Novamente as memórias da minha infância. Penso que este texto dispensa mais explicações, a não ser esta: a urbana é o nome que por cá se dá ao autocarro...
Em frente da minha casa há um portão que já foi verde. Em boa verdade, ainda é, mas a erosão do tempo também passou por ele, e hoje mais parece um velhote que só se equilibra à custa das muletas que lhe foram sendo pregadas pelas partidas da vida. Não sei a idade do portão, mas não me surpreenderia se fosse a minha…
Cresci a olhar para o portão verde, pois era a primeira coisa que via quando saía de casa para ir à escola, e era a primeira coisa em que pensava quando regressava a casa. Não porque o portão fosse assim tão bonito ou tão feio que chamasse a atenção de quem por ele passava, mas porque durante muitos anos aquele portão foi a baliza de intermináveis jogos de futebol entre a rapaziada da parte de cima da freguesia. O som das muitas bolas que por ali passaram a bater contra a sua madeira forte é algo que está gravado nos meus ficheiros de memória que nunca serão apagados, onde guardo também as tardes de glória ali passadas a desfazer sapatilhas Ritex, que naquela altura sapatilhas a sério eram só para quem tinha dólares para gastar na base dos americanos.
Não tinha nada que saber: mochilas para casa, sapatilhas para os pés, e bola para a rua. Às vezes nem de roupa se trocava para não se perder muito tempo, o que resultava invariavelmente em ralhetes das mães que, aflitas, viam em risco as roupinhas de ir à escola que tanto dinheiro tinham custado a ganhar. De quando em vez, lá ia a bola por cima da barra – que neste caso era (e é) uma trave de madeira dura e grossa como os cornos de um toiro do José Albino – e lá ia o pé torto atrás dela, o que não era tão simples como isso, pois o portão estava fechado e o muro mais baixo tinha quase dois metros de altura. Para quem tinha dez ou doze anos, era uma montanha…
Casas à volta, a bem dizer, só a minha, pois as outras já ficavam fora da grande área. Quando era preciso alargar o campo, ia-se para os lados da venda, e não foram poucas as vezes em que a bola vendeu rebuçados, pois era preciso disfarçar o descuido… Vidros à volta eram, pois, mais que muitos, mas nunca partimos um que fosse. Parece mentira, mas é verdade. Não me lembro sequer de termos partido fosse o que fosse nas centenas de horas que ali jogámos futebol, nem sequer os vidros da casa em ruínas que estava mesmo ali ao lado.
Curiosa, essa casa. Só lhe conheci um habitante, e depois da sua morte a casa como que morreu a seguir. Só sei que saí de casa um dia de manhã para ir para a escola e me abriguei da chuva escondido no seu portão enquanto não chegava a urbana. Quando regressei, a casa já lá não estava. Tinha sido demolida, pois ameaçava desmoronar-se mais dia menos dia. Foi uma sensação estranha a princípio, mas para a malta do futebol foi uma bênção! Sem aquele vulto enorme a fazer sombra, o nosso estádio parecia maior, e sempre eram uns metros a mais para dar pontapés.
Todos crescemos, e o velho portão verde foi perdendo importância. Chegámos a passar para o interior do que ele escondia para lá fazermos uma baliza como deve ser, pois a força dos pontapés também cresceu connosco, e chegávamos a rematar da estrada com o portão aberto. Foi num desses dias que nasceu um guarda-redes que havia de ficar conhecido por ter nome de mulher, quando o treinador o viu fazer meia dúzia de defesas vistosas à minha famosa biqueira do pé direito…
Hoje já ninguém joga futebol no largo e já não se usa o portão verde como baliza. Ele lá está, de portas amarradas, como que a avisar para não mexerem muito com ele, que já não aguenta muitos baldões. A canalha hoje em dia é outra, usa brinquinhos na orelha e imita os mafiosos americanos que viu nos filmes que nunca devia ter visto. A bola foi substituída pela má-criação de mostrar o cú às vizinhas, que se indignam e com razão. O portão verde, testemunha de tantas palmadas bem dadas e por razões muito menores, observa impotente estas crianças demoníacas e chora por nós. Chora pelo regresso dos rapazes que só queriam jogar futebol e andar de bicicleta.
Nunca chegarás ao museu, portão verde, mas nunca serás esquecido…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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