha da Salga… Aí vão levar com eles, ai vão, vão!
58 - Silêncio
Com aquela que será a mãe dos meus filhos a trabalhar em São Jorge, tive a oportunidade de ir conhecer melhor a "ilha do dragão" e os seus encantos. Esta crónica é, no fundo, o resultado da descida à Calderia de Santo Cristo. Uma coisa maravilhosa...
A caminhada faz-se por um trilho estreito e perigoso. Há alturas em que o melhor é não olhar para baixo, é preferível nem saber ao certo que estamos a dois passos do perigo e da morte certa enquanto andamos. Olhos fixos no chão de terra avermelhada, e de vez em quando espraiar o olhar pelo horizonte, embebendo o espírito na paisagem que nos rodeia. No final do trilho, dizem-nos, há uma espécie de povoação sem água canalizada nem luz eléctrica, que vive quase esquecida no meio da fajã. Fajã de Santo Cristo, para ser mais exacto, o local onde o silêncio é rei e a tranquilidade rainha.
O calor aperta em pleno mês de Abril. Coisa rara, num ano em que a chuva decidiu fazer a confirmação do ditado. Para trás já ficou quase uma hora de caminho, e ao virar da esquina há a promessa da chegada ao paraíso das amêijoas, bem à vista da Terceira e da Graciosa, ilhas irmãs da costa norte de São Jorge. A tabuleta publicitária de um restaurante anuncia a chegada à “civilização”, e logo depois o grupo pára, deslumbrado. À nossa frente, a caldeira. Não há vento, a água não mexe, e a maré vazia deixou o espelho do céu e das montanhas na água salgada e fria. Ninguém fala…
O silêncio que nos envolve torna desnecessárias as palavras, num mundo em que tantas vezes falamos demais. Parecemos até ter perdido a capacidade de ouvir, a capacidade de apreciar, de viver o silêncio. Por entre as primeiras casas, o surgir de uma moto de quatro rodas parece um contra-senso, um intruso ruidoso num mundo de sossego. O carreiro estreita entre muros de pedra seca, e desemboca num pequeno… cais, será? A vista arregala-se para a esquerda. Um barco virado nas pedras, um cão, e uma mulher de picareta em punho revira as pedras no azul líquido em busca de conchas carnudas. Petisco para muitos, sustento para alguns, como ela. Lá ficará por mais horas, à vista de todos. A interrogação, óbvia, fica-nos a bailar na boca, mas as costas não cedem, e os braços continuam o vaivém incessante enquanto os olhos treinados distinguem sem esforço a amêijoa da pedra roliça.
A curiosidade leva-nos ao restaurante. Em conjunto com a antiga presa das uvas, a televisão e o DVD parecem objectos extraterrestres ali, mas a conversa rapidamente desvenda o mistério. Há electricidade, sim senhor, mas só durante algumas horas durante a noite. Dá para ver as notícias ou um filme, e depois joga-se às cartas e conversa-se à luz de velas. Congelados? Não senhor, não temos, a arca nunca tem electricidade para fazer gelo, aqui é tudo fresco. As amêijoas? Por enquanto só de reserva, mas temos linguiça, omeletas… querem comer alguma coisa?
Quisemos. Linguiça caseira, omeletas com ovos recolhidos no quintal da casa, uma delícia! E o silêncio. Ouvem-se maxilares e talheres. Até a conversa se rendeu aos sabores e à vista sobre o mar. No pilar de madeira, o fatídico sinal dos fumadores até destoa. Ali não é preciso fiscalização para nada, a não ser, talvez, para o ruído. O silêncio envolve-nos. Fechamos os olhos e deixamo-nos ir… é este o sabor da tranquilidade.
A caminhada faz-se por um trilho estreito e perigoso. Há alturas em que o melhor é não olhar para baixo, é preferível nem saber ao certo que estamos a dois passos do perigo e da morte certa enquanto andamos. Olhos fixos no chão de terra avermelhada, e de vez em quando espraiar o olhar pelo horizonte, embebendo o espírito na paisagem que nos rodeia. No final do trilho, dizem-nos, há uma espécie de povoação sem água canalizada nem luz eléctrica, que vive quase esquecida no meio da fajã. Fajã de Santo Cristo, para ser mais exacto, o local onde o silêncio é rei e a tranquilidade rainha.
O calor aperta em pleno mês de Abril. Coisa rara, num ano em que a chuva decidiu fazer a confirmação do ditado. Para trás já ficou quase uma hora de caminho, e ao virar da esquina há a promessa da chegada ao paraíso das amêijoas, bem à vista da Terceira e da Graciosa, ilhas irmãs da costa norte de São Jorge. A tabuleta publicitária de um restaurante anuncia a chegada à “civilização”, e logo depois o grupo pára, deslumbrado. À nossa frente, a caldeira. Não há vento, a água não mexe, e a maré vazia deixou o espelho do céu e das montanhas na água salgada e fria. Ninguém fala…
O silêncio que nos envolve torna desnecessárias as palavras, num mundo em que tantas vezes falamos demais. Parecemos até ter perdido a capacidade de ouvir, a capacidade de apreciar, de viver o silêncio. Por entre as primeiras casas, o surgir de uma moto de quatro rodas parece um contra-senso, um intruso ruidoso num mundo de sossego. O carreiro estreita entre muros de pedra seca, e desemboca num pequeno… cais, será? A vista arregala-se para a esquerda. Um barco virado nas pedras, um cão, e uma mulher de picareta em punho revira as pedras no azul líquido em busca de conchas carnudas. Petisco para muitos, sustento para alguns, como ela. Lá ficará por mais horas, à vista de todos. A interrogação, óbvia, fica-nos a bailar na boca, mas as costas não cedem, e os braços continuam o vaivém incessante enquanto os olhos treinados distinguem sem esforço a amêijoa da pedra roliça.
A curiosidade leva-nos ao restaurante. Em conjunto com a antiga presa das uvas, a televisão e o DVD parecem objectos extraterrestres ali, mas a conversa rapidamente desvenda o mistério. Há electricidade, sim senhor, mas só durante algumas horas durante a noite. Dá para ver as notícias ou um filme, e depois joga-se às cartas e conversa-se à luz de velas. Congelados? Não senhor, não temos, a arca nunca tem electricidade para fazer gelo, aqui é tudo fresco. As amêijoas? Por enquanto só de reserva, mas temos linguiça, omeletas… querem comer alguma coisa?
Quisemos. Linguiça caseira, omeletas com ovos recolhidos no quintal da casa, uma delícia! E o silêncio. Ouvem-se maxilares e talheres. Até a conversa se rendeu aos sabores e à vista sobre o mar. No pilar de madeira, o fatídico sinal dos fumadores até destoa. Ali não é preciso fiscalização para nada, a não ser, talvez, para o ruído. O silêncio envolve-nos. Fechamos os olhos e deixamo-nos ir… é este o sabor da tranquilidade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)