quarta-feira, 22 de novembro de 2006

27 - As minhas unhas levam quatro meses a crescer

Assim se vê como quem tem unhas é que toca viola...

Era dia 1 de Janeiro deste ano, e numa brincadeira com o meu cão fiquei com uma marca de sangue pisado por baixo de uma unha, mesmo naquele sítio que dói que se farta quando se arrancam as pelinhas… hoje, quatro meses e meio depois, cortei o último bocado de unha acastanhada que ainda me recordava esse momento. Hoje, oito anos depois, o Benfica volta a erguer um troféu futebolístico. Qual a relação entre estes dois acontecimentos? Lá chegaremos.
Nestes quatro meses, houve tempo para muita coisa: gente que se apaixonou, gente que se desamanhou, gente que roeu unhas e rangeu dentes quando a vida não correu pelo melhor, gente que nasceu, gente que morreu… Pois é. Ninguém ficou indiferente ao espectáculo desesperado da morte em campo de Miklos Fehèr, e nenhum benfiquista por esse mundo fora foi capaz de manter o sangue frio face à tragédia de Bruno Baião, com um futuro risonho à distância de um telefonema mortal.
Frente ao Sporting e ao Porto, a imagem das equipas reunidas em volta do círculo central foi mais forte do que tudo o que se pudesse dizer: enquanto os riscados estavam cada um por si, as camisolas cor de sangue, vida e morte estavam todas agrupadas num abraço a onze. Agora é fácil dizer isto, mas naquele momento tive a certeza de que a vitória no jogo seria vermelha, e amaldiçoei a minha consciência por não me ter deixado ir ao jogo.
Não sei por quê, mas sempre gostei de tomar o partido dos mais fracos. Quando jogo à bola gosto sempre de estar na equipa teoricamente mais fraca, dá-me mais gozo. Se as coisas correrem bem, é uma sensação óptima. Se correrem mal, paciência, os outros eram melhores e fizemos o que pudemos. E é aqui que está a chave da atitude que vi neste Benfica de final de época, mesmo que por vezes tenha sido uma equipa ansiosa e com um medo enorme de falhar: fazer sempre o melhor que se puder.
Aqui há alguns anos, num inquérito que ainda hoje está disponível em www.radioatlantida.net, à pergunta “qual o teu lema?” respondi simplesmente que era “fazer o melhor que puder em tudo aquilo que fizer”, daí que seja incapaz de me sentir satisfeito se sair do campo – seja ele qual for – sem ter dado tudo o que tinha, independentemente do resultado final. Foi isso que faltou ao meu gigante durante estes anos todos: atitude de querer sempre o melhor possível. Agora que ela está de volta, o mentor da revolução vai-se embora. Só um golpe de teatro impedirá Camacho de regressar ao seu clube do coração, e por isso lhe desejo toda a sorte do mundo, agradecendo-lhe a seriedade e o profissionalismo que veio trazer ao país do pontapé na chincha. O respeito que os portugueses lhe têm é consensual, e a prova é que não há jornalista que tenha coragem de se lhe dirigir de outra forma que não seja Senhor Camacho. Os jornalistas! Essa classe infame que tem um poder muito maior do que alguma vez deveria ter tido…
Nos quatro meses que me demorou a unha a crescer, eu sinto que cresci com ela. Com ela e com o meu Benfica! É que assim consigo explicar a tal relação entre o tempo que levou a unha a crescer e o tempo que o Benfica esteve sem ganhar nada. É simples: enquanto um miserável humano levou 136 dias para repor uma unhaca, a águia imortal precisou de oito anos para afiar as garras depois da poda que levaram naquela altura…
Moral da história: os clubes são sempre maiores do que os homens, e mais cedo ou mais tarde as coisas voltam aos seus devidos lugares.

Já agora: boa sorte para o Porto na final da Liga dos Campeões. Estou a torcer por eles.

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