terça-feira, 7 de novembro de 2006

7 - Um Açoriano Campeão!

Os ralis são uma das coisas que ajudaram a fazer de mim aquilo que sou, e estou-lhes grato por isso. Gosto do desporto e vivo-o de uma forma intensa, como só é possível a alguém que durante dez anos fez parte da organização de provas. Assim se explica que tenha escrito isto em pleno Aeroporto da Horta, à espera de um avião que nunca mais chegava.

Há coincidências fantásticas. Escrevo esta crónica minutos depois de receber uma mensagem do meu amigo Miguel Azevedo a dizer que Horácio Franco está a três troços de ser Campeão Nacional de Produção em ralis. Coincidência porque estava justamente a fazer rali no computador, e fantástica porque estava a jogar com… o carro de Horácio Franco! Enquanto não chega o avião, tempo para uma breve reflexão sobre este micaelense de rija têmpera que, ganhe ou não o campeonato, já ganhou um lugar na galeria de notáveis do nosso desporto, bem acompanhado pelo nosso Tiago Azevedo no banco do lado direito.
Não é fácil, numa altura em que todos cramam pela falta de dinheiro e de apoios, um açoriano chegar ao continente e dar uma lição de como se conduz. Horácio já o conseguiu, e é, ao cabo de três décadas de carreira, o piloto regional com melhor palmarés de sempre. Disso não parecem haver dúvidas. Depois de dois anos consecutivos em que soube estar sempre no lugar certo à hora certa para ser campeão regional e assegurar a participação no campeonato nacional, o nosso campeão provou que a máxima um ano para aprender, outro para ensinar se aplica sempre que haja capacidade, talento e vontade, coisa que não lhe parece faltar.
Personalidade incómoda para muitos e senhor de um feitio que nem sempre terá lhe terá trazido os melhores resultados, Franco tem sido – valha-nos isso – coerente nas suas posições quanto aos ralis regionais, não tendo medo de chamar os bois pelos nomes e de lhes enfeitar os cornos quando foi caso disso. Estou a lembrar-me, concretamente, do último Rali Açores, em que foi frontal e devastador até mais não poder para com os mentores da manifestação de agricultores que deitou por terra meses de preparação. Entre outros mimos, Horácio disse com as letras todas que os verdadeiros lavradores não são os que estão aqui de camisa fina mas os que estão nos pastos a tratar dos animais.
O exemplo vale o que vale, mas mostra alguém que diz o que lhe vai na alma, coisa que também já sucedeu em ralis na Terceira. Tivesse ou não tivesse razão, os seus pontos de vista, no mínimo, contribuíram para a melhoria de certas situações em todos os ralis do campeonato, ou não fosse ele um crítico por natureza. Por outro lado, a experiência trouxe-lhe uma humildade que só lhe fica bem, sendo capaz de reconhecer este ano, desde muito cedo, que muito dificilmente conseguiria manter o título regional, chegando mesmo já a arriscar prognósticos para o futuro, ao considerar Armindo Araújo como mais que certo futuro campeão nacional de ralis. Cito de memória declarações do piloto à comunicação social, por isso estou certo de que ele me perdoará qualquer falha…
Por cá, Gustavo Louro é o senhor que se segue para o ataque ao campeonato nacional, sucedendo a Franco enquanto beneficiário do apoio governamental, o que é uma pena. Não porque Louro não mereça, nada disso, mas porque Franco não merece que lhe retirem esse apoio, que a vitória no campeonato mais do que pagou e justificou. Aliás, em termos de promoção da região no continente, a participação de carros com as nossas cores no Campeonato Nacional é dos investimentos mais rentáveis que o turismo pode querer. Que bom seria podermos ver em 2003 Horácio a repetir a vitória na Produção e Gustavo a discutir ralis à geral com os melhores pilotos portugueses! Disso eles são capazes, que ninguém tenha dúvidas!
Por esta altura, certamente já terá acabado o Rali do Algarve, e Horácio Franco é já Campeão Nacional de Produção. Um marco histórico, um exemplo para os desportistas, e um orgulho para os Açorianos.
Parabéns Horácio!

P.S. – Já chegou o avião. Terceira querida, aí vou eu!

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