quinta-feira, 18 de novembro de 2010

64 - Memórias de um pintor

O sistema educativo é, como já se percebeu, uma das minhas preocupações, e mais preocupado fico quando tomo consciência de que há muito boa gente a não compreender que se chega a uma altura em que certos rapazes e raparigas serão mais felizes fora da escola... mesmo que mais tarde voltem a ela para acabar o que deixaram a meio. Pelo caminho, amadureceram o suficiente para compreender qual a decisão mais acertada.

Acabo de acordar enquanto conduzo em direcção ao trabalho. É o meu ritual, aproveitar esses momentos preciosos para quem não consegue manter uma conversa decente nos primeiros minutos depois do sono e necessita de sentir a luz do dia para despertar corpo e alma. E gosto de ir olhando para as paredes ao longo do caminho, gosto de descobrir pormenores e apreciar as pessoas que vou encontrando, quase sempre as mesmas e quase sempre nos mesmos lugares.
Por volta das 08:40, faça chuva ou faça sol, lá vem uma senhora a pé, apressada, lá está um fulano de mau aspecto a pedir boleia (será que alguém lha dá?), e lá está um carro amarelo, sempre no mesmo lugar, pronto para entrar na fila de trânsito. São as rotinas do dia-a-dia, que começam a desenhar-se desde cedo, mas nos últimos tempos houve algo que se alterou no meu percurso e que me desviou a atenção para outros assuntos.
Há uma casa que está a ser pintada. Dito assim, não parece nada de especial, e não é, mas no primeiro dia de trabalho um dos pintores cumprimentou-me quando passei. Ainda a fazer a “verificação dos sistemas”, não consegui ver quem era, mas também não pensei mais no assunto… até à manhã seguinte. Quando lá passei, afinei os sentidos à pressa para ver se ele aparecia outra vez, e lá estava, de novo a acenar quando me aproximei. Agora vi-o bem, era um antigo aluno meu, transformado em pintor de construção civil.
Já nem me lembro se acabou o 9º ano, lembro-me sim dele e do irmão, colegas de turma unidos pelo sangue, pelo futebol e pela pouca (nenhuma) vontade de estar na escola. Capacidades não lhes faltavam, simplesmente não estavam para ali virados, e o resultado só podia ser um: atrapalhavam mais do que ajudavam. Estavam, no fundo, apenas a passar tempo, tentando concluir a escolaridade obrigatória para depois perseguir livremente o sonho da bola… ou então agarrar nos pincéis.
Nunca é fácil dizer a um aluno que a escola já não pode fazer mais nada por ele, mas eu digo. Chega-se a um ponto em que a questão tem de ser colocada de outra forma, já não se pensa naquilo que a escola pode fazer pelo aluno, pensa-se naquilo que o aluno pode fazer por si, e em alguns casos o melhor mesmo é ir trabalhar para ajudar a sustentar a família. É a realidade, nem todos têm “cabeça” para prosseguir estudos, nem todos podem ser “doutores”, mas todos podem e devem contribuir com o seu trabalho para a sociedade, que também necessita destes trabalhadores braçais, se assim lhes podemos chamar. Se isso implica começar a trabalhar com 16 anos, pois que seja, já que a um pintor ou um pedreiro não interessa ter um curso universitário, basta ser competente no seu trabalho.
O meu pintor acenava-me, sorridente, e eu retribuí, também sorridente. Sempre nos demos bem nas aulas, apesar de alguns (frequentes) choques de opinião, se calhar porque sempre lhe falei duro, olhos nos olhos, mas sempre o respeitei. Nesse dia, fui trabalhar mais bem disposto com aquele sorriso, e nem de propósito: dali a nada ouvia-se na rádio mais um disparate educativo, com a possibilidade de os alunos como ele poderem “saltar” do 8º para o 10º ano. Primeiro ri-me, depois fiquei sério, tão sério como o assunto, e só conseguia pensar que é urgente pôr professores de verdade a mandar nas escolas deste país e acabar com tanta demagogia e tanto disparate, que apenas desmotiva quem dá a cara perante pais e alunos todos os dias.
Nessa tarde, parei junto à tal casa quando regressava à minha, e fui procurar o pintor. Alto, já queimado pelo sol, salpicado de tinta e com um sorriso de orelha a orelha, lá estava ele, e encolheu-se quando lhe estendi o braço, dizendo que tinha as mãos sujas de tinta. Nunca tive medo de apertar a mão a um homem de trabalho, disse-lhe eu, e juntámos as palmas com força. Quis saber da vida dele, quis saber se gostava do que fazia, quis saber do irmão, quis saber muita coisa, e estivemos uns dez minutos assim, até um colega de trabalho o chamar, antes que o patrão chateasse.
Fiquei a saber que andava feliz da vida. A escola não era para mim, aqui estou à minha vontade, apanho sol, ganho bom dinheiro, tenho tempo para ir tomar banho, jogar futebol e namorar. Resume-se a isto a teoria de vida daquele rapaz, que ainda vai a tempo de a reformular, mas não parece muito interessado nisso. Está feliz e, disse-me, o irmão também, pois anda igualmente na vida das pinturas. Fiquei feliz por eles.
De regresso ao carro, o pensamento foi lógico: estes rapazes se estivessem agora no 7º ano iam ser obrigados a estar na escola até ao 12º. Em vez de andarem felizes, iam estar na escola a atrapalhar a vida daqueles que realmente querem alguma coisa com os estudos e a infernizar a vida aos professores. O pior é que é exactamente isto que nos espera, daí que até se compreenda a desastrada tentativa ministerial de “despachar” alguns retardatários do 8º ano, a ver se eles libertam espaço nas escolas para caber toda a gente que vai ter de lá estar até aos 18 anos.
Deus nos acuda!

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