terça-feira, 7 de novembro de 2006

9 - A Rampa de Natal do CATCH

Uma das mais bonitas aventuras da minha juventude foi o CATCH (já vai saber o que é), mas foi também a causa de um dissabor tão grande que foi uma autêntica lição de vida. Foi duro, muito duro, descobrir aos 16 anos que a palavra de um homem não vale nada se não estiver escrita num papel. Mas fica o gosto de saber que um grupo de rapazes conseguiu fazer melhor que os senhores que mandavam nos ralis da altura.

O automobilismo conquista as multidões com as importantes e várias nuances que lhe são permitidas observar. É o desporto emocionante que não está ao alcance de qualquer e gosa de excepcional consideração devido à sua categorizada importância. O automobilismo é ainda, um desporto onde a inteligência, a perícia, a destreza, a desenvoltura e o arrojo, ganham lugar de profundo destaque. Trata-se, pois, de disputas que dão fama e se projectam para além do horizonte das terras onde se realizam.

In A União, 27 de Novembro de 1952


Corria o Verão de 1992. O bar do Negrito era ponto de paragem obrigatório nas noites de fim-de-semana para os membros do CATCH. Para quem não sabe, o CATCH era o Clube Amigos da Terra-Chã, formado por cinco Amigos com uma paixão em comum: carros. Já com dois rali-paper organizados – e com grande sucesso, diga-se, – estávamos prontos para um projecto maior, e de uma conversa com o então jovem prometedor Gustavo Louro no tal bar nasceu a ideia de organizar uma prova de rampa, já que o TAC não ia organizar nenhuma.
A partir desse dia, as nossas vidas mudaram. Organizar um bicicross ou um rali-paper era uma coisa, mas isto era completamente diferente, e exigia conhecimentos que nós não tínhamos. Fomos falar com quem sabia, aprendemos os rudimentos da organização de provas automobilísticas, e pusemos de pé uma estrutura que previa desde os treinos à fórmula de desempate, com um esquema de segurança que envolvia polícia, bombeiros, ambulâncias, e muita malta nova com vontade de trabalhar. Nem o seguro de prova faltava!
Durante quatro meses, trabalhámos como doidos para arranjar os patrocínios necessários para pagar o seguro, a polícia, os troféus, enfim, tudo o que se podia imaginar. Nessa altura, as aulas só serviram para atrapalhar, as namoradas foram grãos de areia na engrenagem, e as famílias não acharam muita graça, mas lá se renderam à evidência da nossa determinação. Chegada a altura de definir as tarefas, foi o cabo dos trabalhos decidir quem ficava responsável pela segurança! Havia dois candidatos fortes e a coisa quase deu em briga, mas lá se resolveram as coisas e a prova ficou pronta para arrancar.
Fomos divulgar a Rampa junto da comunicação social, mas ninguém nos ligou. Houve mesmo quem nos dissesse na cara que achava que não iríamos conseguir fazer “aquilo”. Os restantes nem se dignaram a dar resposta… Cartazes espalhados pela ilha foram bem mais de cem, e a curiosidade começou a ser grande, até mesmo no liceu. As conversas iam sempre ter à Rampa, e até começámos a ser vistos com outros olhos por muitos colegas. Abrimos as inscrições, e logo começaram a chegar os pilotos. Devagar, é certo, mas lá foram aparecendo.
Foi então que tudo acabou. A cinco dias da prova, um ofício informava-nos de que a prova não estava autorizada e, como tal, não se poderia realizar. Nem queríamos acreditar! A mesma pessoa que três meses antes nos tinha dado luz verde tirava-nos agora o tapete debaixo dos pés. Ingénuos, não tínhamos pedido na altura uma confirmação oficial, e estávamos num beco sem saída. Nunca soubemos ao certo o que aconteceu. Suspeitamos de certas pessoas mas nunca conseguimos provar nada até hoje, mas a esperança não morre… e Deus não dorme!
Foi um corrupio. Cancelar em três dias o que tinha levado quatro meses a preparar, e, mais importante, devolver até ao último centavo todo o dinheiro dos patrocínios. Tudo foi feito, à excepção do impossível: informar o público de que já não havia Rampa. No Domingo de manhã, para nossa grande alegria e ainda maior desgosto, as Veredas estavam cheias de gente para ver uma prova organizada por um clube que ninguém conhecia, e que afinal era composto por cinco “sócios fundadores” com idades entre os 16 e os 20 anos. Um grupo de “canalha” que tinha posto de pé uma prova capaz de fazer inveja a muita gente grande… não admira que certas consciências se tenham sentido incomodadas!
Desde então, o CATCH adormeceu para as organizações automobilísticas, mas continua vivo na memória de todos quantos viveram essa aventura linda, que nos marcou para a vida e que nos colocou em posição de poder trabalhar para o automobilismo terceirense.
Em dez anos muita coisa aconteceu nas nossas vidas, mas o espírito mantém-se. Os “Jorges” são peças importantes na organização dos nossos ralis e pilotos de Todo-o-Terreno, o Nuno é um dos nossos melhores pilotos de ralis, o Paulo é talvez o melhor navegador de Todo-o-Terreno da Terceira, e o Lima é polícia em São Jorge.
Hoje, 20 de Dezembro de 2002, passam exactamente dez anos desde esse dia.
Esperemos que a História não nos esqueça. Quanto a nós, não vamos esquecer a história…

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