Há nas Flores muitos tesouros naturais a descobrir, mas a Aldeia da Cuada é qualquer coisa de especial. Imagine o sítio mais sossegado que conseguir para passar umas férias, e depois vá até lá por uns dias e veja como se enganou... a realidade é simplesmente melhor do que as palavras.~
Regra geral, as campanhas publicitárias de organismos governamentais não são grande coisa, não sei se por contenção de custos ou se por as agências de publicidade acharem que “para quem é bacalhau basta”. De entre todas elas e de todos os slogans que já ouvi, o “vá para fora cá dentro” é sem dúvida o melhor, e desde o passado fim-de-semana que ainda gosto mais dele…
Quem quer umas férias para descansar de tudo e de todos tem na ilha das Flores uma excelente opção, dada a sua pacatez e isolamento do resto do mundo. Não é fácil chegar cá, e às vezes ainda é mais difícil sair, mas o certo é que as belezas naturais nascem-nos debaixo dos pés e diante dos olhos. Um qualquer passeio descontraído rapidamente se revela uma odisseia de cores e panoramas que dificilmente se esquecem, mas não é disso que lhe quero falar hoje. Se quiser descansar ainda mais a sério e fazer uma viagem no tempo, então o melhor que tem a fazer é vir para as Flores e passar uns dias na Aldeia da Cuada…
Aqui há tempos falou-se da Cuada porque uma revista não sei de onde a considerou como um dos melhores sítios do mundo para passar férias, e eu achei engraçado ter uma coisa destas aqui ao pé e não lhe dar o devido valor. Já conhecia o sítio, mas faltava a experiência de ser turista… Pois bem, já a tenho. Por um feliz convite, passei dois dias de absoluto descanso em boa companhia, e hoje digo também que a Aldeia da Cuada é um autêntico achado.
Sai-se do asfalto, e a marcha abranda logo. Não porque a estrada seja de bagacina, mas porque os coelhos e as galinhas não têm pressa de se desviar. Fica feito o aviso: na Cuada não há lugar às pressas. O caminho de acesso é feito de lajes de basalto cravadas no chão, quase ao jeito de uma calçada romana. É preciso cuidado para não tropeçar com os sacos na mão… As casas são impressionantes. Recuperadas daquilo que nos anos 60 foi uma verdadeira aldeia, mantêm a traça original, o que significa que são muito parecidas com os palheiros que ainda hoje se usam, com a diferença de terem portas e janelas bem arranjadas.
Passada a porta, tudo é – acredite – passado. A mobília é de certeza absoluta mais velha que eu, as paredes estão revestidas de cimento pintado de branco, com muitas pedras à mostra (fazem lembrar uma vaca!), na cozinha o lava-loiça é de pedra, e a televisão, o telefone e a aparelhagem até destoam. Entra-se na casa de banho à espera de encontrar uma retrete, mas lá dentro já chegou o século XXI. Ainda bem. Não me apetecia nada limpar o rabo com um taroco de milho…
A calma e a tranquilidade reinam. O silêncio é tanto que faz impressão, e mesmo com o nevoeiro que estava os pássaros cantavam sem parar. Será isto o paraíso?
Acordar na Cuada é uma experiência única. Pura e simplesmente não apetece ficar na cama. Lá fora o sol brilha e as pedras do chão pedem para ser polidas pelos sapatos dos visitantes. A aldeia deixa-se conhecer depressa, e a nespereira levou um desfalque de que não estava à espera. Rico pequeno-almoço! Por falar em comida, cada casa tem um grelhador cá fora, e as refeições são festas completas, desde o fazer das brasas ao fazer a digestão. Com o sol a brilhar, a mesa do jardim é o palco ideal para um almoço às três da tarde… Não fique a pensar que dormimos até ao meio-dia, o frango é que não tinha pressa de grelhar!
Sair da Cuada pode ser uma experiência traumatizante, principalmente se houver que trabalhar na manhã seguinte. Mas não há nada a fazer, que os miúdos esperam por nós. A Teotónia e o Carlos Silva, simpáticos como sempre, fazem-nos uma surpresa na despedida, e garantimos logo que as contas não ficam assim. Havemos de voltar à Cuada, e se possível por mais tempo.
A julgar pela amostra, vale mesmo a pena ir para fora cá dentro. Portugal tem tanta coisa linda…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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