terça-feira, 7 de novembro de 2006

8 - A minha avó faria hoje noventa e quatro anos...

Os meus avós são inesquecíveis. Isto torna qualquer outra introdução desnecessária.

… se fosse viva. Hoje já não tenho avós, mas nem por isso me esqueço deles. Continuo a precisar que a minha mãe me lembre dos seus aniversários, o que me envergonha para além de tudo o que se possa imaginar, mas não consigo fixar estas datas e, se calhar, até nem quero. A lembrança deles não morrerá nunca, e saber que nestes dias poderíamos estar a fazer uma festa de anos é algo tão doloroso que quase prefiro esquecer. Mas não esqueço.
Só conheci três dos meus avós, e tenho pena, pois sempre senti que me falta conhecer uma parte importante de mim mesmo. Se sou o que sou, devo-o também a eles, mesmo ao que não conheci. Pelo que me contaram, herdei do avô Evaristo a barriga e um certo temperamento resmungão, mas gostava de o poder dizer pelas minhas próprias palavras. Por qualquer estranha razão, tenho a certeza de que nos teríamos dado muito bem os dois.
Ainda vivi quase cinco anos com a aniversariante de hoje, e tenho dela as melhores recordações. Dela e das visitas que lhe fazia em Vale de Linhares ao fim de semana, que acabavam sempre com um copinho de licor de vinho tinto para dar força para o caminho. Na mala da minha mãe ia sempre pão com manteiga para dar a uma cabrinha ali junto ao hospital… isso e um saco de aperitivos Pôr-do-Sol (lembram-se?) para trincar enquanto não chegava a urbana. Bons tempos, sim senhor…
Com a sua morte, fiquei com dois avós em casa, um de cada pai, e que dupla curiosa eles faziam! Era meu avô com os seus pombos e minha avó com os chicharros fritos para o Ti Henrique que morava sozinho na casa do lado, coitado. Nunca me esquecerei do meu avô a levantar-se tão depressa quanto podia para ver na televisão como é que estava “a dólar da América”, facto importantíssimo para poder fazer as contas à reforma que lhe vinha do outro lado do mar. Quanto à minha avó, nunca lhe agradeci o suficiente todos aqueles almoços de quarta-feira, já prontos a comer, pois chegava a casa a faltar cinco para as duas e dali a nada começava o “Quem Sabe, Sabe” na Rádio Horizonte. Já lá vão mais de dez anos…
Tiveram um final de vida inglório, com tantas doenças juntas a prendê-los à cama, mas o que mais me doeu foi não ter estado lá para o último adeus… a vida já me tinha levado a estudar para São Miguel e, se num caso não consegui viajar, no outro só soube no dia seguinte, graças à maldita “gestão familiar” que achou que um exame era mais importante do que um funeral… Hoje se calhar até lhes dou razão, mas na altura ainda bem que não os tinha à mão de semear!
Por tudo isto, quando hoje ouço alguém a refilar “o meu avô isto” ou “a minha avó aquilo” não consigo evitar um sorriso de nostalgia. Quem me dera ter os meus todos aqui ao pé de mim para poder refilar com eles…
Que a dor de os ter perdido nunca nos faça esquecer a alegria de os ter possuído.
Parabéns. E obrigado…

P.S. – Mãe, Pai, Irmã, desculpem se vos fiz chorar, mas acreditem que não choraram sozinhos…

Santa Cruz das Flores, 26-11-2002

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