quarta-feira, 8 de novembro de 2006

18 - As inquietações à volta de um rali

Foi por causa desta crónica que me abriram a porta de saída do Terceira Automóvel Clube. Um grupo de energúmenos que não sabem ler achou que eu estava a pô-los em causa e a dizer que me queria ir embora. Só quem não me conhece para achar uma barbaridade dessas, mas tudo bem, saí sem levantar ondas, mas o tempo veio dar-me razão. Já fui convidado para voltar pelos mesmo que me puseram fora, mas gosto muito da minha nova vida e não vou abdicar dela nos tempos mais próximos. Deus não dorme...

É meia noite e vinte e cinco de quinta para sexta-feira. Cheguei a casa há pouco mais de meia hora, vindo do TAC. Estive desde as dez da manhã a trabalhar para o rali. O shake down correu bem, graças a Deus, mas ao fim de três horas já não podia ver carros à minha frente. Estou sujo, cansado, mas “acelerado” demais para conseguir dormir. O computador estava ligado, e comecei a escrever.
Há mais de um mês que o Eterno Estudante não escreve nas páginas da União, pois está de férias. O Jorge Silva sim, esse já escreveu umas quantas reportagens desde que chegou à Terceira, e já está farto de trabalhar para o rali desde que chegou. O trabalho de coordenar a segurança do rali está a ser mais extenuante que nunca, pois foi “reforçado” com trabalho extra em áreas que normalmente são tratadas por outros, e já não vejo a hora de recomeçar a trabalhar, de voltar a dar aulas. Longe de casa, infelizmente, mas a lei dos concursos assim o ditou.
Provavelmente, este texto vai ser publicado no dia do rali, que este ano até é sábado da Serreta, uma coincidência infeliz contra a qual não houve nada a fazer, mas estou convencido de que tudo irá correr bem.
Desde o dia 1 que estou requisitado para trabalhar no rali, e é isso que tenho feito, mas não consigo deixar de pensar naquele que é o meu trabalho verdadeiro, para o qual também já comecei a preparar coisas, mas... não é a mesma coisa. Sei que estou numa situação perfeitamente legal, devidamente autorizada por quem de direito, e tudo o mais, mas não consigo deixar de ter algum medo... vivemos numa época hipócrita em que não basta ser sério, é preciso parecê-lo, e com o início do ano lectivo não tarda nada regressa a cantilena dos professores de fora das ilhas, que passam a vida a faltar, etc. e tal e por aí fora. Eles existem, sejam açorianos ou do continente, disso ninguém tenha dúvidas, o problema é que se geram situações por esse arquipélago fora em que os justos apanham por tabela dos pecadores, e é isso que me faz confusão.
Uma colega minha, mais experiente nestas andanças, disse-me um dia que até já tinha medo de ficar doente, e essa conversa ficou a bailar-me na cabeça até hoje, e há-de continuar. Não há uma solução fácil para o problema, até porque, como já tive ocasião de escrever, há sempre o factor humano, com razões por vezes profundas que ultrapassam aquilo que está à vista, daí que me permito a ousadia de colocar a bola do lado de quem manda nas escolas. Não do governo, mas dos conselhos executivos. Quem melhor que os dirigentes que lidam com os professores diariamente pode saber aquilo que tem pela frente?
Está bom de ver que o que acabo de escrever não é pacífico, pois implica tomar decisões perante outros colegas, decisões essas que podem até gerar alguma controvérsia inicial, mas se o poder for exercido com imparcialidade, justiça, inteligência e transparência, poucos ou nenhuns serão aqueles a ter razão de queixa.
Estas preocupações todas já me levaram por várias vezes a considerar o abandono das funções que desempenho na organização dos ralis, mas acabo sempre por pensar que não estou a fazer nada de errado, e quem tiver dúvidas basta perguntar, que as respostas são rápidas e claras, pois nada é feito por trás das costas. Tenho a consciência limpa, e isso é que conta. Já me passou pela cabeça que na realidade estou é cansado de dez anos consecutivos no TAC, quatro deles com funções de comando na área desportiva. Nunca vi um rali na minha terra, e talvez seja hora de mudar isso... há dez anos eu só sabia que o troço da Fonte Faneca começava um quilómetro mais acima da minha casa, e gostava de ver os carros a arrancar; hoje, bem... hoje estou como o avôzinho do anúncio dos caramelos: imagino os ralis para os dar ao meu “neto” que olha para os carros com olhar sonhador, pois “ele também é alguém muito especial”. “Ele” é o rapaz que chegou ao pé de mim no fim do shake down e perguntou, com a cara mais triste deste mundo “Eh senhô! O rali já acabou?”
Não farei parte da organização de mais rali nenhum a pensar nos pilotos ou noutro figurão qualquer que queira “aparecer”. Se fizer parte de mais alguma organização será para que todos aqueles que verdadeiramente gostam de ralis possam ir para a estrada sem medos, será para todos os meninos de treze anos que vão na sua bicicleta ver os carros do rali a passar.
Trabalhar para esses vale a pena, para os outros... talvez não.

P.S. – É uma e um quarto da manhã. Acabei.

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