Não há carnaval no mundo igual ao da Terceira, feito de teatro popular e de salões cheios de gente a deitar por fora. Descendente directo do teatro de Gil Vicente, este carnaval é a festa terceirense que mais me diz. Vivo-o intensamente, e em oito anos que já passei fora da Terceira nunca faltei a um carnaval que fosse...
Consegui ir ao Carnaval da Terceira! Foi uma sorte das antigas, e quero crer que com uma mãozinha divina pelo meio, mas ainda não foi desta que faltei à festa terceirense que mais me diz. Foram quatro dias intensos e mal dormidos, a justificar as doze horas de sono de uma quarta-feira de cinzas já em terras florentinas, e os quase trinta contos dos antigos que a SATA leva por uns solavancos aéreos. Mas não faz mal. Não há dinheiro que pague certos prazeres na vida, e o Carnaval terceirense é um deles.
Há já alguns anos que não via tantos bailinhos e danças, daí que 2003 tenha sido para mim quase que um regresso às origens, aos dias em que o rabo ficava quadrado à medida das velhas cadeiras da Sociedade da Terra-Chã, e o jantar se ficava por uma bifana, um sumo e dois ou três coscorões vindos das mãos da fada-mãe, acomodados numa marmita da Tupperware para chegarem inteiros à boca. Como de costume, a noite de segunda para terça-feira foi reservada para uma ronda por alguns salões, temperada com muitas e boas gargalhadas, com reencontros sempre agradáveis com amigos que o tempo e a distância me levou para longe da vista, e com alguns momentos de ternura verdadeiramente impressionantes e até mesmo arrepiantes, que são a razão de estar a escrever isto hoje.
Já não sei onde nem interessa, mas num dos salões por onde passei estava uma família regaladamente sentada através de três gerações, com mãe, filha e neta sentadas em duas cadeiras… Claro está que a neta andava de colo em colo, sempre sem dar mostras de cansaço, apesar de não ter mais de um mês de vida. Isso mesmo: um mês. Não acredito que tenha muito mais do que isso, até porque esta minha opinião foi confirmada por uma já mãe com quem estava naquele momento, e sabe-se como as mulheres têm olho para estas coisas, não é mesmo?
Passaram-me pela cabeça milhares de ideias e coisas que me apeteceram perguntar. Mas isso não faz mal a criança? Isto está tão abafado aqui dentro! Tanto barulho não fará mal aos tímpanos da bebé? Será que ela vai conseguir dormir com esta confusão toda? Coitadinha da menina…
Durante algum tempo, não consegui despegar os olhos dela. No palco, um bailinho fazia o melhor que podia para me chamar a atenção, sem sucesso. Pasmada, a família assistia à actuação, com a avó a “esquecer-se” do biberão na boca da recém-nascida. Será que ela não se afoga com o leite? Ela já pode beber do biberão? Será que o leite da garrafa era materno, preparado para evitar “cenas” no meio da plateia? Fez-me aflição. Apetecia-me tirar-lhe o biberão da boca para ver se ainda respirava! Indiferente a isto, a família via o bailinho, a bebé mamava na teta de borracha, feliz e contente, e um daqueles malditos rapazes que nunca param quietos durante as actuações pisou-me o pé, trazendo-me de volta à realidade.
Mais ninguém parecia reparar naquilo. Mais ninguém partilhava a minha aflição. Mais ninguém chegou à conclusão que eu cheguei ao ver esta cena: é por estas e por outras que este nosso Carnaval nunca morrerá. Daqui a quinze anos (ou menos!) a bebé que vi naquele dia já estará certamente em cima de um palco a festejar o Carnaval, feliz e contente, sem saber que já antes de ser gente era público sorridente do mais popular e genuíno Carnaval do mundo.
Que magia esta, que força esta, que em três dias leva toda uma ilha a esquecer os seus males e os dos outros, e a rir-se de si própria com gosto e satisfação… até os bebés, Senhor! Até os bebés se divertem no nosso Carnaval! Abençoado seja…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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