quinta-feira, 18 de novembro de 2010

60 - Bom dia, Sra. Secretária

As eleições legislativas regionais de 2008 trouxeram mudanças no governo. O partido ficou na mesma, mas houve dança de cadeiras, e a nova Secretária Regional da Educação mereceu o meu voto de confiança. Entretanto, já o perdeu...

Seja bem-vinda ao seu novo cargo. Antes de mais, deixe-me que lhe diga que folgo em ver que a escolha do Senhor das Ilhas recaiu em alguém com verdadeira experiência no terreno do ensino, o que deverá trazer-lhe (a si, minha Senhora) algumas vantagens no domínio das questões a enfrentar e dos problemas a resolver. Os seus primeiros tempos serão, bem o sabemos, para conhecer os cantos à casa e tentar perceber bem a alhada em que se foi meter, por isso não esteja preocupada em aparecer em público a mostrar serviço. Até ao Natal, deixe-se estar no gabinete a tomar o pulso às coisas, e quando entrar 2009 venha para a rua e comece a marcar diferenças em relação ao seu antecessor. É um conselho de amigo, com muita – e verdadeira – estima pessoal, de alguém que está disposto a trabalhar consigo para melhorar a situação degradante em que todos nos encontramos.
As escolas estão em polvorosa, como sabe, devido a tudo aquilo que tem vindo a acontecer ao longo dos últimos anos, e, só para que as pessoas entendam esta nossa conversa, vamos explicar devagarinho para toda a gente entender: de há cinco anos para cá, os professores não sabem o que é um aumento de ordenado, os mais velhos viram as regras da reforma mudar a meio do jogo, ficando claramente prejudicados, todos viram suspensa a contagem de tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira, todos foram obrigados a passar mais tempo na escola, muitas vezes sem condições para poder trabalhar e sem que isso se traduzisse numa melhoria verdadeira do sistema, viram a sua autoridade perante os alunos ser constantemente diminuída por força da publicação de leis cada vez mais facilitistas (laxistas talvez fosse uma palavra melhor, mas deixei ficar esta), e viram ser aprovado um estatuto guiado por preocupações economicistas que, para cúmulo, ainda traz um sistema de avaliação que, em boa verdade, não avalia coisa nenhuma. É muita coisa em pouco tempo, e faltou tacto político para tudo.
É claro que nos tempos que correm só se fala na parte da avaliação, e politicamente fez-se tudo para passar a ideia de que os professores não querem é ser avaliados e são uma cambada de malandros, mas ainda bem que a senhora também é professora e sabe que isto não é verdade, por isso terá certamente mais bom-senso. O seu antecessor, aliás, teve um raro assomo desta qualidade quando decidiu – e muito bem – que o Estatuto da Carreira Docente nos Açores seria diferente do implementado no continente, esse sim um verdadeiro atentado à dignidade da profissão, e por si só justificativo de todas as manifestações e mais algumas, tirando a dos ovos podres, pois a roupa da outra senhora não tem culpa nenhuma dos disparates de quem a veste. O Estatuto em vigor nos Açores é muito menos mau que o do continente, por isso a sua tarefa, Sra. Secretária, é mais fácil neste campo, e não me surpreenderia se fosse adaptado pelo Ministério, pois a versão “continental” é simplesmente má demais para ser verdade. O seu antecessor, honra lhe seja feita neste ponto, teve a inteligência suficiente para perceber que aquilo não tinha pés e cabeça, por isso nos deixou um pouco melhor e não teve que enfrentar as recentes manifestações. No entanto, muito há a fazer.
Era fastidioso estar aqui a falar de todos os aspectos que enumerei há pouco, por isso vamos apenas concentrar-nos na avaliação. Foi triste ver como a Secretaria Regional da Educação conduziu todo o processo de implementação, deixando as escolas ao Deus-dará até há coisa de um mês, altura em que começou a fazer uma ronda de sessões de esclarecimento com os avaliadores. O ano lectivo começou a 1 de Setembro, e nesses dois meses nem uma palavra se ouviu da tutela, deixando que a incerteza se apoderasse de avaliadores e avaliados. Já vi, Sra. Secretária, gente a chorar com o stress da avaliação, e isto é inadmissível. Houve escolas que tiveram calma e esperaram para ver, enquanto outras até puseram na Internet as datas das aulas observadas e o nome dos professores, para os alunos poderem ver e preparar-se convenientemente para estragar o dia ao professor, a quem não pagam para ser simpático mas sim para ensinar. Triste, mas verdadeiro: cada escola vai aplicar a avaliação à sua maneira, o que vai gerar injustiças no sistema, ferido de morte à partida por uma grelha desenhada para ser praticamente impossível um professor atingir o “Excelente”.
Analisemos a grelha: era já conhecida há largos meses, mas nunca houve explicações concretas sobre a interpretação dos seus itens, e esse é desde logo outro problema: uma grelha de avaliação que não é clara nos seus enunciados é uma grelha que não presta para nada. Na universidade, ensina-se aos futuros professores que a avaliação deve ser objectiva, mas quem fez esta grelha nem deve ser professor, com certeza.
Não vou explorá-la a fundo, Sra. Secretária, até porque a senhora esteve na mesma sessão de esclarecimento em que eu estive, e sabe perfeitamente ao que me refiro. Vou apenas resumir a coisa para aqueles que nos lêem poderem perceber: há itens de avaliação na grelha que estão formulados de modo a ser impossível atingir a nota máxima nesse item, e há outros que estão feitos para 90% dos professores terem nota 0 (zero). Se isto não é uma coisa mal feita e profundamente injusta, então eu não sei o que seja. Para além disto, há toda uma componente burocrática da questão que foi estruturada sem ter em conta as possibilidades de organização das escolas. Um Coordenador de Departamento passou a ser, de um momento para o outro, uma pessoa a menos para as tarefas de final de ano, e há estabelecimentos em que isso é dramático para o bom funcionamento de exames, formação de turmas, horários, e por aí fora. Ou então estão a pensar seriamente em pôr os coordenadores a dormir na escola, para conseguirem dar conta do recado, e aí talvez se consiga…
Os professores dos Açores esperam de si a abertura e a sensibilidade suficiente para encarar de forma séria e responsável o problema. A questão da necessidade da avaliação não se coloca, pois todos a aceitam, mas desta forma não. O modelo continental é para esquecer, o modelo açoriano precisa de obras nos alicerces, e espero bem que esta crise não se torne por cá ainda maior do que já é…
Votos sinceros de bom trabalho, Sra. Secretária. Não lhe invejo o lugar, mas no que puder ajudar cá estarei à sua disposição.

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