sábado, 11 de novembro de 2006

21 - A importância de uma rajada de vento

Uma rajada de vento é a coisa mais natural deste mundo, e raras vezes é capaz de assustar alguém, mas há situações em que até mesmo uma rajada dá que pensar. As pequenas coisas da vida assumem proporções alarmantes quando colocadas num determinado contexto...

Há coisas na vida em que nem sequer pensamos, por nos parecerem tão normais e naturais que as consideramos garantidas. Quando é que, na Terceira, alguém vai a um supermercado a pensar se há ou não cebolas ou batatas na prateleira? Quem é que tem a preocupação de comprar iogurtes enquanto os há? Quem se preocupa em encomendar bifes para o jantar de domingo? Quem se preocupa se o avião levanta ou não? Pois é… pura e simplesmente vamos lá e compramos o que precisamos, e quanto aos aviões, só mesmo se houver um temporal dos diabos!
A ocidente as coisas não são bem assim, e com a chegada do Inverno estas preocupações sobem de tom, por nunca se saber se a força dos temporais atlânticos irá fazer das suas e deixar prateleiras vazias, passageiros em terra, e por aí fora. Pequenas coisas absolutamente vulgares em outros sítios assumem aqui proporções assustadoras e reveladoras de um estado de espírito permanentemente inquieto, algo que nem a força da habituação consegue contrariar. Aqui toda a gente sabe para que lado é o norte e o sul e sabem dizer sem pestanejar de que direcção vem o vento e se é bom ou mau para os aviões, por exemplo.
A aventura da equipa de futebol do Operário no passado sábado foi apenas mais um dos muitos episódios coloridos da complicada acessibilidade à ilha das Flores em dias de tempo menos bom, e despertou em muita gente a angústia adormecida e uma prece que nunca em dias de minha vida sonhei ouvir com tanto fervor: Oxalá faça bom tempo no dia tal. Curiosamente, quem costuma andar de avião nem estranhou os “balanços” de sábado. Conheço alguém que vinha nesse voo, só cá chegou na segunda-feira (aterrou à terceira tentativa), e quando lhe perguntei se a viagem tinha sido mesmo má, respondeu com a maior naturalidade que “nem por isso, eu cá já estou habituada”.
A memória do acidente de há quatro anos continua bem viva no subconsciente de todos, e claro que ninguém quer que se repita, mas nos Açores toda a gente já aprendeu a viver com as fatalidades do destino. Se não forem os terramotos são as tempestades, se não for a terra a tremer é o vento a levantar telhas, mas tudo se há-de arranjar…
Numa altura em que muita gente está de malas aviadas para passar o Natal em casa, a preocupação com a meteorologia cresce, e é ver a preocupação com que se acompanham as previsões na RTP Açores, ou se vai à internet ver como vai estar o tempo no fim-de-semana. Por mim, quem me conhece sabe que só me preocupo com aquilo que posso controlar, mas não nego que fico pior do que estragado (quem não fica?) se ficar em terra mais um dia ou dois. Não é tanto pelo cancelamento (antes não voar do que ir a chocalhar pelo céu fora!), mas porque simplesmente odeio estar em aeroportos, apesar de gostar de andar de avião, e abomino a forma como os passageiros são muitas vezes tratados como gado.
Na sexta-feira feira de manhã, quando acordar, a primeira coisa que vou fazer é olhar pela janela e ver se as canas mexem com o vento. Se estiverem dobradas para o lado do mar, bem posso voltar ao calor dos lençóis, pois é sinal de que o vento vem da América e empurra o ATP de volta para o Faial… e se estiverem a abanar sem direcção definida o melhor é olhar para o outro lado, não vá o diabo tecê-las e acontecer, como dizia um padre que eu cá sei, que o milho esteja a mexer sem fazer vento…

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