terça-feira, 7 de novembro de 2006

5 - Aos anos que eu não ia ao futebol!

Levei anos sem entrar num estádio para ver futebol. Para jogar sim, entrava e entro sempre que posso, é uma das minhas paixões. Nas Flores, à falta de melhor, recomecei a ver futebol...

Há coisas engraçadas nesta vida, que só fazem sentido quando nos vemos em situações capazes de nos fazer recordar este ou aquele momento. Em miúdo ia muitas vezes ao futebol com o meu pai, e gostava de ver aquela gente a correr de um lado para o outro atrás da bola (coisa que a minha barriga nunca deixou fazer da melhor maneira) e pensava com os meus botões que um dia queria ser jogador, como eles.
Lembro-me de ir ao velhinho Municipal de Angra ver um Angrense-Lusitânia com a casa completamente cheia, e na memória ainda retenho jogadores como o Teves, o Paulo Marcelino, o Zeca Araújo (que hoje tenho a satisfação de contar entre os meus amigos) ou o pequeno Serafim, qual rato Mickey a serpentear em campo (peço desculpa por não me lembrar do nome de jogadores do Angrense…), e lembro-me de num jogo qualquer ouvir uma das célebres “calinadas” de um famoso relatador radiofónico provocar uma explosão de riso nas bancadas, que viam o jogo com os olhos e com os ouvidos colados ao rádio de pilhas para não perderem pitada. Depois, o meu pai deixou de ir ao futebol, e eu também. Talvez coincidência, talvez não. Acho que, pura e simplesmente, encontrei coisas melhores para fazer. Domingo, como não havia mesmo mais o que fazer, fui ao futebol.
Aqui nas Flores existem quatro clubes, que dão forma a um campeonato espicaçado pelos desejos de ver um deles a competir na Série Açores (e ainda dizem que ela não é boa para o futebol!), entre os quais o carismático Minhocas, cujo nome conhecia apenas do Teledesporto da RTP-Açores e que, por coincidência, foi o motivo do meu regresso a um estádio desde há dois anos, quando fui ver o Santa Clara-Benfica. Assim, carreguei o jipe de professores e lá fomos nós para Ponta Delgada, onde a equipa local recebia os Minhocas (ainda hei-de saber quem é que se lembrou de dar este nome ao clube). Para quem não conhece as Flores, ir a Ponta Delgada significa percorrer vinte quilómetros de curvas apertadas e paisagens magníficas, rumo a um pelado a cinquenta metros do mar e onde o vento é sempre espectador mais do que activo: é quase um jogador.
Valeu a pena. Futebolisticamente não vi nada de especial, mas o enquadramento humano à volta do jogo era fantástico. Numa ilha com quatro mil e tal pessoas, quase toda a gente se conhece, e dava a sensação de que todos os jogadores e o público eram conhecidos de longa data. Uma picardia aqui, outra ali, um velhote ferrenho a gritar PONTA DELGADA VAMOS EMBORA do princípio ao fim do jogo, uma mulher aos saltos e gritos cada vez que o marido tocava na bola, e muita gente nova a cirandar de um lado para o outro, com o cheiro a namorico a pairar, talvez trazido pela forte brisa que soprava do Corvo, ali mesmo em frente. Cada remate por cima da barra era motivo para risos e palmas, pois a bola acertava sempre num dos muitos carros estacionados atrás da baliza, cada golo era saudado por um ruidoso coro de buzinas, e três polícias assinalavam a sua desnecessária presença com gargalhadas, de tão entretidos que estavam na conversa, pois a paz e a concórdia reinavam.
Se o futebol nas Flores for sempre assim (duvido)… Mas sempre deu para ver que não há como ter pouco para se valorizar o pouco que se tem, mesmo que estejamos a falar de futebol. E aqui não há campos sintéticos, que na Terceira só contribuíram, ao que parece, para o tornar o futebol ainda mais artificial. Afinal, só sobraram quatro equipas para o campeonato de seniores, não é mesmo? Há que pensar no velho ditado da fome e da fartura…

P.S. – O Minhocas ganhou por 3-1, já agora…

Sem comentários: