quarta-feira, 22 de novembro de 2006

26 - O meu sangue tem gasolina

Um devaneio de ocaisão quando não tinha mais que fazer mas tinha vontade de escrever. A paixão pelos motores a roncar... e o antecipar do meu primeiro rali na Terceira sem ter quaisquer responsabilidades, ao fim de dez anos de muito trabalho e de muito crescimento.

Eu já uma vez pedi ao analista que procurasse no meu sangue vestígios de gasolina, óleo de motor, valvulina ou outro líquido qualquer que se possa encontrar num carro, mas ele limitou-se a encolher os ombros e rir, como quem diz não me chateies que eu já tenho muito que fazer. Sei que é impossível as análises darem positivo, mas sempre era uma forma científica de poder explicar às pessoas o porquê de gostar tanto de tudo o que tenha motor e rodas, de preferência quatro.
Em casa sempre fui um extraterrestre neste sentido, e na rua tenho os meus amigos de sempre, que – esses sim – partilham a mesma paixão, em maior ou menor grau. Quando era miúdo, duas vezes por ano agarrava na bicicleta e subia a Fonte Faneca para ver passar os carros do rali. Eram os tempos do Joaquim do Carmo e do José Eduardo, do eterno Horácio Franco com o Mazda 323, e do meu preferido de então, Manuel Grade. Andava mais para os lados que para a frente, e fazia-me pensar como seria possível fazer aquilo com um carro sem andar a esborralhar paredes todo o caminho...
Ainda nem carta de condução tinha e já fazia parte da organização dos ralis, onde me mantive durante dez anos e de onde saí por entre lágrimas que nunca encontraram a porta, amarradas que estavam ao nó cego que sentia na garganta. Agora, a menos de duas semanas de mais um rali, ainda não sei bem o que fazer. Nunca vi um rali a sério na minha própria terra nem na dos outros, uma vez que me envolvi desde muito cedo nas reportagens das provas motorizadas, fosse em serviço para rádios ou jornais. A bem dizer, esta é a primeira vez que vou para o rali quase sem preocupações. Estou em casa, tenho o meu carro e, mesmo tendo a reportagem para escrever, vou para a estrada descansado e de cabeça limpa, o que há algum tempo atrás seria absolutamente impensável.
Voltando ao princípio, não sei como nem porque me apaixonei por este mundo. Faço trabalhos sobre ralis ou sobre novos modelos de carros com um gosto e uma alegria que não consigo explicar por palavras, as mesmas palavras que me faltam para transmitir as razões que me levaram a experimentar as emoções fortes do todo-o-terreno (é mais barato e mais seguro que os ralis, e dá um gozo tremendo...). E acredite quando digo que não foram poucas as vezes em que até me sentia culpado por me pagarem para fazer uma coisa de que tanto gosto...
Cheguei à Terceira na sexta-feira, e nesse mesmo dia estive até às duas da manhã à volta de um carro de rali que em quatro horas passou de monte de sucata que não queria trabalhar a espectáculo na estrada. Vi os carburadores a serem desentupidos, as válvulas a serem afinadas, e ouvi o som do motor passar de uma coisa parecida com uma máquina de fazer pipocas a um ronco grave e abafado que enche a alma e faz estremecer as unhas. Mais do que isso, senti na estrada a força de uma traseira que teimava em não se manter direita, e de cada vez que o pé direito do piloto ia abaixo era a minha pulsação que ia acima.
O meu sangue até pode não ter gasolina, mas naqueles momentos de adrenalina fiquei com a sensação de que o meu coração tinha dezasseis válvulas e o meu cérebro era um turbo. Quanto às unhas, podem ficar como controlo de tracção...

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