A SATA, para quem não sabe, é a Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, a única companhia aérea que faz ligações inter-ilhas. Mais cedo ou mais tarde todos os açorianos precisam dela, e quando a coisa correbem, corre bem, mas quando corre mal...
Completam-se daqui a uns dias nove anos desde que me tornei passageiro frequente da SATA, e como desde então já andei de avião azul e branco mais de cem vezes, tenho muitas histórias para contar, qual delas a melhor. Podia contar aqui a história do dia em que cheguei ao aeroporto à hora indicada só para descobrir que tinham antecipado o voo e avisado todos os passageiros excepto um (adivinhem qual...), mas esta semana arranjei uma muito melhor. E é para contar aos netos...
Por motivos familiares, necessitei de ir das Flores a São Miguel, optando por parar depois uma noite na Terceira, para cortar o cabelo e outras coisas que não são para aqui chamadas, regressando depois às Flores. Partida na sexta, chegada na quarta. Simples, não é? Errado! Chegado ao aeroporto das Lajes na quarta-feira para fazer o check-in, e sabendo já que nas Flores só por milagre aterraria um avião naquele dia, tal era o mau tempo, expus à menina do balcão a situação, dizendo que seria escusado ir ao Faial, e perguntei se não era possível passar-me a declaração de voo cancelado para justificar as faltas ao serviço. Com pouca paciência para me aturar, a menina despachou-me com um seco “para fazer isso só no Faial porque daqui para lá o senhor vai de certeza e só lá é que sabe que cancela”. Esclareça-se que nesta altura já eu tinha telefonado para as Flores e falado com alguém ligado à aviação, que me tinha dito que o vento estava com rajadas de 120 km/h a cruzar a pista... E fiz questão de dizer isso à menina!
Resignado, preparei-me para ir ao Faial buscar uma folha de papel e voltar para trás pelo mesmo caminho, pois havia um voo para a Terceira naquela tarde. A SATA havia de me transportar de graça, como era sua obrigação, pensei eu...
Chegado ao Faial, a primeira coisa que fiz foi dirigir-me ao balcão e pedir a tal declaração, pois a primeira coisa que nos disseram foi que o voo para as Flores estava cancelado. Foi-me passada com toda a rapidez e simpatia, e de imediato me fizeram a reserva para voltar dali a pouco à Terceira. Mal sabia eu...
Por razões que não cheguei a entender, o voo para a Terceira acabou por ser cancelado (talvez a explicação esteja no facto de só ter contado onze passageiros...) e tive de encontrar um sítio para passar a noite em terra estranha, por minha conta, é claro. No dia seguinte, de regresso ao aeroporto, novo cancelamento do voo para as Flores e, como o avião que ia às Flores era o avião que ia para a Terceira, nem voo para a Terceira houve, só para São Miguel. Se isto já me rebentou com os nervos, imaginem como fiquei quando soube que a um dos meus companheiros de viagem tinha sido dito no balcão do check-in da Terceira que se não quisesse não fosse para o Faial, pois não haveria voo para as Flores. E isto aconteceu, segundo ele, quinze minutos antes de eu chegar ao balcão! Garanto-vos que se apanho a tal menina à minha frente nessa altura...
Mais um táxi, mais uma noite no Faial, com ordens para estar no aeroporto às 12:40 de sexta-feira. Às 12:30 já eu estava lá, para descobrir, com surpresa, que de manhã já por ali tinham passado dois aviões com destino às Flores. Perguntei por que razão não me tinham informado, e disseram-me que não havia lugar para todos e que os passageiros que tinham aparecido de manhã tinham conseguido viajar. Quando olhei bem em volta e vi quem é que faltava, pegou-me o fogo! Já me tinham dito que o aeroporto da Horta era palco de muitos compadrios, mas o que constatei e confirmei rebentou a escala! Tinham inclusivamente contactado passageiros retidos da quinta-feira, quando eu e outros, incluindo uma senhora de idade numa situação particularmente delicada, estávamos retidos desde a quarta-feira. Apetece chamar uns nomes feios, não é?
Mas pronto, dali a bocado já estaríamos todos nas Flores e tudo se esqueceria com um duche e uma boa noite de sono, até os quase 100 euros que a brincadeira já me tinha custado. Maravilha das maravilhas, chegou o voo das Flores, e de imediato se ouviu o sinal do microfone. Quando toda a gente esperava “passageiros para as Flores é favor dirigirem-se à sala de embarque”, ouviu-se “a SATA informa que o voo não-sei-das-quantas com destino às Flores foi cancelado devido às condições meteorológicas”. A primeira coisa que fiz antes de reclamar foi telefonar para as Flores, só para me dizerem que o tempo estava igual ao que tinha estado de manhã...
Tudo somado, era nesta altura que eu devia começar a refilar e a ameaçar partir a tasca toda, que aquilo era uma vergonha, e por aí fora, como de resto começaram a fazer os outros, certo? Mas não. Fui direito ao balcão, olhei a menina bem nos olhos e disse-lhe que queria regressar à Terceira, por conta da SATA, o mais depressa possível. Ela ainda pestanejou e deu uns solavancos à volta do computador, mas tudo se resolveu e ainda acabaram a mandar parar o Dornier para eu ter tempo de chegar a ele. Quando entrei, até me parecia mentira!
Claro está que a intenção era ir no sábado para as Flores, por isso assim que cheguei à pátria fui direito ao balcão para resolver tudo. Fui atendido com prontidão e eficácia, é certo, mas devo ter ficado com cara de parvo quando me disseram que só podia ir para as Flores na TERÇA-FEIRA, pois o senhor apressou-se a explicar que o horário do voo Terceira-Horta de sábado não é compatível com a escala do voo Ponta Delgada-Horta-Flores, o mesmo acontecendo à segunda-feira. Como ao Domingo não há voos para as Flores, o resto é simples...
Isto é um escândalo! Que raio de política aérea é esta, que raio de descoordenação é esta que me OBRIGA a esperar quatro dias por uma viagem inter-ilhas, quando na ilha de destino só ao Domingo não há escalas? Lá no fundo até agradeço as férias forçadas, mas a verdade é que isto prejudica-me a mim, prejudica o meu trabalho, prejudica as pessoas que comigo trabalham, prejudica muita gente. A cada dia que passo nas Flores, apercebo-me de que o tão badalado isolamento é mais político do que outra coisa qualquer, e começo a ficar chocado com a forma como os florentinos se entregam a estas situações como se tudo fosse definitivo, mandado por Deus. Ele não dorme, todos sabemos, mas às vezes parece que está distraído...
Será que lá do alto dos céus não se arranja um tira-nódoas?
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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