quarta-feira, 22 de novembro de 2006

27 - As minhas unhas levam quatro meses a crescer

Assim se vê como quem tem unhas é que toca viola...

Era dia 1 de Janeiro deste ano, e numa brincadeira com o meu cão fiquei com uma marca de sangue pisado por baixo de uma unha, mesmo naquele sítio que dói que se farta quando se arrancam as pelinhas… hoje, quatro meses e meio depois, cortei o último bocado de unha acastanhada que ainda me recordava esse momento. Hoje, oito anos depois, o Benfica volta a erguer um troféu futebolístico. Qual a relação entre estes dois acontecimentos? Lá chegaremos.
Nestes quatro meses, houve tempo para muita coisa: gente que se apaixonou, gente que se desamanhou, gente que roeu unhas e rangeu dentes quando a vida não correu pelo melhor, gente que nasceu, gente que morreu… Pois é. Ninguém ficou indiferente ao espectáculo desesperado da morte em campo de Miklos Fehèr, e nenhum benfiquista por esse mundo fora foi capaz de manter o sangue frio face à tragédia de Bruno Baião, com um futuro risonho à distância de um telefonema mortal.
Frente ao Sporting e ao Porto, a imagem das equipas reunidas em volta do círculo central foi mais forte do que tudo o que se pudesse dizer: enquanto os riscados estavam cada um por si, as camisolas cor de sangue, vida e morte estavam todas agrupadas num abraço a onze. Agora é fácil dizer isto, mas naquele momento tive a certeza de que a vitória no jogo seria vermelha, e amaldiçoei a minha consciência por não me ter deixado ir ao jogo.
Não sei por quê, mas sempre gostei de tomar o partido dos mais fracos. Quando jogo à bola gosto sempre de estar na equipa teoricamente mais fraca, dá-me mais gozo. Se as coisas correrem bem, é uma sensação óptima. Se correrem mal, paciência, os outros eram melhores e fizemos o que pudemos. E é aqui que está a chave da atitude que vi neste Benfica de final de época, mesmo que por vezes tenha sido uma equipa ansiosa e com um medo enorme de falhar: fazer sempre o melhor que se puder.
Aqui há alguns anos, num inquérito que ainda hoje está disponível em www.radioatlantida.net, à pergunta “qual o teu lema?” respondi simplesmente que era “fazer o melhor que puder em tudo aquilo que fizer”, daí que seja incapaz de me sentir satisfeito se sair do campo – seja ele qual for – sem ter dado tudo o que tinha, independentemente do resultado final. Foi isso que faltou ao meu gigante durante estes anos todos: atitude de querer sempre o melhor possível. Agora que ela está de volta, o mentor da revolução vai-se embora. Só um golpe de teatro impedirá Camacho de regressar ao seu clube do coração, e por isso lhe desejo toda a sorte do mundo, agradecendo-lhe a seriedade e o profissionalismo que veio trazer ao país do pontapé na chincha. O respeito que os portugueses lhe têm é consensual, e a prova é que não há jornalista que tenha coragem de se lhe dirigir de outra forma que não seja Senhor Camacho. Os jornalistas! Essa classe infame que tem um poder muito maior do que alguma vez deveria ter tido…
Nos quatro meses que me demorou a unha a crescer, eu sinto que cresci com ela. Com ela e com o meu Benfica! É que assim consigo explicar a tal relação entre o tempo que levou a unha a crescer e o tempo que o Benfica esteve sem ganhar nada. É simples: enquanto um miserável humano levou 136 dias para repor uma unhaca, a águia imortal precisou de oito anos para afiar as garras depois da poda que levaram naquela altura…
Moral da história: os clubes são sempre maiores do que os homens, e mais cedo ou mais tarde as coisas voltam aos seus devidos lugares.

Já agora: boa sorte para o Porto na final da Liga dos Campeões. Estou a torcer por eles.

26 - O meu sangue tem gasolina

Um devaneio de ocaisão quando não tinha mais que fazer mas tinha vontade de escrever. A paixão pelos motores a roncar... e o antecipar do meu primeiro rali na Terceira sem ter quaisquer responsabilidades, ao fim de dez anos de muito trabalho e de muito crescimento.

Eu já uma vez pedi ao analista que procurasse no meu sangue vestígios de gasolina, óleo de motor, valvulina ou outro líquido qualquer que se possa encontrar num carro, mas ele limitou-se a encolher os ombros e rir, como quem diz não me chateies que eu já tenho muito que fazer. Sei que é impossível as análises darem positivo, mas sempre era uma forma científica de poder explicar às pessoas o porquê de gostar tanto de tudo o que tenha motor e rodas, de preferência quatro.
Em casa sempre fui um extraterrestre neste sentido, e na rua tenho os meus amigos de sempre, que – esses sim – partilham a mesma paixão, em maior ou menor grau. Quando era miúdo, duas vezes por ano agarrava na bicicleta e subia a Fonte Faneca para ver passar os carros do rali. Eram os tempos do Joaquim do Carmo e do José Eduardo, do eterno Horácio Franco com o Mazda 323, e do meu preferido de então, Manuel Grade. Andava mais para os lados que para a frente, e fazia-me pensar como seria possível fazer aquilo com um carro sem andar a esborralhar paredes todo o caminho...
Ainda nem carta de condução tinha e já fazia parte da organização dos ralis, onde me mantive durante dez anos e de onde saí por entre lágrimas que nunca encontraram a porta, amarradas que estavam ao nó cego que sentia na garganta. Agora, a menos de duas semanas de mais um rali, ainda não sei bem o que fazer. Nunca vi um rali a sério na minha própria terra nem na dos outros, uma vez que me envolvi desde muito cedo nas reportagens das provas motorizadas, fosse em serviço para rádios ou jornais. A bem dizer, esta é a primeira vez que vou para o rali quase sem preocupações. Estou em casa, tenho o meu carro e, mesmo tendo a reportagem para escrever, vou para a estrada descansado e de cabeça limpa, o que há algum tempo atrás seria absolutamente impensável.
Voltando ao princípio, não sei como nem porque me apaixonei por este mundo. Faço trabalhos sobre ralis ou sobre novos modelos de carros com um gosto e uma alegria que não consigo explicar por palavras, as mesmas palavras que me faltam para transmitir as razões que me levaram a experimentar as emoções fortes do todo-o-terreno (é mais barato e mais seguro que os ralis, e dá um gozo tremendo...). E acredite quando digo que não foram poucas as vezes em que até me sentia culpado por me pagarem para fazer uma coisa de que tanto gosto...
Cheguei à Terceira na sexta-feira, e nesse mesmo dia estive até às duas da manhã à volta de um carro de rali que em quatro horas passou de monte de sucata que não queria trabalhar a espectáculo na estrada. Vi os carburadores a serem desentupidos, as válvulas a serem afinadas, e ouvi o som do motor passar de uma coisa parecida com uma máquina de fazer pipocas a um ronco grave e abafado que enche a alma e faz estremecer as unhas. Mais do que isso, senti na estrada a força de uma traseira que teimava em não se manter direita, e de cada vez que o pé direito do piloto ia abaixo era a minha pulsação que ia acima.
O meu sangue até pode não ter gasolina, mas naqueles momentos de adrenalina fiquei com a sensação de que o meu coração tinha dezasseis válvulas e o meu cérebro era um turbo. Quanto às unhas, podem ficar como controlo de tracção...

25 - Peço desculpa

Quando comecei a escrever estas crónicas nunca pensei que as pessoas realmente as lessem, mas foi a partir do momento em que comecei a ter reacções ao que escrevia que percebi que não o fazia para o boneco, como se costuma dizer. Tive a grata surpresa de entender - e a partir deste momento ainda mais - que tocava no coração de muita gente, e agora, no momento presente, começo a interrogar-me sobre as razões que me levaram a não escrever nada deste tipo desde março de 2006, quando mudei de jornal em termos... jornalísticos. Quando souber a resposta eu escrevo.

As últimas duas semanas marcaram-me profundamente enquanto pessoa que gosta de escrever e que tem a sorte de ver os seus artigos publicados num jornal com a credibilidade e o capital de confiança que tem A União. Nunca me passou pela cabeça que houvesse alguém que se desse ao trabalho de procurar por aquilo que escrevo, e muito menos de guardar para recordação ou tirar fotocópias para mostrar aos outros. Nunca! No entanto...
Fui surpreendido em três ocasiões distintas, duas delas ainda nas Flores, por pessoas que me perguntaram se nunca mais tinha escrito nada, pois já há tempos que não liam nada meu. Chegaram a perguntar se me tinha zangado com o jornal, imagine-se! Pois bem, não me zanguei, e conto hoje a todos quantos têm a gentileza de me ler um segredo que agora deixa de o ser: escrever é doloroso.
Quase sempre que escrevo uma crónica é porque algo dentro de mim deu sinal, é porque há uma inquietação que puxa pelas coisas da alma e me põe o coração nas pontas dos dedos. Exponho-me aos olhos do público de uma forma conscientemente inconsciente que até já trouxe dissabores bem grandes, que me acabaram com dez anos de história de vida. Mas isso agora não interessa para nada.
O estado de espírito é fundamental para que tenha vontade de escrever, e quanto mais triste estiver mais fácil se torna. É um pouco como estar apaixonado: as ideias fervilham na cabeça sem que as consigamos pôr em ordem, e quando menos se espera há aquele “clic” que coloca tudo no seu lugar e a vida começa a fazer sentido. Escrever é um bocado isso, é falar com o papel e esperar que ele nos devolva as respostas que procuramos, mesmo que surjam pelas nossas próprias mãos. Neste momento, por exemplo, apetece-me agradecer às pessoas as perguntas que fizeram, agradecer por lerem, agradecer por me fazerem ver que em cada um de nós existe um escritor adormecido que retira do que lê um sentido diferente daquele que se pretendeu passar ao papel, um sentido pessoal, como se aquilo que alguém escreveu pudesse ser – ou não – aplicado à vida de muitas outras pessoas. Apetece-me agradecer, mas também pedir desculpa...
Pedir desculpa é para muita gente algo que custa muito, mas para mim não custa nada. Se reconheço um erro, admito-o e faço a mais natural das coisas: peço desculpa. Por isso escrevo isto hoje, para pedir desculpa a quem achou que estive tempo demais sem escrever uma linha, a quem, sem saber, habituei com as minhas reflexões pessoais, com as minhas memórias, alegrias, tristezas e comentários ao quotidiano de um Eterno Estudante que não se limita a olhar passivamente o mundo.
Peço desculpa, mas é que escrever dói... e muito!

24 - O portão verde

Novamente as memórias da minha infância. Penso que este texto dispensa mais explicações, a não ser esta: a urbana é o nome que por cá se dá ao autocarro...

Em frente da minha casa há um portão que já foi verde. Em boa verdade, ainda é, mas a erosão do tempo também passou por ele, e hoje mais parece um velhote que só se equilibra à custa das muletas que lhe foram sendo pregadas pelas partidas da vida. Não sei a idade do portão, mas não me surpreenderia se fosse a minha…
Cresci a olhar para o portão verde, pois era a primeira coisa que via quando saía de casa para ir à escola, e era a primeira coisa em que pensava quando regressava a casa. Não porque o portão fosse assim tão bonito ou tão feio que chamasse a atenção de quem por ele passava, mas porque durante muitos anos aquele portão foi a baliza de intermináveis jogos de futebol entre a rapaziada da parte de cima da freguesia. O som das muitas bolas que por ali passaram a bater contra a sua madeira forte é algo que está gravado nos meus ficheiros de memória que nunca serão apagados, onde guardo também as tardes de glória ali passadas a desfazer sapatilhas Ritex, que naquela altura sapatilhas a sério eram só para quem tinha dólares para gastar na base dos americanos.
Não tinha nada que saber: mochilas para casa, sapatilhas para os pés, e bola para a rua. Às vezes nem de roupa se trocava para não se perder muito tempo, o que resultava invariavelmente em ralhetes das mães que, aflitas, viam em risco as roupinhas de ir à escola que tanto dinheiro tinham custado a ganhar. De quando em vez, lá ia a bola por cima da barra – que neste caso era (e é) uma trave de madeira dura e grossa como os cornos de um toiro do José Albino – e lá ia o pé torto atrás dela, o que não era tão simples como isso, pois o portão estava fechado e o muro mais baixo tinha quase dois metros de altura. Para quem tinha dez ou doze anos, era uma montanha…
Casas à volta, a bem dizer, só a minha, pois as outras já ficavam fora da grande área. Quando era preciso alargar o campo, ia-se para os lados da venda, e não foram poucas as vezes em que a bola vendeu rebuçados, pois era preciso disfarçar o descuido… Vidros à volta eram, pois, mais que muitos, mas nunca partimos um que fosse. Parece mentira, mas é verdade. Não me lembro sequer de termos partido fosse o que fosse nas centenas de horas que ali jogámos futebol, nem sequer os vidros da casa em ruínas que estava mesmo ali ao lado.
Curiosa, essa casa. Só lhe conheci um habitante, e depois da sua morte a casa como que morreu a seguir. Só sei que saí de casa um dia de manhã para ir para a escola e me abriguei da chuva escondido no seu portão enquanto não chegava a urbana. Quando regressei, a casa já lá não estava. Tinha sido demolida, pois ameaçava desmoronar-se mais dia menos dia. Foi uma sensação estranha a princípio, mas para a malta do futebol foi uma bênção! Sem aquele vulto enorme a fazer sombra, o nosso estádio parecia maior, e sempre eram uns metros a mais para dar pontapés.
Todos crescemos, e o velho portão verde foi perdendo importância. Chegámos a passar para o interior do que ele escondia para lá fazermos uma baliza como deve ser, pois a força dos pontapés também cresceu connosco, e chegávamos a rematar da estrada com o portão aberto. Foi num desses dias que nasceu um guarda-redes que havia de ficar conhecido por ter nome de mulher, quando o treinador o viu fazer meia dúzia de defesas vistosas à minha famosa biqueira do pé direito…
Hoje já ninguém joga futebol no largo e já não se usa o portão verde como baliza. Ele lá está, de portas amarradas, como que a avisar para não mexerem muito com ele, que já não aguenta muitos baldões. A canalha hoje em dia é outra, usa brinquinhos na orelha e imita os mafiosos americanos que viu nos filmes que nunca devia ter visto. A bola foi substituída pela má-criação de mostrar o cú às vizinhas, que se indignam e com razão. O portão verde, testemunha de tantas palmadas bem dadas e por razões muito menores, observa impotente estas crianças demoníacas e chora por nós. Chora pelo regresso dos rapazes que só queriam jogar futebol e andar de bicicleta.
Nunca chegarás ao museu, portão verde, mas nunca serás esquecido…

23 - Lágrimas por Fehér

Miklos Fehér foi um jogador de futebol com tudo para ser bom, um ponta-de-lança que tinha um largo futuro à sua frente, até porque jogava no Benfica, o maior clube português e um dos maiores do mundo. Numa noite fria em Guimarães, viu um cartão amarelo, sorriu para o árbitro e caiu morto. Eu assisti a tudo em directo pela televisão, na minha casa nas Flores. Eu e o meu colega Merêncio ficámos sem saber o que dizer, e a mim só me apeteceu escrever...

Sinceramente, não sei o que dizer. Contradição estranha para quem acaba de começar a escrever um texto, mas é a mais pura verdade. Acabo de ouvir a confirmação da morte de Miklos Fehér, um jogador de futebol com apenas 24 anos e um futuro promissor à sua frente. Assisti a tudo na primeira fila em que se transformou a televisão, e partilhei com a equipa cada segundo de sofrimento, bem visível nas expressões de cada um deles…
Tão cedo não vou esquecer os gritos de Tiago, com as mãos agarradas à cabeça, a expressão inconsolável de Bossio, o choro convulsivo de Pepe Carcelén e, muito especialmente, as lágrimas de Camacho. O homem da cara de pedra chorou como nunca imaginei ser possível, como quem sabe que viu um filho às portas da morte. Não esquecerei tão depressa a lição de humanidade dada pelos jogadores e pelo público de Guimarães, a gritar em uníssono o nome do infeliz jogador que veio da Hungria tentar a sorte em Portugal.
Por uma vez, pude ver num estádio de futebol os mais básicos valores da condição humana em plena harmonia, com treze mil pessoas esquecidas da razão que ali as levava e com um único pensamento em mente, a recuperação do jogador. Pude ver o sentimento de solidariedade, pude ver que sim, é verdade que os homens também choram, e pude ver e ouvir duas coisas que não queria ter visto nem ouvido: a primeira é que estamos mesmo mal servidos de jornalistas, e a segunda é que as coincidências, o destino, ou lá o que lhe queiram chamar, existem.
Não consigo transmitir a raiva que sinto pela ânsia cega de “informar” que levou supostos profissionais de comunicação social a colocar em causa a forma como o jogador foi assistido ainda com ele estendido no relvado. Que sanha assassina é esta que leva a colocar primeiro uma eventual falha na organização dos meios médicos e só depois o olhar sobre aquilo que de facto estava a acontecer? Pareceu-me claro que estavam quase todos mais interessados em arranjar mais uma polémica em nome do Euro 2004 (raios o partam!) do que em ver Fehér levantar-se e sair pelo próprio pé. Ainda estava o homem na sala de reanimação do hospital e já a rádio entrevistava o presidente da comissão parlamentar de acompanhamento do Euro 2004 e perguntava-lhe se ia ordenar a abertura de um inquérito. Um inquérito a quê? O homem tinha acabado de dizer que estava em viagem, que não tinha visto imagens de nada, ia mandar inquirir o quê?
Se a estupidez matasse, Fehér ainda estava vivo e a comunicação social de luto…
Valha-nos a lucidez de dois homens de quem até nem sou grande admirador: Valentim Loureiro e Pimenta Machado. Ambos deram um banho de “chá” aos seus entrevistadores, dizendo claramente que a hora não era de pensar em tolices, mas sim de rezar, rezar fervorosamente. O troféu da dignidade jornalística vai, no entanto, direitinho para Miguel Prates, o pivot da emissão da SportTV, que disse mais ou menos isto: “…imagens essas que pudemos ver em directo e que não iremos repetir por não acrescentarem nada à trágica situação que se vive neste momento em Guimarães.” Decência, dignidade e profissionalismo ao mais alto nível, numa atitude cada vez mais rara.
Quanto às coincidências… até me arrepio quando penso nisto, mas cá vai: Fehér não jogava há mais de um mês, se a memória não me falha, e se Nuno Gomes não se tem lesionado quase de certeza que hoje também não jogaria. Teria ficado sentado no banco a sofrer por fora, e quase de certeza que neste momento estaria já sentado em casa a rogar pragas a Camacho por não o pôr a jogar…
Quanto a si, não sei, mas o que vi hoje mudou algo em mim: vou passar a dizer mais vezes aquilo que sinto, para o bem e para o mal. Não quero que chegue o dia em que lamente não ter dito “amo-te”ou “odeio-te”. Viver na economia e no conforto de se “saber” que amanhã se há-de fazer o que hoje ficou para trás, decididamente, vai fazer cada vez menos parte do meu dia-a-dia. Convido-o a fazer o mesmo.
Até um dia, Fehér.

sábado, 11 de novembro de 2006

22 - A Isabel pediu, a Isabel tem

Pois é, já muita água correu desde que escrevi esta crónica, e a Isabel já não faz parte das "bicicletas" mas nem por isso deixou de ser minha amiga. Gosto dela à mesma, e fico satisfeito por vê-la feliz.

A Isabel entrou na minha vida porque é namorada de um dos meus melhores amigos, por quem eu ponho as mãos no fogo de olhos fechados, e faz o favor de ler estas coisas que eu escrevo e o jornal publica. Ela diz que gosta, e no dia de correr os meninos do nosso pessoal perguntou-me quando é que eu lhe escrevia uma crónica...
Não costumo escrever a pedido, mas achei graça à “encomenda” e aceitei o desafio, só que... não sei o que escrever! Se disser que gosto dela estarei a dizer uma coisa que ela já sabe, e a arriscar ouvir uma boca do namorado, daquelas que só ele sabe mandar... coisas do tipo “não escreves para as tuas vais escrever para as dos outros?”... Se contar como me lembro do dia em que fomos apresentados, ela já sabe, mas o resto do mundo não. E até tem graça, a historieta, pois tivemos de ser apresentados duas vezes, pois da primeira vez não havia luz...
Depois de um exagerado jantar ali para os lados da Praia, a viagem para Angra serviu para experimentar a genica de um certo Fiat Cinquecento amarelo, que na altura tinha menos de um dia ao serviço da nossa malta. A paragem na Tertúlia era obrigatória, ou não estivesse “ela” lá à espera “dele”. Eu, como andava emigrado para São Miguel, ainda não a conhecia, e ainda tive de esperar mais um dia para lhe ver o narizinho... é que mal entrámos na Tertúlia faltou a luz, e lá demos os dois beijinhos da praxe, mas reconhecê-la depois disso só se fosse pelo cheiro...
Depois disso, a confirmação de que aquela miúda tinha qualquer coisa de especial, que levou à sua plena integração e aceitação do “pessoal”, dos “bandidos”, dos “padaços de tolo” e das suas “bicicletas”. Até hoje. Do casamento nem se fala ainda, se bem que os piropos se façam ouvir de vez em quando. Eu cá, como tenho telhados de vidro na matéria, nem falo no assunto, mas os outros, que já se acasalaram, não perdem a oportunidade de perguntar quando é que vamos comer umas sopas de graça...
Acho piada à maneira como ela se assusta por tudo e por nada. Com baratas então nem se fala, mas nesse particular é ela e metade das mulheres do mundo... e alguns homens, também. Se calhar ela não sabe, mas um dos “padaços” tem tanto medo daqueles bicharocos que uma vez se recusou a abrir o portão de casa enquanto não virássemos para lá os faróis, pois julgava ter visto uma na maçaneta...
Uma coisa é certa: ela bem gostava de saber o porquê de gostarmos tanto dos almoços da Sexta-feira... ela e as outras “bicicletas” todas, mas esse é um segredo só nosso. Não é bem o Clube do Bolinha, com a tabuleta à porta a dizer “menina não entra”, mas é parecido...
Já viste, Isabel? Quando comecei a escrever não sabia o que dizer, e se calhar até não disse nada de jeito, mas paciência. A crónica é tua...

21 - A importância de uma rajada de vento

Uma rajada de vento é a coisa mais natural deste mundo, e raras vezes é capaz de assustar alguém, mas há situações em que até mesmo uma rajada dá que pensar. As pequenas coisas da vida assumem proporções alarmantes quando colocadas num determinado contexto...

Há coisas na vida em que nem sequer pensamos, por nos parecerem tão normais e naturais que as consideramos garantidas. Quando é que, na Terceira, alguém vai a um supermercado a pensar se há ou não cebolas ou batatas na prateleira? Quem é que tem a preocupação de comprar iogurtes enquanto os há? Quem se preocupa em encomendar bifes para o jantar de domingo? Quem se preocupa se o avião levanta ou não? Pois é… pura e simplesmente vamos lá e compramos o que precisamos, e quanto aos aviões, só mesmo se houver um temporal dos diabos!
A ocidente as coisas não são bem assim, e com a chegada do Inverno estas preocupações sobem de tom, por nunca se saber se a força dos temporais atlânticos irá fazer das suas e deixar prateleiras vazias, passageiros em terra, e por aí fora. Pequenas coisas absolutamente vulgares em outros sítios assumem aqui proporções assustadoras e reveladoras de um estado de espírito permanentemente inquieto, algo que nem a força da habituação consegue contrariar. Aqui toda a gente sabe para que lado é o norte e o sul e sabem dizer sem pestanejar de que direcção vem o vento e se é bom ou mau para os aviões, por exemplo.
A aventura da equipa de futebol do Operário no passado sábado foi apenas mais um dos muitos episódios coloridos da complicada acessibilidade à ilha das Flores em dias de tempo menos bom, e despertou em muita gente a angústia adormecida e uma prece que nunca em dias de minha vida sonhei ouvir com tanto fervor: Oxalá faça bom tempo no dia tal. Curiosamente, quem costuma andar de avião nem estranhou os “balanços” de sábado. Conheço alguém que vinha nesse voo, só cá chegou na segunda-feira (aterrou à terceira tentativa), e quando lhe perguntei se a viagem tinha sido mesmo má, respondeu com a maior naturalidade que “nem por isso, eu cá já estou habituada”.
A memória do acidente de há quatro anos continua bem viva no subconsciente de todos, e claro que ninguém quer que se repita, mas nos Açores toda a gente já aprendeu a viver com as fatalidades do destino. Se não forem os terramotos são as tempestades, se não for a terra a tremer é o vento a levantar telhas, mas tudo se há-de arranjar…
Numa altura em que muita gente está de malas aviadas para passar o Natal em casa, a preocupação com a meteorologia cresce, e é ver a preocupação com que se acompanham as previsões na RTP Açores, ou se vai à internet ver como vai estar o tempo no fim-de-semana. Por mim, quem me conhece sabe que só me preocupo com aquilo que posso controlar, mas não nego que fico pior do que estragado (quem não fica?) se ficar em terra mais um dia ou dois. Não é tanto pelo cancelamento (antes não voar do que ir a chocalhar pelo céu fora!), mas porque simplesmente odeio estar em aeroportos, apesar de gostar de andar de avião, e abomino a forma como os passageiros são muitas vezes tratados como gado.
Na sexta-feira feira de manhã, quando acordar, a primeira coisa que vou fazer é olhar pela janela e ver se as canas mexem com o vento. Se estiverem dobradas para o lado do mar, bem posso voltar ao calor dos lençóis, pois é sinal de que o vento vem da América e empurra o ATP de volta para o Faial… e se estiverem a abanar sem direcção definida o melhor é olhar para o outro lado, não vá o diabo tecê-las e acontecer, como dizia um padre que eu cá sei, que o milho esteja a mexer sem fazer vento…

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

20 - O Parque Atlântico e os cartões do BX

O Parque Atlântico é um centro comercial em São Miguel. O BX (Base Exchange) é o centro comercial dos americanos dentro da Base das Lajes. no primeiro todos podem entrar desde que tenham dinheiro. No segundo todos podem entrar desde que tenham cartão. O primeiro fez estragos em todo o comércio micaelense, que não teve outro remédio a não ser trabalhar melhor. O segundo fez estragos no ego dos comerciantes terceirenses, que preferem protestar em vez de arregaçar as mangas...

Estive um ano e três meses, mais coisa menos coisa, sem ir a São Miguel, e já tinha saudades da terra da pimenta e do nanás. Quando fui estudar para lá nunca pensei ver chegar o dia em que iria admitir sentir tal coisa, mas a verdade é que a universidade é uma experiência que marca qualquer um, e a mim deixou boas recordações. Nunca perdi o contacto com os bons amigos que por lá fiz, e sinto-me feliz por isso, pois alguns deles ainda estão por lá (o curso é para se ir fazendo…) e é sempre um prazer revê-los.
São Miguel – ou melhor, Ponta Delgada e arredores – mudou muito nos últimos anos. Em 94, quando fui para lá, a pseudo-capital era à noite uma cidade fantasma, sem ninguém na rua a não ser os sem-abrigo, e as raparigas tinham medo de andar sem companhia depois da hora do recolher das galinhas. Hoje isso mudou, principalmente de Verão, graças às muitas esplanadas e bares que abriram na avenida marginal, à imagem e semelhança do que já em Angra acontecia. Para além disso, a maior diferença que notei entre São Miguel e a Terceira foi a forma como se trabalhava…
Em São Miguel não se trabalha mais do que na Terceira, mas trabalha-se melhor. A mentalidade em termos de qualidade do serviço (ainda) está mais desenvolvida, fruto da enorme concorrência que se faz sentir a todos os níveis, e quem ganha com isso é o público consumidor de bens e serviços. Aprendi a trabalhar lá, com uma mentalidade voltada para fazer melhor que a empresa do lado, e por isso quando entrei no mundo do trabalho na Terceira estranhei muito a ligeireza com que se encaram certas coisas. Nunca mais me esqueço do dia em que um trabalho que em São Miguel levava meia hora para ficar bem feito foi dado como concluído em três minutos, mesmo comigo a dizer que podia fazer melhor. “Está bem bom assim” – foi a resposta que ouvi.
Vem isto a propósito da tal visita que lá fiz recentemente, com paragem obrigatória no Parque Atlântico, o novo centro comercial. Não é o Colombo de Lisboa nem nada que se pareça, mas é bonito, parece bem construído, tem lojas para todos os gostos, e atrai multidões. Estava cheio no sábado à tarde, estava cheio no domingo ao almoço, estava cheio na segunda à noite, e cheio estava na terça de manhã. Na baixa de Ponta Delgada, muitos comerciantes assobiavam para o ar à porta da loja… o impacto da abertura ainda se fazia sentir, e o efeito novidade fez mossa no dito comércio tradicional, e vai fazer mossa neste Natal, mas depois as coisas voltam a equilibrar-se, e os comerciantes têm a noção disso. Já sobreviveram à abertura de um centro comercial e de dois hipers, e sabem que daqui a um ano ainda vão estar de porta aberta, o mesmo já não se podendo dizer de algumas lojas do tal centro comercial novo, pelo menos a julgar pelo que me foi dado ver.
O povo vai à loja do costume se for bem atendido e não for roubado no preço, coisas em que São Miguel está a anos-luz da Terceira. Só para tirar a prova, entrei numa ourivesaria a perguntar se ainda teriam um relógio da marca X, com determinadas características. Eu explico: perdi há um ano e meio um relógio que adorava e que tinha comprado naquela mesma ourivesaria há sete anos. O funcionário (que nunca me tinha visto mais gordo) ouviu, foi buscar um catálogo da marca, e pediu-me que tentasse identificar o tal relógio ou um parecido. Encontrei exactamente o que queria, apontei-o, e foi-me pedido para esperar dois minutos. Três minutos e meio depois o homem estava de volta com um relógio quase igual. O mesmo desenho, mas com números no mostrador, coisa de que não gosto particularmente. Agradeci muito, expliquei-lhe o porquê de não o comprar, e fui despedido com um “obrigado pela sua visita, estamos sempre às ordens”, dito com toda a simpatia e com o sotaque que todos conhecemos. Estão a ver isto a acontecer na Terceira? Nem sempre…
Na semana passada li que os comerciantes da Terceira ficaram chateados com o alegado exagero na distribuição de convites para fazer compras no BX americano, lembrei-me da história que acabei de contar, e deu-me vontade de rir. Os americanos, tirando as Levi’s, as bicicletas e as Cheez Curls (que são a minha perdição), não vendem lá nada que não exista cá fora. Mais: temos cá fora melhor do que eles lá dentro, ainda que lhes custe a admitir isso. Há muito quem vá ao BX mas é por vaidade e para fazer inveja ao vizinho…
Eu quando posso também vou lá, atenção! Da última vez, comprei Cheez Curls, pilhas recarregáveis (cá fora o preço é um exagero!), dois pares de calças de ganga, um six-pack de DrPepper, e duas revistas americanas. À saída, um militar de vistas curtas obrigou-me a voltar atrás porque a funcionária tinha posto o carimbo no sítio errado, e fez-me prometer que se o apanhasse fora da passadeira lhe passava por cima… No dia seguinte fui às compras em Angra e comprei uma camisa, um cinto e outras coisas sem importância.
Vale a pena ir à base? Hoje já nem tanto, mas enquanto os comerciantes não deixarem de choraminguices parvas e começarem a trabalhar como deve ser, não vão longe. O Parque Atlântico vai dar uma “pancada” enorme nas contas de fim de ano do comércio micaelense, muito maior do que os passes do BX, e ninguém ouve os comerciantes de lá a chorar pelos cantos…
A crise até pode existir, mas nós é que a fazemos…

19 - A nódoa que é a SATA

A SATA, para quem não sabe, é a Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, a única companhia aérea que faz ligações inter-ilhas. Mais cedo ou mais tarde todos os açorianos precisam dela, e quando a coisa correbem, corre bem, mas quando corre mal...

Completam-se daqui a uns dias nove anos desde que me tornei passageiro frequente da SATA, e como desde então já andei de avião azul e branco mais de cem vezes, tenho muitas histórias para contar, qual delas a melhor. Podia contar aqui a história do dia em que cheguei ao aeroporto à hora indicada só para descobrir que tinham antecipado o voo e avisado todos os passageiros excepto um (adivinhem qual...), mas esta semana arranjei uma muito melhor. E é para contar aos netos...
Por motivos familiares, necessitei de ir das Flores a São Miguel, optando por parar depois uma noite na Terceira, para cortar o cabelo e outras coisas que não são para aqui chamadas, regressando depois às Flores. Partida na sexta, chegada na quarta. Simples, não é? Errado! Chegado ao aeroporto das Lajes na quarta-feira para fazer o check-in, e sabendo já que nas Flores só por milagre aterraria um avião naquele dia, tal era o mau tempo, expus à menina do balcão a situação, dizendo que seria escusado ir ao Faial, e perguntei se não era possível passar-me a declaração de voo cancelado para justificar as faltas ao serviço. Com pouca paciência para me aturar, a menina despachou-me com um seco “para fazer isso só no Faial porque daqui para lá o senhor vai de certeza e só lá é que sabe que cancela”. Esclareça-se que nesta altura já eu tinha telefonado para as Flores e falado com alguém ligado à aviação, que me tinha dito que o vento estava com rajadas de 120 km/h a cruzar a pista... E fiz questão de dizer isso à menina!
Resignado, preparei-me para ir ao Faial buscar uma folha de papel e voltar para trás pelo mesmo caminho, pois havia um voo para a Terceira naquela tarde. A SATA havia de me transportar de graça, como era sua obrigação, pensei eu...
Chegado ao Faial, a primeira coisa que fiz foi dirigir-me ao balcão e pedir a tal declaração, pois a primeira coisa que nos disseram foi que o voo para as Flores estava cancelado. Foi-me passada com toda a rapidez e simpatia, e de imediato me fizeram a reserva para voltar dali a pouco à Terceira. Mal sabia eu...
Por razões que não cheguei a entender, o voo para a Terceira acabou por ser cancelado (talvez a explicação esteja no facto de só ter contado onze passageiros...) e tive de encontrar um sítio para passar a noite em terra estranha, por minha conta, é claro. No dia seguinte, de regresso ao aeroporto, novo cancelamento do voo para as Flores e, como o avião que ia às Flores era o avião que ia para a Terceira, nem voo para a Terceira houve, só para São Miguel. Se isto já me rebentou com os nervos, imaginem como fiquei quando soube que a um dos meus companheiros de viagem tinha sido dito no balcão do check-in da Terceira que se não quisesse não fosse para o Faial, pois não haveria voo para as Flores. E isto aconteceu, segundo ele, quinze minutos antes de eu chegar ao balcão! Garanto-vos que se apanho a tal menina à minha frente nessa altura...
Mais um táxi, mais uma noite no Faial, com ordens para estar no aeroporto às 12:40 de sexta-feira. Às 12:30 já eu estava lá, para descobrir, com surpresa, que de manhã já por ali tinham passado dois aviões com destino às Flores. Perguntei por que razão não me tinham informado, e disseram-me que não havia lugar para todos e que os passageiros que tinham aparecido de manhã tinham conseguido viajar. Quando olhei bem em volta e vi quem é que faltava, pegou-me o fogo! Já me tinham dito que o aeroporto da Horta era palco de muitos compadrios, mas o que constatei e confirmei rebentou a escala! Tinham inclusivamente contactado passageiros retidos da quinta-feira, quando eu e outros, incluindo uma senhora de idade numa situação particularmente delicada, estávamos retidos desde a quarta-feira. Apetece chamar uns nomes feios, não é?
Mas pronto, dali a bocado já estaríamos todos nas Flores e tudo se esqueceria com um duche e uma boa noite de sono, até os quase 100 euros que a brincadeira já me tinha custado. Maravilha das maravilhas, chegou o voo das Flores, e de imediato se ouviu o sinal do microfone. Quando toda a gente esperava “passageiros para as Flores é favor dirigirem-se à sala de embarque”, ouviu-se “a SATA informa que o voo não-sei-das-quantas com destino às Flores foi cancelado devido às condições meteorológicas”. A primeira coisa que fiz antes de reclamar foi telefonar para as Flores, só para me dizerem que o tempo estava igual ao que tinha estado de manhã...
Tudo somado, era nesta altura que eu devia começar a refilar e a ameaçar partir a tasca toda, que aquilo era uma vergonha, e por aí fora, como de resto começaram a fazer os outros, certo? Mas não. Fui direito ao balcão, olhei a menina bem nos olhos e disse-lhe que queria regressar à Terceira, por conta da SATA, o mais depressa possível. Ela ainda pestanejou e deu uns solavancos à volta do computador, mas tudo se resolveu e ainda acabaram a mandar parar o Dornier para eu ter tempo de chegar a ele. Quando entrei, até me parecia mentira!
Claro está que a intenção era ir no sábado para as Flores, por isso assim que cheguei à pátria fui direito ao balcão para resolver tudo. Fui atendido com prontidão e eficácia, é certo, mas devo ter ficado com cara de parvo quando me disseram que só podia ir para as Flores na TERÇA-FEIRA, pois o senhor apressou-se a explicar que o horário do voo Terceira-Horta de sábado não é compatível com a escala do voo Ponta Delgada-Horta-Flores, o mesmo acontecendo à segunda-feira. Como ao Domingo não há voos para as Flores, o resto é simples...
Isto é um escândalo! Que raio de política aérea é esta, que raio de descoordenação é esta que me OBRIGA a esperar quatro dias por uma viagem inter-ilhas, quando na ilha de destino só ao Domingo não há escalas? Lá no fundo até agradeço as férias forçadas, mas a verdade é que isto prejudica-me a mim, prejudica o meu trabalho, prejudica as pessoas que comigo trabalham, prejudica muita gente. A cada dia que passo nas Flores, apercebo-me de que o tão badalado isolamento é mais político do que outra coisa qualquer, e começo a ficar chocado com a forma como os florentinos se entregam a estas situações como se tudo fosse definitivo, mandado por Deus. Ele não dorme, todos sabemos, mas às vezes parece que está distraído...
Será que lá do alto dos céus não se arranja um tira-nódoas?

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

18 - As inquietações à volta de um rali

Foi por causa desta crónica que me abriram a porta de saída do Terceira Automóvel Clube. Um grupo de energúmenos que não sabem ler achou que eu estava a pô-los em causa e a dizer que me queria ir embora. Só quem não me conhece para achar uma barbaridade dessas, mas tudo bem, saí sem levantar ondas, mas o tempo veio dar-me razão. Já fui convidado para voltar pelos mesmo que me puseram fora, mas gosto muito da minha nova vida e não vou abdicar dela nos tempos mais próximos. Deus não dorme...

É meia noite e vinte e cinco de quinta para sexta-feira. Cheguei a casa há pouco mais de meia hora, vindo do TAC. Estive desde as dez da manhã a trabalhar para o rali. O shake down correu bem, graças a Deus, mas ao fim de três horas já não podia ver carros à minha frente. Estou sujo, cansado, mas “acelerado” demais para conseguir dormir. O computador estava ligado, e comecei a escrever.
Há mais de um mês que o Eterno Estudante não escreve nas páginas da União, pois está de férias. O Jorge Silva sim, esse já escreveu umas quantas reportagens desde que chegou à Terceira, e já está farto de trabalhar para o rali desde que chegou. O trabalho de coordenar a segurança do rali está a ser mais extenuante que nunca, pois foi “reforçado” com trabalho extra em áreas que normalmente são tratadas por outros, e já não vejo a hora de recomeçar a trabalhar, de voltar a dar aulas. Longe de casa, infelizmente, mas a lei dos concursos assim o ditou.
Provavelmente, este texto vai ser publicado no dia do rali, que este ano até é sábado da Serreta, uma coincidência infeliz contra a qual não houve nada a fazer, mas estou convencido de que tudo irá correr bem.
Desde o dia 1 que estou requisitado para trabalhar no rali, e é isso que tenho feito, mas não consigo deixar de pensar naquele que é o meu trabalho verdadeiro, para o qual também já comecei a preparar coisas, mas... não é a mesma coisa. Sei que estou numa situação perfeitamente legal, devidamente autorizada por quem de direito, e tudo o mais, mas não consigo deixar de ter algum medo... vivemos numa época hipócrita em que não basta ser sério, é preciso parecê-lo, e com o início do ano lectivo não tarda nada regressa a cantilena dos professores de fora das ilhas, que passam a vida a faltar, etc. e tal e por aí fora. Eles existem, sejam açorianos ou do continente, disso ninguém tenha dúvidas, o problema é que se geram situações por esse arquipélago fora em que os justos apanham por tabela dos pecadores, e é isso que me faz confusão.
Uma colega minha, mais experiente nestas andanças, disse-me um dia que até já tinha medo de ficar doente, e essa conversa ficou a bailar-me na cabeça até hoje, e há-de continuar. Não há uma solução fácil para o problema, até porque, como já tive ocasião de escrever, há sempre o factor humano, com razões por vezes profundas que ultrapassam aquilo que está à vista, daí que me permito a ousadia de colocar a bola do lado de quem manda nas escolas. Não do governo, mas dos conselhos executivos. Quem melhor que os dirigentes que lidam com os professores diariamente pode saber aquilo que tem pela frente?
Está bom de ver que o que acabo de escrever não é pacífico, pois implica tomar decisões perante outros colegas, decisões essas que podem até gerar alguma controvérsia inicial, mas se o poder for exercido com imparcialidade, justiça, inteligência e transparência, poucos ou nenhuns serão aqueles a ter razão de queixa.
Estas preocupações todas já me levaram por várias vezes a considerar o abandono das funções que desempenho na organização dos ralis, mas acabo sempre por pensar que não estou a fazer nada de errado, e quem tiver dúvidas basta perguntar, que as respostas são rápidas e claras, pois nada é feito por trás das costas. Tenho a consciência limpa, e isso é que conta. Já me passou pela cabeça que na realidade estou é cansado de dez anos consecutivos no TAC, quatro deles com funções de comando na área desportiva. Nunca vi um rali na minha terra, e talvez seja hora de mudar isso... há dez anos eu só sabia que o troço da Fonte Faneca começava um quilómetro mais acima da minha casa, e gostava de ver os carros a arrancar; hoje, bem... hoje estou como o avôzinho do anúncio dos caramelos: imagino os ralis para os dar ao meu “neto” que olha para os carros com olhar sonhador, pois “ele também é alguém muito especial”. “Ele” é o rapaz que chegou ao pé de mim no fim do shake down e perguntou, com a cara mais triste deste mundo “Eh senhô! O rali já acabou?”
Não farei parte da organização de mais rali nenhum a pensar nos pilotos ou noutro figurão qualquer que queira “aparecer”. Se fizer parte de mais alguma organização será para que todos aqueles que verdadeiramente gostam de ralis possam ir para a estrada sem medos, será para todos os meninos de treze anos que vão na sua bicicleta ver os carros do rali a passar.
Trabalhar para esses vale a pena, para os outros... talvez não.

P.S. – É uma e um quarto da manhã. Acabei.

17 - Os papo-secos do Corvo

A ilha do Corvo é o bocadinho mais pequeno de Portugal. É onde o país re reduz à mais ínfima expressão, e é um sítio com uma atmosfera muito particular, quase com leis próprias. Não há polícia, apenas Brigada Fiscal da GNR, as regras de trªansito são feitas à medida, e toda a gente vive feliz, dentro das condicionantes. Estive lá três dias, e vim impressionado com o tamanho dos papo-secos.

Sempre tive curiosidade em conhecer o Corvo. Admito que me fazia muita confusão saber que há uma ilhota aqui perto onde vivem apenas quatrocentas pessoas. O que poderia justificar que aquelas almas quisessem viver longe de tudo e de todos, sujeitos a ficar sem abastecimento exterior por mais de um mês se o mar não colaborar? Mesmo ali ao lado, dos males o menor, havia outra ilha, maior e se calhar melhor para se viver…
Dizer que o Corvo é uma ilha linda em termos paisagísticos é talvez um exagero, apesar de o Caldeirão merecer figurar em qualquer álbum de fotografias deste mundo. As ruas de Vila Nova do Corvo têm o encanto único de tudo aquilo que não foi pensado para que lá circulassem automóveis; incrivelmente estreitas e sinuosas, fazem com que a qualquer momento imaginemos que vá aparecer uma carroça ou um burro com uma bilha de leite de cada lado… Lembro-me ainda de ouvir dizer na nossa televisão que tinha havido um acidente no Corvo numa altura em que por lá só existiam dois ou três carros!
Hoje os carros no Corvo são mais que muitos, e as ruas novas já foram feitas a pensar neles, daí que as semelhanças com uma cidade “a sério” sejam cada vez mais. Contudo, a grande diferença que encontrei no corvo foi no tamanho dos papo-secos! Nunca vi papo-secos daquele tamanho nem tão saborosos. Aquilo é pão! Já não comia pão com tanto prazer desde… sei lá! Desde que a tia Celestina parou de cozer, já lá vão mais de dez anos! Na ilha mais pequena do arquipélago fazem-se os maiores papo-secos. Pode parecer uma associação de ideias estranha, mas acho que é mesmo por causa disso. Nalguma coisa os corvinos haviam de ser os maiores, e por que não nos papo-secos? Têm o aeroporto mais pequeno, o porto mais pequeno, a escola mais pequena, a estrada mais pequena, a igreja mais pequena, o hospital mais pequeno, por que diabo não haviam de ter os maiores papo-secos? Nem polícia eles têm!
A população, nota-se, gosta da sua ilha, e é com pena que vê partir os mais novos para estudar fora, mas é a lei da vida, e só lhes resta esperar que voltem… se o mundo não os seduzir entretanto. Quem regressa são os emigrantes, que nunca esqueceram a terra onde nasceram, e que trazem dinheiro fresco para gastar, e motas cromadas, e roupas coloridas e bigodes amarelos e…
Agora que já fui ao Corvo, posso dizer que a resposta para a minha pergunta inicial está nesta nossa maneira de ser ilhéus. A nossa ilha não precisa de adjectivos ditos por um qualquer estrangeiro, mesmo que venha da ilha ao lado. A melhor forma de caracterizar a nossa ilha é simplesmente através do possessivo: NOSSA!
E quanto maiores forem os papo-secos, melhor…

16 - Ir ao rali sem sair das Flores

Os ralis de novo. Até se pode pensar que sou fanático, mas não, apenas gosto imenso deles e do espectáculo que proporcionam.

Há já alguns anos que sigo atentamente tudo o que diz respeito ao campeonato regional de ralis, e desde 1995 só por uma vez não fui ao Rali Açores. Tornou-se para mim já quase uma tradição, iniciada nos tempos da universidade e que se manteve por força da actividade jornalística, quer na imprensa quer na rádio. Desta vez, por motivos profissionais e por nunca se saber se o avião aterra nas Flores a tempo, fiquei a seco.
Custou-me mais do que imaginava, e acabei por passar três dias com os auscultadores enfiados nos ouvidos, para não perder pitada do que se estava a passar em São Miguel. Os meus colegas olharam para mim com estranheza na sexta-feira quando apareci para almoçar com uns fios presos à cabeça, e nem com a explicação pareceram ficar convencidos. Realmente, devo ter sido a única pessoa nas Flores a prestar tamanha atenção ao rali… Quando nunca se viu ou sentiu uma coisa é mais difícil gostar dela, não é verdade?
Sem rodeios, a verdade é que sofri um bocado com as aventuras e desventuras do rali. Perguntaram-me quem é que eu achava que ia ganhar o rali, e eu disse que não me admirava nada se o Gustavo conseguisse chegar em primeiro. Porquê? Porque não acreditava na resistência dos 206 WRC da BSA – um preparador especialista em asfalto – nem na do Ford Escort do Fernando Peres, já velhinho. Já foi do Gustavo, imagine-se! Se não fosse a maldição da Tronqueira, a esta hora estaria inchado de orgulho ao ver as previsões confirmadas. Aliás, tive a oportunidade de manifestar esse desejo à equipa na sexta-feira, ao dizer-lhes que ficava à espera da vitória do Lancer azul. A primeira desistência por despiste na carreira de Gustavo Louro deitou-me os planos por terra, mas para o ano há mais. E que grande rali estava a fazer o Gustavo…
Parabéns merecem também Horácio Franco, Ricardo Moura e, claro, Fernando Peres. Franco perdeu imenso tempo com um daqueles problemas tolos que não lembram ao diabo, e fez uma etapa de sonho no sábado, provando que em condições normais até poderia, também ele, ter lutado pela vitória. Moura acabou a primeira etapa desanimado, mas renasceu das cinzas para rubricar uma prestação brilhante, que só surpreende quem não o conhece. E que dizer de Fernando Peres? Ao volante de um carro com 10 anos mas muito bem preparado, o piloto-dentista mostrou que está em forma e que faz muita falta ao campeonato nacional, que está autenticamente de rastos. Ter um carro com uma década de competição às costas a ganhar dois ralis consecutivos sem apelo nem agravo dá mesmo muito que pensar. Se calhar, até é caso único no mundo…
Em 2004 espero estar a escrever de novo a reportagem do Rali Açores como deve ser, e gostava de dar a um açoriano os parabéns pela vitória. Veremos se é possível…

15 - Ir para fora cá dentro

Há nas Flores muitos tesouros naturais a descobrir, mas a Aldeia da Cuada é qualquer coisa de especial. Imagine o sítio mais sossegado que conseguir para passar umas férias, e depois vá até lá por uns dias e veja como se enganou... a realidade é simplesmente melhor do que as palavras.~

Regra geral, as campanhas publicitárias de organismos governamentais não são grande coisa, não sei se por contenção de custos ou se por as agências de publicidade acharem que “para quem é bacalhau basta”. De entre todas elas e de todos os slogans que já ouvi, o “vá para fora cá dentro” é sem dúvida o melhor, e desde o passado fim-de-semana que ainda gosto mais dele…
Quem quer umas férias para descansar de tudo e de todos tem na ilha das Flores uma excelente opção, dada a sua pacatez e isolamento do resto do mundo. Não é fácil chegar cá, e às vezes ainda é mais difícil sair, mas o certo é que as belezas naturais nascem-nos debaixo dos pés e diante dos olhos. Um qualquer passeio descontraído rapidamente se revela uma odisseia de cores e panoramas que dificilmente se esquecem, mas não é disso que lhe quero falar hoje. Se quiser descansar ainda mais a sério e fazer uma viagem no tempo, então o melhor que tem a fazer é vir para as Flores e passar uns dias na Aldeia da Cuada…
Aqui há tempos falou-se da Cuada porque uma revista não sei de onde a considerou como um dos melhores sítios do mundo para passar férias, e eu achei engraçado ter uma coisa destas aqui ao pé e não lhe dar o devido valor. Já conhecia o sítio, mas faltava a experiência de ser turista… Pois bem, já a tenho. Por um feliz convite, passei dois dias de absoluto descanso em boa companhia, e hoje digo também que a Aldeia da Cuada é um autêntico achado.
Sai-se do asfalto, e a marcha abranda logo. Não porque a estrada seja de bagacina, mas porque os coelhos e as galinhas não têm pressa de se desviar. Fica feito o aviso: na Cuada não há lugar às pressas. O caminho de acesso é feito de lajes de basalto cravadas no chão, quase ao jeito de uma calçada romana. É preciso cuidado para não tropeçar com os sacos na mão… As casas são impressionantes. Recuperadas daquilo que nos anos 60 foi uma verdadeira aldeia, mantêm a traça original, o que significa que são muito parecidas com os palheiros que ainda hoje se usam, com a diferença de terem portas e janelas bem arranjadas.
Passada a porta, tudo é – acredite – passado. A mobília é de certeza absoluta mais velha que eu, as paredes estão revestidas de cimento pintado de branco, com muitas pedras à mostra (fazem lembrar uma vaca!), na cozinha o lava-loiça é de pedra, e a televisão, o telefone e a aparelhagem até destoam. Entra-se na casa de banho à espera de encontrar uma retrete, mas lá dentro já chegou o século XXI. Ainda bem. Não me apetecia nada limpar o rabo com um taroco de milho…
A calma e a tranquilidade reinam. O silêncio é tanto que faz impressão, e mesmo com o nevoeiro que estava os pássaros cantavam sem parar. Será isto o paraíso?
Acordar na Cuada é uma experiência única. Pura e simplesmente não apetece ficar na cama. Lá fora o sol brilha e as pedras do chão pedem para ser polidas pelos sapatos dos visitantes. A aldeia deixa-se conhecer depressa, e a nespereira levou um desfalque de que não estava à espera. Rico pequeno-almoço! Por falar em comida, cada casa tem um grelhador cá fora, e as refeições são festas completas, desde o fazer das brasas ao fazer a digestão. Com o sol a brilhar, a mesa do jardim é o palco ideal para um almoço às três da tarde… Não fique a pensar que dormimos até ao meio-dia, o frango é que não tinha pressa de grelhar!
Sair da Cuada pode ser uma experiência traumatizante, principalmente se houver que trabalhar na manhã seguinte. Mas não há nada a fazer, que os miúdos esperam por nós. A Teotónia e o Carlos Silva, simpáticos como sempre, fazem-nos uma surpresa na despedida, e garantimos logo que as contas não ficam assim. Havemos de voltar à Cuada, e se possível por mais tempo.
A julgar pela amostra, vale mesmo a pena ir para fora cá dentro. Portugal tem tanta coisa linda…

14 - Faltar às aulas

Eu gosto de ser professor, mas há dias difíceis. Quando o Inspector Regional da Educação afirmou publicamente que uma das grandes causas do insucesso escolar eram as faltas dos professores, passei-me...

Nunca gostei de faltar às aulas enquanto fui aluno, e agora muito menos, que me passei para o lado do “inimigo”. Mas que prazer é – já dizia o poeta – ter um livro para ler e não o fazer…
Quando o professor falta é uma festa. É furo!!! Vamos brincar à apanhada, vamos jogar futebol, vamos namorar para debaixo das escadas, vamos fazer tudo menos pensar na aula que não tivemos. Quando o aluno falta faz a festa sozinho, pois o professor dá a aula na mesma e o aluno sempre pode passar os apontamentos dos colegas, se lhe apetecer. Na pior das hipóteses, não percebe aquela parte da matéria, e se tiver sorte ela até nem sai no teste.
Quando o professor falta desconta nos dias de férias ou desconta no ordenado, isto quando não está “de atestado”, que se for falso nunca é investigado mas se for verdadeiro está sujeito a ver a inspecção bater-lhe à porta, a dar razão aos que dizem que este mundo está de pernas para o ar. E se faltar muitas vezes em alturas seleccionadas cai o Carmo e a Trindade, pois está-se a baldar aos seus deveres profissionais. É um garoto! Não presta para nada!
Quando o aluno falta e não faz caso das aulas, a culpa é dos professores, que não sabem cativar o menino ou a menina para o Português ou para a Matemática. Pouco importa que ele diga palavrões na sala de aula e mande o “profe” de volta para a barriga da mãe, pois como é essa a educação e o exemplo que tem em casa não sabe comportar-se como gente. O “profe” é que tem a culpa, pois essas coisas aprendem-se é na escola, dizem os pais…
No Dia da Mãe, o professor pede aos alunos que façam uma frase com a conhecida e ternurenta expressão “mãe há só uma”, e há um esperto que escreve: “A minha mãe mandou-me ir buscar duas cervejas ao firgorífico. Eu fui, abri a porta da friza e só havia uma. Virei-me para trás e disse-lhe: Mãe, há só uma!”
A culpa é do professor, que não soube explicar bem aquilo que queria e não ensinou ao aluno como se escrevia a palavra frigorífico. Não é do aluno, que até nem quis gozar com ninguém…
O aluno falta às aulas, falta aos testes, e depois traz a justificação assinada pela mãe mas preenchida por ele. A mãe nem sabe que ele faltou, pois no princípio do ano, para a criancinha não a estar sempre a chatear, assinou logo de uma vez uma resma de justificações. O aluno, que sabe que as costas estão quentes porque a mãe não sabe nem quer saber, lá vai justificando o injustificável.
A culpa é do professor, porque aceita as justificações. Mas estão assinadas pela mãe! Não interessa – dizem os observadores – o professor tem de ser como um polícia: desconfiado e sempre atento.
Na Secretaria, fazem calendários com semanas de dois e três dias de aulas a seguir às férias. Os professores de fora da terra não aparecem, pois estão doentes ou têm uma consulta nesses dias. É um sarilho! Os meninos ficam à solta no depósito – perdão, na escola – e os pais não sabem o que lhes hão-de fazer. Os professores fazem bem? Não, não fazem. E quem fez o calendário escolar, será “bem discreto”? Não, não me parece. Mas esse podia estar distraído. Temos de nos preocupar não com quem faz as coisas (às vezes até com boas intenções) mas com quem tem a obrigação de as avaliar devidamente e só depois as aprovar.
Mas está bem assim, pois sempre é mais um factor para justificar o insucesso escolar: os professores faltam muito às aulas, e assim os meninos não aprendem. Não são os meninos que não sabem nem querem saber se dois e dois são quatro ou vinte e dois que têm a culpa, é o professor de Matemática, pois faltou dois dias depois do Carnaval e vai faltar outros três a seguir à Páscoa…
Lá vamos, cantando e rindo…

Nota: para quem, depois de ler isto, acha que este professor está a desculpar as suas faltas e as dos outros, recomendo que volte a ler o texto com atenção, principalmente esta parte: Os professores fazem bem? Não, não fazem. Mas que muitos têm boas razões para fazer mal, têm, e têm a minha solidariedade. Não é fácil morar quase em Espanha e trabalhar no meio do Atlântico. Acima de tudo são humanos, e tentam ser bons profissionais. Na sua maioria, mesmo faltando cinco ou seis dias por ano, são-no. Digam as inspecções o que disserem.

13 - Vamos brincar à guerra?

Eu adorava brincar à guerra ou aos polícias e ladrões com os meus amigos. Os quintais da vizinhança transformavam-se em campos de batalha sem sangue mas com muitas gargalhadas e tiros dados com a boca. Um desses amigos já desapareceu, com a vida roubada no dia a seguir a uma destas brincadeiras. Esta é para ele...

A Primavera tinha chegado em força. Os dias estavam a crescer e dali a dias ainda iam ficar maiores, graças à mudança da hora. A rapaziada já começava a pensar em desbravar mato para fazer um campo de futebol atrás do portão verde que servia de baliza no Inverno, mas a vontade de pegar nas enxadas era tanta que… enfim, digamos apenas que seguiam o velho lema de “antes uma mão inchada que uma enxada na mão”.
Práticos como sempre, e porque o final da tarde estava prestes a ser interrompido pelas mães a chamar para o jantar, era necessária uma ideia para matar aquela hora. Ora para “matar” a hora… deixa cá ver… vamos brincar ao polícia e ao ladrão? Não. Hoje não. Vamos mas é brincar à guerra! Nós os três somos os cábois e vocês dois os índios.
Eu não quero ser índio! És sim, que és o mais feio e já tens bigode!
Rapidamente os quintais se transformaram em campos de batalha, com as faias a cederem bagas para servir de arma aos índios, que nem tempo tiveram de arranjar arcos e flechas. Os cábois arranjaram pistolas num instante: era só levantar o mata-piolhos, esticar o fura-olhos e encolher o dedo mindinho, o seu vizinho e o pai-de-todos…
A batalha foi renhida, mas desigual. Os índios atiravam bagas e escondiam-se o melhor que podiam, mas tinham a desvantagem de se saber sempre se as bolinhas alaranjadas acertavam ou não no alvo. Já aos cábois bastava dar tiros com a boca e dizer Matei-te! Contudo, isso gerava sempre discussão. Não mataste nada! Falhaste! Não falhei nada, acertei-te no meio da testa! És tolo! Tu é que és!
CRÁS! CRAC! BUM!
Estragou-se a brincadeira. Um dos índios caiu da árvore abaixo, partiu quatro ramos, rasgou a camisa e as calças e arranhou a “pintura” toda. A minha mãe vai-me matar! Devia ter tirado estas calças novas… Ninguém te mandou vires para aqui com roupa de ir à missa. Não me chateies, se não digo à tua mãe o que andas a fazer na gruta do pico. Fazes isso e o teu pai fica a saber que lhe roubas maços de tabaco às escondidas!
A coisa azedou, e se não fossem as mães a chamar para o jantar sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Claro está que as calças novas que acabavam de ficar velhas foram motivo de conversa à mesa, mas nada que se comparasse à descompostura que levou um dos cábois por ter ido para cima da terra com as sapatilhas novas, alvas da neve. No dia seguinte, na escola, as velhas árvores retorcidas lá estavam como sempre, prontas a servir de nave espacial ou de avião de combate, conforme a inspiração. Isto se tivesse chovido, pois se o chão estivesse seco era dia de São Futebol, já se sabe. Vivos e felizes, os cábois e os índios já não se lembravam de nada do dia anterior. A eles só o momento interessava, e todos os minutos eram poucos para aproveitar o recreio, antes da professora chamar para dentro.
Era dia de Meio Físico, e estavam a ver o mapa do mundo. Aqui fica a América, aqui a Rússia, aqui Portugal, e aqui estamos nós, nestes pontinhos no meio do mar. Ó senhora professora, mas a minha mãe diz que a gente também tem cá um bocadinho da América! Temos a base, que tem aviões e pessoas americanas, mas são muito poucos. Mas ó senhora professora, se a América é daquele tamanho o que é que eles querem de um pontinho no mar como a gente?
Aqui a professora já não soube responder. A pergunta foi tão inocente e, ao mesmo tempo, tão pertinente, que nessa noite adormeceu a pensar que se calhar era mesmo só porque lhes dava jeito. Para os alunos, foi essa a mensagem que passou. Serve para os aviões descansarem quando vão para a guerra.
Animada com a visão dos aviões a descansar, a rapaziada já tinha uma brincadeira nova. Amanhã vamos brincar à guerra, mas com aviões. Eu sou um avião, tu és um carro de lagartas. Mas por que é que tu hás-de ser o avião? Porque eu sou maior e mais velho.
A guerra fez muitos mortos e feridos, mas no dia seguinte, mais uma vez, ninguém se lembrava dela, e só a matemática interessava…
É engraçado ver como somos crianças toda a vida. As brincadeiras é que mudam…

12 - Os desenhos animados

Quem não vibrou com desenhos animados quando era criança? Mesmo agora que já entrei nos trinta adoro ver alguns, e nunca esquecerei os clássicos que passaram na RTP-Açores na década de 80. Fazem parte de mim, e não consigo deixar de estremecer sempe que ouço a música do Dartacão. No meu telemóvel o toque principal é o dos Soldados da Fortuna...

Isto de almoçar todos os dias com um grupo de gente saudavelmente maluca às vezes traz surpresas. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, com a segunda-feira a ser invariavelmente reservada à discussão dos futebóis do fim-de-semana, mas nos outros dias é o acaso que dita a ordem de trabalhos à mesa. Desta vez, quis o acaso que o tema de conversa fosse ditado por um toque de telemóvel.
Estava toda à gente meia adormecida, às voltas com uma saborosa e soporífera feijoada, quando de repente se fez ouvir um toque que fez soar campainhas nos nossos cérebros: o Dartacão! Quem tem entre 24 e 30 anos certamente se lembra dos simpáticos cães e gatos que levaram até à miudagem a obra de Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, para quem não sabe) e puseram a criançada a cantar “Eram uma vez os três / Os famosos Moscãoteiros / Do pequeno Dartacão / Tão bons companheiros. Eu não perdia um episódio, e rapidamente descobri que os meus colegas de mesa também não. Mais do que isso, descobrimos que tínhamos as mesmas referências de criança!
Do Dartacão passou-se à imortal Abelha Maia, a tal que as más-línguas juntaram ao Calimero, que mais parecia um personagem saído da portuguesíssima Árvore dos Patafúrdios, versão portuguesa dos inimitáveis Marretas, que foram também a base da Rua Sésamo e d’Os Amigos de Gaspar. De França vinham as tão espectaculares como educativas séries Era Uma Vez O Espaço e Era Uma Vez O Corpo Humano. Lembram-se?
Do Sport Billy e do Tom Sawyer toda a gente se lembrava, bem como do Conan, o Rapaz do Futuro, o tal que segurava um avião com as mãos enquanto se agarrava à terra com os dedos dos pés… belos tempos! Deixando a macacada, Os Três Dukes preencheram o imaginário de todos nós, e se calhar é por causa deles que tenho esta maluqueira dos carros. Por causa deles e do Homem Automático, dos Soldados da Fortuna, do Michael Knight e do seu inseparável Kitt, e outros que tais. Não havia nada que me separasse da televisão à hora do Justiceiro!
Até as meninas contribuíram com as suas recordações. E se havia rapazes que se lembravam do Verão Azul, coisa de que não tenho memória, nenhum se lembrava da Candy Candy e dos seus caracóis dourados. A memória foi ainda buscar o I’m a poor lonesome cowboy com que terminava o Lucky Luke, mas foi com a recordação das motos da Galáctica e dos lagartos de V, A Batalha Final que a discussão animou. Nem a saga da Guerra das Estrelas gerou tanto consenso como estes dois monumentos à ficção científica juvenil.
Ah! E, claro, havia os clássicos de todos os tempos: Bugs Bunny, o Papa-Léguas e o desgraçado Coiote, Speedy Gonzalez e o Daffy Duck, Porky Pig, Elmer Fudd (o caçador cegueta), Droopy (o cão sonolento) e o Piu Piu.
Depois disto… o vazio. Todos lamentámos a violência gratuita do Dragon Ball, o campo de futebol “arredondado” em que jogava o Tsubasa e onde uma jogada de ataque podia levar dez minutos a chegar de uma baliza à outra… e demos largas à saudade de ver velhas glórias como David, o Gnomo ou as Fábulas da Floresta Verde. Curioso foi ver que toda a gente associava uma série de desenhos animados a uma determinada fase das suas vidas… nisso fomos todos iguais. Quanto a mim, recordo como se fosse ontem o primeiro episódio do Dom Quixote, nos idos de 1983 ou 84. Nesse dia, cheguei a casa com o meu primeiro par de óculos e fui direito para a estreia da história daquele desengonçado cavaleiro andante, sem saber que estava a tomar o primeiro contacto com uma das maiores obras da literatura universal…
Como era bom ver os desenhos animados… e ouvir os habitantes da Floresta Verde a cantar É bom ver na floresta o sol nascer / É bom imaginar o que irá acontecer… numa cantiga que bem podia terminar com o lema dos Patafúrdios: Por incrível que pareça / Por incrível que pareça / Não há nada, não há nada / Que não nos aconteça! / Ó sorte malvada / Que vida desgraçada /Ai ai ai ai / Oi oi oi oi…
Não há por aí uma máquina do tempo que me valha?

11 - Até os bebés, Senhor!

Não há carnaval no mundo igual ao da Terceira, feito de teatro popular e de salões cheios de gente a deitar por fora. Descendente directo do teatro de Gil Vicente, este carnaval é a festa terceirense que mais me diz. Vivo-o intensamente, e em oito anos que já passei fora da Terceira nunca faltei a um carnaval que fosse...

Consegui ir ao Carnaval da Terceira! Foi uma sorte das antigas, e quero crer que com uma mãozinha divina pelo meio, mas ainda não foi desta que faltei à festa terceirense que mais me diz. Foram quatro dias intensos e mal dormidos, a justificar as doze horas de sono de uma quarta-feira de cinzas já em terras florentinas, e os quase trinta contos dos antigos que a SATA leva por uns solavancos aéreos. Mas não faz mal. Não há dinheiro que pague certos prazeres na vida, e o Carnaval terceirense é um deles.
Há já alguns anos que não via tantos bailinhos e danças, daí que 2003 tenha sido para mim quase que um regresso às origens, aos dias em que o rabo ficava quadrado à medida das velhas cadeiras da Sociedade da Terra-Chã, e o jantar se ficava por uma bifana, um sumo e dois ou três coscorões vindos das mãos da fada-mãe, acomodados numa marmita da Tupperware para chegarem inteiros à boca. Como de costume, a noite de segunda para terça-feira foi reservada para uma ronda por alguns salões, temperada com muitas e boas gargalhadas, com reencontros sempre agradáveis com amigos que o tempo e a distância me levou para longe da vista, e com alguns momentos de ternura verdadeiramente impressionantes e até mesmo arrepiantes, que são a razão de estar a escrever isto hoje.
Já não sei onde nem interessa, mas num dos salões por onde passei estava uma família regaladamente sentada através de três gerações, com mãe, filha e neta sentadas em duas cadeiras… Claro está que a neta andava de colo em colo, sempre sem dar mostras de cansaço, apesar de não ter mais de um mês de vida. Isso mesmo: um mês. Não acredito que tenha muito mais do que isso, até porque esta minha opinião foi confirmada por uma já mãe com quem estava naquele momento, e sabe-se como as mulheres têm olho para estas coisas, não é mesmo?
Passaram-me pela cabeça milhares de ideias e coisas que me apeteceram perguntar. Mas isso não faz mal a criança? Isto está tão abafado aqui dentro! Tanto barulho não fará mal aos tímpanos da bebé? Será que ela vai conseguir dormir com esta confusão toda? Coitadinha da menina…
Durante algum tempo, não consegui despegar os olhos dela. No palco, um bailinho fazia o melhor que podia para me chamar a atenção, sem sucesso. Pasmada, a família assistia à actuação, com a avó a “esquecer-se” do biberão na boca da recém-nascida. Será que ela não se afoga com o leite? Ela já pode beber do biberão? Será que o leite da garrafa era materno, preparado para evitar “cenas” no meio da plateia? Fez-me aflição. Apetecia-me tirar-lhe o biberão da boca para ver se ainda respirava! Indiferente a isto, a família via o bailinho, a bebé mamava na teta de borracha, feliz e contente, e um daqueles malditos rapazes que nunca param quietos durante as actuações pisou-me o pé, trazendo-me de volta à realidade.
Mais ninguém parecia reparar naquilo. Mais ninguém partilhava a minha aflição. Mais ninguém chegou à conclusão que eu cheguei ao ver esta cena: é por estas e por outras que este nosso Carnaval nunca morrerá. Daqui a quinze anos (ou menos!) a bebé que vi naquele dia já estará certamente em cima de um palco a festejar o Carnaval, feliz e contente, sem saber que já antes de ser gente era público sorridente do mais popular e genuíno Carnaval do mundo.
Que magia esta, que força esta, que em três dias leva toda uma ilha a esquecer os seus males e os dos outros, e a rir-se de si própria com gosto e satisfação… até os bebés, Senhor! Até os bebés se divertem no nosso Carnaval! Abençoado seja…

terça-feira, 7 de novembro de 2006

10 - O meu primeiro Dia de Amigos nas Flores

Nos Açores há a tradição de dedicar o mês anterior ao Carnaval a quatro celebrações que assinalam o valor da amizade, e com a festa a ser feita sempre à quinta-feira, que assume quatro nomes: de amigos, de amigas, de compadres e de comadres.
No meu primeiro Dia de Amigos passado nas Flores as coisas correram bem, e o resultado foi este relato divertido de uma noite bem passada à volta da mesa.

Há desportos que nos surpreendem pela adesão que suscitam em todos os quadrantes da sociedade e, mais do que isso, por permitirem a participação de atletas de todas as idades e de todas as barrigas. A noite do dia 6 de Fevereiro assistiu a uma renhida partida de um desses desportos, com o resultado a cifrar-se numa esmagadora goleada a favor da equipa visitante.
Sob o controlo de um conhecido árbitro, os Amigos defrontaram a equipa Franguivinho, recentemente reforçada com um explosivo jogador que dá pelo nome de Pimentaforte. Logo no início da partida se viu que os Amigos não estavam para brincadeiras, atacando violentamente as pernas e os gargalos de Franguivinho, com uma saudável dose de “batatada” à mistura. Mas não se pense que foi uma luta fácil, pois o grande número de substituições efectuadas pelo treinador da equipa da casa levou a que os Amigos tivessem de fazer esforços redobrados para levar a nau a bom porto.
Ficámos deveras impressionados com a resistência dos Franguivinho, que surgiam constantemente de todos os lados, causando algumas dificuldades na manutenção da estratégia delineada pelos amigos, que dividiam as forças entre o ataque ao adversário e o combinar de novas tácticas entre si, acompanhadas de sonoras gargalhadas. Não sabemos se os Amigos se estavam a rir do adversário ou para o adversário, mas o certo é que a boa disposição imperava, e nem a loiça partida conseguia alterar a boa disposição do árbitro, que se revelou benevolente com alguns cartões mas generoso com outros, oriundos da Escócia, país que fabrica alguns dos mais apreciados equipamentos para este tipo de jogos.
Com a lesão de Pimentaforte, que deixou de fazer efeito, o jogo tornou-se mais fácil, e houve até tempo para alguns dos Amigos serem informados (!) que faziam anos naquele dia, com direito à correspondente cantoria, para espanto dos adversários, que viam esgotar-se as forças e as substituições, pois o apetite dos visitantes, apesar de quase saciado, ainda os fazia dar ao dente de forma bem ritmada, de acordo com a táctica escolhida. Fazendo do estômago coração, os Amigos pura e simplesmente acabaram por devorar a oposição, ia já a partida com algumas horas decorridas. Rendidos à evidência, os Franguivinho retiraram-se de cabeça levantada, prometendo regressar em breve, ameaçando que a vingança seria devorar as Amigas na semana seguinte.
À hora de fecho desta edição ainda não era possível confirmar se tal ameaça tinha realmente passado à prática, mas estamos desconfiados de que os Franguivinho dificilmente conseguiriam fazer frente às Amigas, que têm uma bem conhecida tendência para deixar os frangos pelados…

Há dias para tudo e para mais alguma coisa, por que razão não haveria de existir um dia para celebrar um dos bens mais preciosos que possuímos? A Amizade e o Amor, dizem os poetas, fazem mover o mundo. Pois bem, é de amizade e confraternização que vos falaram estas linhas, ainda com o cheiro a frango de churrasco e vinho tinto. Amigo leitor, aproxime o nariz do jornal e vai sentir o perfume de uma noite bem passada...

9 - A Rampa de Natal do CATCH

Uma das mais bonitas aventuras da minha juventude foi o CATCH (já vai saber o que é), mas foi também a causa de um dissabor tão grande que foi uma autêntica lição de vida. Foi duro, muito duro, descobrir aos 16 anos que a palavra de um homem não vale nada se não estiver escrita num papel. Mas fica o gosto de saber que um grupo de rapazes conseguiu fazer melhor que os senhores que mandavam nos ralis da altura.

O automobilismo conquista as multidões com as importantes e várias nuances que lhe são permitidas observar. É o desporto emocionante que não está ao alcance de qualquer e gosa de excepcional consideração devido à sua categorizada importância. O automobilismo é ainda, um desporto onde a inteligência, a perícia, a destreza, a desenvoltura e o arrojo, ganham lugar de profundo destaque. Trata-se, pois, de disputas que dão fama e se projectam para além do horizonte das terras onde se realizam.

In A União, 27 de Novembro de 1952


Corria o Verão de 1992. O bar do Negrito era ponto de paragem obrigatório nas noites de fim-de-semana para os membros do CATCH. Para quem não sabe, o CATCH era o Clube Amigos da Terra-Chã, formado por cinco Amigos com uma paixão em comum: carros. Já com dois rali-paper organizados – e com grande sucesso, diga-se, – estávamos prontos para um projecto maior, e de uma conversa com o então jovem prometedor Gustavo Louro no tal bar nasceu a ideia de organizar uma prova de rampa, já que o TAC não ia organizar nenhuma.
A partir desse dia, as nossas vidas mudaram. Organizar um bicicross ou um rali-paper era uma coisa, mas isto era completamente diferente, e exigia conhecimentos que nós não tínhamos. Fomos falar com quem sabia, aprendemos os rudimentos da organização de provas automobilísticas, e pusemos de pé uma estrutura que previa desde os treinos à fórmula de desempate, com um esquema de segurança que envolvia polícia, bombeiros, ambulâncias, e muita malta nova com vontade de trabalhar. Nem o seguro de prova faltava!
Durante quatro meses, trabalhámos como doidos para arranjar os patrocínios necessários para pagar o seguro, a polícia, os troféus, enfim, tudo o que se podia imaginar. Nessa altura, as aulas só serviram para atrapalhar, as namoradas foram grãos de areia na engrenagem, e as famílias não acharam muita graça, mas lá se renderam à evidência da nossa determinação. Chegada a altura de definir as tarefas, foi o cabo dos trabalhos decidir quem ficava responsável pela segurança! Havia dois candidatos fortes e a coisa quase deu em briga, mas lá se resolveram as coisas e a prova ficou pronta para arrancar.
Fomos divulgar a Rampa junto da comunicação social, mas ninguém nos ligou. Houve mesmo quem nos dissesse na cara que achava que não iríamos conseguir fazer “aquilo”. Os restantes nem se dignaram a dar resposta… Cartazes espalhados pela ilha foram bem mais de cem, e a curiosidade começou a ser grande, até mesmo no liceu. As conversas iam sempre ter à Rampa, e até começámos a ser vistos com outros olhos por muitos colegas. Abrimos as inscrições, e logo começaram a chegar os pilotos. Devagar, é certo, mas lá foram aparecendo.
Foi então que tudo acabou. A cinco dias da prova, um ofício informava-nos de que a prova não estava autorizada e, como tal, não se poderia realizar. Nem queríamos acreditar! A mesma pessoa que três meses antes nos tinha dado luz verde tirava-nos agora o tapete debaixo dos pés. Ingénuos, não tínhamos pedido na altura uma confirmação oficial, e estávamos num beco sem saída. Nunca soubemos ao certo o que aconteceu. Suspeitamos de certas pessoas mas nunca conseguimos provar nada até hoje, mas a esperança não morre… e Deus não dorme!
Foi um corrupio. Cancelar em três dias o que tinha levado quatro meses a preparar, e, mais importante, devolver até ao último centavo todo o dinheiro dos patrocínios. Tudo foi feito, à excepção do impossível: informar o público de que já não havia Rampa. No Domingo de manhã, para nossa grande alegria e ainda maior desgosto, as Veredas estavam cheias de gente para ver uma prova organizada por um clube que ninguém conhecia, e que afinal era composto por cinco “sócios fundadores” com idades entre os 16 e os 20 anos. Um grupo de “canalha” que tinha posto de pé uma prova capaz de fazer inveja a muita gente grande… não admira que certas consciências se tenham sentido incomodadas!
Desde então, o CATCH adormeceu para as organizações automobilísticas, mas continua vivo na memória de todos quantos viveram essa aventura linda, que nos marcou para a vida e que nos colocou em posição de poder trabalhar para o automobilismo terceirense.
Em dez anos muita coisa aconteceu nas nossas vidas, mas o espírito mantém-se. Os “Jorges” são peças importantes na organização dos nossos ralis e pilotos de Todo-o-Terreno, o Nuno é um dos nossos melhores pilotos de ralis, o Paulo é talvez o melhor navegador de Todo-o-Terreno da Terceira, e o Lima é polícia em São Jorge.
Hoje, 20 de Dezembro de 2002, passam exactamente dez anos desde esse dia.
Esperemos que a História não nos esqueça. Quanto a nós, não vamos esquecer a história…

8 - A minha avó faria hoje noventa e quatro anos...

Os meus avós são inesquecíveis. Isto torna qualquer outra introdução desnecessária.

… se fosse viva. Hoje já não tenho avós, mas nem por isso me esqueço deles. Continuo a precisar que a minha mãe me lembre dos seus aniversários, o que me envergonha para além de tudo o que se possa imaginar, mas não consigo fixar estas datas e, se calhar, até nem quero. A lembrança deles não morrerá nunca, e saber que nestes dias poderíamos estar a fazer uma festa de anos é algo tão doloroso que quase prefiro esquecer. Mas não esqueço.
Só conheci três dos meus avós, e tenho pena, pois sempre senti que me falta conhecer uma parte importante de mim mesmo. Se sou o que sou, devo-o também a eles, mesmo ao que não conheci. Pelo que me contaram, herdei do avô Evaristo a barriga e um certo temperamento resmungão, mas gostava de o poder dizer pelas minhas próprias palavras. Por qualquer estranha razão, tenho a certeza de que nos teríamos dado muito bem os dois.
Ainda vivi quase cinco anos com a aniversariante de hoje, e tenho dela as melhores recordações. Dela e das visitas que lhe fazia em Vale de Linhares ao fim de semana, que acabavam sempre com um copinho de licor de vinho tinto para dar força para o caminho. Na mala da minha mãe ia sempre pão com manteiga para dar a uma cabrinha ali junto ao hospital… isso e um saco de aperitivos Pôr-do-Sol (lembram-se?) para trincar enquanto não chegava a urbana. Bons tempos, sim senhor…
Com a sua morte, fiquei com dois avós em casa, um de cada pai, e que dupla curiosa eles faziam! Era meu avô com os seus pombos e minha avó com os chicharros fritos para o Ti Henrique que morava sozinho na casa do lado, coitado. Nunca me esquecerei do meu avô a levantar-se tão depressa quanto podia para ver na televisão como é que estava “a dólar da América”, facto importantíssimo para poder fazer as contas à reforma que lhe vinha do outro lado do mar. Quanto à minha avó, nunca lhe agradeci o suficiente todos aqueles almoços de quarta-feira, já prontos a comer, pois chegava a casa a faltar cinco para as duas e dali a nada começava o “Quem Sabe, Sabe” na Rádio Horizonte. Já lá vão mais de dez anos…
Tiveram um final de vida inglório, com tantas doenças juntas a prendê-los à cama, mas o que mais me doeu foi não ter estado lá para o último adeus… a vida já me tinha levado a estudar para São Miguel e, se num caso não consegui viajar, no outro só soube no dia seguinte, graças à maldita “gestão familiar” que achou que um exame era mais importante do que um funeral… Hoje se calhar até lhes dou razão, mas na altura ainda bem que não os tinha à mão de semear!
Por tudo isto, quando hoje ouço alguém a refilar “o meu avô isto” ou “a minha avó aquilo” não consigo evitar um sorriso de nostalgia. Quem me dera ter os meus todos aqui ao pé de mim para poder refilar com eles…
Que a dor de os ter perdido nunca nos faça esquecer a alegria de os ter possuído.
Parabéns. E obrigado…

P.S. – Mãe, Pai, Irmã, desculpem se vos fiz chorar, mas acreditem que não choraram sozinhos…

Santa Cruz das Flores, 26-11-2002

7 - Um Açoriano Campeão!

Os ralis são uma das coisas que ajudaram a fazer de mim aquilo que sou, e estou-lhes grato por isso. Gosto do desporto e vivo-o de uma forma intensa, como só é possível a alguém que durante dez anos fez parte da organização de provas. Assim se explica que tenha escrito isto em pleno Aeroporto da Horta, à espera de um avião que nunca mais chegava.

Há coincidências fantásticas. Escrevo esta crónica minutos depois de receber uma mensagem do meu amigo Miguel Azevedo a dizer que Horácio Franco está a três troços de ser Campeão Nacional de Produção em ralis. Coincidência porque estava justamente a fazer rali no computador, e fantástica porque estava a jogar com… o carro de Horácio Franco! Enquanto não chega o avião, tempo para uma breve reflexão sobre este micaelense de rija têmpera que, ganhe ou não o campeonato, já ganhou um lugar na galeria de notáveis do nosso desporto, bem acompanhado pelo nosso Tiago Azevedo no banco do lado direito.
Não é fácil, numa altura em que todos cramam pela falta de dinheiro e de apoios, um açoriano chegar ao continente e dar uma lição de como se conduz. Horácio já o conseguiu, e é, ao cabo de três décadas de carreira, o piloto regional com melhor palmarés de sempre. Disso não parecem haver dúvidas. Depois de dois anos consecutivos em que soube estar sempre no lugar certo à hora certa para ser campeão regional e assegurar a participação no campeonato nacional, o nosso campeão provou que a máxima um ano para aprender, outro para ensinar se aplica sempre que haja capacidade, talento e vontade, coisa que não lhe parece faltar.
Personalidade incómoda para muitos e senhor de um feitio que nem sempre terá lhe terá trazido os melhores resultados, Franco tem sido – valha-nos isso – coerente nas suas posições quanto aos ralis regionais, não tendo medo de chamar os bois pelos nomes e de lhes enfeitar os cornos quando foi caso disso. Estou a lembrar-me, concretamente, do último Rali Açores, em que foi frontal e devastador até mais não poder para com os mentores da manifestação de agricultores que deitou por terra meses de preparação. Entre outros mimos, Horácio disse com as letras todas que os verdadeiros lavradores não são os que estão aqui de camisa fina mas os que estão nos pastos a tratar dos animais.
O exemplo vale o que vale, mas mostra alguém que diz o que lhe vai na alma, coisa que também já sucedeu em ralis na Terceira. Tivesse ou não tivesse razão, os seus pontos de vista, no mínimo, contribuíram para a melhoria de certas situações em todos os ralis do campeonato, ou não fosse ele um crítico por natureza. Por outro lado, a experiência trouxe-lhe uma humildade que só lhe fica bem, sendo capaz de reconhecer este ano, desde muito cedo, que muito dificilmente conseguiria manter o título regional, chegando mesmo já a arriscar prognósticos para o futuro, ao considerar Armindo Araújo como mais que certo futuro campeão nacional de ralis. Cito de memória declarações do piloto à comunicação social, por isso estou certo de que ele me perdoará qualquer falha…
Por cá, Gustavo Louro é o senhor que se segue para o ataque ao campeonato nacional, sucedendo a Franco enquanto beneficiário do apoio governamental, o que é uma pena. Não porque Louro não mereça, nada disso, mas porque Franco não merece que lhe retirem esse apoio, que a vitória no campeonato mais do que pagou e justificou. Aliás, em termos de promoção da região no continente, a participação de carros com as nossas cores no Campeonato Nacional é dos investimentos mais rentáveis que o turismo pode querer. Que bom seria podermos ver em 2003 Horácio a repetir a vitória na Produção e Gustavo a discutir ralis à geral com os melhores pilotos portugueses! Disso eles são capazes, que ninguém tenha dúvidas!
Por esta altura, certamente já terá acabado o Rali do Algarve, e Horácio Franco é já Campeão Nacional de Produção. Um marco histórico, um exemplo para os desportistas, e um orgulho para os Açorianos.
Parabéns Horácio!

P.S. – Já chegou o avião. Terceira querida, aí vou eu!

6 - A cadeira do barbeiro

Esta é uma das minhas preferidas. Surge na sequência de uma coisa que até pode parecer estúpida mas que para mim traz recordações e tem os seus significados ocultos: cortar o cabelo. E para quem nunca cortou o cabelo em cinco anos fora de casa, não era agora que ia começar...

Vivi cinco anos em São Miguel sem ir ao barbeiro. Assim mesmo.
Claro está que nunca andei por aí de gadelha à futebolista, porque aproveitava as férias para tratar dos assuntos capilares, e sempre na Terceira. O que começou por ser uma divertida coincidência no primeiro ano da universidade acabou por se tornar numa espécie de ponto de honra com o qual me divertia, levando por arrasto dois ou três colegas, que ainda hoje me seguem as pisadas, visto continuarem a ser universitários. Há tempo demais, é certo, mas ainda andam por lá.
Se pensarmos bem, isto até tem uma certa lógica, pois não é de ânimo leve que se coloca o pescoço à mercê de qualquer carniceiro com uma tesoura e uma navalha na mão. É preciso estabelecer uma relação de confiança que, sem querer ser paranóico, quase ultrapassa os limites do bom senso. Curiosamente, nunca penso nisto quando vou ao barbeiro, mas hoje de manhã olhei-me ao espelho e vi os primeiros sinais de desorganização no cabelo, coisa que serve de pré-aviso e significa que daqui a um mês estou quase a modos de usar uma bandolete.
Neste caso, significa muito mais que isso. Significa que, provavelmente, vou cortar o cabelo pela primeira vez fora da Terceira, e isso vai mesmo custar-me bastante. Ainda nem perguntei se há barbeiros nas Flores, mas cabeleireiras sei que há, e com salões unisexo, seja lá o que for que signifique este palavrão. É pena não ser possível sair daqui na sexta-feira e voltar na segunda, pois a SATA é pouco simpática neste aspecto, se não ainda aproveitava para ir passar o Pão-por-Deus na companhia de quem me faz falta… e cortava o cabelo no sítio do costume, ou seja, mesmo em frente à União.
Devia ter para aí uns treze ou catorze anos quando conheci pela primeira vez “Os Secas”, e a primeira coisa que me fez confusão foi o letreiro (que ainda hoje lá está) a dizer Cuidado com os palavrões porque trabalham aqui pai e filho. Se não for assim é parecido, mas a ideia é esta. No entanto, depressa aprendi que, para o meu amigo Mestre Pedro, dizer os filhas das putas é apenas uma maneira carinhosa de tratar os companheiros… Ainda hoje lá vou, não só para cortar o cabelo mas também para saber as últimas do Lusitânia, do Angrense e do Boavista da Ribeirinha, pois então!
O mais engraçado é que, de vez em quando, encontro por lá cenas do meu passado, com alguma mãe das freguesias a levar lá o filhote e a dizer coisas do tipo vou só ali fazer umas compras e já o venho buscar, ou vocês não se esqueçam que temos que apanhar a carreira das quatro, numa indirecta para os outros fregueses que estão na vez, a ver se deixam o pequeno passar à frente. Faz parte do ritual. Não só dos fregueses mas também dos miúdos, que durante aquela meia hora ouvem as conversas dos homens e sorriem envergonhados quando alguém lhes dirige a palavra, mas felizes da vida por já se sentirem também um pouco homens, e ansiosos por subir para o pedestal em que por momentos se torna a cadeira do barbeiro.
É por estas e por outras que ainda não decidi se vou procurar um barbeiro nas Flores ou se vou aparecer nas férias de Natal com uma fita a segurar-me o cabelo longe dos olhos, mas uma coisa é certa: já tenho saudades dos meus barbeiros e amigos. Do pai e do filho. E do Espírito Santo das tesouras…

5 - Aos anos que eu não ia ao futebol!

Levei anos sem entrar num estádio para ver futebol. Para jogar sim, entrava e entro sempre que posso, é uma das minhas paixões. Nas Flores, à falta de melhor, recomecei a ver futebol...

Há coisas engraçadas nesta vida, que só fazem sentido quando nos vemos em situações capazes de nos fazer recordar este ou aquele momento. Em miúdo ia muitas vezes ao futebol com o meu pai, e gostava de ver aquela gente a correr de um lado para o outro atrás da bola (coisa que a minha barriga nunca deixou fazer da melhor maneira) e pensava com os meus botões que um dia queria ser jogador, como eles.
Lembro-me de ir ao velhinho Municipal de Angra ver um Angrense-Lusitânia com a casa completamente cheia, e na memória ainda retenho jogadores como o Teves, o Paulo Marcelino, o Zeca Araújo (que hoje tenho a satisfação de contar entre os meus amigos) ou o pequeno Serafim, qual rato Mickey a serpentear em campo (peço desculpa por não me lembrar do nome de jogadores do Angrense…), e lembro-me de num jogo qualquer ouvir uma das célebres “calinadas” de um famoso relatador radiofónico provocar uma explosão de riso nas bancadas, que viam o jogo com os olhos e com os ouvidos colados ao rádio de pilhas para não perderem pitada. Depois, o meu pai deixou de ir ao futebol, e eu também. Talvez coincidência, talvez não. Acho que, pura e simplesmente, encontrei coisas melhores para fazer. Domingo, como não havia mesmo mais o que fazer, fui ao futebol.
Aqui nas Flores existem quatro clubes, que dão forma a um campeonato espicaçado pelos desejos de ver um deles a competir na Série Açores (e ainda dizem que ela não é boa para o futebol!), entre os quais o carismático Minhocas, cujo nome conhecia apenas do Teledesporto da RTP-Açores e que, por coincidência, foi o motivo do meu regresso a um estádio desde há dois anos, quando fui ver o Santa Clara-Benfica. Assim, carreguei o jipe de professores e lá fomos nós para Ponta Delgada, onde a equipa local recebia os Minhocas (ainda hei-de saber quem é que se lembrou de dar este nome ao clube). Para quem não conhece as Flores, ir a Ponta Delgada significa percorrer vinte quilómetros de curvas apertadas e paisagens magníficas, rumo a um pelado a cinquenta metros do mar e onde o vento é sempre espectador mais do que activo: é quase um jogador.
Valeu a pena. Futebolisticamente não vi nada de especial, mas o enquadramento humano à volta do jogo era fantástico. Numa ilha com quatro mil e tal pessoas, quase toda a gente se conhece, e dava a sensação de que todos os jogadores e o público eram conhecidos de longa data. Uma picardia aqui, outra ali, um velhote ferrenho a gritar PONTA DELGADA VAMOS EMBORA do princípio ao fim do jogo, uma mulher aos saltos e gritos cada vez que o marido tocava na bola, e muita gente nova a cirandar de um lado para o outro, com o cheiro a namorico a pairar, talvez trazido pela forte brisa que soprava do Corvo, ali mesmo em frente. Cada remate por cima da barra era motivo para risos e palmas, pois a bola acertava sempre num dos muitos carros estacionados atrás da baliza, cada golo era saudado por um ruidoso coro de buzinas, e três polícias assinalavam a sua desnecessária presença com gargalhadas, de tão entretidos que estavam na conversa, pois a paz e a concórdia reinavam.
Se o futebol nas Flores for sempre assim (duvido)… Mas sempre deu para ver que não há como ter pouco para se valorizar o pouco que se tem, mesmo que estejamos a falar de futebol. E aqui não há campos sintéticos, que na Terceira só contribuíram, ao que parece, para o tornar o futebol ainda mais artificial. Afinal, só sobraram quatro equipas para o campeonato de seniores, não é mesmo? Há que pensar no velho ditado da fome e da fartura…

P.S. – O Minhocas ganhou por 3-1, já agora…

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

4 - Vida malvada, vida florida

A primeira crónica escrita já na minha nova vida, em plena Ilha das Flores. Uma terra linda mas cheia de particularidades, que se reflectem bem no que dela dizem os habitantes que de lá "escaparam". É também nesta crónica que faço uma promessa que nunca consegui cumprir...

A vida tem coisas complicadas só por si, mas nós arranjamos sempre forma de a tornar ainda mais difícil. Quem me mandou ser professor? Quem me fez cair na “asneira” de pôr no boletim de candidatura o código da escola das Flores? Ninguém. É certo que fiquei com a estabilidade profissional assegurada, mas, com as hipóteses que me foram oferecidas, fica sempre aquela ingrata sensação de “como seria se tivesse escolhido ao contrário”, e essa já ninguém ma tira… Longe de mim querer vir para aqui armar-me em queixinhas, mas estas inquietações do quotidiano são melhor digeridas depois de passadas para o papel. Nunca fui adepto dos diários e não é agora que vou começar a ser, mas vou fazer um esforço para disciplinar a minha escrita e conseguir escrever um “semanário” nas páginas deste jornal, assim a paciência dos leitores me acompanhe.Pois bem, estou nas Flores há poucos dias mas já deu para tirar uma conclusão: quem morrer sem cá vir não sabe o que perde. Para os apreciadores de paisagens naturais, as Flores são um paraíso perdido a meio caminho entre a Europa e a América, que vale a pena explorar até ao último palmo. Não é fácil colocar em palavras o impacto visual provocado pela parte central da ilha, mas se disser que a partir de hoje a minha referência paisagística deixa de ser a Lagoa das Sete Cidades e passa a ser a Ilha das Flores acho que já se fica com uma boa ideia do que estou a querer dizer…Mas, então, se as Flores são um bocado do céu que caiu na terra, por que é que ninguém quer cá ficar, nem sequer aqueles que aqui nasceram? Pois bem, em certos aspectos já deu para perceber por quê: Posto em Português corrente, há aqui um grande atraso de vida. Começo a perceber os avisos que me fizeram para quando chegar o Inverno não deixar acabar a comida na despensa, o gás na garrafa ou a gasolina no depósito. Então não é que o Verão ainda não acabou e já há sítios sem Coca-cola, Sprite e coisas do género? Não é admissível, até porque ainda há bastantes turistas na ilha, que deixam ficar dinheiro sempre bem vindo. Por outro lado, numa terra pequena há sempre menos com que ocupar o tempo, daí que todas as ideias sejam poucas para fugir à monotonia do correr dos dias. Por enquanto não me queixo, mas ainda me ecoam na cabeça as palavras de uma antiga aluna da universidade, que quando soube do meu destino me disse logo que não queria voltar para casa, “porque aquilo é uma seca”…Agradeço-te a “solidariedade”, mas, Conceição, digo-te já que a tua terra é mesmo muito bonita e merece ser estimada pelos seus e conhecida pelos outros, com ou sem Coca-cola…A força do calor humano tem aqui uma importância acrescida, diria mesmo esmagadora. Não só no que toca aos muitos professores de fora que aqui chegam e se tentam adaptar ao meio e aos novos colegas, mas também na forma como são recebidos pelos restantes colegas e funcionários. Não deixou de ser surpreendente ver o simpático porteiro da escola encher o carro de professoras (com o consentimento da esposa, é claro) e levá-las para a festa da Fajã Grande, onde nos juntámos de forma naturalmente instintiva e pudemos apreciar a genuinidade destas gentes.É espantoso como um arraial tão pequeno consegue ter uma animação tão grande, com o bailarico no adro da igreja a ser o prato forte da noite. Animados por um artista local, muitos foram os pares que durante horas dançaram o melhor que sabiam e sem quaisquer preconceitos, desde os mais novos aos mais velhos. Da Garagem da Vizinha ao tango a distância ficou mais pequena, e da Bomba à valsa as diferenças quase se esbateram na noite florentina, com as mornas de Cabo Verde e o Pidjiguiti pelo meio.Assim se vê que é perfeitamente possível viver feliz nas Flores, pelo menos enquanto não chega o Inverno…

domingo, 8 de outubro de 2006

3 - Viver de longe as Sanjoaninas

É preciso ser terceirense ou viver na Terceira há já alguns anos para entender verdadeiramente o que são as Sanjoaninas. Esta Crónica traz uma recordação dos tempos universitários e daquilo que sentia quando estava longe nos dias da festa. Os colegas micaelenses não entendiam o que teriam as Sanjoaninas que o Santo Cristo não tivesse também, e por muito que se explicasse ficavam à mesma sem entender, pois isso só é possível na primeira pessoa. Ainda não conheci um que não se rendesse a esta festa depois de a viver...

Começam hoje as maiores festas do arquipélago. Notem bem que não utilizo as palavras “religiosas” ou “profanas”, como tem sido tão politicamente correcto escrever-se, e isto porque não há que ter medos nem problemas de consciência quando se assume, com o orgulho de quem gosta da sua terra de festa, que quando toca a reunir junto de uma tasca ou a alinhar na berma da estrada para ver passar as marchas não há como ser terceirense ou estar na Terceira. Sim, pois nestas alturas não há nacionalidade que resista ao cheiro de um prato de favas escoadas com um copo de vinho de cheiro... mesmo que não se aprecie a comida! Apesar de não ser a personagem mais festeira que se possa imaginar, sinto a festa de uma forma muito própria, e passei a dar-lhe muito mais valor desde que me vi forçado a passar metade das Sanjoaninas de 1995 a estudar para um exame do qual não me consegui safar.
Faz hoje exactamente sete anos, estava já conformado com a ideia de não ver a abertura das festas nem as marchas, e, como sempre fazia em alturas de aperto, recolhi à caverna para estudar um pouco, antes de se abater sobre os meus olhos o insuportável peso do sono – coisa que não demorava mais de uma hora a acontecer – e levar-me a enterrar a cabeça na almofada. Se bem pensei, melhor o fiz, só que os olhos começaram a pesar ao fim de meia hora e os calhamaços que tinha em frente pediam um pouco mais de atenção. Solução? Como na RTP Açores não se passava nada que prestasse (não é preciso concordar, que eu já sei o que você vai dizer...), liguei o rádio. Não sei por quê, mas nessa noite sintonizei a Horizonte e, surpresa das surpresas, estava no ar a transmissão em directo da abertura das festas. Ainda mal refeito, pensei cá comigo que se calhar eles faziam aquilo todos os anos e eu é que nunca ouvia... Sem pensar, juntei o meu espírito ao de quem estava fechado no estúdio a trabalhar para levar até aos ouvintes os sons da festa, e pensei que a eles tanto fazia estar a três ou a trezentos quilómetros, pois a festa ficava sempre na outra ponta do canudo...
Parei de estudar. Estavam a entrevistar alguém da organização, e depois chamaram por um repórter que supostamente estaria pronto a intervir, mas o silêncio não deixou grande margem de manobra. Logo veio a lengalenga dos problemas técnicos que de momento impediam a emissão, tocou-se pela milésima-quinta vez a marcha das festas e voltou-se a chamar pelo tal fulano (não digo nomes porque os intervenientes podiam não achar graça ao fim da estória...), que, mais uma vez, não respondeu. “Este é que é esperto”, pensei eu, “Foi para uma tasca, está a empinar um fino e depois há-de se dizer qualquer coisa para aquele chato se calar”. Ainda me estava a rir do meu próprio pensamento quando, de entre a névoa de silêncio que se tinha instalado no meu rádio, saiu uma série de estalidos electrónicos e se ouviu uma voz mal definida: “Alô estúdios”. O locutor rejubilou! “Alô Fulano! Bem vindo à emissão. Agora sim, estamos em condições de levar aos nossos ouvintes mais alguns sons da festa; onde te encontras neste momento?” No intervalo de meio segundo que se seguiu, imaginei o repórter de microfone em punho para entrevistar a rainha das festas e saber se ela estava nervosa, se não estava preocupada com o facto de o vestido não ter alças, ou outras parvoíces do género. Então, veio a resposta, rápida, curta e grossa, rompendo com todos os mandamentos de uma reportagem radiofónica: “Estou na tasca”. Assim mesmo!
Era demais! Uma pessoa a tentar concentrar-se no estudo e aquele #$%&”#$%* na tasca a gozar com a minha cara! Foi uma das poucas vezes em que os meus cadernos levaram um varejo de desespero... Em cinco minutos, já me tinha posto na tasca dos estudantes, onde encontrei outros (muitos) companheiros de infortúnio, com ar macambúzio. “Olha o Jorge! Não devias estar a estudar?” Consegui esboçar um sorriso, respondendo que não conseguia. Eles também não. Foi então que tive a mais brilhante tirada do ano: “Pessoal, vamos para as Sanjoaninas!” “Estás doido, ou quê?” “Não estou nada! Mexilhão, conta as marradeiras desta mesa, divide por dois e passa para cá o resultado em cerveja fresca!”
Sabem que mais? Foi a melhor noite de abertura das Sanjoaninas de que tenho memória... Mais logo, no calor da festa, lembre-se de quem gostava de cá estar mas não pode, e beba qualquer coisa pela saúde deles... Nem que seja preciso cometer o sacrilégio de transformar sangria em água!
Boas Sanjoaninas!

P.S. – Apesar de tudo, passei no tal exame.