sexta-feira, 10 de novembro de 2006

20 - O Parque Atlântico e os cartões do BX

O Parque Atlântico é um centro comercial em São Miguel. O BX (Base Exchange) é o centro comercial dos americanos dentro da Base das Lajes. no primeiro todos podem entrar desde que tenham dinheiro. No segundo todos podem entrar desde que tenham cartão. O primeiro fez estragos em todo o comércio micaelense, que não teve outro remédio a não ser trabalhar melhor. O segundo fez estragos no ego dos comerciantes terceirenses, que preferem protestar em vez de arregaçar as mangas...

Estive um ano e três meses, mais coisa menos coisa, sem ir a São Miguel, e já tinha saudades da terra da pimenta e do nanás. Quando fui estudar para lá nunca pensei ver chegar o dia em que iria admitir sentir tal coisa, mas a verdade é que a universidade é uma experiência que marca qualquer um, e a mim deixou boas recordações. Nunca perdi o contacto com os bons amigos que por lá fiz, e sinto-me feliz por isso, pois alguns deles ainda estão por lá (o curso é para se ir fazendo…) e é sempre um prazer revê-los.
São Miguel – ou melhor, Ponta Delgada e arredores – mudou muito nos últimos anos. Em 94, quando fui para lá, a pseudo-capital era à noite uma cidade fantasma, sem ninguém na rua a não ser os sem-abrigo, e as raparigas tinham medo de andar sem companhia depois da hora do recolher das galinhas. Hoje isso mudou, principalmente de Verão, graças às muitas esplanadas e bares que abriram na avenida marginal, à imagem e semelhança do que já em Angra acontecia. Para além disso, a maior diferença que notei entre São Miguel e a Terceira foi a forma como se trabalhava…
Em São Miguel não se trabalha mais do que na Terceira, mas trabalha-se melhor. A mentalidade em termos de qualidade do serviço (ainda) está mais desenvolvida, fruto da enorme concorrência que se faz sentir a todos os níveis, e quem ganha com isso é o público consumidor de bens e serviços. Aprendi a trabalhar lá, com uma mentalidade voltada para fazer melhor que a empresa do lado, e por isso quando entrei no mundo do trabalho na Terceira estranhei muito a ligeireza com que se encaram certas coisas. Nunca mais me esqueço do dia em que um trabalho que em São Miguel levava meia hora para ficar bem feito foi dado como concluído em três minutos, mesmo comigo a dizer que podia fazer melhor. “Está bem bom assim” – foi a resposta que ouvi.
Vem isto a propósito da tal visita que lá fiz recentemente, com paragem obrigatória no Parque Atlântico, o novo centro comercial. Não é o Colombo de Lisboa nem nada que se pareça, mas é bonito, parece bem construído, tem lojas para todos os gostos, e atrai multidões. Estava cheio no sábado à tarde, estava cheio no domingo ao almoço, estava cheio na segunda à noite, e cheio estava na terça de manhã. Na baixa de Ponta Delgada, muitos comerciantes assobiavam para o ar à porta da loja… o impacto da abertura ainda se fazia sentir, e o efeito novidade fez mossa no dito comércio tradicional, e vai fazer mossa neste Natal, mas depois as coisas voltam a equilibrar-se, e os comerciantes têm a noção disso. Já sobreviveram à abertura de um centro comercial e de dois hipers, e sabem que daqui a um ano ainda vão estar de porta aberta, o mesmo já não se podendo dizer de algumas lojas do tal centro comercial novo, pelo menos a julgar pelo que me foi dado ver.
O povo vai à loja do costume se for bem atendido e não for roubado no preço, coisas em que São Miguel está a anos-luz da Terceira. Só para tirar a prova, entrei numa ourivesaria a perguntar se ainda teriam um relógio da marca X, com determinadas características. Eu explico: perdi há um ano e meio um relógio que adorava e que tinha comprado naquela mesma ourivesaria há sete anos. O funcionário (que nunca me tinha visto mais gordo) ouviu, foi buscar um catálogo da marca, e pediu-me que tentasse identificar o tal relógio ou um parecido. Encontrei exactamente o que queria, apontei-o, e foi-me pedido para esperar dois minutos. Três minutos e meio depois o homem estava de volta com um relógio quase igual. O mesmo desenho, mas com números no mostrador, coisa de que não gosto particularmente. Agradeci muito, expliquei-lhe o porquê de não o comprar, e fui despedido com um “obrigado pela sua visita, estamos sempre às ordens”, dito com toda a simpatia e com o sotaque que todos conhecemos. Estão a ver isto a acontecer na Terceira? Nem sempre…
Na semana passada li que os comerciantes da Terceira ficaram chateados com o alegado exagero na distribuição de convites para fazer compras no BX americano, lembrei-me da história que acabei de contar, e deu-me vontade de rir. Os americanos, tirando as Levi’s, as bicicletas e as Cheez Curls (que são a minha perdição), não vendem lá nada que não exista cá fora. Mais: temos cá fora melhor do que eles lá dentro, ainda que lhes custe a admitir isso. Há muito quem vá ao BX mas é por vaidade e para fazer inveja ao vizinho…
Eu quando posso também vou lá, atenção! Da última vez, comprei Cheez Curls, pilhas recarregáveis (cá fora o preço é um exagero!), dois pares de calças de ganga, um six-pack de DrPepper, e duas revistas americanas. À saída, um militar de vistas curtas obrigou-me a voltar atrás porque a funcionária tinha posto o carimbo no sítio errado, e fez-me prometer que se o apanhasse fora da passadeira lhe passava por cima… No dia seguinte fui às compras em Angra e comprei uma camisa, um cinto e outras coisas sem importância.
Vale a pena ir à base? Hoje já nem tanto, mas enquanto os comerciantes não deixarem de choraminguices parvas e começarem a trabalhar como deve ser, não vão longe. O Parque Atlântico vai dar uma “pancada” enorme nas contas de fim de ano do comércio micaelense, muito maior do que os passes do BX, e ninguém ouve os comerciantes de lá a chorar pelos cantos…
A crise até pode existir, mas nós é que a fazemos…

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