Eu gosto de ser professor, mas há dias difíceis. Quando o Inspector Regional da Educação afirmou publicamente que uma das grandes causas do insucesso escolar eram as faltas dos professores, passei-me...
Nunca gostei de faltar às aulas enquanto fui aluno, e agora muito menos, que me passei para o lado do “inimigo”. Mas que prazer é – já dizia o poeta – ter um livro para ler e não o fazer…
Quando o professor falta é uma festa. É furo!!! Vamos brincar à apanhada, vamos jogar futebol, vamos namorar para debaixo das escadas, vamos fazer tudo menos pensar na aula que não tivemos. Quando o aluno falta faz a festa sozinho, pois o professor dá a aula na mesma e o aluno sempre pode passar os apontamentos dos colegas, se lhe apetecer. Na pior das hipóteses, não percebe aquela parte da matéria, e se tiver sorte ela até nem sai no teste.
Quando o professor falta desconta nos dias de férias ou desconta no ordenado, isto quando não está “de atestado”, que se for falso nunca é investigado mas se for verdadeiro está sujeito a ver a inspecção bater-lhe à porta, a dar razão aos que dizem que este mundo está de pernas para o ar. E se faltar muitas vezes em alturas seleccionadas cai o Carmo e a Trindade, pois está-se a baldar aos seus deveres profissionais. É um garoto! Não presta para nada!
Quando o aluno falta e não faz caso das aulas, a culpa é dos professores, que não sabem cativar o menino ou a menina para o Português ou para a Matemática. Pouco importa que ele diga palavrões na sala de aula e mande o “profe” de volta para a barriga da mãe, pois como é essa a educação e o exemplo que tem em casa não sabe comportar-se como gente. O “profe” é que tem a culpa, pois essas coisas aprendem-se é na escola, dizem os pais…
No Dia da Mãe, o professor pede aos alunos que façam uma frase com a conhecida e ternurenta expressão “mãe há só uma”, e há um esperto que escreve: “A minha mãe mandou-me ir buscar duas cervejas ao firgorífico. Eu fui, abri a porta da friza e só havia uma. Virei-me para trás e disse-lhe: Mãe, há só uma!”
A culpa é do professor, que não soube explicar bem aquilo que queria e não ensinou ao aluno como se escrevia a palavra frigorífico. Não é do aluno, que até nem quis gozar com ninguém…
O aluno falta às aulas, falta aos testes, e depois traz a justificação assinada pela mãe mas preenchida por ele. A mãe nem sabe que ele faltou, pois no princípio do ano, para a criancinha não a estar sempre a chatear, assinou logo de uma vez uma resma de justificações. O aluno, que sabe que as costas estão quentes porque a mãe não sabe nem quer saber, lá vai justificando o injustificável.
A culpa é do professor, porque aceita as justificações. Mas estão assinadas pela mãe! Não interessa – dizem os observadores – o professor tem de ser como um polícia: desconfiado e sempre atento.
Na Secretaria, fazem calendários com semanas de dois e três dias de aulas a seguir às férias. Os professores de fora da terra não aparecem, pois estão doentes ou têm uma consulta nesses dias. É um sarilho! Os meninos ficam à solta no depósito – perdão, na escola – e os pais não sabem o que lhes hão-de fazer. Os professores fazem bem? Não, não fazem. E quem fez o calendário escolar, será “bem discreto”? Não, não me parece. Mas esse podia estar distraído. Temos de nos preocupar não com quem faz as coisas (às vezes até com boas intenções) mas com quem tem a obrigação de as avaliar devidamente e só depois as aprovar.
Mas está bem assim, pois sempre é mais um factor para justificar o insucesso escolar: os professores faltam muito às aulas, e assim os meninos não aprendem. Não são os meninos que não sabem nem querem saber se dois e dois são quatro ou vinte e dois que têm a culpa, é o professor de Matemática, pois faltou dois dias depois do Carnaval e vai faltar outros três a seguir à Páscoa…
Lá vamos, cantando e rindo…
Nota: para quem, depois de ler isto, acha que este professor está a desculpar as suas faltas e as dos outros, recomendo que volte a ler o texto com atenção, principalmente esta parte: Os professores fazem bem? Não, não fazem. Mas que muitos têm boas razões para fazer mal, têm, e têm a minha solidariedade. Não é fácil morar quase em Espanha e trabalhar no meio do Atlântico. Acima de tudo são humanos, e tentam ser bons profissionais. Na sua maioria, mesmo faltando cinco ou seis dias por ano, são-no. Digam as inspecções o que disserem.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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