quarta-feira, 22 de novembro de 2006

25 - Peço desculpa

Quando comecei a escrever estas crónicas nunca pensei que as pessoas realmente as lessem, mas foi a partir do momento em que comecei a ter reacções ao que escrevia que percebi que não o fazia para o boneco, como se costuma dizer. Tive a grata surpresa de entender - e a partir deste momento ainda mais - que tocava no coração de muita gente, e agora, no momento presente, começo a interrogar-me sobre as razões que me levaram a não escrever nada deste tipo desde março de 2006, quando mudei de jornal em termos... jornalísticos. Quando souber a resposta eu escrevo.

As últimas duas semanas marcaram-me profundamente enquanto pessoa que gosta de escrever e que tem a sorte de ver os seus artigos publicados num jornal com a credibilidade e o capital de confiança que tem A União. Nunca me passou pela cabeça que houvesse alguém que se desse ao trabalho de procurar por aquilo que escrevo, e muito menos de guardar para recordação ou tirar fotocópias para mostrar aos outros. Nunca! No entanto...
Fui surpreendido em três ocasiões distintas, duas delas ainda nas Flores, por pessoas que me perguntaram se nunca mais tinha escrito nada, pois já há tempos que não liam nada meu. Chegaram a perguntar se me tinha zangado com o jornal, imagine-se! Pois bem, não me zanguei, e conto hoje a todos quantos têm a gentileza de me ler um segredo que agora deixa de o ser: escrever é doloroso.
Quase sempre que escrevo uma crónica é porque algo dentro de mim deu sinal, é porque há uma inquietação que puxa pelas coisas da alma e me põe o coração nas pontas dos dedos. Exponho-me aos olhos do público de uma forma conscientemente inconsciente que até já trouxe dissabores bem grandes, que me acabaram com dez anos de história de vida. Mas isso agora não interessa para nada.
O estado de espírito é fundamental para que tenha vontade de escrever, e quanto mais triste estiver mais fácil se torna. É um pouco como estar apaixonado: as ideias fervilham na cabeça sem que as consigamos pôr em ordem, e quando menos se espera há aquele “clic” que coloca tudo no seu lugar e a vida começa a fazer sentido. Escrever é um bocado isso, é falar com o papel e esperar que ele nos devolva as respostas que procuramos, mesmo que surjam pelas nossas próprias mãos. Neste momento, por exemplo, apetece-me agradecer às pessoas as perguntas que fizeram, agradecer por lerem, agradecer por me fazerem ver que em cada um de nós existe um escritor adormecido que retira do que lê um sentido diferente daquele que se pretendeu passar ao papel, um sentido pessoal, como se aquilo que alguém escreveu pudesse ser – ou não – aplicado à vida de muitas outras pessoas. Apetece-me agradecer, mas também pedir desculpa...
Pedir desculpa é para muita gente algo que custa muito, mas para mim não custa nada. Se reconheço um erro, admito-o e faço a mais natural das coisas: peço desculpa. Por isso escrevo isto hoje, para pedir desculpa a quem achou que estive tempo demais sem escrever uma linha, a quem, sem saber, habituei com as minhas reflexões pessoais, com as minhas memórias, alegrias, tristezas e comentários ao quotidiano de um Eterno Estudante que não se limita a olhar passivamente o mundo.
Peço desculpa, mas é que escrever dói... e muito!

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